Falta matéria-prima no setor de defensivos

Kauanna Navarro – Valor Econômico: 

Paralelamente aos efeitos negativos provocados pelos estoques elevados nos canais de distribuição no Brasil, agudos em 2017 e que ainda estão sendo debelados, as empresas de agroquímicos que atuam no país também sofrem com a escassez de matérias-primas para a formulação dos produtos finais vendidos aos agricultores.

O aperto da legislação ambiental na China levou ao fechamento de cerca de 700 fábricas de produtos químicos naquele país no último ano. Muitas eram responsáveis pela produção de ingredientes ativos e matérias-primas para indústrias de agroquímicos de todo o mundo.

Assim, apesar de altos estoques no canal de distribuição, a indústria também sofreu com o aumento do preço de ingredientes das formulações, ou mesmo com a falta de produtos. Analistas avaliam que essa crise de escassez de produtos só não foi percebida antes por causa dos estoques fartos nas distribuidoras.

Muitas empresas sentiram falta, inclusive, de produtos amplamente usados nas lavouras, como o herbicida glifosato. Em novembro, Rodrigo Gutierrez, presidente da Adama no Brasil, afirmou que já não tinha glifosato para vender – e isso que a empresa, israelense, é controlada pela ChemChina “Já não temos glifosato para vender faz cerca de três meses. O mercado inteiro não tem”, disse na época. Segundo Silvia Fagnani, diretora do Sindicato Nacional da Indústria de Produtos para Defesa Vegetal (Sindiveg), houve queda de 50% na produção de glifosato na China.

Apesar dos pesares, a Adama registrou seu melhor faturamento no Brasil. Em 2017, sua receita no país foi de US$ 480 milhões, pouco abaixo dos US$ 502 milhões projetados inicialmente. “Essa diferença ocorreu porque não conseguimos lançar dois grandes produtos no ano passado”, disse. Para 2018, a previsão, segundo Gutierrez, é que o faturamento chegue a US$ 570 milhões.

Como era de se esperar, a escassez de produtos no Brasil foi mais sentida por empresas que não estavam com grandes estoques parados nos canais de distribuição. “O ano passado foi muito bom em vendas, mas teria sido espetacular se não fosse a falta de matéria-prima”, afirmou Marcelo Damus Abdo, vice-presidente da Ourofino Agrociência – empresa brasileira com foco em defensivos pós-patente, os genéricos.

De acordo com o executivo, a empresa deixou de efetivar vendas estimadas em R$ 115 milhões – R$ 85 milhões viriam de vendas cujos pedidos já haviam sido tirados. “Eu já tinha vendido esses produtos e tive de recuar. Fora o que eu deixei de vender”, afirmou Abdo.

A situação afetou os resultados da empresa em 2017. O lucro líquido da Ourofino, que registrou receita líquida de R$ 636 milhões, ficou em R$ 71 milhões, 7,8% menor que em 2016. De acordo com o vice-presidente da companhia, algumas matéria-primas subiram 50%, mas, na média, houve aumento de 30%.

Mesmo quem não enfrentou problemas com a falta de ingredientes sofreu com a situação, em virtude do aumento de preços. Foi o caso da australiana Nufarm, que teve de sacrificar margens para não perder vendas no Brasil. “Houve aumento de preços e isso pressionou as margens. A gente tentou repassar o aumento, mas, em geral, as margens ficaram mais pressionadas”, disse Marcos Gaio, presidente da empresa para a América Latina.

A Nufarm faturou no Brasil cerca de US$ 500 milhões em 2017, 6,4% mais que em 2016 e pouco mais de 20% das vendas globais da múlti.

A consultoria Kleffmann estima que 15% das vendas de defensivos do ano passado no país tenham ficado nos canais de distribuição. Fontes do segmento calculam que, no total, a indústria tenha vendido ao redor de US$ 9 bilhões no ano passado. No início de 2017, os estoques somavam US$ 2,4 bilhões.

Poucas empresas sentiram tanto os reflexos desses estoques elevados no Brasil em 2017 como a alemã Bayer . Sob essa influência, a receita líquida da alemã na área agrícola recuou 3,4% no ano passado, para € 9,6 bilhões. Levando-se em conta apenas o “portfólio ajustado”, que envolve só ativos que não foram vendidos para que a aquisição da americana Monsanto seja aprovada, a queda foi de 2,2%.

Na divulgação do balanço do ano passado, a empresa destacou que os estoques no Brasil estavam “inesperadamente elevados” e que, basicamente por causa disso, na América Latina as vendas recuaram 18% – o equivalente a US$ 600 milhões. Desconsiderando o desempenho no mercado brasileiro, as vendas ajustadas da Bayer teriam crescido 3% no ano passado.

Com menos intensidade, o volume elevado de estoques também pressionou os resultados de outra alemã: a Basf. Segundo o CEO global da companhia, Kurk Bock, foram sobretudo adversidades no Brasil que levaram à queda de € 54 milhões no lucro antes dos juros e tributos (Ebit) em relação a 2016.