Balança comercial tem novo recorde no mês, mas importações avançam

Fábio Pupo e Edna Simão – Valor Econômico: 

Apesar de a balança comercial brasileira ter registrado o melhor fevereiro da história com um superávit de US$ 4,9 bilhões, os números indicam que os tempos de recorde começam a ficar para trás. As importações estão crescendo mais fortemente que as exportações neste ano, um efeito decorrente do aquecimento da demanda interna.

As importações de automóveis, em especial, dispararam no começo do ano. Isso ocorre após o fim do Inovar-Auto (em dezembro), programa de incentivo às fábricas instaladas no país que aplicava sobretaxa a produtos do exterior. Em valores, a importação de automóveis cresceu 86,8% no primeiro bimestre contra o mesmo período do ano passado – para US$ 571 milhões. Enquanto isso, a importação total do país subiu 15,1% (para US$ 26,607 bilhões).

O Ministério da Indústria, Comércio Exterior e Serviços (Mdic) diz que a importação de veículos resulta do consumo doméstico aquecido e que ainda não é possível dizer que o Inovar-Auto causou a alta nos desembarques, mas admite a possibilidade. “O maior volume de crescimento é por conta da demanda interna, mas há aumento da importação de outros países, o que pode decorrer do fim da sobretaxa”, disse o diretor de estatística e apoio à exportação do Mdic, Herlon Brandão.

De qualquer forma, os números estão alinhados com a previsão do Mdic de aceleração no quadro geral de importações totais neste ano, já que a atividade econômica aquecida estimula a compra de bens de outros países. “Com aumento da atividade, é natural maior demanda por bens importados.”

Os números totais da balança de fevereiro reforçam o movimento. O aumento de 13,7% nas importações em fevereiro contra um ano antes (para US$ 12,408 bilhões) superou os 11,9% registrados no lado das exportações (para US$ 17,315 bilhões), diminuindo a força de um superávit neste ano.

De acordo com os dados, o saldo comercial do mês de US$ 4,9 bilhões representa um crescimento de 7,7% frente um ano atrás. O resultado foi recorde para meses de fevereiro, mas foi conquistado graças à exportação de uma plataforma de petróleo de US$ 1,5 bilhão para os Países Baixos. Isoladamente, o item foi o que gerou maior valor de exportação para o país e impulsionou o superávit registrado no mês. Sem esse item, haveria uma queda do superávit frente um ano atrás.

No acumulado do ano, a tendência é a mesma. Contra um ano antes, as exportações cresceram 12,9% no bimestre (para US$ 34,283 bilhões), enquanto as importações registraram elevação de 15,1% (para R$ 26,607 bilhões). O saldo no bimestre foi de US$ 7,7 bilhões – também recorde.

Pela tendência de crescimento da importação acima da exportação, o Mdic prevê neste ano um superávit da balança comercial menor em relação ao ano passado. A estimativa é de um superávit em torno de US$ 50 bilhões em 2018, o que representa uma retração de 25% em relação ao ano passado – quando o resultado foi um recorde de US$ 67 bilhões.

Para Rafael Cagnin, economista do Instituto de Estudos para o Desenvolvimento Industrial (Iedi), além da melhora da demanda interna, há outros fatores que contribuíram para a alta das importações. Nos intermediários, avalia, a importação é puxada por setores líderes mais dependentes de peças e componentes importados, como os eletroeletrônicos, por exemplo. Nos bens de consumo, há a competitividade que favorece alguns produtos estrangeiros, diz Cagnin.

No caso da balança de petróleo e derivados, a expectativa do governo também é de saldo menor neste ano. Brandão evitar cravar um número, mas diz que deve haver superávit de até US$ 4 bilhões nesses produtos. Nos primeiros dois meses do ano, o superávit da balança desses produtos foi de US$ 887 milhões, o que representa forte redução em relação ao montante de US$ 1,806 bilhão apurado no mesmo período de 2017. Segundo ele, o número tem sido impactado pela elevação das importações devido ao aquecimento do consumo doméstico. (Colaborou Marta Watanabe, de São Paulo)