Teva vira gigante de genéricos com oferta de US$ 40 bi

John Reed – Valor Econômico:

A oferta da Teva Pharmaceuticals de US$ 40 bilhões pela Mylan coloca em evidência uma empresa que há muito é um pilar da economia israelense e um nome dominante no mercado mundial de medicamentos genéricos de baixo custo. Caso seja bem-sucedido, o negócio vai reforçar sua liderança no mercado de genéricos – versões que são cópias de medicamentos de marca, mais caros – e protegê-la da perda de patente, em breve, de seu medicamento de maiores vendas, o Copaxone, contra a esclerose múltipla.

A Agência de Remédios e Alimentos americana (FDA, na sigla em inglês) deu luz verde na semana passada para a primeira versão genérica do Copaxone, que representou 20% da receita da Teva e quase metade do lucro em 2014, o que aumentou a pressão sobre a empresa israelense para encontrar novas fontes de crescimento.

Assim como a Teva, a Mylan combina forte presença nos genéricos com seu próprio produto com direitos registrados, de maior margem de lucro – o EpiPen, um tratamento emergencial para reações alérgicas, que também enfrenta a competição de genéricos.

Ao combinar-se com a Mylan, a Teva avalia que vai poder gerar economias anuais de custos e impostos de US$ 2 bilhões, que ajudariam as duas empresas a lidar melhor com os desafios pela frente e a desenvolver novos produtos de mais caros. Investidores a vinham pressionando para ser mais agressiva, pois rivais como a Actavis adquiriram operações em fusões e aquisições nos últimos 12 meses.

A Teva havia mostrado em março sinais de que entraria na onda de fusões, quando acertou a compra da Auspex Pharmaceuticals, dos EUA, por US$ 3,2 bilhões, no que o executivo-chefe, Erez Vigodam, chamou de “primeiro passo importante” para impulsionar o crescimento.

A maior empresa israelense em vendas vinha adotando uma abordagem cautelosa em relação às fusões e aquisições desde que comprou a Cephalon em 2011, por US$ 6,8 bilhões, e não obteve os retornos desejados e ainda ficou carregada de dívidas. Isso também marcou o início de um período turbulento para a Teva, que indicou seu primeiro executivo-chefe não israelense – Jeremy Levin, que era da Bristol-Myers Squibb, dos EUA – para comandar a recuperação. Levin saiu em 2013, após confrontar-se com o conselho de administração sobre a estratégia e depois da renúncia, sob pressão de acionistas ativistas, de Philip Frost, presidente do conselho, que trabalha nos EUA e o havia contratado.

A oferta pela Mylan é a primeira grande investida sob a nova liderança de Vigodam e de Yitzhak Peterburg, que sucedeu Frost.

A Teva é maior produtora mundial de genéricos, em termos de vendas, que em 2014 somaram US$ 20,3 bilhões. Com 45 mil funcionários no mundo, a maior parte fora de Israel, sua estratégia é muito acompanhada em seu país natal, especialmente em um momento em que o sentimento geral contra as grandes empresas é forte.

O país foi assolado por protestos sociais em 2011, alimentados pela irritação com o alto custo de vida. Nas duas eleições mais recentes, os políticos que tentavam ganhar o apoio dos eleitores de classe média prometeram cobrar mais das empresas, inclusive com o combate a brecha nas leis tributárias.

Recentes isenções tributárias generosas concedidas à Teva em troca de mais investimentos em Israel estão sob análise minuciosa do governo. A oferta de US$ 40 bilhões – recorde em um país de 8 milhões de pessoas com um pequeno mercado doméstico – é observada de perto em Israel, mas não houve grande reação no país, antes dos feriados de hoje, pelo Dia da Lembrança, e de amanhã, pelo Dia da Independência. A transação, caso seja concretizada, será a maior aquisição internacional em Israel.

Lei da Biodiversidade libera R$ 270 milhões para pesquisas

Stella Fontes – Valor Econômico:

As novas regras para exploração da biodiversidade brasileira, aprovadas pelo Senado na semana passada, devem destravar até R$ 270 milhões em pesquisas e desenvolvimento de novos medicamentos fitoterápicos no país. Na avaliação da indústria farmacêutica nacional, a Lei da Biodiversidade, que trata do acesso e uso do patrimônio genético de animais, vegetais e micro-organismos brasileiros, estabelece normas claras para as pesquisas científicas com plantas medicinais e, por isso, permitirá a retomada de projetos que foram interrompidos na última década diante da falta de regulamentação.

Um levantamento do Grupo FarmaBrasil (GFB), constituído em 2011 para representar a indústria farmacêutica brasileira de pesquisa e inovação, indica que ao menos 27 projetos estão engavetados. Cada projeto de desenvolvimento, por sua vez, consome em média R$ 10 milhões.

“A nova legislação flexibiliza a burocracia e estimula o uso da biodiversidade. Preocupadas com multas e com o excesso de burocracia [decorrentes da MP 2186/2001], as empresas deixaram de investir por anos”, disse ao Valor a vice-presidente do GFB, Adriana Diaféria. O PLC 2 de 2015, aprovado pelos senadores, voltará à Câmara dos Deputados, que apreciará alguns ajustes feitos no Senado, e então seguirá para sanção presidencial.

Ao estimular o desenvolvimento de medicamentos a partir de plantas medicinais, a nova legislação também deve se refletir em expansão da participação dos fitoterápicos no mercado farmacêutico nacional. Segundo o GFB, com base em dados do IMS Health, esses produtos ainda respondem por parcela muito pequena do mercado, de 1,58% no ano passado e de 1,76% em 2013. Na Alemanha, por exemplo, medicamentos desenvolvidos a partir de plantas medicinais já representam 10% das vendas do varejo farmacêutico.

Em outros números, a fatia no Brasil equivale a pouco mais de R$ 1 bilhão – R$ 1,039 bilhão, mais precisamente -, de um total de R$ 66,971 bilhões em vendas no ano passado, dando sequência à perda de participação de mercado verificada nos anos anteriores. Em 2014, ao mesmo tempo em que o mercado brasileiro de medicamentos cresceu 13,3%, mostra o levantamento GFB, as vendas de fitoterápicos avançaram apenas 1,3%. O medicamento mais vendido dessa categoria foi o Tamarine, um laxante do laboratório Farmasa, com R$ 62,8 milhões.

No laboratório Hebron, que completa 25 anos da operação em Caruaru (PE) neste ano, a expectativa é grande em relação às novas regras. De acordo com Josimar Henrique da Silva, fundador do tradicional laboratório nesse segmento, o faturamento com fitoterápicos deverá dobrar nos próximos cinco ou seis anos, frente aos R$ 60 milhões do ano passado. “Mais importante do que dobrar o faturamento é entrar no clube fechado de pesquisa. Isso é importante para o país”, afirmou.

Há alguns anos, o Hebron chegou a vender três itens de seu portfólio para a Aspen Pharma, da África do Sul, e agora, sob a nova legislação, pretende acelerar o lançamento de fitoterápicos inovadores. “O maior benefício desse projeto é a regulamentação. Como até hoje a regra não era clara, a indústria foi prejudicada e interrompeu a exploração da biodiversidade nos últimos dez anos”, disse.

Na Biolab, que também interrompeu pesquisas em fitoterápicos, a percepção é a de que a nova legislação traz estímulos importantes ao setor, como por exemplo permitir a patente de extratos vegetais. Sob as novas regras, a farmacêutica pretende retomar seis projetos que foram congelados, nas áreas de dermatologia, alergia e nanotecnologia em fitoterapia.

De acordo com Dante Alário Jr., diretor da Biolab, hoje os fitoterápicos representam cerca de 4% do faturamento, mas há potencial para crescimento. “Com leis claras, a indústria tende a explorar ainda mais a possibilidade de operação integrada [como a do Hebron]”, acrescentou.

Entre as principais mudanças que serão estabelecidas pela Lei da Biodiversidade estão a extinção da aprovação prévia pelo Conselho de Gestão do Patrimônio Genético (CGEN) para organizações nacionais para pesquisa e desenvolvimento e o pagamento de 0,1% a 1% da receita líquida anual obtida com o produto desenvolvido com base na biodiversidade brasileira a partir de seu lançamento no mercado. Pela regra em vigor, há necessidade de autorização prévia e o contrato de repartição de benefícios deve ser firmado mesmo sem que se saiba se o produto será viável comercialmente.

Indústria perde fatia na exportação

Marta Watanabe – Valor Econômico:

A desvalorização do real frente ao dólar faz a exportação voltar aos planos centrais das indústrias, mas a recuperação dos embarques tem um longo caminho a percorrer. Em sete dos dez destinos mais importantes de produtos industrializados – Estados Unidos, Argentina, Holanda, México, Paraguai, Cingapura, Chile, Venezuela, Colômbia e Alemanha -, a fatia de exportação de manufaturados dentre os embarques brasileiros totais de 2014 foi menor que a de 2008, ano anterior à crise financeira, que derrubou a demanda internacional.

Também em sete entre os dez países a fatia foi menor que a de 2003, quando iniciou-se a chamada época de ouro, com expansão das commodities e os básicos representavam apenas 28,9% dos embarques totais, bem menos que os 48,7% de 2014. O estudo, da Associação de Comércio Exterior do Brasil (AEB), mostra que houve um domínio maior dos produtos básicos na pauta de exportação brasileira. E isso não aconteceu apenas por conta de destinos como China, grande consumidor do minério de ferro e da soja brasileiros. O avanço dos produtos básicos aconteceu também em destinos mais tradicionais para o Brasil no embarque de produtos industrializados. O estudo avaliou 40 países de destinos das exportações brasileiras, entre os 50 maiores.

Um bom exemplo do avanço dos básicos e recuo dos manufaturados, diz José Augusto de Castro, presidente da AEB, são os Estados Unidos. Em 2014, aponta o levantamento, os EUA retomaram a posição perdida para os argentinos em 2008, de maior destino de manufaturados brasileiros. A participação dos industrializados nos embarques do Brasil, porém, caiu significativamente.

Em 2003, os manufaturados representavam 77,2% do que o Brasil exportava para os americanos. Em 2008, um pouco antes dos efeitos da crise na economia real, a fatia já havia caído para 58,7%. No ano passado, houve novo recuo, para 50,6%. Ao mesmo tempo, a venda de produtos básicos aos americanos subiu de 8,6% dos embarques em 2003 para 23,6% no ano passado.

O embarque para os EUA é considerado emblemático principalmente neste momento, diz Castro, quando a desvalorização do real frente ao dólar e a expectativa de uma demanda doméstica fraca fazem as empresas se voltarem para a exportação.

“O mercado para o qual os brasileiros estão olhando são os EUA. Lá estão as grandes expectativas. O problema é que o mundo inteiro está olhando agora para lá”, diz o executivo da AEB. O avanço dos básicos em detrimento dos manufaturados na exportação aos americanos, diz Castro, não aconteceu somente em função de preços das commodities, que tiveram o auge em 2011. “Houve perda de mercado do industrializado brasileiro em relação a outros fornecedores internacionais.”

Castro calcula o esforço para voltar aos índices de 2000, quando os EUA representavam 24% das exportações totais brasileiras e os manufaturados alcançavam 72% do que o Brasil exportava aos americanos. Retornar a essas proporções, contabiliza Castro, equivaleria a elevar as exportações totais aos americanos em US$ 25 bilhões e as de bens manufaturados em US$ 23 bilhões. Com taxas de crescimento sustentadas, embora ainda relativamente baixas, diz Castro, os EUA constituem mercado com elevado potencial para expansão de industrializados.

“Mas é preciso que tenhamos condições de competitividade, não só de preço, como também de financiamentos”, diz Castro. Um mercado americano em potencial, destaca, é o de máquinas e equipamentos. “Para esse tipo de bem, o financiamento é essencial.”

O desempenho das trocas de manufaturados com os parceiros comerciais da América Latina também mostra que o industrializado brasileiro perdeu fôlego nos embarques. Na venda aos chilenos, a parcela de manufaturados caiu de 76,4% em 2003 pra 65,1% em 2008 e para 46,7% em 2014. Na Venezuela a queda também foi acentuada. A fatia de manufaturados na exportação total brasileira recuou de 92,3% em 2003 para 69,3% em 2008 e para 47,3% no ano passado.

Para Argentina e México, a parcela de industrializados oscilou, mas manteve-se alta. Em 2003, 88,9% do que o Brasil vendia aos argentinos era de manufaturados, parcela que subiu para 91,8% em 2008 e caiu para 89,3% no ano passado. Para o México, os manufaturados representaram, nos mesmos períodos, respectivamente, 91%, 84% e 85,9%. Um dos aspectos preocupantes nos embarques para os dois países é que o valor exportado diminuiu no período pós-crise. O valor de manufaturados brasileiros embarcados para a Argentina em 2008 foi de US$ 16,16 bilhões. Em 2014, encolheu para US$ 12,75 bilhões. Para os mexicanos, na mesma comparação, o valor de manufaturados recuou de US$ 3,59 bilhões para US$ 3,15 bilhões.

Esse desempenho no comércio regional, diz Castro, acende uma luz amarela. Os países mais próximos do Brasil, destaca, são tradicionais compradores de manufaturados brasileiros. Os países da América do Sul, aponta o estudo, ocupam cinco das dez posições na classificação dos destinos mais importantes em valor nominal exportado de manufaturados.

Os sul-americanos também ocupam as seis primeiras posições quando a classificação é por fatia de manufaturados na exportação brasileira. Nesse critério, os seis primeiros destinos são Bolívia, com 95,4%, Paraguai, com 93,2%, Colômbia, com 92,6%, Equador, com 92,2%, Peru, com 92% e Argentina, com 89,3%. O ranking leva em conta a exportação de 2014.

Esses dados, diz Castro, sinalizam que a maior competitividade dos manufaturados exportados pelo Brasil está concentrada e restrita aos mercados da América do Sul, ainda que seus países estejam longe de ser os maiores mercados mundiais de importação de industrializados. Mas seu potencial, diz o executivo da AEB, não pode ser menosprezado. A dificuldade de exportar manufaturados para esses países, seja revelada pela redução de fatia de exportação de industrializados ou pelo recuo no valor exportado, deve ser analisada. Uma estratégia deve ser traçada, afirma Castro, para que não se perca o potencial de crescimento do comércio para a região.

Para Castro, uma das prioridades é o estabelecimento de acordos comerciais mais amplos. Em relação a destinos como Chile, Colômbia e Venezuela, diz, a perda de mercado do Brasil acontece porque esses países estão ampliando relações com outras regiões, seja por meio de acordos comerciais, ou por questão de financiamentos. O Chile e a Colômbia, destaca Castro, fizeram acordos de livre comércio com outros países e tendem a reduzir ainda mais as importações de manufaturados “made in” Brasil por conta da criação do bloco da Aliança do Pacífico.

Brasil se mantém à margem do comércio mundial

O Globo:

Um acordo no Congresso americano anunciado na semana passada colocou os EUA mais perto do que poderá se configurar no maior bloco comercial do planeta. Trata-se da Parceria Transpacífica (TPP, na sigla em inglês), que reúne 11 países da Ásia e das Américas, cerca de 40% do PIB mundial e quase 800 milhões de consumidores. Republicanos e democratas chegaram a um consenso para autorizar o presidente Barack Obama a concluir as negociações pelo sistema fast-track, isto é, sem possibilidade de emendas do Legislativo, que terá que aprovar ou rejeitar em bloco o projeto.

Se por um lado, a medida é estratégica para o governo americano, que tenta conter o avanço da influência chinesa — cujo sinal de vigor mais recente está na adesão de economias europeias ao Banco Asiático de Investimento em Infraestrutura (AIIB) —, por outro, ela ilumina velhos equívocos da política de comércio externo do Brasil. Tangido por interesses ideológicos que remontam aos tempos da Guerra Fria, o governo do PT resiste a firmar acordos bilaterais vantajosos, que poderiam integrar o país a regiões comercialmente importantes e ajudar nossa indústria, já fortemente afetada pela queda dos preços das commodities, baixo crescimento, tributações exorbitantes e os erros da política econômica do governo.

Em vez disso, o Brasil insiste no Mercosul como principal via de seu comércio externo. E justamente num momento em que o bloco sul-americano se isola cada vez mais, abatido por crises internas — como o calote argentino e a crise econômica e política venezuelana — que dificultam as conversações em andamento, sobretudo com a UE.

Quando Colômbia, Chile, Peru e México anunciaram a criação da Aliança do Pacífico, o governo brasileiro reagiu prometendo refundar o Mercosul, para integrá-lo ao processo crescente de acordo multilaterais. Até agora, porém, os países do bloco mal conseguiram resolver problemas internos, querelas tarifárias e desentendimentos gerados pela adoção de medidas protecionistas de suas indústrias, como é o caso das alíquotas argentinas impostas a produtos brasileiros.

Enquanto o país fica para trás, ancorado no Mercosul, o mundo vê surgir inúmeras iniciativas de acordos comerciais, bilaterais e multilaterais, como alternativa às negociações no âmbito da Organização Mundial do Comércio. Questões como serviços, investimentos, convênios tecnológicos e propriedade intelectual, que emperraram na OMC, ganham nova possibilidade por meio dessas negociações, mais diretas e simples. Blocos de vários tamanhos e importância se formam e dão a seus membros ganhos de produtividade e competitividade. Os exemplos são muitos, assim como as vantagens. O Brasil, porém, continua preferindo se manter à margem.

MPF volta a pedir à Justiça que glifosato seja banido do país

Mariana Caetano – Valor Econômico:

O Ministério Público Federal (MPF) pediu à Justiça para reconsiderar a possibilidade de conceder uma liminar que proíba novos registros de agrotóxicos à base de oito ingredientes ativos, entre eles o herbicida glifosato. Em despacho feito na quinta-feira, 16 de abril, o órgão também recomendou à Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) que conclua “com a máxima urgência” a reavaliação toxicológica do glifosato, determinando “seu banimento do território nacional”.

A ofensiva do MPF ganhou novo fôlego depois que um relatório divulgado no fim de março pela Agência Internacional de Pesquisa sobre o Câncer (IARC), ligada à Organização Mundial da Saúde (OMS), apontou o glifosato – um dos defensivos mais usados no mundo – como um agente causador da doença. Receosa com os resultados, a EPA, agência de proteção ambiental dos EUA, anunciou que exigirá um plano de manejo para o uso do produto no país. No Brasil, a Anvisa disse que dará “imediata continuidade à análise do glifosato”, num sinal de que voltará a dar atenção ao tema, o que vinha sendo pedido pelo MPF há mais de um ano.

Em março de 2014, o MPF entrou na discussão sobre defensivos com duas ações na Justiça. A primeira buscava obrigar a Anvisa a concluir a reavaliação dos oito ingredientes ativos. A segunda questionou o 2,4-D, um dos componentes do “agente laranja”, solicitando a suspensão do registro enquanto a reavaliação não chegasse ao fim. À época, a liminar que pedia a suspensão da venda desses produtos foi negada.

Na petição enviada agora à 7ª Vara Federal, o procurador Anselmo Henrique Cordeiro Lopes diz que, em dezembro de 2014, a própria Anvisa determinou o banimento de dois ingredientes ativos que são objeto das ações judiciais: o forato e a parationa metílica. Ele pediu que o Ministério da Agricultura informe, em um prazo de 15 dias, os procedimentos adotados para cancelar os registros de agrotóxicos com os dois ingredientes.

No que diz respeito aos outros seis, cinco deles (lactofem, carbofurano, abamectina, tiram e paraquate) já têm parecer técnico da Anvisa no mesmo sentido, conforme o MPF. “Os documentos técnicos da Anvisa apontam para a necessidade do banimento de todos esses ingredientes ativos, em razão de suas potenciais características carcinogênicas, mutagênicas, teratogênica e/ou disrupturas endócrinas”, afirma o MPF.

A confirmação de óbitos no Brasil ligados aos defensivos também é mencionada. Na petição, o MPF cita Centros de Informações e Assistência Toxicológica do Paraná, de Santa Catarina e Rio Grande do Sul que registraram 11, 41 e 36 mortes, respectivamente, entre 2009 e 2013, em decorrência “da exposição aguda aos ingredientes dos agrotóxicos”.

No dia 7 de abril, o MPF já havia pedido a abertura de um novo inquérito, para verificar se há necessidade de cancelar as liberações de venda de sementes transgênicas. O órgão adiantou que pedirá nos próximos dias à Comissão Técnica Nacional de Biossegurança (CTNBio) cópias dos procedimentos de liberação comercial de transgênicos tolerantes ao herbicida glifosato.

 

Para OMC, exportações do país para UE e EUA podem crescer

Assis Moreira – Valor Econômico:

As perspectivas de expansão das exportações brasileiras são melhores na União Europeia (UE) e nos Estados Unidos do que na China em 2015, sinaliza Coleman Nee, um dos principais economistas da Organização Mundial do Comércio (OMC). A avaliação ocorre no rastro dos resultados de 2014, quando o Brasil teve a maior queda nas exportações entre as grandes economias. O país caiu três posições no ranking de maiores exportadores (de 22º para 25º) e a participação no comércio global passou de 1,3% para 1,2% do total.

Para Roberto Azevêdo, diretor-geral da OMC, a baixa de preços das commodities pode continuar atingindo as cifras do comércio do Brasil e de outros exportadores no futuro próximo.

Nee observa que as importações da China enfraqueceram e Pequim vai importar menos minério de ferro e metais, por exemplo. O que pode contrabalançar é a esperada retomada, mesmo modesta, na Europa e nos EUA. ”Mesmo essa demanda será bastante fraca, porque o desemprego na Europa continuará acima de 10%”, afirmou.

Com relação ao comércio na América Latina, os exportadores brasileiros também terão menos possibilidades, segundo Nee, considerando que a Argentina continua em crise econômica e a Venezuela tem sido afetada pela crise do petróleo.

Em 2014, o valor das exportações brasileiras declinou 7%, com a degringolada dos preços de commodities, que não foi compensada pelo setor industrial com problema de competitividade. A queda ocorreu também em volume (ajustado pela inflação e câmbio), de 1,8%. As importações caíram 5% em valor e 2,8% em volume.

As vendas para a UE, principal importador de produtos brasileiros (18,65% do total), baixaram 11,9%. As exportações para a China (segundo parceiro, com 18,04%) caíram 11,7% e para a Argentina, 27,2%. Para os EUA (12% do total exportado), houve alta de 9,6%.

Pelas projeções da OMC, as importações da América do Norte e da Ásia podem aumentar este ano cerca de 5%, enquanto na Europa o crescimento das compras no exterior fica em 2,7%.

As perspectivas para a China são mais incertas. O crescimento chinês de pouco mais de 7% é a mais fraca taxa em 24 anos e as autoridades chinesas revisaram para baixo as metas de produção. Em 2014, as importações globais da China em volume caíram 3,9%. Para a OMC, a demanda chinesa deve se estabilizar, e não acelerar, em 2015.

Para este ano, as perspectivas continuam sombrias para o Brasil e o resto da região. Para a OMC, as exportações da América do Sul e Central devem subir apenas 0,2% em 2015, depois de ter sofrido contração de 2,5% no ano passado. Do lado das importações, em 2014 houve contração de 3% e a expectativa é de nova queda de 0,5% neste ano, ilustrando a que ponto as economias das duas regiões têm desacelerado, sob impacto da recessão no Brasil.

A queda do dólar e dos preços de commodities têm afetado as transações internacionais, com evidente impacto na balança comercial de emergentes importantes como o Brasil.

A OMC menciona recentes pesquisas entre empresários sobre a atividade econômica, que apontam para recuperação este ano na União Europeia, crescimento moderado nos EUA e atividade ainda frágil em alguns emergentes, particularmente Brasil e Rússia.

A entidade aponta mais riscos à frente. O mais proeminente deles é a divergência de políticas monetárias nos EUA e na zona do euro. O governo americano planeja aumentar os juros este ano, enquanto os europeus começaram seu programa de maior liquidez e dinheiro mais barato.

Estudo desvenda possível causa e busca terapia para Alzheimer

O Globo:

Pesquisadores da Universidade de Duke, nos Estados Unidos, conseguiram interromper a progressão do mal de Alzheimer em camundongos. Com estudo publicado nesta quarta-feira no “Journal of Neuroscience”, eles acreditam estar perto da possível causa da doença e de uma nova estratégia para desenvolver uma terapia. Hoje, mais de 44 milhões de pessoas sofrem de demência, sobretudo o Alzheimer, e não há tratamento para reverter ou reduzir os sintomas.

A maioria das linhas de pesquisa sobre o Alzheimer é focada no papel da amiloide, uma proteína que se acumula no cérebro em forma de placas e provoca a morte dos neurônios à medida que o mal progride.

Mas, desta vez, o estudo voltou sua atenção para o sistema imunológico do cérebro e mostrou que as micróglias — células que defendem o sistema nervoso de qualquer sinal de infecção — têm um papel fundamental no desenvolvimento da demência.

— A pesquisa abre portas para pensar a doença de uma maneira completamente diferente — anima-se a professora de neurologia da universidade e principal autora do estudo, Carol Colton. — Os trabalhos de campo têm se voltado para a amiloide nos últimos 15, 20 anos, e nós decidimos observar outras coisas porque ainda não entendemos o mecanismo da doença ou como desenvolver terapias eficientes.

Os pesquisadores notaram, portanto, que, no início dos sinais de Alzheimer, as micróglias ativam a produção da molécula CD11, que suprime o sistema imunológico e consome a arginina, importante nutriente e protetor do cérebro. A molécula foi encontrada em altas concentrações nas regiões envolvidas com a memória, onde os neurônios tinham morrido.

Droga já testada em câncer

A droga conhecida como difluorometilornitina (DFMO) já está sendo testada em humanos para certos tipos de câncer e nunca tinha sido usada em pesquisas de Alzheimer. Neste caso, ela foi usada para bloquear a CD11 no estágio inicial da doença em camundongos, quando os sintomas eram pouco aparentes. Como resultado, os cientistas notaram uma menor concentração da molécula e de placas amiloides no cérebro dos animais, que também se saíram melhor em testes de memória. A ideia agora é testar se a droga também é capaz de reverter sinais mais expressivos da doença.

— O bom resultado do uso da droga é um forte indicador de que podemos estar num caminho interessante e válido para compreender como a patologia começa — acrescenta Carol. — Há a possibilidade de que outros agentes com base nesta droga sejam desenvolvidos para um uso eficaz e seguro na interrupção do início do Alzheimer em humanos.

A arginina é um aminoácido essencial para vários processos corporais, incluindo a divisão celular, a cicatrização e as respostas imunitárias. Ela pode ser encontrada em suplementos disponíveis no mercado ou em alimentos, incluindo produtos lácteos, carne, nozes e grão de bico. No entanto, não adianta sair esvaziando as prateleiras de supermercados se a ideia é usar tais alimentos contra o Alzheimer. A equipe da Duke explicou que ingerir mais arginina não teria qualquer impacto sobre a redução do risco de Alzheimer. Isso porque uma densa malha de células e vasos sanguíneos chamada barreira sangue-cérebro determina a quantidade de aminoácidos capaz de penetrar o cérebro. Além disso, quando dentro do órgão, a arginina teria seus níveis controlados por processos naturais, sendo quebrada pela enzima arginase.

Decisão sobre fábricas de vacinas contra aftosa gerou divergência

Luiz Henrique Mendes e Cristiano Zaia – Valor Econômico:

Responsável por 50% da produção nacional de vacinas contra a febre aftosa, a mineira Vallée intercedeu na semana passada junto a ministra da Agricultura, Kátia Abreu, pela fábrica de vacinas da empresa, fechada desde o início do ano por “não conformidades” com as normas de biossegurança.

Em reunião com a ministra, a Vallée alegou risco de faltar vacinas em 2016 caso a planta continue fechada. Na última segunda-feira, a Secretaria de Defesa Agropecuária (SDA) do Ministério da Agricultura publicou no “Diário Oficial da União” a suspensão de algumas das normas por um ano.

Na prática, a medida deve permitir a reabertura da fábrica da Vallée, como o Valor já informou na terça-feira. Outra empresa beneficiada com a decisão é a Merial, braço veterinário da farmacêutica francesa Sanofi. A fábrica de vacinas da empresa também está fechada por “não conformidades” com as normas de biossegurança preconizadas pela Instrução Normativa nº 5, de 2012. Foi essa a normativa que teve alguns artigos suspensos pela SDA.

Contrário às suspensões, Marcos Vinícius de Santana Leandro Júnior, diretor do Departamento de Fiscalização de Insumos Pecuários (DFIP), responsável por fiscalizar as fábricas de vacinas, foi exonerado ontem.

Procurado pela reportagem, o diretor comercial da Vallée, Ricardo Pinto, informou que a reunião com a ministra Kátia Abreu foi intermediada pelo senador Wellington Fagundes (PR-MT), que já tinha audiência marcada com a ministra. O encontro ocorreu no último dia 7 de abril e contou com a participação do secretário de Defesa Agropecuária, Décio Coutinho, disse Pinto.

A assessoria da imprensa do senador Wellington Fagundes confirmou o teor da conversa. Anteontem, o parlamentar elogiou no plenário do Senado a suspensão de algumas normas. “Isso é um ganho econômico tremendo, grandioso, esperado por todos. Imagine o que os pecuaristas viveriam com o risco de faltar vacina”, disse Fagundes, segundo a “Agência Senado”. Para o parlamentar, a defesa sanitária é um tema caro, informou a assessoria de imprensa. Fagundes representa Mato Grosso, principal Estado produtor de gado do país e que possui fronteira seca com o Paraguai, país que teve caso de aftosa em 2011. O Brasil não tem casos da doença há praticamente dez anos.

Ao Valor, Pinto disse que apenas expôs o problema à ministra. “Não ia ter vacina em 2016”, disse. O executivo também assegurou que não houve qualquer “pedido formal” para que a normativa fosse suspensa. Pinto também reafirmou que a decisão da SDA o surpreendeu.

Do ponto de vista sanitário, o executivo defendeu que a medida não representa risco para a biossegurança. Antes de ter a fábrica paralisada, disse, a Vallée produzia vacinas sem qualquer tipo de problema, respeitando as regras anteriores, de 1994.

Conforme o diretor da Vallée, a ministra não estava a par da gravidade do problema. Assim que tomou conhecimento, afirmou Pinto, Kátia Abreu determinou ao secretário Décio Coutinho e a um assessor jurídico que encontrassem uma solução.

Em que pese a alegação da Vallée, o Ministério da Agricultura informou ao Valor no dia 7, mesma data do encontro entre Kátia Abreu e o executivo da Vallée, que não havia risco de desabastecimento em 2016 caso as fábricas continuassem fechadas. Procurado novamente, o Ministério da Agricultura não respondeu.

A decisão da SDA desagradou a fiscais agropecuários federais do Ministério da Agricultura. O Valor teve acesso a uma nota técnica assinada por 14 fiscais defendendo “imediata revogação” da medida que suspendeu as normas previstas na IN nº 5/2012. No documento, os técnicos alertam para o “risco real de escape de vírus das fábricas que não cumpram os requisitos de biossegurança cuja eficácia foi suspensa”. Segundo os fiscais, a medida “representa um retrocesso à biossegurança em laboratórios e ameaça o status sanitário atual de controle” da doença no Brasil.

Entre os técnicos que assinaram o documento está Marcos Vinícius de Santana Leandro Júnior, exonerado do cargo de diretor do DFIP. O Valor apurou que o diretor discordou da suspensão das normas em conversa na sexta-feira com o secretário Décio Coutinho, seu superior. Procurado, o Ministério da Agricultura não comentou o motivo da exoneração. O ex-diretor também não comentou.

Além dos fiscais, a medida também contrariou as empresas que possuem fábricas de vacina em funcionamento e em consonância com as normas, casos de Innova (controlada por Hertape e Eurofarma) e Ouro Fino, como a reportagem já informou. A alegação é que não há risco de falta de vacinas. As empresas não quiseram comentar.

Vendas de manufaturados crescem 9% em março

Tainara Machado e Denise Neumann – Valor Econômico:

Os dados da balança comercial de março mostram uma melhora das exportações globais de produtos industrializados brasileiros, segundo boletim a ser divulgado hoje pela Fundação Centro de Estudos do Comércio Exterior (Funcex). No mês, as vendas de produtos manufaturados subiram 8,7% em relação a igual período do ano anterior, enquanto os desembarques de itens semimanufaturados tiveram avanço de 25,9%, o que levou o acumulado no ano para terreno positivo, com alta de 3,1% no primeiro trimestre.

Daiane Santos, economista da Funcex, observa que esse resultado melhor, que começa a refletir a desvalorização da taxa de câmbio nos últimos meses, amenizou em parte a queda de 18,6% dos desembarques de produtos básicos pelo Brasil. Com isso, a exportação total caiu 3,7% no mês passado, em relação a março de 2014.

“Temos um horizonte um pouco mais positivo para alguns setores, principalmente o industrial, pensando nas vendas externas”, comenta Daiane. A economista afirma que as vendas de manufaturados para países da América do Sul e da América do Norte confirmaram em março tendência de alta que já havia sido observada em fevereiro, sempre na comparação com o mesmo mês do ano anterior. Para a economista, a retomada do crescimento nos Estados Unidos deve favorecer esse movimento. No primeiro trimestre, as vendas de manufaturados para o país cresceram 10% em relação a igual período do ano passado.

Para Silvio Campos Neto, economista da Tendências, o Brasil poderia aproveitar melhor esse cenário caso tivesse investido mais em acordo bilaterais com países desenvolvidos, como EUA e União Europeia.

Em Brasília, o ministro do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior, Armando Monteiro, afirmou que o Plano Nacional de Exportações será anunciado nos próximos dias e minimizou a demora no lançamento do pacote, que prevê melhora das condições de acesso das exportadoras a mercados internacionais.

Venda de medicamento sobe 12% no primeiro trimestre

Stella Fontes – Valor Econômico:

As vendas de medicamentos no varejo farmacêutico nacional superaram as expectativas ao longo do primeiro trimestre e cresceram 12%, na comparação anual, para R$ 10,7 bilhões, segundo dados do IMS Health compilados pela Associação da Indústria Farmacêutica de Pesquisa (Interfarma). No mesmo intervalo do ano passado, o crescimento havia sido de 14%, com faturamento de R$ 9,6 bilhões.

A indústria trabalhava com expectativa de redução do ritmo de expansão no início deste ano, uma vez que importantes setores industriais têm registrado queda no faturamento e o nível de emprego, que tem impacto direto nas vendas das farmácias, também mostra retração. A taxa de 12%, porém, veio melhor do que o esperado.

“Mesmo nesse momento de dificuldade na economia, a indústria farmacêutica está apresentando um crescimento praticamente estável e muito acima de outros setores. Isso já aconteceu em outras crises, porque os medicamentos são produtos de primeira necessidade”, disse o presidente-executivo da Interfarma, Antônio Britto. “Contudo, não descartamos a possibilidade de haver um impacto negativo no futuro”, acrescentou.

Em 12 meses até março, as vendas do mercado farmacêutico varejista no Brasil somaram R$ 43,1 bilhões, alta de 11,4% na comparação com os R$ 38,7 bilhões faturados em igual intervalo anterior – em linha com o crescimento de dois dígitos verificado nos últimos anos. De acordo com o IMS Health, medicamentos similares representaram 48% do faturamento das farmácias brasileiras em 12 meses até março, enquanto os remédios de marca responderam por 39% das vendas e os genéricos 13%.