Pfizer volta às aquisições e oferece US$ 17 bilhões para ficar com Hospira

Valor Econômico:

A Pfizer anunciou sua maior transação desde a infrutífera oferta pela AstraZeneca, acertando a compra da fabricante de medicamentos injetáveis estéreis e biossimilares, em negócio avaliado em cerca de US$ 17 bilhões.

O acordo para pagar US$ 90 por ação da Hospira, com sede nos Estados Unidos, diminui as chances de a Pfizer buscar transações que a transformem inteiramente, como a que teria sido com a proposta de 69,4 bilhões de libras esterlinas (US$ 105,57 bilhões) pela AstraZeneca, segundo analistas. Também poderia ser prenúncio do desmembramento da Hospira dentro de dois anos, dizem especialistas.

“Acreditamos que este acordo sinaliza a firme intenção de separação em 2017”, disse o analista Jeffrey Holford, da Jefferies. O executivo-chefe da Pfizer, Ian Read, disse que a Hospira vai tornar-se parte da unidade de “farmacêuticos estabelecidos”, que ele havia sugerido anteriormente que poderia ser separada do resto do grupo.

Analistas disseram que a adição da Hospira, que tem receitas de US$ 4,4 bilhões, a essa unidade foi arquitetada para fortalecê-la a ponto de permitir-lhe operar como empresa independente.

A aquisição de uma grande empresa de biotecnologia americana segue-se à investida da Casa Branca contra as chamadas “inversões tributárias”. Esse tipo de operação teria permitido à Pfizer mudar sua base de impostos para o Reino Unido, caso um acordo com a AstraZeneca tivesse seguido adiante.

O acordo também serve de escape para parte das grandes reservas de caixa da Pfizer, após uma longa e ineficaz busca por alvos no exterior. Para bancar a transação, o laboratório informou ter repatriado parte do dinheiro que estava acumulando no exterior. Desde sua investida malsucedida pela AstraZeneca, o nome da Pfizer foi associado a uma grande lista de outros alvos, já que estava em busca de novas fontes de crescimento. Read, por sua vez, em várias aparições públicas recentes disse que a empresa não “precisava” de alguma grande compra.

A transação dá sequência uma série de fusões e aquisições no último ano no setor farmacêutico e, segundo executivos de banco de investimento, é um exemplo do tipo de transações que os laboratórios deverão buscar em 2015. O ágio de 39% pago em relação ao fechamento das ações da Hospira na quarta-feira, no entanto, mostra os altos valores que os laboratórios farmacêuticos vão precisar gastar para conseguir aquisições.

Read disse que a Pfizer tem “inclinação por acordos com potencial para criar valor no curto prazo”, em vez de por investimentos em ativos de risco. A Hospira é a maior produtora mundial de drogas genéricas injetáveis e tem operações no novo mercado de biossimilares – medicamentos que almejam mimetizar tratamentos biológicos por preço mais baixo.

Os biossimilares deverão tornar-se um mercado multibilionário, já que devem começar a vencer as patentes da primeira geração de drogas biológicas (derivadas de células vivas e não de produtos químicos) de grandes vendas.

Eurofarma compra fatia de 3% do laboratório americano Melinta

Valor Econômico:

A Eurofarma, multinacional farmacêutica de origem brasileira, comprou uma participação de 3% no capital da americana Melinta Therapeutics, em uma transação que engloba ainda o direito de comercialização no país de um medicamento inovador usado no tratamento de infecções graves. Por meio do acordo, de cerca de US$ 15 milhões, a Eurofarma distribuirá no mercado brasileiro, provavelmente a partir de 2017, a droga delafloxacina, cujas pesquisas, conduzidas pelo laboratório americano, já estão em fase avançada. Além disso, a farmacêutica brasileira poderá participar de comitês científicos e do desenvolvimento de novas drogas em parceria com a Melinta, o que abre a possibilidade de novos negócios no futuro, e ser a primeira na análise de outros antibióticos que sejam desenvolvidos.

“Esse novo modelo, de participação acionária está totalmente relacionado com a estratégia de ampliação do portfólio de drogas inovadoras e com patente”, disse ao Valor a vice-presidente de pesquisa e inovação da Eurofarma, Martha Penna. Segunda farmacêutica mais prescrita pelos médicos brasileiros e entre os quatro maiores fabricantes de genéricos do país, a Eurofarma elegeu os antibióticos como uma das áreas de preferência para crescer. Como parte do acordo com a Melinta, terá exclusividade na comercialização do medicamento no mercado brasileiro até o fim da patente.

Num primeiro momento, a delafloxacina, que conta com dois estudos em fase três, será comercializada no Brasil para tratamento inicial de infecções graves de pele. Há pesquisas, porém, para outras duas aplicações e que poderão ser contempladas pela parceria: infecção urinária e infecção intra-abdominal hospitalar.

Em 2014, segundo dados da ABSSSI (do inglês Acute Bacterial Skin and Skin Structure Infections), as estimativas apontam para 266 mil novos casos de infecção bacteriana de pele aguda no país e as vendas de medicamentos para tratamento da doença giram em torno de R$ 300 milhões por ano. “Esse não é um acordo meramente comercial, mas de troca de conhecimento”, ressaltou a executiva.

No ano passado, as vendas da Eurofarma ficaram próximas a US$ 1 bilhão, com crescimento de cerca de 20% – em linha com a meta de manter ritmo de expansão anual de 20% até o fim da década. Na avaliação de Martha, esse vigor é um dos pontos de atratividade do laboratório brasileiro aos olhos de potenciais parceiros internacionais – na linha de medicamentos inovadores, a Eurofarma já tem parceria com a Coreia do Sul.

Para o laboratório americano, que se dedica ao desenvolvimento de antibióticos usados no combate a infecções resistentes a outras drogas, o acordo com a Eurofarma “proporciona capital de curto prazo e assegura”
os planos de expansão geográfica, de acordo com a diretora-executiva da empresa, Mary Szela.

Câmbio leva empresa a substituir importado por produção nacional

Valor Econômico:

A desvalorização do real frente ao dólar que ontem atingiu R$ 2,7433, maior cotação desde 23 de março de 2005 – já começou a permitir a nacionalização de insumos e processos pela indústria doméstica. O movimento não é generalizado, mas a mudança gera redução de custos considerada preciosa para o cálculo do preço ou recomposição de margem.

Edgard Dutra, diretor da Metalplan, fabricante de bens de capital, conta que o dólar mais forte permitiu à empresa voltar a produzir componentes que havia passado a importar há três anos, quando a moeda nacional estava mais valorizada. No segundo semestre do ano passado a empresa reativou a linha de produção desses componentes, que reduzem, em alguns produtos, de 20% a 25% do custo de industrialização. Na média, a redução de custo de produção é mais baixa, de 5%. “É pouco ainda, mas é importante para nós”, afirma Dutra.

Com o dólar em torno de R$ 2,70, a Engrecon, fabricante de engrenagens, deixou de comprar algumas peças forjadas já acabadas e voltou a fazer a usinagem na fábrica, em Santana de Parnaíba, município da grande São Paulo. José Carlos Nadalini, sócio e fundador da empresa, conta que a usinagem de peças menores é feita tradicionalmente dentro da empresa, mas no período em que o dólar esteve mais caro a importação de peças menores e mais simples já acabadas era mais barata.Com a desvalorização da moeda nacional, o forjado bruto é ainda importado, mas a usinagem voltou a ser feita pela empresa. Com isso, a vantagem por enquanto fica por conta do custo logístico da importação, que equivale a cerca de 5% a 10% do valor do forjado bruto, e a eliminação do risco do fornecedor externo. “Na importação, às vezes a usinagem vinha com defeito e a negociação para refazer era difícil”, destacou.

Para ele, a depreciação da moeda nacional também pode viabilizar a volta da empresa à fabricação de peças de reposição. O empresário explica que são mais simples e a expectativa é de que a produção nacional fique mais competitiva. O movimento de substituição de importação começa a aparecer em alguns indicadores, como no aumento no nível de demanda interna medido pela Fundação Getulio Vargas (FGV) dentro da sondagem da indústria de transformação. Embora ainda em nível baixo, em janeiro esse índice subiu 12% contra dezembro de 2014, na série com ajuste sazonal. Para Aloisio Campelo, superintendente-adjunto para ciclos econômicos da FGV, a alta indica percepção de que a indústria tem atendido a demanda menos com estoque e mais com produção. Além do ajuste no estoque, ele avalia que a depreciação do real pode já propiciar um ganho de competitividade e a substituição de importação em alguns setores. “A grande questão é como se comporta essa curva daqui para a frente.”

“À medida que a taxa de câmbio se desvaloriza, melhora a competição doexportador e também do fornecedor doméstico”, diz Flavio Castelo Branco, gerente-executivo de política econômica da Confederação Nacional da Indústria (CNI). A internacionalização de suprimentos, diz ele, foi acelerada pela desvalorização da moeda nacional. Uma depreciação do câmbio, avalia Branco, tende a reverter o processo de aumento de insumos importados. Isso começa, diz, pelo “trivial”, por insumos que cumprem mais facilmente os requisitos tecnológicos e as exigências das normas técnicas. Dados da CNI até setembro mostram que a depreciação do real frente ao dólar elevou em 1,4% o preço dos importados no terceiro trimestre de 2014, na comparação com o trimestre anterior. Essa alta, aliada à redução de 1,2% no custo industrial brasileiro, no mesmo período, elevou a competitividade do manufaturado nacional.

Para que o processo de nacionalização continue e evolua para insumos mais sofisticados, porém, Branco diz que há um longo caminho. Entre os fatores que “jogam contra” estão os contratos geralmente longos do comércio exterior, que somente serão alterados se houver confiança da indústria doméstica em relação à evolução do câmbio. Um fornecimento nacional que cumpra os requisitos técnicos e detenha a tecnologia necessária é outro desafio. José Ricardo Roriz Coelho, presidente da Abiplast, que reúne as indústrias de plásticos, diz que no setor a vantagem do real desvalorizado chega mais rápido nos segmentos de maior valor agregado, nos quais o peso da resina é menor no custo do produto final. Ele explica que os principais insumos do setor, como as resinas, seguem preços internacionais em dólar, mesmo quando são comprados no mercado nacional. No setor, afirma Coelho, esses insumos representam de 45% a 80% do preço, dependendo do produto ou do segmento. “Nos casos em que essa participação é menos representativa, o real desvalorizado possibilita redução significativa do custo.” A expectativa das empresas, diz Nadalini, é que o real siga tendência de desvalorização e torne a produção nacional mais competitiva. O empresário ressalta que, ao mesmo tempo, ainda resta preocupação do impacto da alta da moeda americana sobre alguns custos. “Nós temos dívida em dólar, de compra de máquinas que fizemos nos últimos anos”, conta ele. Também há impacto sobre itens de uso e consumo que não podem ser substituídos, como pastilhas e ferramentas para as máquinas, que a empresa adquire de fornecedores domésticos, mas que são fabricados fora do Brasil. “Há momentos que não sabemos para o que torcer, mas a expectativa maior é que a desvalorização cambial anime mais a produção interna”, diz Nadalini. Ele não se arrisca ainda, porém, a fazer projeções para 2015. Seus principais mercados, salienta, que são de motocicletas, equipamentos agrícolas e caminhões, ainda não mostram recuperação.

Para driblar a menor demanda dos seus principais mercados, diz o empresário, a empresa estuda diversificação. Além do retorno ao mercado de peças de reposição, avalia também a possibilidade de fornecer para o setor de energia eólica. A Engrecon terminou o ano passado com receita nominal perto da obtida em 2013, com perda real de faturamento.

Dutra, da Metalplan, tem expectativa semelhante em relação ao câmbio. Ele espera que a alta do dólar permita a ampliação maior da nacionalização. Por enquanto as projeções dele são para um 2015 com início de recuperação em relação a 2014. No ano passado, o faturamento da Metalplan caiu 20% em relação a 2013 e o plano de Dutra para este ano é de crescimento de 10% a 15% sobre 2014. “Sendo mais otimista” a estimativa é de 20%. A queda de receitas no ano passado, porém, exigiu um quadro de trabalhadores mais enxuto. Ele conta que reduziu em cerca de 5% o número de funcionários, mas o corte na despesa com a folha de pagamentos foi “um pouco maior”, porque a dispensa concentrou-se em salários mais altos. A esperada continuidade na alta do dólar, diz ele, pode viabilizar algumas operações externas. “Outro dia recebi um e-mail de um país da África de alguém interessado em ser um distribuidor. Respondi mostrando interesse em conversar. Com outro dólar seria inviável.

A recuperação econômica americana também está no radar. “No ano passado, já recebemos consultas de quatro distribuidores, o que não acontecia há alguns anos”, relata. Novos mercados, somados a esforços já feitos em destinos como Chile e Bolívia, podem compensar a queda de demanda argentina. A expectativa de Dutra é elevar em 15% a receita com exportação. “Sendo pessimista, espero 12%. Sendo otimista, 20%.”

Nem todos os setores, porém, começaram a contabilizar vantagens com a depreciação da moeda nacional. Humberto Barbato, presidente da Associação Brasileira da Indústria Elétrica e Eletrônica (Abinee), diz que para o setor há um desafio maior, porque não houve apenas queda de produção, mas também quebra de elos de cadeia industrial. Para Barbato, o setor elétrico poderá se beneficiar com a desvalorização do real, mas isso dependerá de uma estabilização maior do câmbio e não deve se generalizar. De início, diz, pode acontecer em produtos específicos, no setor elétrico, como cabos e equipamentos de alta tensão.

País precisa dobrar, em 4 anos, o investimento em inovação, diz Finep

Camilla Veras Mota – Valor Econômico:

Para fazer “cócegas” na taxa de investimento, o volume de recursos aplicado pelo Brasil em inovação tem de dobrar nos próximos quatro anos, afirma Glauco Arbix, presidente da Financiadora de Estudos e Projetos (Finep) desde 2011.

Para ele, o gasto público nessa área – sem considerar a participação do setor empresarial – teria de passar dos R$ 25 bilhões aplicados entre 2011 e 2014 para algo próximo de R$ 50 bilhões neste quadriênio para ajudar a taxa de investimento do país sair do atual patamar desconfortável, de cerca de 17% do Produto Interno Bruto (PIB).

Paciência e continuidade, para Arbix, são as palavras-chave de qualquer política de pesquisa e desenvolvimento. Por isso, mesmo diante do ajuste fiscal que está sendo executado pela nova equipe econômica, o sociólogo defende que o financiamento e a subvenção ao desenvolvimento de novas tecnologias – atualmente atribuição quase exclusiva da Finep, afirma ele – sejam preservados e aponta este como o melhor caminho para a recuperação da indústria nacional.

Nesse sentido, a agência de inovação quer se tornar uma instituição financeira de fato, para ampliar suas possibilidades de financiamento. A seguir, trechos da entrevista.

Valor: A Finep dobrou os dispêndios com inovação no último quadriênio. A taxa de investimento, na contramão, está no menor patamar desde 2009, próximo de 17% do PIB. Por que o descompasso?

Glauco Arbix: Porque somos ainda muito pequenos. O Brasil investe pouco em inovação – tanto o setor público quanto o privado, seja em volume ou em porcentagem do faturamento das empresas ou do PIB. O investimento está crescendo, houve mudanças significativas nos últimos 15 anos e, de forma mais acelerada, nos últimos cinco. No biênio 2013-2014, contratamos R$ 13,5 bilhões. Entre 2011 e 2012, foram R$ 4,7 bilhões, com resultados ainda piores nos biênios anteriores. Estamos falando de R$ 13 bilhões e de um PIB de R$ 3,5 trilhões. Mas esse é o objetivo que a gente persegue. Como a agenda-chave da economia brasileira – a questão da produtividade baixa – é impactada de maneira mais rápida pelo desenvolvimento tecnológico, temos que perseguir isso de maneira muito obstinada. O setor público investe hoje cerca de R$ 25 bilhões em P&D [pesquisa e desenvolvimento]; as empresas, um pouco menos. Para fazer cócegas no PIB, esse número precisa dobrar: o setor público precisa colocar R$ 50 bilhões e as empresas, outros R$ 50 bilhões. As estatísticas internacionais falam que cada dólar do setor público aplicado em P&D alavanca outro dólar no setor privado.

Valor: Essa relação tem se repetido também no Brasil?

Arbix: Sim. Na verdade, se você trabalhar com os indicadores da Finep e do BNDES – onde a participação dos desembolsos com inovação é pequena se comparada ao total – vai ver que esse retorno do investimento público é maior do que um para um aqui no Brasil. Nós conseguimos alavancar mais. É só ver nossas contrapartidas, seja no crédito, na subvenção econômica ou nos projetos cooperativos. O setor público não investe em inovação só para mitigar risco, mas porque ela é a mais virtuosa no que se refere à alavancagem [dos investimentos] do setor privado. Quando se empresta recursos para a compra de um caminhão ou de um utilitário qualquer, a contrapartida é quase zero. Claro que ele tem impacto na gestão da empresa, na redução de custos, mas acaba em três, quatro meses, quebra. Esse tipo de investimento está dentro do que a empresa faria normalmente. No caso da inovação, não é assim, porque o risco é alto e o resultado é incerto.

Valor: O cenário de restrição fiscal desenhado para os próximos anos não coloca em risco a meta de dobrar os investimentos?

Arbix: Nós precisamos investir. O Brasil tem que persistir na política, tem que ampliar o investimento em ciência e tecnologia, assim como em educação, e dar as bases para que os ajustes, que são necessários, sejam seletivos. Estamos falando de poucos recursos, se compararmos com o Orçamento nacional. A gente não gostaria de frustrar a expectativa de uma parcela do empresariado que, a duras penas, passou a investir em inovação e desenvolvimento. Fundamentar uma política de P&D é ter paciência e persistência no investimento. Se interrompermos, vamos colher os estragos por dez anos. É diferente de interromper a construção de uma estrada, de uma ponte, que podem ser retomadas depois de dois anos. O governo da presidenta Dilma sempre acreditou que a inovação é peça-chave no plano de desenvolvimento econômico sustentável de longo prazo. Prova disso foi o lançamento do Plano Inova Empresa, que teve demanda inicial de R$ 98,7 bilhões, frente a um orçamento inédito de R$ 32,9 bi. O próprio ministro da Fazenda, Joaquim Levy, citou em seu discurso inaugural que a concorrência, o empreendedorismo e a inovação serão indispensáveis para o crescimento da economia brasileira, o que reforça o alinhamento com as propostas da Finep.

Valor: A atividade está praticamente estagnada. Ainda assim as empresas mantêm o apetite pelo investimento em inovação?

Arbix: A demanda é forte – e essa é uma novidade altamente positiva. Há cinco, dez anos, o primeiro pigarro na economia mundial fazia com que as empresas brasileiras guardassem na gaveta seus projetos de inovação. Em meio às dificuldades grandes da crise econômica, uma parte crescente das empresas continua procurando a gente e contraindo empréstimos. A Finep deve ter fechado o ano colocando entre R$ 11 bilhões e R$ 12 bilhões na economia, com mais de R$ 8 bilhões só de contratações de crédito e com uma carteira de projetos já avaliados de praticamente R$ 7 bilhões.

Valor: A Finep tem expressado a intenção de se tornar uma instituição financeira formal.

Arbix: Essa questão está interligada às anteriores. De fato, já somos uma instituição financeira. Em 2014, colocamos mais de R$ 12 bilhões na economia. O que não somos é supervisionados e fiscalizados pelo Banco Central, porque o Conselho Monetário Nacional ainda não nos reconheceu, mas isso é uma questão de tempo. Nos últimos quatro anos, trabalhamos para adaptar todos os processos internos para que tivéssemos condições para isso. Como instituição financeira, podemos fazer captação, teremos mais liberdade para montar fundos de investimento, podemos trabalhar com instrumentos diferenciados. Nós gostaríamos de ter autonomia, porque o Brasil precisa massificar a inovação, é uma necessidade urgente. A indústria brasileira vive talvez um dos piores momentos das últimas décadas, não somente por conta do custo Brasil, mas porque está perdendo competitividade. A distância em relação à indústria mundial de ponta é muito grande – e está crescendo. Hoje, o financiamento de tecnologia pelos bancos de varejo, mesmo os públicos, é absolutamente marginal. Quem faz isso de forma intensa somos nós e um pedacinho do BNDES.

Valor: A inovação é então um caminho incontornável para a recuperação da indústria?

Arbix: Sem a menor dúvida. Ou a gente dá um choque de inovação, ou a gente vai ficar para trás. Por isso propomos a massificação do financiamento para algumas modalidades com um cartão comum, que deve ser chamado de “cartão inovação”, distribuído por todo o país. Em 2014, 62% das empresas que atendemos trabalharam pela primeira vez com a Finep. Isso é chave para a gente, porque não estamos fazendo mais com as mesmas empresas, estamos diversificando. Nos últimos anos conseguimos reduzir os prazos de análise dos projetos de 452 para 30 dias. Com o Finep 30 dias, tivemos uma redução de custo trabalhador/hora de R$ 4 milhões por ano. Criamos 86 indicadores, um sistema novo na área de informática, mudamos nossos processos. Se a economia para nós é grande, imagine para as empresas, que não precisam mais de departamentos inteiros para montar os projetos.

Valor: Hoje a Finep é financiada basicamente pelo Tesouro?

Arbix: Pelo Tesouro, via o PSI, e pelo FNDCP [Fundo Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico], um fundo do qual somos gestores, que tem um orçamento que varia entre R$ 4 bilhões e R$ 5 bilhões por ano e que nos permite fazer subvenção econômica, projetos cooperativos e transferência de recursos para toda a infraestrutura científica no país. Essas são nossas duas grandes fontes, mas fizemos um trabalho forte nos últimos anos para atrair outros fundos. Hoje somos os principais gestores e agentes do Funttel [Fundo para o Desenvolvimento Tecnológico das Telecomunicações], por exemplo, e conseguimos atrair recursos do Ministério da Saúde e do FAT.

Valor: Diante da disponibilidade ainda modesta de recursos, quais as áreas prioritárias?

Arbix: Nós fizemos sete vezes mais investimentos em saúde, que é uma área-chave, pelo impacto social, científico e tecnológico. Nossos investimentos [nesse setor] entre um biênio e outro passaram de cerca de R$ 300 milhões para R$ 2,680 bilhões. A área de saúde é a que mais inova no mundo, mas na Finep era a mais deprimida até nossa chegada. Ao aumentar o investimento em saúde, ao triplicar o investimento em energia, ou mesmo em petróleo e gás, estamos na verdade ajudando a sintonizar o investimento brasileiro em tecnologia com o investimento internacional. Essas são as áreas de fronteira, são aquelas que nós temos que perseguir. A única área que não cresceu, entre as mais importantes, foi a de metalurgia e transportes, o que está, de certa forma, de acordo com o comportamento da atividade.

Valor: A questão da escala também explica por que ainda não se veem resultados na área de saúde?

Arbix: Não necessariamente. Nós estamos fazendo investimentos pesados nessa área. A questão é que o desenvolvimento de inovações não se dá quando a empresa recebe os recursos. As farmacêuticas brasileiras passaram a ampliar seu apetite por tecnologia, algo que era muito restrito um tempo atrás. As maiores empresas do mundo, as “big pharma” – Glaxo, Merck, Novartis -, investem até 27% do seu faturamento em P&D. Entre as brasileiras, as que mais investem colocam entre 6% e 6,5%. Há três, quatro anos, esse percentual era de 1%, 1,5%, e muito direcionado para o desenvolvimento de genéricos. Mas elas perceberam que, nesse mercado, ou você inova ou não vai ser nem um ‘player’ local. Nós e o BNDES estamos ajudando diretamente essas empresas, fornecendo financiamento, subvenção econômica. Um dos resultados que patrocinamos foi um medicamento de alta complexidade para o tratamento de câncer, desenvolvido pelo laboratório Libbs, que está sendo comercializado por um preço acessível e já está sendo compradopelo SUS. Se as empresas entregarem no prazo e com o preço e qualidade que queremos, o SUS e o Ministério da Saúde compram até R$ 8 bilhões por ano. Isso tem diminuído o risco e tem levado as empresas a inovar e a colher resultados. Mas leva tempo.

Valor: A falta de interação entre centros de pesquisa e o setor produtivo é apontada como um entrave para o desenvolvimento mais célere da inovação no Brasil. Como a Finep enxerga essa questão?

Arbix: Com o Inova Empresa, programa que criamos em 2013 e que conta com 12 projetos setoriais, atraímos 2.787 empresas e, junto com elas, 238 institutos de ciência e tecnologia. Ele já foi um sucesso sob esse ponto de vista. Mas demos um salto ainda maior com o Plataformas do Conhecimento, lançado recentemente. A ideia é colocar em contato empresas e universidades para que, juntas, elas possam desenvolver, a partir da demanda pública, da pesquisa básica até a inovação. A encomenda pode ser para o desenvolvimento, por exemplo, de uma vacina contra a dengue ou um anticorpo monoclonal para o tratamento de câncer. Mas não apenas na saúde – também na área de energia, de petróleo… Essa é uma modalidade muito pouco utilizada no Brasil e muito difundida fora. A ideia é fazer com que a inteligência das universidades e das empresas trabalhem juntas para atender à demanda pública. É um programa grande, que estamos formatando com o Ministério da Ciência e Tecnologia e que prevê financiamentos de longo prazo, por dez anos, com um volume de recursos acima de R$ 1 bilhão.

Valor: Está satisfeito com os resultados do último quadriênio?

Arbix: Mais do que satisfeito. Nós conseguimos ampliar o orçamento público da Finep em mais de quatro vezes em relação ao volume aplicado no biênio 2009-2010. Isso [o aumento dos repasses] é importante, porque significa que o recurso está sendo bem alocado. A discussão no Brasil, em geral, não é sobre a disponibilidade de recursos para investimento, mas à qualidade desse investimento. Se eu tiver que escolher entre direcionar recursos para comprar caminhão ou para desenvolver tecnologia, eu fico com a tecnologia, que usa mão de obra mais qualificada, um ferramental mais complexo. Tudo isso tem um impacto sobre a produtividade infinitamente maior do que a compra de bens mais simples, que muitas vezes nós acabamos financiando.

Pfizer dá início à concentração de operações do Brasil

Valor Econômico:

A multinacional americana Pfizer começou, neste ano, o processo de consolidação das operações de sua atividade em saúde humana em um único site no Brasil, que fica na cidade de Itapevi, na Grande São Paulo. Dona de marcas e produtos como Lípitor, Celebra, Centrum, Advil, Viagra e Magnésia Bisurada, a farmacêutica se estrutura para atender à expansão do mercado brasileiro, bem como elevar exportações para a América Latina.

A companhia está concluindo investimento de US$ 27 milhões, com recursos próprios, nesse projeto. Com isso, ela aumenta sua capacidade de produção de 20 milhões para 48 milhões de unidades ao ano no site de Itapevi.

O engenheiro industrial peruano Joaquin Barreto, diretor de manufatura da empresa, que trabalha no grupo há 32 anos e está há 12 no Brasil, disse que a plena capacidade será alcançada gradualmente ao longo deste ano e de 2016. “Foi uma decisão estratégica: com inovação de tecnologias passamos a fabricar outras fórmulas farmacêuticas”.

O investimento, disse ele, trouxe para a unidade fabril maior capacitação tecnológica e de processos e vai permitir diversos ganhos em custos e de escala de produção, sinergias de processo e sistemas, bem como ampliação das famílias de produtos.

Segundo Barreto, a Pfizer vai adicionar 20 famílias de medicamentos às 18 existentes hoje na fábrica de Itapevi. Uma boa parte virá da unidade industrial situada em Guarulhos (SP), que passou a pertencer à Zoetis, uma nova companhia, criada para se dedicar exclusivamente à área de saúde animal.

Toda a transferência vai ocorrer ao longo deste semestre, de acordo com a companhia. “Estamos em um momento de transição, que deve se estender por alguns meses”, informou. Nesse período, alguns medicamentos continuarão ainda a ser fabricados em Guarulhos.

Itapevi, criada em 1999, está recebendo novos equipamentos para manufatura, embalagens e para o laboratório, além de ter a área das linhas de produção ampliada em 32%. “Foi toda modernizada”, disse Barreto. Assim, diz ele, ficará apta a manufaturar novas formas farmacêuticas, como cápsulas e comprimidos revestidos, até agora não produzidos nessa unidade fabril.

A quantidade de “apresentações” de medicamentos (formato do produto), conforme a fabricante, praticamente dobrará – de 323 para 619.

Segundo o executivo, até 2017 a previsão é conseguir um aumento gradativo no volume de exportação, a depender das aprovações regulatórias de cada país da América Latina. Atualmente, vende para Argentina, Chile, Colômbia e México, entre outros, e América Central.

Em 2013, obteve receita de R$ 132 milhões com esse mercado. Os principais produtos exportados foram o Lípitor (controle do colesterol), Ponstan (cólicas) e Viagra (disfunção erétil).

Em 2013, a subsidiária brasileira da Pfizer faturou R$ 4,1 bilhões, ante US$ 51,6 bilhões no mundo. A empresa tem 2,8 mil funcionários no país, e a expansão de Itapevi vai adicionar 120 outros ao quadro de pessoal.

Sobre o processo de entrada no segmento farmacêutico de medicamentos genéricos, com a aquisição de 40% do capital do laboratório nacional Teuto, localizado em Goiás, a Pfizer informou que continua como parceira da fabricante brasileira.

“A companhia continua avaliando uma potencial aquisição dos 60% restantes do Teuto”, declarou em nota. Segundo a multinacional, a decisão pode ser tomada durante um período que se iniciou no começo de 2014 e vai até 2016, conforme acordo firmado entre as duas empresas.

A companhia acrescentou na nota ao Valor que, apesar de ainda não ter tomado uma decisão final, “a Pfizer continua nesse processo de análise, avaliando qual é o melhor momento para tomar a decisão, levando em consideração os interesses de ambas as companhias”.

Segundo Barreto, não há nenhuma decisão da companhia de vir a produzir genéricos na fábrica de Itapevi, mesmo com a expansão de 130% de sua capacidade.

Proteína do café alivia dor e ansiedade, revela pesquisa brasileira

O Globo:

Pesquisadores da Embrapa e da Universidade de Brasília (UnB) descobriram fragmentos de proteína (peptídeos) no café com efeito similar ao da morfina, apresentando qualidades analgésicas e ansiolíticas. E seus efeitos duraram seis vezes mais. Os experimentos foram feitos com camundongos.

Até quatro horas

Sob a coordenação do pesquisador Carlos Bloch Júnior, o estudante Felipe Vinecky descreveu as propriedades das moléculas em sua tese de doutorado, desenvolvida no Departamento de Biologia Molecular da UnB e na Embrapa. Ele identificou os peptídeos quando procurava genes de café associados à melhora na qualidade do produto, num projeto da Embrapa com o Centro de Cooperação Internacional em Pesquisa Agronômica para o Desenvolvimento ( Cirad, na sigla em francês).

— A morfina é um alcaloide, uma molécula pequena que age no sistema nervoso central inibindo a dor. Após 40 minutos, ela é metabolizada, seu efeito para, e os pacientes voltam a sentir dor — explica Vinecky. — Já esses peptídeos têm efeito de até quatro horas.

Além disso, nos testes com os camundongos, não foram registrados efeitos colaterais, enquanto a morfina pode causar, entre outros problemas, a dependência, de acordo com Vinecky.

— Os fragmentos da proteína podem ser usados não só para evitar dor, como também regulam a ansiedade, ajudando até a emagrecer — acrescenta o especialista. — Eles poderiam ser utilizados no gado que vai ser submetido ao abate, que passa por estresse.

Sequênciamento

O sequenciamento do genoma do café, capitaneado em 2004 pelo pesquisador Alan Andrade, da Embrapa, resultou num banco de dados com mais de 200 mil sequências gênicas, das quais cerca de 30 mil já estão identificadas.

O pedido de patente de sete peptídeos identificados no estudo foi encaminhado ao Instituto Nacional de Propriedade Intelectual (INPI).

Saúde do setor de farmácias atrai interesse de estrangeiras

O Globo:

Cresce o interesse de grandes grupos estrangeiros do setor de farmácias no Brasil. Quase dois anos após adquirir a Onofre, a americana CVS dá duro para comprar a Drogarias São Paulo e Pacheco. Segundo analistas, três propostas já teriam sido feitas, sendo a mais recente delas costurada ao redor de cifras superiores a R$ 6 bilhões, todas recusadas por Samuel Barata, sócio controlador do grupo e à frente da carioca Pacheco. A companhia brasileira não comenta o assunto. Procurada, CVS não respondeu.

Esse interesse pelas redes de drogarias brasileiras é embalado por uma expansão anual de causar inveja à China. As grandes redes viram seu faturamento subir, em média, 15% em 2014, de acordo com a Associação Brasileira de Redes de Farmácias e Drograrias (Abrafarma), que reúne uma fração inferior a 10% das cerca de 68 mil farmácias em operação no país. O resultado das pequenas — que são maioria — teve incremento de 13% sobre 2013, diz a Associação Brasileira do Comércio Farmacêutico (ABCFarma). O Brasil deve saltar de 10º para 4º maior mercado farmacêutico entre 2008 e 2018, segundo dados da IMS Health, atrás apenas de EUA, China e Japão.

— Com o acelerado envelhecimento populacional, os estrangeiros virão. A CVS comprou a Onofre (quase dois anos atrás) para entender o mercado e o consumidor brasileiros. Agora, estaria em busca de ativos que garantam escala para atuar no Brasil. O acordo com a Drogarias São Paulo e Pacheco é questão de preço — diz Caio Moreira, analista do Banco Fator.

Cosméticos rendem mais

Empresas e especialistas afirmam que a atual crise econômica do país não implicará em retração para o setor, que deve manter crescimento de dois dígitos por pelo menos cinco anos.

O envelhecimento populacional e o ganho de renda são chaves no impulso às farmácias. Com maior acesso à saúde, sobem as vendas de medicamentos; com a busca por bem-estar, as de perfumaria. O segmento — principalmente cosméticos — já equivale a um terço do faturamento. Segundo a IMS Health, 34% das vendas vêm de não medicamentos, crescendo acima da média dos remédios, com altas de 10,4% e 8,9%, respectivamente, nos últimos dois anos.

— As mulheres têm papel preponderante neste cenário, pois têm decisão e, agora, poder de compra — diz Sérgio Mena Barreto, presidente da Abrafarma.

Esses itens transformaram o modelo de negócio. As farmácias apostam em espaço para produtos e marcas de beleza.

As cariocas Drogasmil e Farmalife seguem essa receita, remodelando a rede de lojas. Após a reforma, a unidade eleva o faturamento em 20%, diz Ivan Engel, diretor comercial da unidade de varejo da Profarma. A empresa comprou as duas redes em 2013 e é exemplo da estratégia de consolidação. A fusão de empresas está turbinando o Ranking Ibevar 2014, que lista as 120 maiores do varejo brasileiro. No segmento de drogarias e perfumarias, há oito redes no clube do faturamento bilionário, com expansão média de 16,5% sobre 2013.

Pague menos quer abrir capital

Em 2011, as Drogarias Raia e Drogasil deram as mãos. São Paulo e Pacheco fizeram o mesmo. Os dois novos grupos traduzem a motivação para o interesse de estrangeiros no país. O primeiro fechou 2014 com faturamento estimado em R$ 7,38 bilhões; o segundo, R$ 6,4 bilhões.

A Panvel, com 321 lojas na região Sul, equivale a 67% do faturamento do grupo gaúcho Dimed. Das vendas, 35% vêm de itens de beleza, com 20% do total de artigos de marca própria. O cearense Deusmar Queirós, sócio fundador da Pague Menos, com 740 lojas no país, credita a expansão de 18% em 2014 sobretudo à perfumaria e planeja abrir o capital da empresa em Bolsa em 2016.

As farmácias independentes também estão fazendo associações, diz Renato Tamarozzi, diretor executivo da ABCFarma. A união visa à melhora na negociação de preço, mas preserva a gestão de cada negócio.

Índia nega patente a droga contra hepatite C e pode produzir genérico

O Globo:

Numa decisão que causou apreensão na gigante farmacêutica Gilead — e, segundo analistas, pode influenciar outros países em desenvolvimento —, a Índia negou o registro de patente do sofosbuvir, uma substância tida como “revolucionária” no tratamento da hepatite C. Desenvolvida pelo laboratório norte-americano, a droga, de nome comercial Sovaldi, atinge taxas de cura de até 95%, mas tem preços altíssimos de, em média, US$ 1 mil por cada uma das 12 a 24 pílulas requeridas para o tratamento completo.

Líder mundial na produção de de genéricos oriundos de quebras de patentes, a Índia pode estar dando um primeiro passo para suprimir também os direitos da Gilead sobre a substância. Com isso, o país asiático a produzida em laboratórios nacionais com custos muitíssimo menores. Na decisão, a Oficina de Patentes indiana diz que o sofosbuvir “não é tão inovador quanto parece”.

De acordo com Tahir Amin, advogado e diretor de propriedade intelectual da ONG internacional I-Mak (Iniciativa de Medicamentos, Acesso e Conhecimento), dos Estados Unidos, a decisão certamente abre precedente para que as empresas farmacêuticas comecem a produzir o medicamento livremente. A organização e a empresa farmacêutica indiana de genéricos Natco Pharma pediram a recusa do registro da patente há mais de um ano.

Na Europa, o medicamento conhecido como “pílula dos mil dólares” deve ser distribuído gratuitamente pelos sistemas de saúde britânico e espanhol, entre outros. Mas a chegada do tratamento esbarra nas negociações de preços.

O Sistema de Saúde Britânico adiou em quatro meses o uso do sofosbuvir até que a Gilead melhore a oferta de 35 mil libras (ou quase R$ 140 mil) pelo tratamento individual completo. O adiamento surpreendeu, pois o relatório de um instituto ligado ao próprio sistema autorizara a compra, sustentando ser compensadora a longo prazo.

Na Espanha, a fabricante chegou a um acordo com autoridades para oferecer o tratamento por € 18 mil (pouco mais de R$ 55 mil). Mesmo assim, o governo central ainda não tem previsão para o início da distribuição, o que levou as administrações de algumas comunidades autônomas a antecipar a entrega.

Brasil espera daclatasvir

Enquanto isso, ainda não há data para a distribuição, no Brasil, do daclatasvir, outro medicamento considerado inovador no tratamento da hepatite C, embora menos efetivo, com estudos clínicos alcançando a cura em até 90% dos casos. No início do ano, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) aprovou a venda e o uso da substância, mas o SUS não anunciou quando ela chegará aos cidadãos. Estima-se que três milhões de brasileiros sejam portadores do vírus.

BNDES tem R$ 1,6 bilhão para apoio a laboratórios

Elisa Soares – Valor Econômico:

O Profarma, programa de apoio à indústria farmacêutica do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) tem R$ 1,6 bilhão para emprestar até 2017. Os recursos, entre outros propósitos, são para financiar projetos em biotecnologia. Segundo especialistas ouvidos pelo Valor, a nova fronteira pode gerar revolução tecnológica na indústria farmacêutica nacional, melhorar a visibilidade do setor internacionalmente, e reduzir déficit da balança comercial da Saúde, que em 2014 deve ficar em US$ 13 bilhões.

“O Profarma é muito importante para garantir o longo prazo. A indústria está sempre às voltas com investimentos de produção mais imediata”, afirmou o presidente da Cristália, Ogari Pacheco. A empresa trabalha com biotecnologia há 14 anos, e já contratou R$ 75 milhões pelo Profarma para 23 projetos. E estuda novo financiamento, de R$ 300 milhões, para dar continuidade a 20 projetos, entre eles a produção de anticoagulante oral para evitar trombose. A proposta foi entregue ao BNDES, mas ainda não foi aprovada.

A Bionovis, empresa de biotecnologia fundada por farmacêuticas, está em fase pré-operacional, e já submeteu pedido de financiamento ao BNDES. A quantia gira em R$ 500 milhões para construção de fábrica. A companhia já tem contratos com laboratórios públicos, e sete parcerias para desenvolvimento e produção no país voltadas para o tratamento de doenças do sistema imunológico.

A Orygen é outra empresa pré-operacional de biotecnologia, formada por farmacêuticas e com parceria de transferência tecnológica com a Pfizer. Ela estima investir R$ 500 milhões, começa a construir fábrica este ano e deve pedir recursos ao BNDES.

A farmacêutica Libbs já obteve diversos financiamentos do BNDES. O primeiro, de R$ 16,9 milhões, foi em 2004 para a instalação de parque fabril. Em 2007 recebeu R$ 15,8 milhões para pesquisa e desenvolvimento de produtos. Três anos depois, recebeu R$ 47,3 milhões para novos medicamentos e farmoquímicos não produzidos no Brasil.

Em 2013 a Libbs recebeu outro financiamento, R$ 250,8 milhões para a construção de nova unidade de biofármacos, a ser inaugurada em 2016. Ano passado aprovou investimento de R$ 266,7 milhões para projetos de pesquisa e desenvolvimento de fármacos e medicamentos.

Para a diretora de relações institucionais da empresa, Márcia Bueno, o Profarma é importante pois permitiu o aumento da produção nacional, adensamento tecnológico e aumento da realização de estudos clínicos no país, além de ajudar na redução da importação de medicamentos.

O superintendente da área industrial do BNDES, Mauricio Neves, concorda. Para ele, há relação direta entre as prioridades do programa nos últimos dez anos com o desenvolvimento tecnológico da indústria no país. Segundo o chefe de departamento de produtos para a saúde do banco, Pedro Palmeira, o Profarma já financiou R$ 5 bilhões para 116 projetos de farmacêuticas.

No entanto, há consenso entre os executivos do setor de que é preciso fazer mais. A produção nacional de medicamentos ainda depende da importação de princípios ativos. Para Pacheco, da Cristália, a produção nacional desses componentes e a redução da dependência internacional são “calcanhares de Aquiles”.

O secretário de Ciência, Tecnologia e Insumos Estratégicos (SCTIE) do ministério da Saúde, Carlos Gadelha, admite o déficit comercial na saúde. Mas rebateu críticas sobre a importação de princípios ativos. Para ele não existe falsa dicotomia entre inovar e transferir tecnologia.

O ministério se aproximou do Profarma a partir de 2007,e lança, anualmente, lista de produtos estratégicos para o SUS. A medida garante demanda para que as farmacêuticas inovem e produzam no Brasil. Estão em curso 98 processos de transferência de tecnologia para produzir 92 produtos no país. Destes, 26 já são comprados pelo ministério, e 27 são de biotecnológicos.

Gadelha estima que o programa do BNDES, em conjunto com a Finep, proporcionaram R$ 13 bilhões em investimentos na indústria farmacêutica nos últimos anos. E explica que a lista de produtos representa, hoje, poder de compra de R$ 9 bilhões ao ano. A economia para o SUS é de R$ 3 bilhões anuais. “Com a lista do ministério, as farmacêuticas têm mercado garantido. Dá segurança ao desenvolvimento tecnológico, reduz custos com comercialização e marketing”, argumenta.

O ministério lançou outra lista de produtos. As empresas tem que apresentar projetos para 21 deles até abril. O enfoque é em equipamentos e biotecnologia. “Vamos lançar no primeiro trimestre marco regulatório de parceria de pesquisa e desenvolvimento para produtos inovadores, para inovação que tenha sido feita no Brasil”, afirma o secretário.

Hertape recompra sua fatia em sociedade e retoma investimentos

Valor Econômico:

Dez anos após vender 50% de seu capital para a espanhola Calier, a indústria veterinária mineira Hertape chegou a um acordo para recomprar a fatia da parceira, e já prepara um ciclo de investimentos de cerca de R$ 90 milhões em pesquisa e desenvolvimento nos próximos três anos, revelou ao Valor o diretor-geral da empresa, Ricardo Renault.

A reorganização societária que agora ensejará mais investimentos não é algo novo para a Hertape. Fundada em 1943 em Belo Horizonte, a companhia até chegou a ter atuação de destaque no país, mas paulatinamente perdeu “expressão” em meio a divergências entre os acionistas – três genros do coronel Juventino Dias, fundador da Cimentos Cauê, que foi vendida na década de 1990 para a Camargo Corrêa.

“A Hertape era uma empresa que tinha ficado com os antigos fundadores por muitos anos, que teve expressão muito grande no mercado, mas foi diminuindo por brigas de sócios”, recorda Renault. Diante disso, houve a primeira reestruturação societária em meados dos anos 1990, pela qual o atual diretor-geral ampliou sua participação e se tornou um dos principais acionistas ao lado de Evaldo Tavares, único oriundo da família de um dos fundadores.

Com a nova composição, a Hertape iniciou profunda transformação, com a construção de uma fábrica em Juatuba (MG), na Grande Belo Horizonte. Em 2000, a planta industrial ficou pronta e a Hertape transferiu sua sede da capital mineira para Juatuba. De lá para cá, a companhia viu seu faturamento crescer quase dez vezes, atingindo R$ 195 milhões no ano passado.

Inaugurada a fábrica, a Hertape tinha como desafio incrementar o portfólio com produtos de maior valor agregado, e precisava de recursos para tanto. É nesse contexto que ocorreu nova reorganização societária. Em 2004, a Calier, que faz parte do grupo espanhol Indukern, adquiriu 50% do brasileira, com o compromisso de investir na construção de uma fábrica de vacinas contra febre aftosa, principal mercado do segmento veterinário no Brasil. “Existem dois tipos de laboratórios: os que têm [vacina para] aftosa e os que não têm”, afirma o executivo.

Considerado elevado mesmo para os padrões dos espanhóis, o investimento na fábrica de vacinas só deslanchou em 2006, com a criação da Inova Biotecnologia, joint venture entre Hertape-Calier e a brasileira Eurofarma. Ao todo, foram investidos R$ 140 milhões para erguer aquela que é uma das maiores fábricas de vacinas contra febre aftosa do país, inaugurada em 2010. Com capacidade para produzir 150 milhões de doses de vacina por ano, a Inova também está sediada em Juatuba. A joint venture representa cerca de 20% do faturamento da Hertape.

Agora, pouco mais de quatro anos após a inauguração da unidade que selou a parceria entre Hertape e Calier, os espanhóis deixam o capital da empresa, em mais uma reorganização societária. “Nós sempre tivemos o sonho de recomprar a participação da Calier”, afirma Renault. Ele não revela o valor do acordo, mas diz que os acionistas da Hertape pretendem obter retorno sobre o investimento num prazo de sete anos.

Segundo ele, a saída dos espanhóis não está ligada à crise que atinge a Espanha, mas a uma estratégia diferente da Calier. Renault avalia que os espanhóis tinham duas “grandes pretensões”: vender os produtos importados no Brasil e transformar o país num entreposto de vendas na América Latina. O primeiro objetivo, diz, foi atingido e a Hertape seguirá como distribuidora da Calier. O mesmo não ocorre com as exportações para a América Latina. “Mas esse nunca foi o nosso foco e isso sempre foi dito”, justifica Renault.

Agora totalmente brasileira, a Hertape concentrará seus investimentos em pesquisa e desenvolvimento – cerca de R$ 30 milhões anuais até 2017 -, com ênfase nos mercados de suínos e pet.