Anvisa reabre debate sobre novos tipos de cigarro

Murillo Camarotto – Valor Econômico: 

A Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) reabriu nesta semana as discussões sobre a possibilidade de regulamentação dos dispositivos eletrônicos para fumar. Um debate realizado anteontem na sede do órgão, em Brasília, contou com a participação de várias empresas interessadas em comercializar os aparelhos no Brasil, entre as quais a Philip Morris International, que aposta boa parte de seu futuro em um aquecedor de tabaco.

Diferentemente dos cigarros eletrônicos, que vaporizam uma solução líquida de nicotina, o aquecedor é abastecido com o próprio tabaco. A diferença é que o fumo é processado e manipulado para ser apenas aquecido, e não queimado. Pesquisas conduzidas pela Philip Morris mostram que, sem a combustão, o número de substâncias nocivas produzidas cai algo entre 90% e 95%.

Foi em defesa dessas pesquisas que a vice-presidente de comunicação científica da Philip Morris, a escocesa Moira Gilchrist, participou do debate na Anvisa. Em entrevista ao Valor, ela disse esperar que a agência não adie por muito tempo a definição sobre a regulamentação dos produtos de risco reduzido, categoria em que se enquadra o aquecedor.

“Esses produtos têm os fumantes como foco exclusivo, porque eles não são livres de riscos. Não miram ex-fumantes ou não-fumantes. Eles contêm nicotina, que é viciante, e pequenos níveis de substâncias químicas nocivas. No entanto, temos a comprovação científica de que usar esses produtos é muito melhor do que continuar fumando os cigarros tradicionais. Sabemos que o melhor para os fumantes é parar de fumar, mas sabemos também que muitos deles não vão fazer isso”, afirmou a executiva.

O entendimento da empresa é de que a política nacional de combate ao tabagismo é bem-sucedida, mas dá pouca ou nenhuma atenção às pessoas que continuam fumando e que não querem ou não conseguem abandonar o vício. Apesar da queda vertiginosa nas últimas décadas, o Brasil ainda tem entre 15 milhões e 21 milhões de fumantes.

“Achamos que é muito importante que essas pessoas tenham acesso a escolhas melhores. Queremos que seja um elemento a mais no portfólio do que a Anvisa está fazendo para ajudar os fumantes”, completou Moira.

A agência proibiu a oferta dos dispositivos eletrônicos em 2009, mas agora está disposta a retomar os debates. Gerente de registro e fiscalização de produtos fumígenos na Anvisa, Patricia Francisco Branco diz que as empresas têm permissão para registrar os produtos, mas que a liberação ainda depende de uma série de testes e análises técnicas.

Philip Morris tenta aprovar aquecedor de tabaco, opção para seu negócio diante da queda no número de fumantes

“Sabemos que essa indústria evoluiu nos últimos anos, mas ainda precisamos escutar a academia, os pesquisadores e a Fundação Osvaldo Cruz, por exemplo. Precisamos entender melhor se de fato existe essa não maleficência”, disse Patricia. Uma nova rodada de debates está programada para outubro deste ano.

Para a Philip Morris, a demora na definição acaba protegendo o mercado atual. “Ontem, no painel, eu disse para a Anvisa agir o quanto antes e não postergar, porque nós sabemos que ao adiar esse debate nós simplesmente estaremos mantendo o ‘status quo’ para esses milhões de fumantes”, disse Moira Gilchrist.

Enquanto o mercado brasileiro não se abre, a multinacional conta com a boa aceitação dos dispositivos em países como o Reino Unido, Estados Unidos, Japão e Coreia do Sul e mantém pesados investimentos em produtos de risco reduzido. Na última década, a Philip Morris aplicou US$ 4,5 bilhões no desenvolvimento desse nicho de produto.

A meta no longo prazo é abandonar completamente a produção do cigarro tradicional, que segundo a executiva terá o mesmo destino das câmeras fotográficas analógicas. Ao fim deste ano, a empresa terá a capacidade de produzir 100 bilhões de “heatsticks”, nome em inglês do bastão de tabaco que é usado no aquecedor.

O bastão é parecido com um cigarro cortado ao meio. Ele é introduzido no aparelho, que contém uma lâmina de aquecimento. A temperatura chega, no máximo, aos 350º C, enquanto que para o início da combustão são necessários pelo menos 400º C. Cada bastão rende o mesmo que um cigarro: 6 minutos ou 14 baforadas, em média. Além de menos substâncias nocivas, o produto tem como apelo a ausência de odor, de cinzas e de fumaça.

No ano passado, a Philip Morris vendeu 36 bilhões de “heatsticks” no mundo, contra aproximadamente 900 bilhões de cigarros convencionais. Apesar da tendência de queda no número global de fumantes, pelo menos 1 bilhão de pessoas devem continuar consumindo tabaco até 2025, o que justifica a manutenção dos pesados investimentos.

Moira explica que a Philip Morris detém hoje uma fatia entre 16% e 17% do mercado global, e que a oferta de produtos de risco reduzido, como o aquecedor, podem ajudar a abocanhar clientes das concorrentes e, assim, manter o negócio sustentável em meio à queda no número de fumantes ao redor do mundo. No Brasil, a participação é de 20%.