Nova rodada Mercosul-UE em janeiro

Valor Econômico: 

A comissária de Comércio da União Europeia (UE), Cecilia Malmström, declarou ontem que o bloco europeu e o Mercosul estão se aproximando “do jogo final” e que está confiante de que “em breve” os dois blocos vão concluir o acordo de livre comércio.

Questionada por jornalistas sobre prazo, ela respondeu: “[o acordo] estará feito quando estiver pronto”. Reiterou que precisa poder dizer aos 27 países membros e ao Parlamento Europeu que o acordo é bom o suficiente. “E não estamos lá ainda”, acrescentou.

Negociadores dos dois blocos poderão continuar a barganha final para o acordo de livre comércio birregional no fim de janeiro, na expectativa do ministro das Relações Exteriores, Aloysio Nunes.

Enquanto a Confederação Nacional da Indústria (CNI) considera que a rodada de negociações ocorrida em Buenos Aires foi bem sucedida, negociadores do bloco do cone sul trataram de enfatizar que sua “oferta final” colocada à mesa pode ajudar os europeus a obter mandato para atender pleitos na área agrícola.

Certos negociadores do Mercosul insistem que houve progressos nas discussões com a Europa. Um exemplo é o acesso de tabaco do bloco para a UE, que será liberalizado e não limitado por cota, por exemplo.

Reconhecem que as demandas do Mercosul são de extrema sensibilidade para os europeus, num clima político delicado, onde a Comissão Europeia enfrenta muita oposição do setor agrícola quando se trata de concessões.

“Demos um passinho para se chegar a um patamar [de concessões] em que os dois blocos se sintam confortáveis. Agora, estamos esperando o passinho dos europeus”, diz uma fonte próxima da negociação.

Para ele, a partir de agora tudo que cada bloco colocar à mesa será difícil, porque as concessões fáceis já foram feitas.

Apesar do documento apresentado à UE ter o sinal de “oferta final”, negociadores do Mercosul insistem que apenas colocaram à mesa uma indicação do que oferecem para chegar a um pacote. Toda oferta é condicional a que haja reciprocidade, senão têm o direito de retirá-la da mesa.

O Mercosul, em todo caso, tem pressa. “A UE nunca decide e marca reunião para marcar reunião”, reclamou o ministro da Indústria, Comércio Exterior e Serviços (MDIC), Marcos Pereira.

Em comunicado, a CNI indicou expectativas positivas. Na avaliação de seu diretor de Desenvolvimento Industrial, Carlos Abijaodi, a negociação “avançou bastante” e poderá ser concluída nos próximos meses. “As tratativas evoluíram e os blocos se aproximaram em relação a posições como a abrangência, velocidade e regras da liberalização do comércio.”

Para a CNI, o esforço final para a formalização do acordo cabe à UE, incluindo a abertura de seu mercado agrícola e a aceitação das demandas industriais, como o regime aduaneiro especial de drawback – que isenta os insumos importados de produtos que serão exportados.

Para a representação da indústria brasileira, o Mercosul fez concessões adicionais para chegar a um resultado na negociação. “O Mercosul está unido. Há avanços importantes da Argentina e do Paraguai. A União Europeia sabe que precisa fazer mais para chegarmos a um acordo nas próximas semanas”, segundo Carlos Abijaodi.

Conforme a CNI, a indústria brasileira espera ver o acordo implementado o mais rápido possível, pois ele permitirá ao Brasil entrar na liga das grandes economias do comércio internacional. Segundo negociadores, isso vai demorar pelo menos dois anos e meio após a conclusão da negociação.

A entidade calcula que o acordo Mercosul-UE vai permitir triplicar o acesso a novos mercados para os bens brasileiros. Em comparação, todos os acordos de comércio assinados pelo país só cobrem 8% do comércio mundial.