Sem opção imediata, México luta para manter Nafta vivo

Marsílea Gombata – Valor Econômico:

Em meio à transição para um inédito governo de esquerda, na qual o presidente eleito Andrés Manuel López Obrador sótoma posse em 1º de dezembro, o México tem a difícil missão de tentar convencer um governo dos EUA, de visão comercial de “soma zero” (onde só uma parte ganha), a continuar no Acordo de Livre Comércio da América do Norte (Nafta).

Desde que Donald Trump surpreendeu os parceiros ao ameaçar retirar os EUA do Nafta, o México vem buscando outros mercados para suas manufaturas. Porém, não é fácil substituir o vizinho, maior economia do mundo e com quem faz negócio antes mesmo de o Nafta existir. “É difícil superar isso, mas podemos começar a olhar para outras economias, como o Brasil”, diz Beatriz Leycegui, da consultoria SAI e ex-subsecretária de Comércio Exterior.

O próprio López Obrador, antes implacável crítico do Nafta, agora quer renegociar o acordo o quanto antes. Logo após sua vitória, disse que queria uma relação de respeito mútuo com Trump, lembra o ex-vice-chanceler Andrés Rozental. “Mas isso é praticamente impossível. Sabemos que Trump não respeita nem mesmo seus aliados mais próximos, o que dirá do México e dos mexicanos”, diz.

Na sexta-feira, o presidente eleito se reuniu pela primeira vez com o secretário de Estado americano, Mike Pompeo, e o secretário do Tesouro, Steven Mnuchin, na Cidade México, para tratar de temas como imigração e comércio.

Economistas e especialistas em comércio ouvidos pelo Valor afirmam que atualizar as bases do acordo trilateral é a opção preferencial para o México. A segunda seria acordo bilateral com os EUA, como tem proposto Trump. A terceira, incrementar o comércio com mercados como Japão, China, Brasil e União Europeia (UE), na expectativa de que possam substituir os EUA no longo prazo.

“O México deve insistir no acordo trilateral, junto ao Canadá, com quem tem posições comuns em quase 90% dos temas contenciosos”, afirma Leycegui.

Buscar renegociação de um acordo já existente é mais vantajoso para o México do que partir para um acordo bilateral do zero, afirma Ernesto Revilla, economista-chefe do banco Citi para a América Latina. “Com o acordo que já existe, o México consegue aproveitar as vantagens da região, as cadeias de produção integradas nos três países, o que teria um impacto muito maior do que um acordo bilateral. É por isso que o México continua à mesa negociando.”

Para Fernando Murillo, da Oxford Economics, a prioridade para o México é continuar a exportar para os EUA sem barreiras comerciais e que os EUA continuem investindo no México. Segundo ele, não importa se o acordo será bilateral com os EUA ou envolvendo também o Canadá.

Os EUA são a principal fonte de investimento estrangeiro direito (IED) no México e o principal destino para as exportações mexicanas.

O México é um dos países mais abertos do mundo: mantém dez acordos de livre comércio com 45 países e é parte da TPP-1, a Parceria Transpacífico sem os EUA. O país fica atrás somente do Chile, que possui 26 acordos com 64 países.

A busca para se abrir ainda mais para o mundo ganhou força no último ano, diz Rozental. “Desde que o presidente dos EUA começou com as ameaças de impor tarifas e barreiras, há um esforço de buscar fontes alternativas para exportações e importações, ainda que seja impossível substituir 100% do comércio feito com EUA e Canadá”, diz ao citar o aumento de compras de grãos do Brasil e da Argentina.

Dentre os temas que estão travando a renegociação do Nafta estão mudanças na regra de conteúdo de origem – na qual os EUA querem aumentar de 62,5% para 75%, e o México ofereceu 70% -, e a polêmica cláusula sunset, sob a qual o acordo teria de ser renegociado a cada cinco anos.

Outro tema que vem permeando as discussões é o salarial. Os EUA propuseram que os automóveis deveriam ter componentes fabricados por trabalhadores que ganhem US$ 16 por hora. Trabalhadores em montadoras no México recebem US$ 6 por hora trabalhada, e funcionários de empresas de autopeças recebem US$ 3.

Para Carlos Heredia, do Centro de Pesquisa e Ensino Econômico (Cide), a proposta dos EUA obriga o México rever sua política salarial. “Os salários serão uma dor de cabeça para o México.”

López Obrador disse que manterá a equipe negociadora atual, mas incluirá Jesús Seade, que participou de negociações para adesão ao Acordo Geral sobre Tarifas e Comércio (Gatt), em 1986.

Trump disse que vai esperar a eleição legislativa de novembro para decidir sobre o Nafta. A autorização dada pelo Congresso para o presidente negociar tratados expirou em 30 de junho. Para retomar as negociações, Trump tem de pedir nova Trade Promotion Authority, conhecida por “fast track”.

Mas tudo dependerá da escalada entre EUA e China, diz Rafael Fernández, diretor do Centro para Estudos EUA-México da Universidade da Califórnia, em San Diego. “Quanto maior a guerra comercial com a China, maiores as chances do novo Nafta”, diz. “Dificilmente os EUA entrarão em outra guerra com dois parceiros comerciais.”

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