Pessimista sobre acordo com a UE, Mercosul volta os olhos para a China

Fabio Murakawa e Murillo Camarotto – Valor Econômico:

Chanceleres dos países do Mercosul já veem com pessimismo a possibilidade de fechar no curto prazo um tratado de livre comércio com a União Europeia. Embora o discurso do Itamaraty ainda seja o de que é possível firmar acordo até o fim do governo Temer, sinais emitidos durante a reunião de cúpula do bloco, que ocorre no Paraguai, são de que isso dificilmente ocorrerá. Representantes da Argentina e do Uruguai, que assume a presidência pro tempore do grupo, sugerem de que é hora de buscar alternativas, como a China.

“Não podemos nos permitir perder as esperanças, mas sinto que estamos perto de presenciar uma ruptura, como em 2004”, disse ontem o chanceler Rodolfo Nin Novoa. “O Mercosul está pronto, mas do outro do lado sentimos que não há a mesma correspondência.”

Novoa indicou que, diante de uma possível falta de acordo com a União Europeia, o Uruguai priorizaria em sua gestão tratativas para eliminar barreiras ao mercado chinês, sobretudo aos produtos agrícolas.

“Temos forte desvantagem de ingresso no mercado [chinês]”, disse Novoa a redes de TV. “Há países com tarifa de 0,5% a 1% para entrar nesse grande mercado, e o Mercosul tem ao redor de 14%. Temos que nos colocar em igualdade de condições para competir de uma forma mais justa.”

A Argentina, a mais entusiasta em relação a um acordo com a UE, também está pessimista. “Estamos certos que a janela de oportunidade começa a entortar”, disse o ministro das Relações Exteriores, Jorge Faurie.

O ministro das Relações Exteriores, Aloysio Nunes, disse sobre a UE “que é preciso tratar esse assunto com o pessimismo da razão e o otimismo da vontade”. Ele se mostrou, porém, mais otimista que os colegas sobre a possibilidade de acordo.

“Eu penso que nós estamos perto de ter um acordo”, disse Aloysio. “Faltam ainda algumas questões que precisam ser acordadas, questões relativamente complicadas, mas para as quais nós temos caminho para o entendimento.”

Ele apontou que há dificuldades em temas como propriedade intelectual e no setor marítimo. Mas afirmou que há avanços em outras áreas, como setor automobilístico. Para ele, “não é desarrazoado” imaginar a conclusão política do acordo “ainda neste semestre”.

Há tempos, diplomatas sul-americanos vêm afirmando que o Mercosul já fez grandes concessões na área agrícola. Eles mostram compreender que esse é um tema sensível demais para que os europeus aceitem uma grande liberalização de seu mercado. Entretanto, os negociadores não sentem que haja contrapartida da UE na questão de propriedade intelectual, especialmente nos setores de medicamentos e defensivos. “Compreendemos o impacto político para eles, agora é hora deles compreenderem o nosso”, disse um diplomata brasileiro.

De acordo com ele, os europeus querem estender os prazos de patentes de remédios e agrotóxicos por cerca de dez anos. Somente para um grupo de seis remédios fabricados na Europa, exemplificou, os gastos com as patentes consumiria cerca de R$ 8 bilhões anuais.

Ainda que sentissem disposição dos europeus para ceder, teriam que correr contra o relógio para anunciar até o mês que vem as bases do acordo comercial entre os dois blocos. A avaliação é a de que, por conta dos calendários brasileiro – com eleição este ano – e europeu, o acordo será jogado para 2020 se não for anunciado até julho.

Fora dos meios diplomáticos, especilistas também veem com pessimismo o atual estágio das negociações. Caso de Renato Galvão Flôres Junior, diretor do Núcleo de Prospecção e Inteligência Internacional da FGV, que há duas décadas acompanha as conversas entre europeus e sul-americanos. “Estamos em um estágio que não vai sair nada”, disse ele. “O acordo perdeu novamente momento e não vai sair.”

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