Sandoz aposta em biossimilar e parcerias para crescer no Brasil

Stella Fontes – Valor Econômico: 

Uma das grandes competidoras em medicamentos genéricos e similares, a Sandoz, do grupo Novartis, se prepara para avançar no mercado farmacêutico brasileiro. O plano é incrementar a oferta de biossimilares, produtos biológicos que prometem ampliar o acesso a tratamentos de doenças de maior complexidade, e firmar parcerias de licenciamento, tanto com multinacionais quanto com grandes laboratórios nacionais, garantindo o crescimento de seu portfólio.

Com vendas anuais estimadas em R$ 700 milhões a partir de dados da consultoria QuintilesIMS, a Sandoz Brasil tem uma carteira de produtos ainda muito concentrada no concorrido segmento de genéricos, vendidos no varejo e sem promoção médica. Foram necessários alguns anos de transformação para alavancar a rentabilidade da operação local. Agora, com a consolidação das margens em terreno positivo, o desafio é manter em expansão o mix de medicamentos. Isso se dará com a adição de produtos de maior valor agregado.

“Para melhorar o mix, vamos trazer mais biossimilares”, disse ao Valor o diretor-geral da Sandoz Brasil, André Brázay. A farmacêutica já vende no país um biossimilar, o hormônio de crescimento Omnitrope (somatropina). Outro produto dessa natureza já tem registro na Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), mas ainda não está disponível comercialmente. Mais duas moléculas serão submetidas ao aval do órgão regulador no curto prazo.

A previsão, conservadora segundo o executivo, é a de que os registros sejam concedidos até 2019. “Os anticorpos monoclonais são o futuro da companhia”, ressaltou. Hoje, a Sandoz tem forte presença no segmento de antibióticos – é da empresa a maior fábrica de antibióticos do mundo ocidental, instalada na Áustria -, com vendas relevantes ainda nas áreas cardiovascular, de sistema nervoso central (SNC) e tratamentos oncológicos e hormonais.

A farmacêutica também quer trazer ao país novos projetos de desenvolvimento e está em busca de parceiros, ao redor do mundo, com vistas ao licenciamento de produtos. Um acordo firmado fora do Brasil poderá resultar na chegada de novos medicamentos ao mercado doméstico. Da mesma forma, a parceria com um laboratório local resultaria na distribuição, pela Sandoz, de remédios de produção nacional em mercados da Europa e da Ásia. Já há conversas em curso, mas o projeto ainda está em fase inicial.

Com 25 anos de grupo Novartis, Brázay chegou ao comando da Sandoz Brasil em 2014, pouco depois de uma nova estratégia ter sido colocada em prática por seu antecessor. Naquele momento, conta o executivo, a grande questão da operação local eram as margens, “muito próximas do break even”, e não havia entendimento muito claro, sobretudo por parte da matriz, das especificidades do mercado brasileiro de medicamentos genéricos.

Com foco em escala, a nova estratégia trouxe os resultados que não estavam sendo obtidos via preço. A partir da aposta em moléculas com maior volume de vendas e presença no Farmácia Popular, programa do governo federal que oferece medicamentos de uso mais comum gratuitamente ou por seu valor de custo, a Sandoz Brasil conseguiu ocupar a capacidade ociosa na fábrica de Cambé (PR). “Mantivemos o tamanho da operação, mas ampliamos as vendas e o portfólio”, contou.

Tipicamente, uma multinacional de genéricos tem retorno sobre vendas entre 20% e 22% – e é nesse patamar que está a operação brasileira da Sandoz. Ainda assim, segundo Brázay, o excesso de competição nesse segmento e a concessão de benefícios fiscais por Estados que quiseram atrair investimentos de laboratórios geraram distorções de mercado.

Além disso, embora o nível de exigência da Anvisa seja bastante elevado, não há recursos suficientes para que a agência consiga supervisionar o cumprimento desses padrões. Essas características criaram um ambiente de competição desigual, avalia o executivo. Hoje, a matriz já compreende a complexidade do mercado local.

Quatro anos depois da implementação da nova estratégia, a Sandoz dobrou de tamanho no país e ampliou em 25% a produção local. Entre o fim do ano passado e o começo de 2017, investiu R$ 54 milhões em ampliação e modernização de linhas da fábrica paranaense, que também produz para exportação.

A farmacêutica também ajustou o foco no cliente e em melhorar o nível de serviço nas farmácias, o que reduziu a quantidade de reclamações e a devolução de produtos. Em logística, passou a operar com um centro de distribuição consolidado com a Novartis, cujas vendas no país somaram cerca de R$ 3 bilhões em 2016.