Oferta inicial de ações da Blau Farmacêutica fica para 2019

Stella Fontes e Talita Moreira – Valor Econômico:

A farmacêutica Blau adiou para o primeiro semestre de 2019 o plano de seguir em frente com uma oferta inicial de ações (IPO, na sigla em inglês) e levantar algo entre R$ 650 milhões e R$ 1 bilhão, apurou o Valor. A operação, que seria a primeira a chegar ao mercado em 2018, foi interrompida em fevereiro, antes do fechamento do livro de ofertas (“bookbuilding”), diante da indicação de que a faixa de preços pretendida não seria atingida.

Com receita líquida de R$ 618 milhões no ano passado, a Blau foi fundada pelo empresário Marcelo Hahn em 1987, mediante investimento de US$ 20 mil para a importação de preservativos, na época do boom da aids. A companhia ainda atua nesse mercado, com a marca Preserv, mas hoje tem um portfólio diversificado, que abrange antibióticos, anestésicos, anticoagulante, tratamentos oncológicos, anti-retrovirais, entre outros. Mais de 50% das vendas são geradas no mercado privado e o restante é proveniente do setor público.

Havia possibilidade de a farmacêutica retomar o IPO em maio ou junho, mas a percepção de que o momento não é favorável a estreias em bolsa levou o acionista vendedor e assessores financeiros a baterem o martelo pelo adiamento. A decisão de retomar o processo ainda vai depender do cenário econômico no começo do ano e da definição do novo governo.

Segundo fontes, a Blau manterá o registro de companhia aberta para estar pronta para acessar o mercado quando houver melhores condições, o que não deve ocorrer antes das eleições. Nesse período, a direção da farmacêutica pretende estreitar laços com potenciais investidores, fornecendo mais informações sobre o negócio de medicamentos, especialmente o de biológicos e biossimilares, seu principal negócio.

Fontes ouvidas pelo Valor avaliam que a decisão da Blau de postergar a retomada da oferta foi acertada. Além da volatilidade dos mercados, há a percepção de que a comparação da farmacêutica com outras pares de capital aberto não joga a favor da operação. Também com foco em medicamentos de alta complexidade, a Biotoscana, que é controlada pelo fundo de private equity Advent, tem passado maus bocados em bolsa e desde a estreia na B3, a R$ 26,50 por recibo de ação (BDR) no fim de julho, já perdeu mais de 60% em valor.

Ainda assim, disse uma fonte, logo após a notícia de suspensão da operação, diferentes fundos de private equity teriam batido à porta da Blau com o objetivo de negociar um potencial investimento na empresa. Há interesse dos investidores no mercado farmacêutico principalmente por causa do potencial de crescimento das vendas, na esteira do envelhecimento da população e do aumento dos casos de doenças que exigem tratamentos mais complexos.

Uma pessoa que acompanha os planos da Blau diz que, ao jogar a decisão sobre a oferta para o ano que vem, a companhia também ganha tempo para melhorar a operação. Em fevereiro, quando tentou ir à bolsa, a precificação do IPO caiu numa semana de piora nos mercados por temores relacionados à economia americana, mas antes disso a farmacêutica já enfrentava dificuldades para convencer os investidores a pagar o preço que queria.

Outro interlocutor diz que, na época, também pesou uma troca de acusações entre membros da família do controlador, Marcelo Hahn, sobre questões fiscais. Procurada, a empresa afirma não ter conhecimento do assunto e não foi questionada por investidores ou pela Comissão de Valores Mobiliários (CVM) acerca disso.

Assim como já faz o grupo Biotoscana, a Blau quer ampliar presença no mercado de medicamentos de alta complexidade na América Latina, fora do varejo. No primeiro trimestre, a farmacêutica registrou receita líquida de R$ 152 milhões, alta de 11,9%, e lucro líquido de R$ 23 milhões, 42,6% acima do verificado um ano antes. A margem bruta, por sua vez, subiu 3 pontos percentuais, para 44,2%, diante do maior volume vendido e do mix de venda mais favorável, com o avanço dos produtos
biológicos.

Em mensagem publicada junto aos resultados, o controlador da companhia e principal executivo, Marcelo Hahn, diz que os dados de mercado são “bastante animadores”. Segundo o instituto IQVIA, que audita o setor no mundo todo, a Blau é o maior laboratório no segmento institucional (que inclui hospitais, por exemplo) na América Latina, excluindo do ranking as multinacionais. Quando incluídas essas empresas, a Blau ocupa a 15ª posição.

Procurada, a empresa não comentou o assunto.

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