Roche projeta alta de lucro após reforma tributária de Trump

Assis Moreira – Valor Econômico: 

Depois de anunciar lucro líquido de US$ 8,83 bilhões de francos suíços em 2017, o grupo farmacêutico Roche projetou ontem aumento de ganhos em 2018 com a reforma tributária feita por Donald Trump nos Estados Unidos, que reduziu impostos.

Em entrevista ao Valor, o presidente mundial de Roche, Severin Schwan, disse que não se pode subestimar o impacto da reforma aprovada em Washington para atrair mais investimentos.

Indagado se sugeria ao Brasil e à América Latina se inspirar na reforma de Trump, o executivo respondeu: “Não há a menor dúvida de que qualquer país do mundo precisa assegurar que permanece competitivo em relação a outros países. E com a reforma, os EUA se tornaram bem mais atrativos.”

A Roche estima que o imposto nos EUA deverá cair de 26,6% em 2017 para algo perto de 20% neste ano, oferecendo uma vantagem real à multinacional, que fez vendas de US$ 23,5 bilhões no mercado americano no ano passado.

Perguntado sobre a dimensão do risco de desvio de investimentos da América Latina para os EUA, Schwan considerou que no caso específico da Roche não via “mudança fundamental”. Observou que o grupo já tem investimentos grandes nos EUA, de US$ 4 bilhões e 25 mil empregados. E presença muito forte na América Latina.

Ele disse que a companhia tem uma abordagem holística, que não se limita a taxação e inclui fatores como existência de talentos e se a inovação é recompensada.

Schwan declarou-se “muito encorajado” sobre o Brasil, com o aumento de investimentos públicos em certos tratamentos inovadores no ano passado e que elevou o volume de negócios do laboratório no país.

Globalmente, o lucro líquido da Roche caiu 9% em 2017, na comparação anual, alcançando 8,83 bilhões de francos suíços. Já o volume de vendas aumentou 5%, para 53,3 bilhões de francos suíços. A contração do resultado líquido se explica por depreciações de aquisições e ativos intangíveis.

As duas divisões, Farmacêutica e de Diagnósticos, tiveram crescimento idêntico de 5%, fazendo volume de negócios respectivamente de 41,2 bilhões e de 12,1 bilhões de francos suíços.

A Roche é um dos grupos farmacêuticos globais mais expostos à onde de biossimilares, que coloca pressão sobre sua lucratividade. Para Schwan, 2018 é um ano de transição, com maior competição com esses produtos agora na Europa.

Cópias de três remédios contra o câncer – Herceptin, MabThera e Avastin, que geravam cada um vendas de US$ 7 bilhões por ano -, entraram no mercado.

A Roche acredita que é possível compensar essa perda com o lançamento de novas drogas, tanto contra câncer como nas áreas de hemofilia e esclerose múltipla. Vários tratamentos recentemente lançados ficaram perto do status de puxador de venda, ou seja, como capacidade para atingir mais de US$ 1 bilhão. O Esbriet (fibrose pulmonar) faturou 869 milhões de francos suíços. O Ocrevus, contra esclerose em placa, gerou quase o mesmo montante no seu primeiro ano de comercialização. O pipeline continua elevado para os próximos anos.