Trump critica Brasil, que pode virar alvo de ação comercial

Fábio Pupo, Marsílea Gombata e Marta Watanabe – Valor Econômico:

O presidente americano, Donald Trump, criticou o tratamento do Brasil às empresas americanas, sugerindo que pode haver algum tipo de iniciativa comercial dos Estados Unidos contra o país. A fala foi feita quando Trump detalhava o Acordo EUA-México-Canadá (USMCA), que substituirá o Acordo de Livre Comércio da América do Norte (Nafta) e pode ter impactos para as exportações brasileiras.

Questionado sobre relações comerciais dos EUA com a Índia, Trump criticou o país asiático por cobrar tarifas que considera altas contra produtos americanos e também mirou contra o Brasil.

“O Brasil é outro caso. Eles cobram de nós o que querem. Se você perguntar a algumas empresas, dizem que o Brasil está entre os mais duros do mundo, talvez o mais duro. E nós não os chamamos para discutir por que estão tratando nossas empresas injustamente, tratando nosso país injustamente”, disse, na mesma entrevista em que afirmou que a ameaça tarifária funciona (leia ao lado). O presidente americano já havia criticado o protecionismo brasileiro antes.

Ontem o secretário de Comércio Exterior do Ministério da Indústria, Comércio Exterior e Serviços (Mdic), Abrão Árabe Neto, afirmou que o governo brasileiro vai buscar entender em detalhes as manifestações feitas por Trump. Apesar de admitir que há aspectos a serem aperfeiçoados, Neto disse que os dados acumulados dos últimos dez anos mostram que a balança comercial é favorável aos EUA.

“Precisamos entender mais em detalhes qual o contexto e o teor das preocupações externadas pelos EUA. Temos relação comercial muito positiva com eles. É nosso segundo principal parceiro comercial, temos comércio com perfil muito complementar e estratégico de trocas comerciais”, disse.

Segundo ele, as exportações brasileiras aos EUA crescem 6,2% no acumulado de 2018, e as importações crescem 13,3%.

Nos últimos dez anos, lembra, os EUA tiveram superávit com o Brasil de US$ 90 bilhões no comércio de bens, e de US$ 250 bilhões no de bens e serviços. Hoje há superávit de US$ 45 milhões para o Brasil no acumulado do ano.

Para o embaixador José Alfredo Graça Lima, ex-negociador do Brasil na Organização Mundial do Comércio (OMC) e conselheiro do Centro Brasileiro de Relações Internacionais (CEBRI), a crítica de Trump sugere que o Brasil pode ser o próximo alvo dos EUA.

“Depois de os EUA fazerem acordo com a Coreia do Sul, México e Canadá e terem entendimento com a União Europeia, a impressão que fica é que Brasil passa a ser a bola da vez”, diz Graça Lima.

Segundo ele, o fato de o Brasil ter passado em 2017 a ser superavitário com EUA faz com que o país seja “candidato” a alvo de Trump.

As declarações de Trump estão em confluência com o protecionismo americano no comércio, diz Rafael Cagnin, economista do Instituto de Estudos para o Desenvolvimento Industrial (Iedi).

“A China foi o primeiro alvo, mas ninguém será poupado disso. Essa é uma tendência que vai ganhando corpo na medida em que não há pressões contra isso dentro dos EUA”, diz Cagnin. “Trata-se de um comportamento sistemático do novo presidente e que varia conforme as especificidades e o tamanho do comércio de cada país.”

O embaixador do Brasil em Washington, Sergio Amaral, não quis comentar o declaração de Trump. Depois da crítica de Trump, a embaixada encaminhará para o governo americano estudo sobre barreiras protecionistas dos EUA a produtos brasileiros, como açúcar, algodão, etanol e siderúgicos.

A embaixada ainda analisa a dimensão do impacto do novo acordo trilateral ao Brasil.

Neto disse que o Mdic também avalia o novo acordo, que pode ter consequências para o Brasil, em particular no setor automotivo. “Impacto pode existir em alguns setores. O automotivo é um setor que precisa ser analisado com atenção”, disse.

Para José Augusto de Castro, presidente da Associação de Comércio Exterior do Brasil (AEB), o novo acordo deve trazer impactos limitados aos exportadores brasileiros. O que pode acontecer, diz, é exportações de autopeça deixarem de ser compradas do Brasil pois a produção de automóveis mexicana para o mercado americano precisa obedecer a regras mais restritas de conteúdo local.

Para ele, o que pode ser afetado são negociações para um novo acordo entre Brasil e México, no qual as condições de comercialização devem ser rediscutidas.

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