Vice-ministro argentino defende maior abertura no Mercosul

Francisco Góes – Valor Econômico: 

O Mercosul tem que perseguir maior abertura comercial, movimento que passa pela redução de tarifas na indústria. “O Mercosul é importante, mas tem que facilitar que nos integremos mais ao mundo”, disse ao Valor o vice-ministro da Fazenda da Argentina, Sebastián Galiani. Ele afirmou que a tarifa externa comum é alta e defendeu que o bloco precisa fazer mais acordos comerciais. Galiani e o ministro da Fazenda da Argentina, Nicolás Dujovne, participam hoje, no Rio, de evento na Fundação Getúlio Vargas (FGV) que discutirá Mercosul e comércio.

“A Argentina acredita que os acordos comerciais são bons e é preciso olhá-lhos em seu conjunto e não por áreas ou setores”, afirmou, referindo-se ao acordo Mercosul-União Europeia (UE), que está em fase adiantada de negociação. Professor licenciado da Universidade de Maryland (EUA), Galiani disse que acordos como o que está sendo negociado entre Mercosul e UE preveem prazos de abertura gradual para que os diferentes setores se adequem a uma maior competitividade externa. “Se não pensarmos dessa forma, protegemos algum setor, mas desprotegemos os demais.”

Na visão de Galiani, a Argentina, ou qualquer país de menor relevância no comércio internacional, precisa de “escala” para ser mais eficiente. “Os países pequenos precisam se integrar e comercializar com o mundo, vendendo aquilo no qual são eficientes e comprando produtos nos quais não têm eficiencia.” Para ele, a guerra comercial entre Estados Unidos e China, dois dos principais parceiros comerciais da Argentina, deve ter efeitos limitados sobre o país, mas advertiu: “O que preocupa é que se gere um clima em que não se siga avançando em um mundo mais integrado.”

Galiani falou ao Valor na sexta-feira, depois de ter feito uma apresentação sobre a perspectiva econômica da Argentina no Centro Brasileiro de Relações Internacionais (Cebri). Galiani mostrou-se otimista com a relação comercial entre Argentina e Brasil, apesar do forte superávit brasileiro no ano passado, da ordem de US$ 8 bilhões. Na visão dele, os resultados de balança comercial bilateral refletem ciclos econômicos de cada país. Ele salientou que 2017 foi um ano de recuperação mais forte na Argentina do que no Brasil.

“Nesse cenário, é lógico que o país que cresce mais importe mais. Se o Brasil crescer 3% este ano, esse processo pode se reverter. Não temos essa visão mercantilista do comércio. Temos que buscar uma integração maior ao mundo como Mercosul e não só olhar o comércio bilateral”, disse Galiani.

O déficit com a Argentina na relação com o Brasil foi resultado, em grande medida, das exportações brasileiras do setor automotivo. Embora exista regra estabelecida no Mercosul, segundo a qual o Brasil poderia exportar o equivalente a US$ 1,5 no setor para cada US$ 1 importado, houve montadoras que ultrapassaram esse limite. Galiani disse que essa relação precisa ser vista em perspectiva de longo prazo, e previu que o déficit no setor automotivo da Argentina com o Brasil deve ser revertido.

O que aconteceu, segundo ele, foi que a Argentina se especializou na produção e exportação de picapes para a América Latina e depois o país não investiu em novos modelos para exportação, o que já mudou. “O ano passado foi de investimento pelas montadoras, o que se traduziu em 2018 em exportações para o Brasil.”

Galiani traçou um quadro otimista. Disse que a economia argentina cresceu 2,9% em 2017, deve crescer algo como 3% em 2018 e para 2019 espera-se expansão acima de 4%. “É um processo que vai se acelerando e não teremos em 2019 a seca que nos afeta este ano, o que vai potencializar o crescimento”, previu.

O vice-ministro destacou ainda o crescimento do investimento -20% no quarto trimestre de 2017 em relação a igual período de 2016. Segundo ele, há maior confiança dos investidores na Argentina. Ele salientou a queda da inflação, cuja meta é de 15% para este ano, e a redução do déficit primário, para 3,2% do PIB em 2018.