Japão quer ultrapassar Europa e fechar acordo comercial com Brasil

Cláudia Schüffner – Valor Econômico: 

O Japão quer assinar um Acordo de Parceria Econômica com o Mercosul, de preferência passando à frente das negociações mais avançadas com a União Europeia e a Coreia do Sul. Quanto à pressa, os 20 anos de duração do acordo com a União Europeia, ainda não concluído, é um indicador do ritmo com que se dá esse tipo de negociação. O acordo, ou EPA, na sigla em inglês, é um dos pontos-chave no entendimento de empresários japoneses para elevar a segurança dos investimentos no Brasil e outros países da região, mas é visto com ceticismo por alguns interlocutores brasileiros. Isso porque rapidez em negociações com japoneses são vistas quase como conceitos antagônicos. Quem está à frente é o Keidanren, a poderosa federação das indústrias do Japão, junto com a Confederação Nacional da Indústria (CNI).

“É muito claro o interesse de investidores industriais e de infraestrutura do Japão, que se manifestam de maneira muito clara sobre o interesse em um acordo, seja o Keindaren ou empresas individuais. Temos ouvido interesse para que negociem”, resume o embaixador do Brasil no Japão, André Corrêa do Lago.

O Keidanren e a CNI já negociam as bases de um EPA há alguns anos. Um documento elaborado pelas duas organizações mostra que as exportações para o Brasil dobraram e as importações triplicaram entre 2000 e 2014. A avaliação, contudo, é que ainda existem obstáculos a serem contornados para a assinatura de um acordo bilateral e são sugeridas algumas medidas para melhorar a conexão dos países, como o reconhecimento mútuo de diplomas, certificados e outras provas de qualificação profissional.

A última reunião do Comitê de Cooperação Econômica Brasil-Japão, que tem representantes da Firjan, CNI e empresas japonesas como a Sumitomo Mitsui e Banco de Tokyo-Mitusbishi, entre outros, aconteceu em Curitiba em 2017. A próxima está marcada para julho, em Tóquio. No momento está sendo feita uma pesquisa com empresários dos quatro países do Mercosul, sem a participação da Venezuela, que está suspensa do bloco. Uma reunião do grupo de “sábios” com integrantes do setor privado, vai acontecer no Rio esta semana. “São duas organizações industriais conversando e no momento em que essas relações amadurecerem haverá um momento em que a negociação vai evoluir”, diz o empresário Carlos Mariani Bittencourt, vice-presidente da Firjan e membro do grupo, que se diz cético quanto à rapidez de um acordo com os japoneses.

Yasushiro Uozumi, gerente do escritório de cooperação internacional do Keidanren, diz que o Japão está considerando um mega acordo de cooperação com o Mercosul, caminho para um acordo mais amplo, de livre comércio. “Com um acordo se tem um alto padrão de negócios e ele facilita que as companhias japonesas façam negócios nesses países”, afirma Uozumi, no moderníssimo prédio da instituição em Tóquio.

Ele explica ainda que a pressa de negociar antes da Coreia do Sul é evitar que a indústria japonesa, entre elas a locomotiva, fique em desvantagem com relação a impostos e taxas. “O mesmo vale para a União Europeia”, diz.

Dados do Centro de Pesquisas da Agência de Cooperação Internacional do Japão (JICA) mostram que o investimento direto estrangeiro japonês em países da América Latina foi de US$ 6,9 bilhões anuais, em média, entre 2010 e 2013. No período o estoque de investimentos na região somou US$ 120 bilhões. No Brasil, o investimento direto japonês foi de US$ 33,8 bilhões entre 2001 e 2017, de acordo com dados do Banco Central. Depois de um pico de US$ 7,5 bilhões em 2011, o volume foi de apenas US$ 537 milhões no ano passado.

O tombo sofrido pelos conglomerados Mitsubishi, IHI (Ishikawajima) e Kawasaki, por exemplo – que investiram e perderam dinheiro com a quebra dos estaleiros Rio Grande, Enseada e Atlântico Sul depois que a Sete Brasil cancelou encomendas – ainda traz o desconforto comum. Shokei Kashiwagi, diretor do JICA para a América do Sul, também cita dois problemas que os japoneses associam ao Brasil: o “custo Brasil” e as inúmeras regulamentações.

Mesmo assim, o Brasil ainda se destaca aos olhos japoneses não só por causa do tamanho do país e da economia, mas pela população estimada de 1,5 milhão a 1,9 milhão de descendentes de japoneses que vivem no país. A América Latina é responsável pelo suprimento de 41% das importações do Japão e uma das maiores fornecedoras de recursos naturais, de onde o Japão importa 12% do minério que consome, 9% do petróleo e 8% da prata. “Em termos de segurança alimentar, não podemos ignorar a América Latina”, afirma Kashiwagi, lembrando que seu país importa de países em desenvolvimento 60% dos alimentos que consome.

Masayasu Yoshida, diretor-adjunto da Divisão de América do Sul do Ministério de Relações Exteriores do Japão, admite que hoje as relações com a América Latina são concentradas em recursos naturais, mas acredita que à medida que o país estreitar relações com a região os investimentos podem chegar ao mercado financeiro. Já Takahiro Nakamae, chefe do departamento de Negócios da América Latina e do Caribe, do Ministério, cita a democracia, os direitos humanos, a posição comum sobre as mudanças climáticas, o desarmamento nuclear e as metas de desenvolvimento sustentável entre os valores compartilhados.

A ênfase do governo japonês ao apontar a importância da América Latina esmorece um pouco quando lembrados da presença dos investimentos chineses na região. “Não podemos competir porque eles fizeram muitos investimentos”, admite Nakamae, que contesta a afirmação de que o Japão se afastou do Brasil enquanto o investimento chinês cresce. “O Japão não se distanciou. O Brasil tem o maior número de descendentes e em termos comerciais é o maior exportador [da região] para o Japão. Nós reconhecemos que o Brasil enfrenta alguns desafios econômicos nos últimos anos, mas temos grande confiança de que o país vai se recuperar”, afirma.

O economista Akio Hosono, chefe do Centro de Pesquisas da JICA, é quem explica o que entende ser a diferença entre o modelo de investimento japonês e o praticado pela China. “O japonês pensa no longo prazo, em alguns setores investe há 50 anos”, afirma, dando como exemplo o investimento da Nippon Steel na Usiminas.

Defensor de um acordo amplo com o Mercosul, Yorizumi Watanabe, professor da Universidade de Keio, explica que os acordos de livre comércio (FTAs na sigla em inglês) firmados pelo Japão são parte da estratégia de crescimento da economia japonesa. Segundo ele, a política econômica que Shinzo Abe quer implementar, apelidada de “Abenomics” permitiu, por exemplo, aumento da produção de automóveis japoneses no México destinados ao mercado dos Estados Unidos.

A repórter viajou a convite do Ministério de Relações Exteriores do Japão