Venezuela tenta pagar empresas com escambo

Kejal Vyas – Valor Econômico: 

Com as prateleiras dos hospitais vazias e o governo sem saber como pagar os US$ 5 bilhões atrasados às empresas farmacêuticas, a Venezuela, desprovida de dinheiro, ofereceu recentemente a alguns fornecedores externos remunerações alternativas: diamantes, ouro e coltan – rara combinação de columbita e tantalita usada na fabricação de telefones celulares e videogames.

A proposta deixou perplexos os representantes da indústria farmacêutica, cujas companhias não têm política de aceitação de pedras e metais preciosos como pagamento, segundo três pessoas familiarizadas com a reunião em dezembro, na qual o ministro da Saúde da Venezuela fez a oferta.

Embora não se saiba se alguma empresa a aceitou, a proposta chama a atenção para como o colapso econômico da Venezuela está obrigando o acuado governo do presidente Nicolás Maduro a improvisar para pagar bens de consumo. Uma grave escassez de dólares empurra o país em direção a uma sociedade de escambo.

O escambo também avança nas transações diárias de produtos básicos, em parte porque o governo está sem dinheiro para imprimir um volume suficiente de moeda para esse tipo de operação. Em hiperinflação, o país enfrenta forte desvalorização do bolívar.

“O dinheiro foi criado para que pudéssemos evitar a prática do escambo para a obtenção de produtos básicos”, disse o economista Omar Zambrano, em Caracas. “Mas fomos tão longe que agora estamos voltando no tempo.”

Não foi possível contatar o ministro da Saúde venezuelano, Luis López, que se autodefine como anti-imperialista radical.

O uso de produtos primários como pagamento não é incomum para grandes empresas mundiais dos setores de mineração e petróleo, mas é quase sem precedentes como forma de quitar dívidas com outros setores, como o farmacêutico, de acordo com o consultor econômico Orlando Ochoa.

Diante da pouca transparência da gestão financeira do país, não se sabe o quanto a Venezuela detém em termos de metais e pedras preciosas certificados.

Recentemente, assessores do presidente discutiram também a possibilidade de pagar fornecedores externos com uma moeda digital lastreada em petróleo que Caracas diz estar desenvolvendo.

Já a proposta do Ministério da Saúde às fornecedoras farmacêuticas “soa como blefe”, disse Ochoa. “É como se eles quisessem ostentar seus ativos para dar a ilusão de que ainda há a intenção de pagar, embora eles não possam pagar.”

A queda dos preços do petróleo e quase duas décadas de gasto público alto deixaram a economia da Venezuela em frangalhos. O Produto Interno Bruto (PIB) encolheu 16,5% em 2016, segundo o governo, e há poucos sinais de melhora em 2017. O Fundo Monetário Internacional (FMI) estima que a inflação vai superar 2.000% em 2018. O governo deixou de pagar mais de US$ 700 milhões de sua dívida externa nos últimos meses

Tito López, diretor da Câmara da Indústria Farmacêutica da Venezuela, diz que, pelo fato de as empresas do setor não receberem pagamentos do governo há mais de um ano, 95% dos medicamentos que estavam disponíveis três anos atrás não estão mais. Antibióticos e remédios para doenças crônicas, como hipertensão e diabetes, são os mais difíceis de achar.

Um executivo do setor farmacêutica a par da proposta feita pelo ministro da Saúde na reunião de 12 de dezembro disse que aceitaria ouro por ser “melhor do que nada”, mas observou que não conseguiu que o governo se comprometesse com um pagamento integral.

Dois outros executivos que trabalham para multinacionais disseram que não podiam aceitar produtos primários sem a aprovação de autoridades reguladoras de seus países. “Acho que os venezuelanos não entendem os mecanismos e os problemas de compliance em questão”, disse um deles.

O governo Maduro está se agarrando à recente tradição de considerar o escambo como saída dos problemas econômicos da Venezuela. Dez anos atrás, o antecessor e mentor de Maduro, Hugo Chávez, conclamou seus compatriotas a evitar o dinheiro como modo de combater o capitalismo, que considerava perverso. “O escambo é uma experiência comunitária maravilhosa”, disse Chávez em discurso de 2008 transmitido pela TV.

Atualmente, muitos dos milhões de moradores de favelas do país dependem cada vez mais da troca de produtos, em vez de dinheiro, para sobreviver. Na favela Petare, em Caracas, moradores como o padeiro Norvis Bracho, de 25 anos, usam grupos de Facebook – alguns deles com mais de 100 mil membros – para oferecer açúcar e farinha de milho em troca de feijão ou pílulas para a pressão arterial.

“É assim que sobrevivemos”, disse Bracho, membro de 13 redes de Facebook e de WhatsApp nas quais se negocia de tudo, de pão a peças de computador.