Tirar fama ruim da cânabis é tarefa na Medical Marijuana

João Luiz Rosa – Valor Econômico: 

Como clérigos e bombeiros, profissionais da saúde estão entre as ocupações que costumam inspirar respeito em suas comunidades. Stuart Titus, PhD em fisioterapia, provou isso durante os 15 anos nos quais dirigiu clínicas de reabilitação nos Estados Unidos, mas viu essa popularidade se desgastar rapidamente ao mudar de ramo, em 2009. O motivo? Titus, que também é formado em economia, decidiu se juntar à Medical Marijuana, que, como o nome já diz, vende produtos baseados na cannabis sativa, a planta da qual vem a maconha.

“Eu cresci em uma vizinhança conservadora, em Long Island, a uma hora de Nova York, e a princípio os amigos e a família ficaram muito surpresos”, conta o executivo ao Valor. “Mas quando mostrei a eles estudos e pesquisas sobre os potenciais benefícios dos canabinóides, a atitude mudou”, diz Titus, sobre os compostos químicos da cânabis.

A Medical Marijuana é a primeira empresa de cânabis a negociar ações nos Estados Unidos e Titus embarcou no negócio para ajudá-la a atrair investidores, aproveitando sua experiência de mais de uma década como operador de títulos em Wall Street. Em março de 2015, seis anos depois de entrar na companhia, ele assumiu sua presidência. Desde então, tem se esforçado para repetir com outros públicos o bem-sucedido trabalho de convencimento feito com a família.

Investidores são um dos alvos prioritários. A Medical Marijuana, que tem sede em San Diego, na Califórnia, é uma holding sob a qual funcionam empresas como a HempMeds, de medicamentos; a Kannaway, de suplementos nutricionais e cosméticos; a Wellness, de serviços; e a Axim Biotechnologies, de pesquisa. Tudo voltado para a cânabis.

Essa diversidade coloca o grupo em uma posição privilegiada nesse mercado, que está em franca ascensão. A consultoria Ameri Research prevê que o mercado mundial de maconha legal, estimado em US$ 14,3 bilhões no ano passado, vá crescer a uma taxa média de 21,1% entre 2017 e 2024, para US$ 63,5 bilhões, incluindo produtos para fins recreativos e medicinais. Só o canabidiol ou CDB, canabinóide usado em tratamentos médicos, vai movimentar quase US$ 3 bilhões em 2021, segundo a Greenwave Advisors, outra consultoria.

Parece convidativo para os investidores, mas até agora bancos e fundos de pensão permanecem distantes das ações das empresas de cânabis. Como no caso de armas e bebidas, derivados da planta enfrentam restrições legais na maior parte dos países, o que afugenta esse tipo de investidor, apesar da liberação crescente do consumo em muitos lugares. Nos Estados Unidos, 29 Estados e a capital, Washington DC, permitem o uso medicinal da cânabis. Em oito Estados, além da capital, o uso recreativo também foi liberado.

A Medical Marijuana reúne cerca de 170 mil acionistas, hoje, mas suas ações são negociadas fora da bolsa, no chamado mercado de balcão, no qual uma operação é fechada diretamente entre as partes. O mesmo ocorre com a maioria das demais companhias de cânabis. De maneira geral, o balcão é um mercado menos transparente, com papéis que não recebem tanta exposição e têm baixo valor. Nas últimas 52 semanas, a ação da Medical Marijuana variou entre US$ 0,04 e US$ 0,27. Fechou a US$ 0,09, ontem, dando à empresa um valor de mercado de US$ 315 milhões.

Além do investidor, as empresas de marijuana têm de conquistar pelo menos mais dois públicos – os políticos, a quem cabe legislar sobre o assunto, e as agências de vigilância sanitária, responsáveis por controlar a entrada e o consumo dos produtos.

A Medical Marijuana abriu uma subsidiária da HempMeds no Brasil em 2014, assim que o governo federal autorizou a importação, sob prescrição médica, de substâncias à base de canabinóides. A HempMeds produz um óleo de cânhamo – em cápsula e solução oral – cujas propriedades ajudam no tratamento da epilepsia, além de produzir efeitos sobre doenças como Parkinson e Alzheimer. O cânhamo é uma variedade da cânabis.

“As autoridades brasileiras colocaram as necessidades humanas acima da política”, diz Titus, sobre as mudanças na abordagem sobre os canabinóides. Em janeiro de 2015, a Anvisa retirou o canabidiol da lista de substâncias proibidas e a colocou na de controladas. No mesmo ano, publicou uma norma com a lista de produtos aptos a entrar no país e facilitou a importação, permitindo que as remessas fossem enviadas diretamente para a casa do paciente, em vez de ser retiradas nos aeroportos. Em junho de 2017, a Anvisa registrou o primeiro medicamento à base de canabidiol, o Mevatyl, fabricado pela britânica GW Pharma e distribuído pela Beaufour Ipsen, de São Paulo.

Embora a plantação da cannabis sativa e a produção local de seus derivados continue proibida no Brasil, várias medidas têm facilitado a aplicação medicinal dos canabinóides. Os impostos de importação, por exemplo, caíram de 60% para zero, diz Titus. “Muitos médicos [brasileiros] estão confiantes em prescrever [o canabidiol], enquanto outros buscam informações sobre seus usos potenciais.”

Estimar o mercado potencial total da cânabis no Brasil não é uma tarefa fácil. Segundo estudo feito neste ano pela consultoria legislativa do Congresso Nacional, a pedido do deputado federal Jean Wyllys (Psol/RJ), a legalização da maconha movimentaria R$ 5,69 bilhões no país, mas esse valor só leva em conta o consumo para fins recreativos, sem incluir aplicações medicinais ou a compra de produtos como suplementos, roupas e cosméticos.

Os consultores partiram da estimativa de que 2,7 milhões de brasileiros fazem uso da droga. Se fosse adotado um limite mensal de consumo de até 40 gramas de maconha por usuário, a um valor médio de US$ 1,20 a grama – a referência é o Uruguai, que regulamentou o consumo -, o gasto individual chegaria a R$ 2.073,60 por ano, considerando uma taxa de câmbio de R$ 3,60 o dólar. O movimento total poderia atingir R$ 6,68 bilhões por ano tendo como base o que ocorreu no Estado americano do Colorado, onde o uso da maconha aumentou de 18,9% para 20,7% da população, depois que o consumo da droga foi liberado.

A Medical Marijuana não está no negócio de maconha recreativa e, por enquanto, só trouxe a HempMeds ao país. Mas Titus vê a possibilidade de trazer outras linhas. “Com o tempo, acho que isso vai acontecer”, diz. Por enquanto, o foco é obter o registro dos medicamentos da HempMeds, o que simplificaria a distribuição dos produtos. “Para nós, seria um marco histórico”, afirma o executivo.