EMS faz doação de genérico para a OMS

Assis Moreira – Valor Econômico:

A EMS, maior laboratório farmacêutico do Brasil, será uma dos fabricantes a anunciar hoje a doação de remédio genérico num projeto contra doenças tropicais negligenciadas (DTN’s) da Organização Mundial da Saude (OMS), num evento reunindo governos e doadores privados.

A empresa brasileira vai anunciar a doação de antibiótico oral Azitromicina para tentar eliminar até 2020 a bouba, uma doença infecciosa da pele, ossos e cartilagens causada pela bactéria espiroqueta, que afeta regiões da África e da Ásia.

Além de ser o primeiro laboratório privado a fornecer gratuitamente medicamento nesse caso, sem detalhar a quantidade, a EMS poderá com isso queimar uma etapa na sua estratégia comercial no exterior: a OMS precisará pré­-qualificar o produto antes de receber a doação. E a expectativa é de que isso facilite depois para a EMS ser credenciada a vender genéricos para os programas da agência da ONU.

A EMS diz ter o maior portfólio de medicamentos no Brasil, com mais de 2.600 drogas que servem para as diversas áreas da medicina.

Em 2015, quase um bilhão de pessoas receberam tratamento doado por companhias farmacêuticas

Também hoje no “Global Partners Meeting”, em Genebra, a Fiocruz, principal instituição de ciência e tecnologia em saúde da América Latina, vai anunciar seu compromisso para formação de profissionais de saude globalmente, além de pesquisa e produção de remédios contra essas doenças.

O fato de os setores público e privado do Brasil estarem sentados na grande reunião da OMS é comemorado por representantes do país como uma ilustração de que se pode ser “global player” no segmento, apesar dos problemas enfrentados nos últimos anos.

As doenças tropicais negligenciadas afetam mais de um bilhão de pessoas em 149 países, custando bilhões de dólares anualmente a países em desenvolvimento. Trata­se de dengue, doença de chagas, leishmaniose, esquistossomose e hanseníase, entre outras, com a característica comum de serem causadas por vírus, bactérias, protozoários e vermes, principalmente nas regiões mais pobres.

O Brasil, por sua grande dimensão e biodiversidade, tem a mais elevada quantidade dessas doenças no continente americano, e no mundo é um dos maiores ao lado da China, India, Indonésia e Nigéria.

O país se destaca pela dengue, doença de chagas, zika e lepra. Para a OMS, o Brasil poderia controlar essas doenças com menos de 1% do orçamento de saúde ou com US$ 1 por pessoa. Para especialista da OMS, se o Brasil não cuidar desse desafio vai ter um freio no desenvolvimento econômico e social, com parte da mão-­de-­obra doente.

O efetivo controle de DTN só pode ser alcançado pela combinação de esforços público e privado e grande escala de tratamento das populações afetadas, na avaliação da OMS. Para isso, a agência lançou há cinco anos um projeto de cooperação. Sua constatação é de “progressos sem precedentes”.

Em 2015, quase um bilhão de pessoas receberam tratamento doado por companhias farmacêuticas. O número de pacientes precisando de tratamento diminuiu de 2 bilhões em 2010 para 1,6 bilhão, em 2015.

Hoje, dez grandes companhias farmacêuticas vão reafirmar seu engajamento, que calculam em US$ 19 bilhões entre 2012­-2020. Nos último cinco anos, estimam ter doado mais de sete bilhões de tratamentos.

Laboratórios como AbbVie, AstraZeneca, Bayer, Bristol­Myers Squibb, Celgene, Chemo, Daiichi Sankyo, Eisai, Elea, Eli Lilly, GlaxoSmithKline, Johnson & Johnson, Merck KGaA, MSD, Novartis, Pfizer, Sanofi, Shionogi e Takeda dizem estar comprometidos em estudos clínicos para facilitar o desenvolvimento de novas drogas afim de combater várias dessas doenças tropicais negligenciadas.

Novos instrumentos de controle de vetor, por exemplo, estão sendo desenvolvidos, visando resolver o problema crescente de doenças transmitidos pelos mosquitos “Aedes”, o mais eficiente vetor de virus de dengue, Zika, chicungunha e febre amarela.

A Bill & Melissa Gates Foundation se comprometerá com mais US$ 335 milhões nos próximos cinco anos contra doenças tropicais negligenciadas. O governo do Reino Unido vai destinar quase US$ 450 milhões em cinco anos. A Bélgica prometeu mais US$ 27 milhões para um programa específico visando eliminar doença do sono no Congo.

Apesar do avanço no combate à DTN, a OMS constata inquietações globais com aumentos recentes de doenças com virus Zika e suas complicações. E conclama os países a melhorar acesso a água potável e saneamento.

A OMS destaca o avanço na redução da transmissão da doença de Chagas na América Latina, graças a triagem do sangue. Mas vê ainda muito a ser feito na região. Exemplifica com uma pesquisa feita no Brasil que revelou que o país subestima bastante a dengue nos períodos considerados de baixa transmissão.