Grandes farmacêuticas investem em biotecnologia para manter expansão

Sarah Neville – Valor Econômico:

Em outros tempos, as companhias de biotecnologia eram insurgentes briguentas, que tentavam sem muito sucesso morder os calcanhares dos grandes laboratórios farmacêuticos. Agora, elas são cada vez mais procuradas por gigantes farmacêuticas interessadas em reforçar suas linhas de desenvolvimento de remédios e pegar atalhos na busca por maiores retornos.

Só nos últimos 30 dias, vários laboratórios farmacêuticos importantes gastaram quase US$ 100 bilhões em empresas cujos nomes mal eram conhecidos fora dos seletos círculos de Cambridge, de Massachusetts e do Vale do Silício.

Nos últimos dias de 2018, a GlaxoSmithKline anunciou a compra da Tesaro por US$ 5,1 bilhões; a Bristol-Myers Squibb, passados três dias deste ano, acertou a aquisição da Celgene por impressionantes US$ 90 bilhões; e, no dia 7 deste mês, a Eli Lilly tornou público seu plano para comprar a Loxo Oncology por US$ 8 bilhões.

A era dourada das inovações científicas, particularmente na oncologia, é fator para o ressurgimento do setor Líderes do setor farmacêutico, reunidos em San Francisco na semana passada, para a conferência anual de saúde promovida pelo JPMorgan, somaram-se ao burburinho provocado pelas fusões já anunciadas – e, se os precedentes servem de guia, aproveitaram para tramar novos negócios.

O forte interesse coincidiu com o declínio no valor das ações das empresas de biotecnologia. O índice MSCI mundial caiu 12%, em dólares, no quarto trimestre de 2018. A queda no valor torna muitas empresas do setor mais atraentes para possíveis compradores.

As aquisições também são estimuladas por troca mútua benéfica: a propriedade intelectual da biotecnologia em troca da escala e alcance dos grandes laboratórios farmacêuticos, o que, por sua vez, deixa os investidores com retorno potencialmente maior nas mãos.

Steve Elms, sócio-gerente da Aisling Capital, presidente do conselho de administração da Loxo e investidor veterano na área de ciências da vida, destacou que a grande maioria dos novos medicamentos aprovados pela Agência de Remédios e Alimentos (FDA, na sigla em inglês) “nos últimos anos veio de empresas de ciências da vida e não das grandes companhias farmacêuticas”. “Eu diria que a inovação no desenvolvimento e na descoberta de drogas biofarmacêuticas tem surgido do setor de biotecnologia já há algum tempo.”

Parte da motivação para toda essa atividade também é reflexo do cenário altamente benéfico para os investimentos desde o fim da crise financeira mundial e da injeção de liquidez promovida pelo Federal Reserve (Fed, banco central dos EUA), segundo Elms.

“Essa liquidez estava procurando por ativos de alto risco e alto retorno e as empresas biofarmacêuticas e de biotecnologia acabaram sendo beneficiárias disso. Então, nos últimos cinco ou seis anos, houve essa imensa reinflação do caixa nos balanços patrimoniais das empresas de ciência da vida”, acrescentou.

A era dourada das inovações científicas, particularmente na oncologia, foi outro fator importante para o ressurgimento do setor. Elms citou o sucesso que a Loxo e outras firmas de biotecnologia tiveram no desenvolvimento “de medicamentos para pacientes quase personalizados, que atacam os tumores usando informações genéticas e genômicas sobre as mutações e causas do câncer”.

“Não quer dizer que inovação também não se dá nas farmacêuticas, é só que as empresas de ciências da vida, por sua natureza, são capazes de andar muito mais rápido. Elas são capazes de tomar decisões com mais rapidez e, portanto, conseguir fazer testes clínicos e ganhar aprovações muito mais rapidamente.”

Edwin Moses, ex-chefe da Ablynx, comprada por € 3,9 bilhões pela Sanofi em 2018, concorda que, além de compostos promissores, os grandes laboratórios farmacêuticos também querem comprar a cultura operacional das empresas.

As grandes farmacêuticas “apreciam a cultura inovadora das firmas de biotecnologia, elas compreendem que as firmas de biotecnologia estão assumindo riscos no desenvolvimento de produtos que as grandes farmacêuticas frequentemente nem pensariam em assumir”.

“As farmacêuticas gostam de ganhar acesso a essa atmosfera quando compram empresas […] e de fazer uma transfusão disso para uma organização maior”, acrescentou Moses, que agora é presidente do conselho de duas outras firmas de biotecnologia, a Evox Therapeutics e a Achilles Therapeutics.

Outra força por trás das aquisições pode ser a atual natureza da descoberta de drogas, cada vez mais baseada em plataformas tecnológicas, uma vez que os laboratórios farmacêuticos querem fortalecer sua posição adquirindo rapidamente tecnologias cruciais.

A farmacêutica Novo Nordisk ofereceu inicialmente € 2,6 bilhões pela Ablynx – o que fez a Sanofi intervir, com medo de perder acesso a uma plataforma cujo valor já lhe era conhecido, depois de ter trabalhado com a Ablynx por quase um ano.

“Os cientistas puderam se conhecer entre si muito bem. Eles haviam visto a tecnologia funcionar de fato, então quando o pessoal lhes perguntou ‘alguém está fazendo ofertas pela Ablynx, devemos avaliar isso?’ […] a Sanofi chegou a uma decisão rapidamente”, disse.

A julgar pelos negócios recentes, não só as firmas de biotecnologia, mas especificamente os tratamentos contra o câncer, estão no topo das listas de desejo dos executivos-chefes afeitos a aquisições.

O analista Jack Scannell, do UBS, disse que o aumento do uso de combinações para tratar cânceres, envolvendo dois compostos diferentes, se presta a colaborações entre as grandes farmacêuticas e a biotecnologia e “em certa medida explica a onda de fusões e aquisições na oncologia”.

“Se você é a Roche, a Astra, a Bristol ou a Merck, você tem compostos de várias classes diferentes em sua linha de desenvolvimento de produtos […] você pode realizar esses primeiros testes, nos quais basicamente você testa montes e montes de combinações dentro da mesma estrutura legal e administrativa de testes clínicos”, com qualquer sucesso podendo ser comercializado por meio das forças de vendas das grandes farmacêuticas.

Esse tipo de desenvolvimento clínico, sinalizou, “é demasiado complicado [e] impossível para empresas independentes pequenas […] no momento, as grandes companhias são o lar natural para os ativos de oncologia em fase de testes clínicos”.

Nem todos as transações entre as firmas de biotecnologia e os laboratórios farmacêuticos funcionam tão bem. Há duas semanas, a farmacêutica americana AbbVie anunciou encargos de US$ 4 bilhões por deterioração no valor contábil relacionados a sua decisão de desistir do desenvolvimento do Rova-T, uma terapia contra o câncer que assumiu depois de comprar a Stemcentrx em 2016, como parte da estratégia para ampliar os investimentos em oncologia.

Ainda assim, apesar dessa demonstração do que pode acontecer quando uma empresa é comprada antes de que algum remédio importante tenha provado seu valor, 2019 parece encaminhado a ver as grandes farmacêuticas dando sequência a sua jornada em busca de firmas de biotecnologia.

Na semana passada, falando na conferência do JPMorgan, a executiva-chefe da GlaxoSmithKline, Emma Walmsley, indicou que, pelo menos ela, está longe de dar como encerrada a busca por aquisições, dizendo que vai buscar ativos em fase inicial e fazer parcerias com outras empresas.

Steve Bates, que chefia a Associação da Bioindústria, do Reino Unido, concorda. “Vamos ver mais [desses negócios]”. O motivo é que as “grandes farmacêuticas decidiram estrategicamente […] que não vão conseguir seus produtos da próxima geração em suas próprias catedrais de pesquisa e desenvolvimento”.

“Se a maior parte de sua linha de desenvolvimento de produtos vai passar a vir de empresas externas, então a descoberta de drogas e o desenvolvimento de drogas vai passar a vir, cada vez mais, do ecossistema da biotecnologia – e eles vão ter que pagar para [isso].” (Tradução de Sabino Ahumada)

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