Roche sofre revês em novo coquetel contra câncer

David Crow – Valor Econômico: 

As esperanças da Roche de lançar um novo coquetel de remédios para proteger-­se contra o fim da patente de seu principal medicamento contra o câncer de mama sofreram um golpe depois de um amplo teste ter mostrado que a combinação é apenas um pouco melhor do que o tratamento antigo.

O laboratório farmacêutico suíço esperava defender-­se contra o lançamento de uma versão “biossimilar” rival de seu tratamento contra o câncer de mama Herceptin, cujas vendas anuais chegam a US$ 7 bilhões, por meio da combinação da droga com um de seus novos remédios, o Perjeta.

O teste clínico realizado mostrou que os dois remédios combinados eram melhores do que se usados isoladamente para impedir a volta do câncer depois de cirurgias, mas que a vantagem era muito pequena.

Um grande acionista disse que havia “muito nervosismo” entre os investidores quanto ao resultado dos testes

Depois de três anos, 94,1% dos pacientes que usaram o coquetel ficaram livres da doença em comparação aos 93,2% que não tomaram o coquetel, de acordo com os dados do experimento, apresentados na maior conferência mundial sobre câncer realizado ontem.

A Roche já havia obtido aprovação das autoridades de supervisão para o uso da combinação em alguns doentes de câncer, mas agora, depois de ver os dados, os oncologistas poderiam decidir ficar apenas com o remédio antigo para a maioria dos pacientes.

“Os testes nos dizem que a combinação é melhor do que a administração única, mas que a diferença é pequena”, disse o doutor Daniel Hayes, presidente da Sociedade de Oncologia Clínica dos Estados Unidos (ASCO, na sigla em inglês), que organizou a conferência, em Chicago.

Os tratamentos com o Herceptin e o Perjeta custam, cada um, em torno a US$ 70 mil por ano. Os remédios combinados geraram vendas de 8,6 bilhões de francos suíços (US$ 8,6 bilhões) para a Roche em 2016.

As patentes que protegiam o Herceptin venceram e o laboratório farmacêutico de remédios genéricos Mylan chegou à acordo com a Roche, em março, que lhe permitirá começar a vender um versão “biossimilar” mais barata do medicamento em grandes mercados.

Analistas acreditam que a Roche pretendia combater a versão rival alardeando os benefícios de sua nova terapia com o coquetel, que é vendido em uma embalagem conjunta.

Hayes disse que os oncologistas podem optar por evitar a nova combinação não apenas por motivos de custo, mas também porque o Perjeta provoca casos de diarreia severa em alguns pacientes.

Nos testes clínicos, cerca de 10% dos pacientes tiveram diarreia de grau 3, o que significa que as pessoas podem ter dificuldade para controlar os movimentos intestinais e podem precisar de tratamento em clínicas ou hospitais.

Hayes ressaltou, contudo, que alguns pacientes podem ser bons candidatos para o uso do coquetel e que mais estudos precisam ser feitos para descobrir quais seriam os que mais podem se beneficiar.

“Espero que sejamos ponderados sobre como usamos o Perjeta ­ sem causar diarreia desnecessariamente e sem quebrar as contas nos bancos.”

Antes da divulgação dos dados, nesta segunda-­feira, um grande acionista do laboratório farmacêutico disse que havia “muito nervosismo” entre os investidores quanto ao resultado dos testes.

“A grande questão é se os dados são suficientes para convencer os clínicos de que o padrão de tratamento para o câncer de seio HER2 positivo agora é a combinação de Herceptin e Perjeta”, disseram analistas do HSBC.