Gaba, o ácido que foi parar na Justiça

Rodrigo Carro – Valor Econômico:

Uma disputa de US$ 345 milhões na Justiça mexicana entre a Coca-Cola e um empresa local se estendeu ao Brasil, onde trabalham atualmente três executivos envolvidos no caso. No centro do embate está a propriedade de uma bebida funcional que promete melhorar funções cerebrais, aumentando a concentração.

O empresário mexicano José Antonio del Valle, à frente da companhia Yaso, acusa a multinacional de ter se apropriado de uma ideia que seria originalmente sua: uma bebida não alcoólica baseada no ácido gama aminobutírico. Conhecido pela sigla Gaba, o neurotransmissor tem função relaxante no cérebro humano.

A Coca-Cola, por sua vez, alega que desde 2006 vinha desenvolvendo no Japão produtos contendo o Gaba como ingrediente. Em maio deste ano, lançou no mercado japonês a Fanta Gaba, produto que foi comercializado até agosto. A empresa argumenta que desde o início sua intenção foi oferecer uma versão sazonal da Fanta. Já Del Valle associa a saída de cena da Fanta Gaba ao fato de seus advogados terem notificado a Coca-Cola.

No mês passado, o empresário entrou com uma ação judicial contra a Coca-Cola no México acusando-a de fraude corporativa e roubo de propriedade intelectual. No desdobramento mais recente do processo, a Procuradoria Geral de Justiça da Cidade do México intimou quatro executivos da Coca-Cola para depor nesta semana.

Três deles – Selman Careaga, Marcelo Gil e Luis Galguera – foram transferidos para o Brasil entre junho e julho deste ano, como parte de uma série de mudanças nas lideranças da Coca-Cola na América Latina. Careaga ocupa atualmente o cargo de vice-presidente de marketing no país; Gill é vice-presidente de operações; e Galguera, vice-presidente de técnica e logística. O quarto executivo convocado a depor, o subdiretor de marketing David Andrade, continua baseado no México.

No mercado mexicano as vendas de bebidas funcionais e as fortificadas – aquelas que incluem ingredientes benéficos à saúde, como suco de frutas de alto valor nutricional, por exemplo – cresceram 56% entre 2012 e 2017, alcançando o patamar de US$ 2,66 bilhões no ano passado, segundo a empresa de pesquisa Euromonitor International. E até 2022, a projeção é de que as vendas aumentem mais 31,2%. Para o mesmo período (2017-22), a estimativa é de que o mercado mexicano de bebidas tenha expansão de 17,43%.

Analisado separadamente, o segmento de bebidas anunciadas pelos fabricantes como benéficas para a memória e a saúde do cérebro ainda é minúsculo. Em 2017, as vendas globais somaram apenas US$ 33,8 milhões, de acordo com a Euromonitor. Isso não impede gigantes mundiais como a Coca-Cola de se aventurar em categorias de produtos inovadores por meio de investimentos e parcerias com empresas em estágio inicial.

Antes de se enfrentarem na Justiça, Del Valle e a Coca-Cola chegaram a assinar em dezembro de 2017 um memorando de entendimento (MOU, na sigla em inglês). “O acordo por escrito entre as partes estipulava que a Coca-Cola e suas subsidiárias não poderiam se envolver [dentro de um prazo determinado] no desenvolvimento de nenhum produto que tivesse o Gaba como ingrediente principal”, afirmou o empresário mexicano ao Valor.

Também estava vedado legalmente, segundo Del Valle, o lançamento de qualquer produto similar que competisse com a Go Gaba, bebida criada por ele e comercializada a partir de 2012. Foi vendida no México e na Holanda, mas já saiu dos dois mercados.

“Apenas cinco meses depois de assinado o acordo, a Coca-Cola lançou no Japão a Fanta Gaba”, diz o empresário. Em posicionamento enviado por e-mail, a Coca-Cola México informou que a companhia “vem desenvolvendo produtos que contêm Gaba como ingrediente desde 2006 no Japão.”

A empresa confirma a assinatura do MOU com Del Valle “para explorar a possível produção de um produto chamado Go Gaba especificamente no México”. Mas acrescenta que o memorando de entendimento foi “posteriormente rescindido unilateralmente” por Del Valle.

O empresário dono da marca Go Gaba sustenta que, antes de romper com a Coca-Cola, tentou “conversar da melhor forma possível” com a empresa-parceira. Del Valle alega que não teria havido interesse da parte da multinacional em dialogar. A Procuradoria Geral de Justiça da Cidade do México estima os prejuízos sofridos pela empresário em US$ 345 milhões. “Como esta é agora uma questão legal em curso, não podemos comentá-la”, informou a Coca-Cola México, em nota, por e- mail.

Na América Latina, as bebidas funcionais e fortificadas responderam no ano passado por 8,49% das vendas totais de bebidas, conforme indicam dados da Euromonitor. A projeção da empresa de pesquisa de mercado é de que esse percentual chegue a 9,52% em 2022.

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