BR Pharma diminui prejuízo até março

Adriana Mattos – Valor Econômico:

Em reestruturação desde o ano passado, a Brasil Pharma registrou certa melhora em alguns indicadores no primeiro trimestre, apesar da queda nas vendas, segundo relatório de resultados publicado ontem. A empresa ainda informou que o conselho de administração analisa neste mês propostas para tentar equilibrar sua estrutura de capital.

O grupo tem 1,2 mil farmácias e controla as redes Mais Econômica, Sant’ana, Rosário, Farmais, e Big Ben. Informações de mercado apontam para a necessidade de um aumento de capital por parte dos sócios de R$ 500 milhões. O banco BTG Pactual tem cerca de 37% do capital da BR Pharma.

Dados publicados ontem mostram que o prejuízo diminuiu, passando de R$ 185,2 milhões de janeiro a março de 2014, para uma perda de R$ 88,6 milhões no mesmo período de 2015. A margem bruta foi de 24,3%, versus 18,8% no mesmo intervalo de 2014 (26% no quarto trimestre).

A margem de lucro antes de juros, impostos, amortização e depreciação passou de um índice negativo de 15,4% para uma taxa negativa de 4,5%. As despesas com vendas, gerais e administrativas foram de R$ 250,6 milhões, versus R$ 292 milhões no ano anterior, passando de 31,4% da receita para 28,6%. Medidas têm sido tomadas nos últimos meses para reduzir gastos, estoques, ampliar a integração entre redes compradas e tentar aumentar eficiência.

A receita líquida sofreu retração de quase 4%, para R$ 819 milhões. As vendas “mesmas lojas” (em operação há mais de 12 meses) foi negativa em 6,3% ­ e também negativa em 7,7% considerando apenas as lojas maduras.

“Assim como no quarto trimestre, a comparação das vendas do trimestre foi prejudicada pelas atividades promocionais durante o primeiro trimestre de 2014, quando a companhia buscava ganhar eficiência com a redução do nível de estoques”, informa. “Esse efeito tende a diminuir já no segundo trimestre, à medida em que o efeito das promoções no ano passado é reduzido. Dentro desse contexto, a companhia vendeu menos […], porém com forte recuperação de margem, em continuidade à tendência já observada nos dois últimos trimestres”.

A posição de caixa ao fim de março era de R$ 12,3 milhões, reduzida em R$ 23,7 milhões quando comparada ao trimestre anterior. Como consequência, a dívida líquida foi de R$ 803,7 milhões, aumento de R$ 118,9 milhões em comparação ao trimestre anterior.

O grupo ainda informou a eleição de Raul Aguilera, fundador da Big Ben, para o conselho de administração. Aguilera era um dos últimos sócios de empresas compradas pela companhia ainda com função no dia a dia do negócio. Foi um crítico ao formato de operação de varejo do grupo e administrava a Big Ben, ainda não totalmente integrada à BR Pharma.

Recuperação na zona do euro é alento para o Brasil

O Globo:

A economia dos países que adotaram o euro como moeda única cresceu 0,4% no primeiro trimestre deste ano. E o dado mais curioso é que a “locomotiva” desse crescimento não foi a poderosa economia alemã, que manteve nos últimos anos um razoável ritmo de expansão, desempenho contrastante em relação a seus pares. Mas, neste início de 2015, foi a enfraquecida economia da França a que mais impulsionou a zona do euro, com um avanço de 0,6%. Mesmo a Itália surpreendeu positivamente (crescimento de 0,3%, o mesmo da Alemanha).

Trata-se de um crescimento modesto, porém animador em face do longo período de estagnação da economia europeia, em especial a da zona do euro, atingida por uma crise sem precedentes, desde o lançamento da moeda única. O elo mais frágil continua a ser a Grécia, que ainda necessita de muitos recursos para financiar o déficit público, embora tenha feito esforço significativo para reduzi-lo.

No caso da França, confirma-se uma trajetória de recuperação, com a expectativa de crescimento de 1% em 2015, e de 1,5% no ano que vem, índices bem abaixo dos que têm sido registrados pela Alemanha, por exemplo. Ou, fora da zona do euro, pelo Reino Unido (2,8% no ano passado).

Reformas estruturais não foram feitas na intensidade que eram necessárias, mas as mudanças que chegaram a ser postas em prática certamente contribuíram para essa brisa de recuperação.

Trata-se de um alento também para a economia brasileira, que passa por inevitável processo de ajuste. Ontem, em Londres, o Ministro da Fazenda, Joaquim Levy, voltou a afirmar que a retração no Brasil será passageira. Evidentemente que isso dependerá do cumprimento do ajuste. Ao que tudo indica, o total descontrole das finanças públicas foi estancado. Os mercados se mostram mais esperançosos, mesmo que não inteiramente convencidos de que a meta de superávit primário equivalente a 1,2% do Produto Interno Bruto (PIB) em 2015, e de 2% no ano que vem, será alcançada. O ajuste permanece na fase de provar que o ajuste é para valer.

A política monetária restritiva que tem sido conduzida pelo Banco Central está sendo igualmente importante para que as expectativas caminhem na direção desejada pelas autoridades. Na última pesquisa Focus, realizada pelo BC junto às principais instituições financeiras, as previsões de inflação recuaram para os próximos meses.

O ajuste é uma combinação de iniciativas dentro da política econômica, e os resultados surgirão quanto mais rápido forem implementadas. Com a modesta recuperação da economia na zona do euro, o cenário internacional passa a ajudar o Brasil nesse ajuste e na futura retomada do crescimento. Mas é preciso fazer o dever de casa.

Câmbio já amplia a substituição de importados

Arícia Martins – Valor Econômico:

A retomada das exportações não é o único efeito positivo que a taxa de câmbio ao redor de R$ 3 pode trazer à indústria no médio prazo. Mesmo sem crescimento da demanda devido ao cenário de recessão, empresas de diferentes segmentos de bens de consumo ouvidas pelo Valor preveem recuperar parte do mercado doméstico neste ano porque seus preços já ficaram ou devem ficar mais competitivos em relação a seus concorrentes importados. Varejistas do setor de construção e supermercados relataram ao Itaú Unibanco uma maior procura por fornecedores nacionais. Segundo o “Orange Book” de abril ­um relatório sobre o termômetro da atividade econômica a partir de comentários de clientes do banco ­um dos poucos fatores positivos no momento é o real mais depreciado.

“Um empresário de uma grande varejista do setor de construção me disse que, com esse câmbio, está impossível importar”, comenta o economista Caio Megale. Nos supermercados, a substituição está ocorrendo principalmente no setor de alimentos. Para Megale, depois da alta do dólar, a substituição de importações ocorre mais rapidamente do que a recuperação das exportações e, em sua avaliação, os dados da balança comercial já refletiram esse movimento. Em abril, as importações recuaram 23,7% em relação a igual mês de 2014 na média diária. Ele pondera, no entanto, que a retração ocorreu também devido ao esfriamento da demanda.

A Estrela ainda não se beneficiou da desvalorização do real, mas o presidente da empresa, Carlos Tilkian, afirma que isso trará maior competitividade a seus produtos em relação aos importados ao longo do ano, especialmente no último trimestre, período mais forte para a venda de brinquedos. Em um primeiro momento, Tilkian aponta que a alta do dólar levou a uma mudança na estratégia da Estrela, que também trabalha com itens vindos de fora. “Vamos reduzir a importação e ampliar a produção nacional. No ano passado, os produtos importados representaram em torno de 35% do nosso faturamento. Neste ano, não projetamos mais do que 20%”.

Com sede em Joinville (SC), a têxtil Döhler não vai reduzir a fatia de insumos importados usados na produção, de cerca de 25% do total, porque a indústria nacional não fabrica parte dos produtos químicos, fios sintéticos e corantes de que a empresa precisa. Por outro lado, o diretor comercial da fabricante de itens de cama, mesa e banho, Carlos Alexandre Döhler, conta que os “namoros” com alguns varejistas começaram, e a expectativa é que os negócios comecem a ser fechados a partir deste mês.

Devido à elevada volatilidade do câmbio no período recente, Döhler diz que o varejo ainda está inseguro sobre qual decisão tomar em relação às importações. Se o dólar ficar na casa dos R$ 3, porém, é certo que o setor deixará de importar. “A indústria brasileira deve sentir um aumento de procura dentro do mercado interno, mas isso deve ocorrer mais no segundo semestre”. Segundo ele, há uma certa demora nessa retomada porque, quando um varejista abre mão de um fornecedor, a reaproximação leva algum tempo.

A Trousseau, que vende grande parte de seus produtos em lojas próprias, deve sentir mais rapidamente o impacto do câmbio. O sócio­diretor da marca de roupas de cama voltada para o segmento de alta renda, Romeu Trussardi, calcula que, depois da escalada da divisa americana, um produto semelhante ao seu no exterior está hoje de 15% a 20% mais caro. “O nosso mercado interno tem potencial enorme porque o produto que vem de fora não concorre diretamente com o nosso, muito menos agora com a alta do dólar”, disse Trussardi.

Celina Dias, dona da marca de tecidos de decoração e papéis de parede que leva seu nome, afirma que a qualidade da indústria têxtil brasileira tem melhorado bastante, o que a motivou, juntamente com a alta do dólar, a elevar a fatia de produtos domésticos em seu portfólio. Essa decisão foi tomada em novembro, quando a taxa de câmbio média ainda estava abaixo dos R$ 2,60, e se mostrou acertada, comenta Celina. “As fábricas estão mais competitivas. Há um esforço no desenho, no acabamento e no preço. A indústria está caprichando”, relata a empresária, que hoje tem cerca de 60% de itens nacionais em suas lojas.

No setor moveleiro, Murillo Schattan, diretor da Ornare, conta que os concorrentes que trazem armários e cozinhas prontos de fora estão tendo aumentos de preços “consideráveis”, o que deve reduzir ainda mais a fatia de importados, já relativamente pequena, no mercado interno. “Para nós, que produzimos aqui, a concorrência com linhas importadas melhorou porque nosso preço não subiu”, afirma. A Ornare importa alguns componentes indisponíveis no Brasil, como alguns tipos de tinta e de folhas de madeira, mas, de acordo com Schattan, a empresa conseguiu absorver o impacto do reajuste destes insumos.

A Breton Actual, que não importa nenhum componente de seus móveis, ainda não possui números, mas notou um aumento da procura após a desvalorização do real, segundo a diretora de marketing Giselle Rivkind. “Temos clientes que compram lá fora e com a alta do dólar ficou mais complicado”, diz Giselle, que espera alta de 10% do faturamento em 2015. Para ela, a movimentação do câmbio deve ajudar a empresa a alcançar esse resultado.

Ainda neste segmento, Guido Otte, presidente da Butzke, também prevê que seus concorrentes importados perderão participação, embora avalie que o real precisa se depreciar mais. Otte observa que, no momento, há uma grande retração do mercado, porque o consumidor está “economizando de todos os lados possíveis”, mas, de qualquer forma, os móveis importados devem sofrer mais com essa situação e os fabricantes nacionais devem suprir o espaço deixado por eles.

A Mondial, de eletroportáteis, fabrica no país cerca de 60% de sua linha de produtos, composição que não vai mudar após a alta do dólar, diz Giovanni Cardoso, presidente da companhia. “A maioria dos itens que importamos não tem escala e nem custos para se produzir no Brasil”, como as cafeteiras, por exemplo, diz Cardoso. Por outro lado, ele acredita que a empresa pode ficar mais competitiva em relação aos importados no segmento de liquidificadores, que são produzidos aqui. A Mondial já atende 40% desse mercado.

Nos calçados, o segmento que sofre concorrência mais significativa dos importados é o esportivo, diz Heitor Klein, presidente da Abicalçados (associação que reúne as indústrias do setor). Para Klein, o recuo de 23% do volume importado desse tipo de calçado no primeiro trimestre, ante igual período de 2014, reflete tanto o avanço dos preços quanto a demanda mais enfraquecida. Mesmo assim, Klein é pouco otimista sobre o movimento de substituição de importações. “Os efeitos positivos que poderíamos sentir no mercado doméstico são anulados por outros fatores, como o endividamento das famílias e a alta da inflação.”

Pesquisa revela como cocaína e anfetaminas agem no cérebro

Cesar Baima – O Globo:

Um dos neurotransmissores mais versáteis do cérebro, a dopamina é responsável pelo controle de diversos sistemas em nossa mente, entre eles mecanismos de recompensa, o que lhe valeu o apelido de “hormônio do prazer”. Assim, muitas drogas, lícitas ou ilícitas, agem de forma a aumentar a concentração de dopamina neste circuito neural específico, conhecido como via mesolímbica. Mas a maneira como substâncias como cocaína e anfetaminas fazem isso ainda é um mistério, que começa a ser desvendado graças ao esforço de pesquisadores do Instituto Vollum, da Universidade de Ciências e Saúde do Oregon, nos EUA. Eles estudaram por mais de 20 anos a química cerebral da dopamina e sua interação com drogas. A descoberta, publicada na revista “Nature”, abre caminho para o desenvolvimento de medicamentos e tratamentos de vícios.

Segundo os pesquisadores, a cocaína e seus derivados e as anfetaminas perturbam o funcionamento dos chamados transportadores de dopamina no cérebro. Essas moléculas atuam como “bombas” que removem a dopamina das sinapses, onde um neurônio se comunica com outro. Ao impedir que os transportadores “limpem” a dopamina destas áreas, as drogas fazem com que o sistema de recompensa fique “ligado” por mais tempo, proporcionando uma prolongada, e viciante, sensação de prazer.

— Esse estudo preenche uma lacuna que persistiu durante décadas: como exatamente essas drogas altamente viciantes afetam o funcionamento normal do cérebro — comenta Richard Goodman, diretor do Instituto Vollum. — A pesquisa dá à indústria farmacêutica informações específicas de alvos para tratamentos, abrindo a porta para abordagens terapêuticas que bloqueiem efeitos da cocaína e da anfetamina.

Para a psiquiatra Analice Gigliotti, vice­-coordenadora da Comissão de Dependência Química da Associação Brasileira de Psiquiatria, a descoberta pode de fato ajudar no tratamento do vício em cocaína ou anfetaminas.

— Quanto mais se sabe sobre a forma de ação de uma substância no cérebro, melhor podemos agir para impedir que isso aconteça — diz Analice. — Sabíamos que a cocaína e as anfetaminas são drogas altamente dopaminérgicas, tanto que seus dependentes mais graves têm um sofrimento maior, em função da forma como elas pervertem esse sistema. Geram o que chamamos de síndrome de deficiência de recompensa, que faz com que não consigam sentir prazer mesmo nas coisas mais básicas da vida. Com a descoberta, poderíamos encontrar formas de diminuir a “onda” provocada pelas drogas ou os danos que elas causam, reduzindo a “fissura”.

Opinião parecida tem Arthur Guerra de Andrade, psiquiatra e presidente do Centro de Informações sobre Saúde e Álcool:

— Há anos, pesquisadores procuram uma vacina contra o uso de drogas e, para isso, temos que saber onde e como elas agem, para neutralizá-­las. Temos que ocupar seu espaço de ação sem provocar efeitos psicoativos. Esse estudo pode dar base para a produção dessa vacina no futuro.

Reis Velloso: país não está pronto para nova revolução industrial

Luciane Carneiro – O Globo:

Começa hoje no Rio e vai até quinta-feira o XXVII Fórum Nacional, organizado pelo ex-ministro do Planejamento João Paulo dos Reis Velloso. Este ano, a ideia é discutir uma estratégia de desenvolvimento do Brasil considerando a nova revolução industrial, segundo Velloso, com o tema “A hora e vez do Brasil: (povo brasileiro) diante da nova revolução industrial, estratégia para o desenvolvimento do Brasil através do aproveitamento de grandes oportunidades (econômicas, sociais e culturais)”.

— Vivemos uma nova revolução industrial, a maior desde 1790, com três forças básicas: avanço tecnológico mais rápido que permitirá que tenhamos máquinas inteligentes, como robôs que tomem decisões, a digitalização sem fronteiras e as novas frentes de inovação, como por exemplo a nanoeletrônica. O Brasil não fala disso e está completamente despreparado — afirma o ex-ministro, que promove o Fórum Nacional desde 1988.

Indústria cultural na pauta

As discussões nos quatro dias de encontro vão além da nova revolução industrial: incluem como impulsionar o crescimento econômico e as tecnologias do século, passando pela melhoria da governança nos poderes Executivo, Legislativo e Judiciário e pela estratégia de desenvolvimento das indústrias culturais.

Está prevista a participação hoje do principal defensor do programa de ajuste fiscal do governo, o ministro da Fazenda, Joaquim Levy. Ele vai expor como o ajuste pode impulsionar o crescimento. Também está prevista a presença do titular da Pasta do Planejamento, Nelson Barbosa, que falará sobre o avanço na recuperação econômica.

Entre os participantes do fórum estão ainda o novo presidente do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), Jessé de Souza, o ministro da Cultura, Juca Ferreira, e o economista Raul Velloso.

Presidente da Inter.B Consultoria, o economista Claudio Frischtak apresentará o trabalho “O ajuste microeconômico: por uma nova política industrial e de inovação no Brasil”, em parceria com Katharina Davies. O objetivo é propor uma nova agenda no país, diante da avaliação de que vivemos “um progressivo isolamento”, com uma postura protecionista, com poucos acordos comerciais.

Frischtak defende políticas para expandir investimentos e reduzir o custo do trabalho. Ele diz que, para garantir crescimento depois de anos de estagnação, é preciso promover o ajuste fiscal e o realinhamento de preços, mas também definir uma agenda de reformas.

A melhoria da governança nos três poderes da República será o tema de um painel na quarta-feira, com a ministra Cármen Lúcia, do Supremo Tribunal Federal, do ex-ministro da Fazenda Marcílio Marques Moreira, e do presidente da SR Rating, Paulo Rabello de Castro. Um segundo painel discutirá o tema: “Favela é Cidade: Fazer Acontecer” e apresentará os resultados do projeto “Favela é Cidade”, formado em 2009 no âmbito do Fórum Nacional.

Com aumento da internacionalização, exportação deve avançar

Valor Econômico:

Com o reforço da internacionalização, um grupo de companhias também estima avanço das exportações nas receitas totais. Na WEG, a expectativa é que em até três anos, a fatia da exportação de bens produzidos no exterior deve crescer dez pontos percentuais para 25% do faturamento global da empresa. Luis Gustavo Iensen, diretor superintendente internacional da fabricante de máquinas, diz que a desvalorização do real frente ao dólar torna a produção em bases internacionais mais atraente, embora sublinhe que a estratégia esteja inserida nos planos de médio e longo prazos da empresa.

Iensen conta que, em 2014, a exportação, incluindo a produção externa, representou cerca de metade das receitas da empresa. Dentro dos 50%, 35% corresponderam à exportação de produção brasileira e os outros 15%, de bens fabricados no exterior. A perspectiva, diz Iensen, é de que a produção e exportação das unidades fora do país também cresçam em ritmo mais acentuado do que a produção e exportação das fábricas brasileiras.

Assim, dentro de dois ou três anos, calcula Iensen, a fatia da exportação de bens produzidos no exterior deve crescer para 25% do faturamento global WEG. Até 2020, a ideia é que a exportação total atinja 60% do faturamento. O avanço da fatia de exportação, diz o executivo, é gradativo porque a produção e venda ao mercado interno também devem se expandir, embora em ritmo menor.

Na fabricante de carrocerias Marcopolo a recuperação da exportação no resultado total da empresa já se iniciou. No início de 2000 as vendas externas respondiam por 66% do faturamento da empresa. O percentual veio se equilibrando ao longo dos anos até se inverter em 2013, quando as vendas externas corresponderam a apenas 31,5% do faturamento da empresa ­ um piso histórico.

A retomada começou no ano passado (momento em que as vendas para fora ficaram com 34% da receita) e deve se acentuar neste ano, na esteira da valorização do dólar e do desaquecimento do mercado interno. “Estamos colocando mais força nas exportações para inverter o ciclo e voltar a exportar mais. Esse cenário de dólar um pouco mais forte é bastante positivo e, mantendo-­se essa situação, vamos conseguir incrementar as exportações do Brasil”, diz Ricardo Portolan, gerente de operações comerciais do mercado externo da Marcopolo.

Segundo Portolan, o cenário de dólar valorizado tem ajudado a retomar algo perdido nos últimos anos: o envio de componentes produzidos pelas fábricas aqui no Brasil para as plantas externas da empresa. “Já aumentamos componentes feitos no Brasil para essas fabricas”, diz o gerente.

O diretor-­presidente da Romi, Luiz Cassiano Rosolen, diz que, de forma semelhante ao ano passado, o resultado do setor externo deve contribuir de forma positiva para a receita consolidada da empresa. A receita de exportação da produção da companhia no Brasil, estima ele, deve crescer de 10% a 15% em dólares. “Na conversão em moeda nacional o resultado deve crescer mais ainda”, diz. A expectativa de desempenho contrasta com a das vendas no mercado interno, que até agora não apontaram para uma recuperação ainda este ano. As vendas ao exterior estão sendo puxadas por EUA, Inglaterra e América Latina, com exceção da Argentina.

Com um centro de distribuição na Flórida, a Döhler começa a registrar alta na exportação para os americanos em razão da vantagem dada pelo câmbio, diz Carlos Alexandre Döhler, diretor comercial da fabricante de produtos de cama, mesa e banho. Segundo ele, a demanda por exportação não perde fôlego para os países sul­americanos, inclusive Argentina. “O consumidor desiste de comprar automóveis, mas continua comprando produtos de menor valor, que pesam menos no orçamento.”

O diretor diz que a empresa deve manter a exportação em cerca de 9% a 11% do faturamento em 2015. Segundo Döhler, as compras dos americanos devem garantir que a exportação cresça em ritmo favorável, da mesma que a produção para o mercado interno, no qual deve ampliar faturamento porque espera tomar o lugar dos produtos importados, por conta da desvalorização do real.

Para o diretor da Sobeet, Luis Afonso Lima, a depreciação do real permite que as empresas voltem a olhar as exportações como uma estratégia de longo prazo e não como uma forma apenas de tentar ganhar com operações de tesouraria. “Elas também estão pensando em investir lá fora para passar a exportar mais e estar mais integradas com seus clientes no exterior”.

Empresas ampliam investimentos em operações externas

Flavia Lima e Marta Watanabe – Valor Econômico:

A combinação entre desaceleração da economia local e expectativa de que o dólar se mantenha forte por um prazo mais longo abre espaço para que um grupo de empresas de setores diversos aposte em uma produção cada vez maior a partir de fábricas estrategicamente localizadas no exterior ou de braços comerciais para melhorar a distribuição.

A ideia é garantir maior acesso a mercados com potencial de crescimento e diversificar riscos, seja por meio de ampliação de produção de fábricas já existentes, aquisições de empresas ou parcerias com empresas locais. Para os executivos de companhias como Marcopolo, Tupy, WEG, Romi, Randon e Dohler, o Brasil segue como parte importante do faturamento, mas o apelo externo ganha força.

Dados do Banco Central corroboram a tese ao apontar que os investimentos produtivos de empresas brasileiras fora do país cresceram 28,3% no primeiro trimestre de 2015 em relação a igual período do ano passado, de US$ 6,4 bilhões para US$ 8,2 bilhões, revertendo, segundo Luis Afonso Lima, economista­chefe da Mapfre Investimentos, um processo de repatriação de recursos de filiais para suas matrizes brasileiras ocorrido com frequência entre 2011 para 2013.

“As empresas enxergavam mais oportunidades aqui do que lá fora e agora isso se inverteu”, diz Lima, que é também diretor da Sociedade Brasileira de Estudos de Empresas Transnacionais e da Globalização Econômica (Sobeet), ao ressaltar que, no período, 98% dos recursos foram enviados para o exterior sob a forma de investimento conhecida como participação no capital (mais estável).

Na Marcopolo, fabricante de carrocerias de ônibus, a expectativa é de um melhor desempenho das unidades do exterior em 2015, com destaque para as unidades da Austrália e do México, país no qual a Marcopolo começou a produzir em 2014 um novo modelo de ônibus rodoviário. Na Austrália, diz Ricardo Portolan, gerente de operações comerciais do mercado externo da Marcopolo, a aposta é em maior eficiência operacional. “A expectativa também é que nossos concorrentes asiáticos fiquem um pouco mais caros, já que lá o dólar não andou tanto. E aí diminuímos a diferença que tínhamos em termos de preço e conseguimos entrar nesses nichos”, diz Portolan.

Para o diretor financeiro da Tupy, Leonardo Gadelha, a estratégia de expandir as atividades para o exterior se justifica não só pela expectativa de crescimento da receita, mas também pela redução do risco de depender de apenas um mercado. Segundo Gadelha, o enfraquecimento dos números da indústria automobilística no Brasil ­ o carro­chefe da Tupy é a fabricação de motores ­ também tem contribuído para o avanço. Desde 2012, quando a empresa adquiriu ativos no México, a participação do mercado externo na receita subiu de 63% para 72% da receita total.

Atualmente, a Tupy não vê necessidade de expansão das duas plantas mexicanas para atender a demanda adicional dos próximos anos, mas admite estar de olho nas oportunidades. “Claro que o momento que passamos requer cautela extra. Mas temos olhado ativos no exterior e isso pode ser uma avenida de
crescimento para a companhia”, diz Gadelha.

Com plantas fabris no México e na China, a Weg também olha ativos no exterior com atenção, diz Luis Gustavo Iensen, diretor superintendente internacional da companhia. Para ele, a perspectiva neste momento é de que a produção para o mercado externo cresça mais rapidamente nas fábricas fora do país do que nas domésticas.

Já em 2015, conta Iensen, a capacidade de produção da empresa deve se expandir de 30% a 40% em relação a 2014 tanto na China quanto no México. As plantas da China devem atender prioritariamente ao mercado local, com exportação de excedentes para o sudeste asiático. Já a produção mexicana mira os Estados Unidos. A expansão de capacidade inclui um processo de verticalização, pelo qual componentes hoje comprados localmente passarão a ser produzidos pela própria companhia nas unidades da China e do México. “A ideia com isso é garantir flexibilidade de produção, competitividade e controle de qualidade”.

O mercado brasileiro, diz Iensen, ainda está no foco, mas o avanço de receitas de exportação da empresa este ano tem sido puxado pelo ganho de fatia de mercado nos EUA e na China. A desvalorização do peso mexicano, diz ele, tem dado à produção da unidade local maior competitividade nas vendas aos americanos, o que possibilitou conquista de mercado.

O renmimbi chinês vai em sentido oposto, com tendência de maior valorização frente ao dólar, mas isso não traz grande impacto porque a produção chinesa é voltada prioritariamente para o mercado local, diz Iensen. “Não há como vender na China se não produzirmos lá.” Além disso, complementa, os atrativos na China são os baixos custos de mão de obra e de insumos em um mercado que promete crescer e se sofisticar.

Por conta disso, a unidade chinesa também deve ficar responsável pela fabricação de uma linha de motores com exportação destinada aos americanos. Atualmente, diz Iensen, esses motores são fabricados no Brasil e na China, mas até o fim do ano a linha de produção desse motor específico será exclusivamente chinesa. A ideia é buscar os locais de melhor competitividade, ampliando mercados e diversificando produtos. No mercado doméstico, diz ele, uma das grandes apostas é a área de energia eólica, no desenvolvimento de tecnologias com potencial para ser exportadas no futuro.

Também com unidade na China, o grupo Randon, fabricante de implementos rodoviários e de componentes automotivos, vê na internacionalização de produção uma estratégia importante para gerar resultados em um momento em que o mercado interno promete ficar mais difícil.

No caso do grupo, diz David Randon, presidente da companhia, a internacionalização de produção está concentrada em peças e componentes. A produção fora do país desses produtos é via Fras­le, empresa do grupo que fabrica componentes para freios e tem plantas no Brasil, na China e no Alabama, EUA. “Esses produtos seguem padrão e regulação mais globalizados”, diz. Com isso, a produção em um determinando setor pode atender à demanda de empresas de vários países.

A companhia mantém ainda a unidade de fabricação de reboques e semirreboques em território argentino. David Randon reconhece que a economia do país vizinho também em desaceleração esfriou a demanda local, mas pondera que o investimento se mantém importante não só por conta do intercâmbio já realizado com a unidade,

mas também porque a fábrica argentina serve de plataforma de exportação para países como Chile, Uruguai e até para o continente africano. A companhia tem também estudado ampliar joint ventures com empresas locais para ganhar mercado.

A WEG tem estratégia semelhante. Depois de anunciar, em abril, a aquisição de uma fábrica de transformadores de alta tensão e disjuntores na África do Sul, a WEG tem planos de novos negócios ainda este ano e estão no radar empreendimentos em geração e transmissão de energia, motores, automação industrial e tintas e vernizes, em regiões como os EUA, Europa e mercados emergentes. Em 2013 a WEG já havia adquirido um negócio de fabricação transformadores e mini subestações no mesmo país e em dezembro de 2014 a empresa também anunciou a aquisição de uma fabricante de motores elétricos na Alemanha.

Algumas indústrias não chegaram a investir em produção no exterior, mas em braços comerciais que atendam determinados nichos de mercado. É o caso da Döhler, do setor têxtil, que instalou em 2010 um centro de distribuição com a ideia de atingir o pequeno e médio varejista. Carlos Alexandre Döhler, diretor comercial da companhia, explica que as vendas a grandes varejistas desembarcam diretamente do Brasil, mas os menores volumes, que são inviáveis se exportados isoladamente, são atendidos pelo braço comercial instalado na Flórida.

Döhler conta que o centro de distribuição foi mantido no período de real mais valorizado, mas agora há expansão de vendas com a melhora de competitividade dada pelo câmbio. As vendas ao mercado americano devem crescer acima da média das exportações da empresa, enquanto o mercado sul­americano, que responde por mais da metade dos embarques da empresa, mantém a mesma demanda de volume do ano passado.

O radar das indústrias se estende ao velho continente. Na Romi, a expectativa é que o desempenho da BW, subsidiária da companhia na Alemanha, compense o resultado menos favorável do mercado doméstico. Com o norte da Europa e os países asiáticos como principais destinos, a unidade alemã trabalha com máquinas com ciclo de produção de 12 a 15 meses e opera praticamente em plena capacidade. Segundo Cassiano Rosolen, presidente da Romi, a BW deve ter este ano faturamento em euros próximo ao do ano passado. Na conversão em reais a contribuição deve ser maior no consolidado, já que a expectativa é de que o câmbio de 2015 seja de real mais desvalorizado frente ao euro do que o do ano passado.

O panorama da empresa alemã por enquanto é melhor que o da fábrica brasileira. A entrada de pedidos de máquinas ferramenta e injetoras de plástico caiu 55% em volume no primeiro trimestre deste ano, contra iguais meses do ano passado. “É uma redução expressiva. A avaliação é de que a produção para o mercado doméstico irá andar de lado este ano.” Rosolen explica que há estudos de expansão para a produção da unidade alemã, mas a companhia espera um aumento de demanda mais sustentável para tirar a ideia do papel. De qualquer forma, principalmente em razão do mercado doméstico, a BW deve continuar fazendo diferença no desempenho global da empresa. Em 2014, diz o presidente da companhia, a unidade alemã respondeu por praticamente metade do Ebitda, o lucro antes de juros, impostos e amortização.

Lima, da Sobeet, lembra que uma fatia cada vez maior do fluxo global de investimentos vem dos países em desenvolvimento. A participação destes países como origem de fluxos subiu de 11,9% em 2000 para 32,2% em 2013, último dado disponível. “O Brasil ficou fora disso nos últimos anos porque o mercado interno estava muito pujante. Agora a gente entra nessa onda novamente”.

Mercosul é ‘corpo sem espírito’ e foco deve ser EUA, diz Mangabeira Unger

Eliane Oliveira – O Globo:

Convocado de volta ao governo pela presidente Dilma Rousseff com a tarefa de pensar em projetos de médio e longo prazos para o Brasil, o ministro de Assuntos Estratégicos, Mangabeira Unger, defende a revisão completa da política externa brasileira, a começar pelo Mercosul. Ele sugere a suspensão temporária da Tarifa Externa Comum (TEC), usada no comércio com países que não fazem parte do bloco, para que o Brasil possa fazer acordos bilaterais com outros parceiros internacionais, como a União Europeia. Esta é a primeira vez que alguém do primeiro escalão do governo brasileiro defende publicamente essa medida.

— Estamos inibidos de buscar acordos cada vez mais importantes para nós, por causa dos problemas da economia argentina. Sem um projeto, estratégia ou modelo comum, o Mercosul é um corpo sem espírito. Nenhuma união poderosa pode se basear meramente em interesses comerciais — disse.

Ele explicou que a ideia é o Mercosul, durante um período transitório, deixar de ser uma união aduaneira. Nesse tempo, “que duraria o necessário”, seria construída uma série de aproximações e acordos bilaterais, inclusive na América do Sul.

Transferência de tecnologia chinesa

Mangabeira disse que, junto com a América do Sul, “que é a nossa casa”, os Estados Unidos são a grande prioridade da política externa. Há, a seu ver, três grandes bases potenciais em uma parceria com os americanos: afinidade profunda, complementariedade de economias e o constante fortalecimento da China.

— É nossa república irmã. O Brasil e os EUA são dois países muito parecidos. Tamanhos idênticos, fundados na mesma base de povoamento europeu, escravidão africana e extremamente desiguais. E a religião faz com que a maioria das pessoas acredite que tudo é possível. Podemos fazer acordos sobre vários aspectos, como o clima, o desenvolvimento do potencial energético sustentável e no compartilhamento de tecnologias avançadas — afirmou o ministro.

Ele sugere uma parceria com os EUA que defenda os interesses comuns ante a ascensão econômica e militar da China e lembra que existe grande expectativa de uma onda de investimentos daquele país, especialmente em infraestrutura. Uma saída seria passar a exigir compensações, como a transferência de tecnologia chinesa ao Brasil, durante a participação de empreiteiras do país asiático em projetos de infraestrutura e agropecuária.

— O perfil de nosso comércio exterior com a China é o retrato de uma involução qualitativa na nossa estrutura de produção. É natural que a China queira associar os investimentos a favor de suas empreiteiras. Nosso interesse é no compartilhamento de tecnologias avançadas, como a multiplicação dos sistemas complexos de transporte modal — afirmou ele.

As declarações contrariam toda a política externa adotada desde o governo do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Ele alfinetou o Itamaraty, ao dizer que “não se pode confundir política externa com ação diplomática” e que “chanceleres diplomatas de carreira são uma anomalia no mundo”. Desde Celso Lafer, no governo Fernando Henrique (também ex-ministro das Relações Exteriores no governo Itamar Franco), não foi nomeado um único chanceler que não fosse da carreira diplomática.

— Isso é uma anomalia. É uma prática que começou no regime militar. Não se pode confundir política externa com ação diplomática. Proponho que a nação tome de volta a política exterior. Temos uma ação diplomática de alta qualidade, mas não adianta ser um exímio executor sem uma orientação — disse.

Cuba abre mais espaço para estrangeiro e atrai empresários locais

Tainara Machado e Catherine Vieira – Valor Econômico:

Se alguém desavisado chegasse na manhã de ontem ao auditório da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp) poderia se surpreender ao descobrir que o discurso bastante pragmático e com tintas que soaram quase liberais para alguns estava sendo proferido por um ministro cubano. Foi preciso abrir espaço para abrigar a quantidade de empresários brasileiros ­ mais de 200 ­ interessados em ouvir Rodrigo Malmierca, titular do ministério do comércio exterior do governo de Raúl Castro, falar sobre as oportunidades de investimento no país, que desde o fim de 2013 modificou regras e vem abrindo mais espaço para os estrangeiros aportarem recursos em Cuba.

Para Malmierca, atrair capital estrangeiro é hoje essencial para que o país continue a investir e consiga manter as taxas de crescimento superiores a 4% ao ano observadas na última década ­ e para tanto, espera que o Investimento Estrangeiro Direto (IED) fique entre US$ 2 bilhões e US$ 2,5 bilhões nos próximos anos.

Com novas diretrizes para o posicionamento de Cuba na economia global, que chamou de “atualização” da política econômica do país, Malmierca apresentou carteira de 246 projetos em 11 setores que, juntos, somam investimentos de US$ 8,7 bilhões. A ideia, segundo o ministro, é apostar em áreas nas quais Cuba já tem vantagens comparativas, como é o caso do turismo e da biotecnologia, além de desenvolver novos segmentos, como energias renováveis.

A abertura da economia cubana para maior participação do capital estrangeiro, apoiada na Lei 118, aprovada no ano passado, prevê incentivos tributários para as empresas instaladas no país, com condições ainda mais favoráveis para as companhias que se instalarem na Zona Especial de Desenvolvimento de Mariel, na qual está o porto construído pela Odebrecht com apoio financeiro do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES). Além de dar garantias para o investidor, a lei também abriu espaço para constituição de companhias de capital totalmente estrangeiros, sem sócios cubanos, disse o ministro.

“Cuba está em um momento de mudanças, hoje temos relações comerciais com mais de 75 países, além de um aumento de cerca de três vezes do intercâmbio comercial”, disse. Entre as áreas que devem receber capital estrangeiro nos próximos anos, afirmou Malmierca, estão o turismo e a área de energia renovável. Com a abertura da ilha para visitantes americanos, caso a proibição de viagens deixe de vigorar, o fluxo de turistas, hoje em 3 milhões por ano, pode até dobrar, estimou. Não à toa, essa é a área com mais projetos na carteira apresentada pelo ministro, com 56 empreendimentos. Cuba também pretende reduzir a dependência de energia fóssil e aumentar o uso de energia a partir de biomassa, no qual o Brasil tem experiência.

Malmierca destacou ainda a recuperação da economia cubana depois da crise dos anos 90, com aumento da abertura comercial, redução do déficit público, inflação em níveis mais aceitáveis e crescimento econômico médio de 4,9% do Produto Interno Bruto nos últimos dez anos. “Nos últimos anos, tivemos certa desaceleração, mas esperamos crescer mais de 4% em 2015”, disse.

O problema da ilha, afirmou o ministro, é que a poupança interna é insuficiente para financiar os investimentos necessários para que Cuba continue a crescer algo como 4% ao ano. Por isso, diz, o objetivo é atrair investimento externo direto da ordem de US$ 2 bilhões a 2,5 bilhões ao ano. Segundo o ministro, a promoção do investimento estrangeiro é uma das ações de maior destaque no processo de atualização do modelo econômico cubano.

Outra questão, diz, é a dualidade monetária ainda existente em Cuba. Atualmente, Cuba tem o peso cubano (CUP), com o qual a maior parte da população recebe salários, e o peso conversível, que é equiparado ao dólar. A ideia, diz, é eliminar o peso conversível, mas como a mudança deve exigir desvalorização do peso cubano, é preciso levar em conta os efeitos para a população e empresários.

“Queremos chegar a um modelo socialista que seja sustentável e próspero, e o desafio é fazer isso de forma eficiente”, afirmou o ministro. Mais pragmático, disse que a revolução cubana tem blocos importantes voltados para o bem­estar social, como saúde e educação gratuitas, mas que oferecer esses serviços requer recursos. “Temos que buscar dinheiro. Onde? Nas empresas, sejam elas privadas, sejam estatais”, disse, ressaltando que o país pretende manter as conquistas sociais.

Em relação ao “tema da moda”, brincou o ministro, ao se referir as relações comerciais com os Estados Unidos, a expectativa é de continuidade dos avanços, após o entendimento em dezembro do ano passado, especialmente diante do interesse das empresas americanas em Cuba. “Esperamos que o presidente Barack Obama use sua prerrogativa para avançar na normalização das relações econômicas”. Malmierca, porém, afirmou que o embargo, ainda vigora.

Com slides em português e se esforçando para falar “portunhol”, Malmierca enfatizou a parceria entre Cuba e o Brasil. “Temos desenvolvido boas relações econômicas e políticas há anos e temos potencial muito maior para desenvolver essa parceria na área de investimentos externos”, disse o ministro, ressaltando também a cooperação na área de serviços de saúde, com envio de médicos do país para o programa Mais Médicos do governo federal.

Malmierca, porém, descartou incentivos específicos para atrair empresas instaladas no Brasil ou na América Latina. “Nossa lei é clara e prevê igualdade de oportunidades, sem benefícios para a América Latina ou dificuldades para empresários americanos”. Os projetos, afirmou, serão avaliados de acordo com as suas vantagens.

Enquanto a plateia de empresários fotografava as telas com os detalhes das regras e do regime de impostos cubanos, Paulo Skaf, presidente da Fiesp, disse que pretende montar uma missão de empresários brasileiros para viajar à Cuba e prospectar novos negócios e que “pessoalmente” está estudando oportunidades na ilha, sem especificar em quais áreas. Para Alexandre Carpenter, co­presidente da Brascuba Cigarrillos, parceria da Souza Cruz com uma companhia cubana, “essa é a hora para investir em Cuba, porque daqui a pouco os americanos vão chegar”. Segundo ele, o crescimento da operação cubana tem sido da ordem de dois dígitos. “É um país que está se expandindo, com aumento do poder aquisitivo”, disse.

Indústria encolhe há 13 meses, período que já supera queda vista no pós-crise de 2008

Arícia Martins e Robson Sales – Valor Econômico:

A trajetória recessiva da indústria se aprofundou em março, quando a produção recuou 0,8% em relação a fevereiro, feitos os ajustes sazonais, depois de já ter diminuído 1,3% na comparação anterior dado que foi revisado de uma queda de 0,9%. O novo resultado negativo divulgado ontem pelo IBGE na Pesquisa Industrial Mensal Produção Física (PIMPF) veio pior do que o esperado pelos analistas que previam recuo de 0,3%, de acordo com as projeções colhidas pelo Valor Data e poderia ser ainda pior não fosse o setor extrativo mineral, que
avançou 0,5% no mês.

O desempenho ruim da produção se mostra também persistente. Na comparação com o mesmo mês do ano passado, a indústria encolheu 3,5%, mesmo contando com três dias úteis a mais do que março de 2013. Esse foi o 13º recuo seguido sob essa ótica, um novo recorde na série iniciada em janeiro de 2002 a comparação com igual mês do ano anterior só começou portanto em 2003. Até então, a maior sequência de quedas eram os 12 meses entre novembro de 2008 e outubro de 2009.

Com o número de março, a atividade industrial fechou o primeiro trimestre de 2015 com retração de 2,4% ante os últimos três meses de 2014, sétima contração seguida nessa comparação, comportamento que reforçou previsões também negativas para o Produto Interno Bruto (PIB) neste início de ano (Ver análise em Setor fica pior que o esperado no 1º tri).

Em março, a retração frente a fevereiro foi espalhada em todas as categorias econômicas pesquisadas pelo IBGE e em 14 dos 24 ramos de atividade analisados, com destaque para veículos automotores, reboques e carrocerias (4,2%) e máquinas e equipamentos (3,8%).

“O mercado interno contribui pouco para retirar a indústria dessa situação, e o resultado está bem disseminado em termos de queda” disse André Macedo, gerente da coordenação de indústria do IBGE.

Para Rodrigo Myiamoto, do Itaú Unibanco, além do elevado nível de estoques acumulado principalmente pelos segmentos de bens de capital e bens duráveis, em linha com o enfraquecimento da demanda, alguns fatores “extraordinários” prejudicaram ainda mais a produção neste começo de ano. “Houve uma queda da confiança maior que a observada no período recente, puxada por setores específicos, como a construção civil. Os ajustes fiscais também provocaram uma demanda menor no curto prazo, o que afeta a produção.”

O economista Caio Megale, também do Itaú, acrescenta que a volatilidade da taxa de câmbio foi outro ponto que influenciou negativamente a confiança do empresariado. Junto às incertezas domésticas e aos efeitos restritivos do ajuste no curto prazo, a combinação para a indústria foi muito ruim neste primeiro trimestre, diz Megale.

Um sinal adicional de fraqueza do setor vem da constatação de que, em março, a produção se situou 11,2% abaixo do pico alcançado em junho de 2013, ficando no mesmo nível de janeiro de 2007, nos cálculos de Alberto Ramos, chefe de pesquisa para América Latina do Goldman Sachs. “Isso mostra, entre outras coisas, que a política recente de desenvolvimento de campeões nacionais por meio de relaxamento do crédito, junto a benefícios fiscais a setores selecionados, regras de conteúdo nacional, acesso preferencial às compras do setor público e proteção comercial falhou”, argumentou.

Na avaliação de Ramos, esse modelo não funcionou porque a inflação elevada e os ganhos salariais acima do crescimento da produtividade pressionaram os custos industriais, ao mesmo tempo em que o período de real sobrevalorizado devido, em parte, a intervenções no mercado de câmbio minou a competitividade externa da indústria. Como restrições a uma possível melhora nos próximos meses, o economista menciona, entre outros fatores, o acúmulo de inventários, os baixos índices de confiança, aumentos de custos com energia e impostos e a demanda externa também desaquecida.

Os primeiros indicativos para o segundo trimestre estão em linha com este cenário. Segundo Bruno Rovai, economista para Brasil do Barclays, o resultado de março ainda não foi o piso da indústria, que deve ter continuado em queda no mês passado. Em relatório, Rovai afirma que os indicadores antecedentes conhecidos até agora apontam para um período de fraqueza prolongado da atividade industrial.

São eles o Índice de Confiança da Indústria (ICI) medido pela Fundação Getulio Vargas, que atingiu em abril o menor nível da série histórica, iniciada em outubro de 2005, e a trajetória decadente do Nível de Utilização da Capacidade Instalada (Nuci) do setor, também calculado pela FGV, que passou de 80,4% para 79,9% de março para abril mesmo patamar de julho de 2009.

Myiamoto, do Itaú, também avalia que a tendência para o segundo trimestre é de deterioração, após a esperada queda de 0,4% do PIB de janeiro a março. “Os estoques estão muitos altos e a confiança não está voltando.”