Bristol acerta compra da Celgene em negócio de US$ 90 bilhões

Eric Platt, James Fontanella-Khan e Sarah Neville – Valor Econômico:

O laboratório farmacêutico americano Bristol-Myers Squibb acertou a compra da Celgene, em negócio que avalia a rival em cerca de US$ 90 bilhões, incluindo dívidas, numa das maiores fusões farmacêuticas da história.

A transação, que envolve dinheiro e ações, foi defendida pelos idealizadores porque vai ajudar a criar uma líder nos tratamentos contra o câncer e doenças imunológicas. O grupo combinado vai ter nove medicamentos com vendas anuais individuais acima da marca de US$ 1 bilhão, além de várias drogas em fase de desenvolvimento inicial com receita potencial estimada em US$ 15 bilhões.

Em troca de cada ação que possuírem, os acionistas da Celgene vão receber uma ação da Bristol-Myers Squibb, cotada a US$ 52,43 no fechamento da sessão de quarta-feira, e mais US$ 50 em dinheiro. Os investidores da Celgene também vão ganhar o direito a ações, que vai passar a ter validade no futuro caso as empresas superem determinados obstáculos reguladores. O valor do negócio também inclui a assunção da dívida líquida da Celgene, próxima a US$ 18 bilhões, de acordo com os documentos mais recentes enviados às autoridades reguladoras americanas do setor de valores mobiliários.

A fusão, se aprovada por órgãos reguladores, se somaria à onda de transações no setor nos últimos quatro anos

As duas empresas informaram que o negócio representa ágio de 51% em relação à cotação média de fechamento das ações da Celgene nos últimos 30 dias. Os conselhos de administração de ambas as companhias aprovaram o negócio, que esperam ver concluído no terceiro trimestre de 2019.

“Ao lado da Celgene, estamos criando uma líder inovadora na biofarmacêutica, com marcas importantes e uma linha ampla e profunda de produtos em desenvolvimento, que vai trazer um crescimento sustentável e oferecer novas opções para os pacientes em uma série de doenças graves”, disse o presidente do conselho de administração e executivo-chefe da Bristol- Myers Squibb, Giovanni Caforio.

A aliança vai incrementar a linha de produtos em desenvolvimento da Bristol-Myers Squibb em um momento no qual a empresa enfrenta a forte concorrência do Keytruda, da Merck, e de outros remédios, contra um de seus principais produtos de imunoterapia contra o câncer, o Opdivo. Para a Celgene, o anúncio representa o fim de sua trajetória como empresa independente, que em certo momento chegou a ser vista como uma das estrelas mais brilhantes no segmento de biotecnologia.

Uma série de tropeços acabou mudando a sorte da Celgene, o que nos últimos 12 meses resultou em uma queda das ações em torno de 37%, diante dos temores de que a empresa não tivesse novos remédios suficientes para tampar a lacuna a ser deixada quando perder a proteção de patente de seu principal tratamento contra o câncer, o Revlimid.

Analistas do setor disseram que a Celgene depara-se com uma das maiores lacunas em toda a indústria farmacêutica no que se refere a patentes próximas do vencimento. O Revlimid gerou receitas de US$ 8,2 bilhões no ano fiscal de 2017, cerca de 60% do total da Celgene.

Versões similares ao Revlimid poderiam chegar ao mercado já a partir de 2020, caso as fabricantes de genéricos tenham sucesso em seus esforços jurídicos para derrubar as patentes do remédio do laboratório americano.

A fusão, porém, também pode trazer riscos para a Bristol-Myers Squibb se forem descobertos novos problemas na carteira de produtos da Celgene. Além disso, as duas companhias têm culturas consideradas bastante diferentes, o que pode dificultar a integração das operações.

Nos últimos anos, a Celgene adquiriu empresas promissoras de biotecnologia, pagando ágios elevados, para tentar enfrentar a possível perda de receitas com o vencimento de suas patentes. Em 2018, comprou a Juno, uma empresa de terapias contra células de câncer, por US$ 9 bilhões, e a Impact Biomedicines, uma startup de drogas contra leucemia, por US$ 1,1 bilhão.

A empresa sofreu um golpe significativo quando a Agência de Remédios e Alimentos (FDA, na sigla em inglês) dos EUA se recusou a analisar o requerimento de lançamento de um remédio para tratar a esclerose múltipla chamado Ozanimod. As autoridades reguladoras concluíram que a Celgene não havia feito o suficiente para compreender como o medicamento era metabolizado.

A fusão, se aprovada pelos órgãos reguladores, se somaria à onda de transações na indústria de cuidados médicos vista nos últimos quatro anos. Em 2018, a Takeda, do Japão, acertou a aquisição da Shire, por US$ 77 bilhões. Há um mês, a GlaxoSmithKline anunciou a compra da Tesaro, uma companhia americana de biotecnologia com foco em remédios contra o câncer, por US$ 5,1 bilhões.

Morgan Stanley, Evercore e Dyal Co. foram assessores financeiros da Bristol-Myers Squibb. O comprador ainda recebeu consultoria jurídica da Kirkland & Ellis. O J.P.Morgan e o Citigroup trabalharam na assessoria financeira da Celgene, que teve como consultora jurídica a Wachtell Lipton.

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