Temer pede a presidente uruguaio que não feche as portas para acordo com UE

Fabio Murakawa – Valor Econômico:

As dificuldades para acertar as bases de um tratado de livre comércio com a União Europeia levaram os presidentes de Brasil e Uruguai a demonstrar abertamente suas diferenças sobre o tema durante a cúpula de chefes de Estado do Mercosul, ontem em Assunção.

Em discurso, o uruguaio Tabaré Vázquez, que assumiu a presidência pro tempore do bloco, mostrou-se descrente diante da intransigência europeia em certos temas. E foi rebatido em seguida pelo presidente Michel Temer, que de maneira pouco usual para um encontro desse tipo, citou nominalmente o colega ao dizer não se deve fechar as portas aos europeus.

“É lamentável e objetivamente certo que ainda não foi fechado acordo com a UE”, disse Vázquez. “No Mercosul, trabalhamos para que o resultado final dessa negociação seja o melhor possível. Mas, quando se fala em dançar, não se dança sozinho. E nem tudo depende do Mercosul.”

O presidente uruguaio fez alusão ao livro bíblico de Eclesiastes para afirmar que “tudo tem um tempo”. “Não estamos dispostos a perder tempo com negociações eternas”, afirmou. “Precisamos de capacidade técnica, mas acompanhada de vontade política real.”

As negociações com os europeus já se arrastam por cerca de duas décadas, com diversas idas e vindas. O mais recente esforço começou já durante a gestão Temer, e até o fim do ano passado o clima era de otimismo. Esperava-se que um acordo pudesse ser firmado até o fim deste semestre. Porém, isso dificilmente ocorrerá.

Durante o encontro de chanceleres, no domingo, o uruguaio Rodolfo Nin Novoa disse ao microfone o que diplomatas já vêm afirmando reservadamente: que a janela de oportunidade para um acordo está se fechando.

Em seu discurso, Temer rebateu os vizinhos, dizendo que “na atividade política e econômica nem tudo se resolve de um dia para o outro, de um ano para o outro”.

“Se me permite a ponderação, presidente Tabaré Vázquez, não devemos abandonar a ideia dessa aliança União Europeia- Mercosul”, afirmou. “Fechar essa porta agora significa impedir o caminho das negociações que nestes últimos tempos, com todos os naturais embaraços, têm tido relativo sucesso.”

Na semana passada, um negociador brasileiro disse ao Valor que, caso não um acordo não seja assinado até o fim de julho, o calendário eleitoral brasileiro e político da UE deve deixar as conversas “em banho-maria” até 2020.

Ontem, em Assunção, um auxiliar do presidente Temer afirmou acreditar que um “acordo político” ainda seja possível até o fim de julho. Ele crê, no entanto, que esse acordo com os europeus “não será um tão amplo quanto o que queríamos, mas será um equilibrado”.

“Acordo político”, explicou, foi um termo cunhado pela UE em negociações com o Japão, quando o bloco queria fazer algum anúncio, mas ainda não havia nada assinado. Na prática, isso não significa a entrada em vigor de nenhuma medida de liberalização comercial, mas uma sinalização de que haverá algum acordo efetivo no futuro.

A cúpula foi esvaziada pela ausência do presidente da Argentina, Mauricio Macri. Ele ficou em Buenos Aires ocupado com a crise que o levou a mexer em sua equipe econômica nos últimos dias.

No comunicado conjunto, divulgado ao final do encontro, os países do Mercosul destacaram os avanços obtidos nas negociações com os europeus, mas manifestaram “a necessidade de contar com um compromisso político de ambas as partes para alcançar um acordo de benefícios mútuos para o desenvolvimento e a prosperidade de seus povos”.

Em outro comunicado, o bloco exortou o governo venezuelano a coordenar com a comunidade internacional a abertura de canais para acesso de ajuda humanitária para o país. A Venezuela está suspensa do bloco desde o ano passado por violações à democracia.

Os presidentes do bloco pediram também que se estabeleça um sistema para o intercâmbio de informações epidemiológica com os países da região.

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