Irlanda vê caminho mais livre para acordo

Daniel Rittner – Valor Econômico: 

Ainda com olhar cauteloso sobre o acordo de livre comércio entre Mercosul e União Europeia, a Irlanda avalia que um dos principais obstáculos ao avanço das negociações foi removido. Até a semana passada, o país defendia que um tratado entre os dois blocos não poderia ser anunciado antes do dia 29 março de 2019, quando se espera a consumação do “Brexit”.

Dublin vinha argumentando que, sem garantias sobre a livre troca de mercadorias com o Reino Unido, novos acordos comerciais precisavam ser vistos com extrema cautela. Os britânicos absorvem em torno de 50% das exportações irlandesas de produtos agrícolas – sobretudo carne bovina, cordeiro e leite. Por isso, um tratado com o Mercosul chegaria em um momento de incertezas para o país.

Na sexta-feira, porém, a UE e o Reino Unido definiram finalmente que não vão ser erguidas barreiras físicas no único ponto de fronteira terrestre – a divisa entre Irlanda do Norte, território britânico, e República da Irlanda na ilha vizinha à Grã-Bretanha.

“Não sabemos exatamente como ficará a relação comercial com o nosso maior parceiro comercial, mas parece que não haverá nenhuma ruptura”, afirma o embaixador da Irlanda no Brasil, Brian Glynn. “Estamos confiantes em que isso significará a manutenção da tarifa zero entre nós.”

Mesmo ressaltando que esse acordo com o Reino Unido abre caminho para um entendimento definitivo com o Mercosul, do ponto de vista irlandês, Glynn pondera que as divergências da negociação ainda não foram superadas e acha injusto colocar a culpa nas cotas da UE para carne bovina do Mercosul – apenas 70 mil toneladas por ano com tarifas reduzidas. “Queremos um acordo ambicioso e equilibrado.”

Para ele, o Mercosul ainda precisa fazer concessões nas áreas de compras governamentais e indicações geográficas, além de adotar um período mais curto de liberalização (hoje a proposta é de 15 anos). O embaixador vê dificuldades para aumentar a oferta de carnes. “A cota de 70 mil toneladas já foi vista como consideravelmente alta pelos nossos produtores e elevá-la pode elevar a resistência.”

Apesar da cautela, Glynn jura que não há viés protecionista do governo: “A história econômica da Irlanda é de abertura”.