Recado europeu é cortina de fumaça para esconder fracasso

Daniel Rittner – Valor Econômico:

Ernesto Araújo e Aloysio Nunes, futuro e atual ministros das Relações Exteriores, andam batendo cabeça em temas como migração e aquecimento global. Mas há um ponto de convergência entre o “novo” e o “velho” Itamaraty: os recados públicos da alemã Angela Merkel e do francês Emmanuel Macron sobre as negociações comerciais União Europeia- Mercosul são uma espécie de cortina de fumaça para esconder a incapacidade de Bruxelas em destravar o impasse nas tratativas.

Nas últimas rodadas de negociação, ficou nítida a falta de margem de manobra dos técnicos da Comissão Europeia para avançar em temas-chave nas discussões. O bloco sul-americano fez novas concessões importantes: abertura mais rápida para automóveis, reconhecimento de indicações geográficas, liberdade para companhias de navegação transportarem cargas marítimas do Brasil para o Uruguai ou para a Argentina. Do lado europeu, nada. Não houve sequer um esclarecimento se o açúcar exportado pelo Mercosul dentro da cota proposta pela UE pagará ou não tarifa.

É verdade que, até 2015 ou 2016, a postura protecionista do Brasil de Dilma Rousseff e da Argentina de Cristina Kirchner dificultava progressos significativos. Mas isso já começou a mudar no curto segundo mandato de Dilma e acentuou-se com a chegada quase simultânea de Michel Temer e de Mauricio Macri ao poder. Uruguai e Paraguai, convenhamos, jamais foram problema.

Em conversas com os funcionários brasileiros que se encarregam da negociação, as equipes em Bruxelas têm dito que falta uma carta branca de capitais como Paris, Dublin e Varsóvia para ir mais fundo nas concessões – principalmente na área agrícola. Merkel nunca esteve contra o acordo. Mas há queixas de que a Alemanha também não exerce toda a sua influência na UE para forçar avanços. Espanha e Portugal – com Itália e Suécia logo atrás – sempre tentaram dar mais impulso ao tratado birregional de livre comércio.

Isso não significa que a alemã ou o francês estejam totalmente errados. Macron já havia feito a mesma advertência – a França vetará novos acordos comerciais com quem sair do Acordo de Paris – aos EUA. Mas a leitura consensual, no Itamaraty de hoje e na equipe de transição, é que as duas principais lideranças europeias já vão preparando o terreno para colocar a culpa do fracasso no acordo UE-Mercosul em quem de fato não a tem.

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