Comércio do Brasil com Brics volta a crescer após período de ‘esfriamento’

Fabio Graner – Valor Econômico:

O presidente Michel Temer chega hoje a Joanesburgo para a reunião de chefes de Estado do Brics em um contexto no qual a corrente de comércio dentro do grupo dos cinco países está se intensificando. Dados do Ministério da Indústria e Comércio mostram que nos últimos 12 meses encerrados em junho, a soma de importações e exportações do Brasil com o bloco atingiu US$ 94,7 bilhões.

No fechamento de 2017, o fluxo de comércio do Brasil com seus parceiros de Brics rompeu uma sequência de três de quedas e atingiu US$ 89 bilhões, com alta de 27,9% sobre 2016, bem acima do ritmo verificado no dado que inclui todo o comércio internacional brasileiro, que teve expansão de 14,2%. No primeiro semestre de 2018, esse indicador tem alta de 10,5%, mais alinhando com o desempenho geral de compras e vendas com o exterior.

O pico da corrente de comércio do Brasil com o bloco foi atingido em 2013, com US$ 101 bilhões. No ano seguinte, já com a economia brasileira entrando em retração, houve uma pequena queda, movimento que iria se agravar nos dois anos seguintes com a forte recessão e queda nos preços de commodities.

O desempenho da corrente de comércio do Brasil com o Brics ajuda a entender a história do bloco, que terá sua décima reunião de cúpula a partir de hoje na África do Sul e terá como um de seus tópicos a defesa do multilateralismo em contraponto à guerra comercial. Nos cinco primeiros anos desde a primeira reunião de chefes de Estado, em 2009, o indicador mais que dobrou.

Essa também foi a fase mais intensa e de fortalecimento do bloco em termos políticos, com o Brasil sendo um dos seus mais ativos participantes. No período, o grupo, dentro de suas limitações e flagrantes diferenças internas, atuou de forma mais coesa na busca de maior protagonismo no G-20 e gerou dois fatos que marcaram um capítulo novo na arquitetura financeira internacional: a criação do banco do Brics – o New Development Bank (NDB) -, mecanismo para fomentar investimentos, sobretudo em infraestrutura, e o acordo contingente de reservas (CRA, na sigla em inglês), dispositivo de defesa cambial dos países.

De 2015 para cá a relação do Brasil com bloco passa por um esfriamento comercial e político. O país passou por uma das mais graves recessões de sua história e por um ciclo político de alta tensão, levando o governo Dilma Rousseff diminuir os esforços na área internacional.

Após o impeachment, Michel Temer caminhou para fortalecer a relação com Estados Unidos e Europa, colocando os emergentes em segundo plano e tentando se diferenciar das gestões anteriores.

Mas com a retomada da economia, ainda que muito incipiente, o comércio exterior brasileiro também volta a se expandir, inclusive com mais fôlego no Brics, graças principalmente à alta de produtos primários, em especial as commodities compradas pelos chineses.

Em termos políticos, contudo, o Brasil já não era desde 2015 um dos países com mais iniciativa dentro do bloco e assim continua. Nessa fase, percebe-se a China ganhando ainda mais proeminência. O gigante asiático, junto com a Rússia, tentou puxar o bloco para busca de posições comuns e contrapontos ao Ocidente Político, movimento que o Brasil foi buscando conter, com diplomacia de bastidores, para não se indispor com seus grandes parceiros de comércio e investimentos (área que o Brics ainda é incipiente, com exceção da China): EUA e Europa.

O professor de relações internacionais da Fundação Getúlio Vargas (FGV) Oliver Stuenkel avalia que no campo da retórica os Brics de fato perderam espaço no Brasil desde que o país entrou em crise ainda com Dilma Rousseff. Mas ele considera que o grupo segue sendo um “arranjo” importante para os seus membros e uma “inovação importante” na governança global.

O especialista destaca que nessa década de reuniões de cúpula houve ganhos efetivos, com a China já se tornando o maior parceiro comercial do Brasil e os membros do grupo buscando campos de cooperação em diversas áreas. Além disso, destaca Stuenkel, o grupo tem sido um elemento importante para “mitigar tensões” entre as três potências nucleares que o compõem: Rússia, China e Índia. O professor aponta também que o grupo tem ficado mais “asiacêntrico”, a partir de uma postura mais ativa da China.

O diretor do BricLab da Universidade Columbia, em Nova York, Marcos Troyjo, afirma que “não é pouca coisa” o que os Brics construíram nos últimos 10 anos, com o NDB e o CRA. Ele aponta que para o Brasil é bom ser reconhecido como peça importante nesse mecanismo, ainda que, nesse caso, os problemas de performance econômica do país fiquem mais evidenciados para o mundo.

Troyjo, contudo, pondera que, desde que o acrônimo inicialmente lançado pelo economista Jim O’Neill no início da década de 2000 (e que inspirou a posterior criação do grupo), em termos de dinamismo econômico as histórias de sucesso só se mantiveram na China e na Índia.

Para o analista, os Brics também são um instrumento vantajoso para facilitar as próprias relações bilaterais entre os membros do grupo e fomentar o comércio e outros interesses econômicos, de forma pragmática. Troyjo considera que, embora o tema da guerra comercial seja importante, nem a própria China, cujo comércio com os Estados Unidos é maior do que todos os países do Brics, teria interesse em acirrar demais os ânimos a partir do grupo. Além disso, ele aponta que, entre os Brics, ninguém tem muita autoridade moral para fazer cobranças a outros países sobre livre comércio.

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