Brasil Pharma pede recuperação judicial, a maior do varejo no país

Adriana Mattos – Valor Econômico: 

Oito anos após ter sido criada como uma companhia consolidadora no varejo farmacêutico, segundo estratégia definida pelo grupo BTG Pactual, a Brasil Pharma entrou ontem com pedido de recuperação judicial em São Paulo. Desde abril, a rede é controlada pela Lyon Capital, fundada por Paulo Remy, ex-presidente da WTorre. Um plano começa a ser desenhado, com renegociação de dívidas, que somam pouco mais de R$ 1,3 bilhão, e nova busca de recursos no mercado, com bancos e antigos credores, especialmente para capital de giro, segundo fontes a par do assunto. É a maior recuperação judicial do varejo desde, pelo menos, o início da crise no país, em 2014.

Há um entendimento no grupo de que, com o avanço do plano de recuperação, exista um ambiente mais favorável para fechamento de novos empréstimos, vitais para a operação, considerando que dívidas contraídas após a recuperação têm prioridade na fila de credores. Como antecipou na segunda-feira o Valor PRO, serviço de informações em tempo real do Valor, a situação dramática da companhia – com acelerada queima de caixa e sem recursos para o dia a dia da operação – já levava a BR Pharma a trabalhar, nas últimas semanas, neste plano, por considerar alto o risco de uma decretação de falência ou despejo de lojas locadas.

O escritório Thomaz Bastos, Waisberg, Kurzweil Advogados assessora a BR Pharma. O pedido foi distribuído ontem para a 2ª Vara de Falências e Recuperações Judiciais, com o juiz Marcelo Sacramone. Após comunicado ao mercado da decisão, as ações da empresa fecharam o dia em queda de 4,66% na B3, a R$ 3,48.

Segundo balanço patrimonial divulgado ontem, a companhia tinha em caixa, em novembro, R$ 761 mil. Dois meses antes, em setembro, eram R$ 3,9 milhões – um décimo do registrado um ano antes. O patrimônio líquido negativo em novembro era de R$ 1,22 bilhão, para um prejuízo acumulado de R$ 1,52 bilhão de janeiro a novembro. Com cerca de 720 pontos, a BR Pharma vende hoje um terço do que vendia há um ano. É dona das redes Sant’Ana e Big Ben, no Norte e Nordeste, e da cadeia de franquia Farmais, com unidades no Sul, Sudeste e Centro-Oeste.

Ontem, foi publicada a lista com cerca de 15 mil credores. Aproximadamente 75% das dívidas (incluindo aluguel e débitos fiscais) está nas mãos da PPLA, veículo de investimento em que parte dos sócios são ligados ao BTG Pactual. A PPLA tem dívidas não vencidas, em operações de créditos, de R$ 984,3 milhões. Neste valor está incluída uma emissão de debêntures, concluída em 2017, no valor atualizado de R$ 425 milhões (com prazo de 30 anos), com títulos adquiridos integralmente pela PPLA. Em seguida está o banco IBM, com R$ 22,2 milhões já vencidos.

Com fornecedores, as dívidas somam menos de 10% do total, cerca de R$ 120 milhões, e nesse grupo estão as maiores indústrias farmacêuticas do país, como Abbott, Bayer, Biolab, Teuto e Hypermarcas. Há ainda dezenas de empresas proprietárias de pontos com aluguel atrasado e líderes no atacado, como Panpharma e a DLW. Raul Aguilera, que vendeu a Big Ben ao grupo e aluga lojas à rede, também é credor.

Há caminhos que devem ser discutidos para que a negociação da recuperação judicial avance com credores. No lado operacional, há uma expectativa no mercado de que a atual gestão apresente um projeto mais profundo de reestruturação. Desde que Remy assumiu o controle, reduziu-se em menos de 10% o número de lojas e foi concluída a integração de sistemas das redes em operação. O número de empregados por loja, de 15 antes da entrada de Remy, caiu para 12.

Ainda há um plano de pagamento das dívidas a ser tratado com os credores. Os pontos prováveis que a rede pode apresentar envolvem desconto sobre a dívida e extensão de prazos de pagamento, assim como a busca de novos recursos – e isso deve passar por conversas com a PPLA, dos sócios do BTG. Antes do pedido de recuperação, as negociações de busca de mais recursos com a PPLA não avançaram. Se for aceito o pedido de recuperação judicial, o plano deverá ser apresentado em 60 dias.