Momento de tomar decisões na negociação Mercosul- UE

Everton Vargas – Valor Econômico

As mudanças em curso na economia global tornam as negociações Mercosul-União Europeia (UE) tão importantes do ponto de vista estratégico quanto os benefícios econômicos que um acordo deverá gerar. Agora é o momento de tomar decisões que irão definir o futuro da relação econômica entre o Mercosul e a UE.

A Organização Mundial do Comércio (OMC) recentemente projetou crescimento de 4,4% no comércio internacional de bens em 2018. Essa perspectiva é animadora porque indica estar a economia mundial deixando para trás, depois de dez anos, os efeitos desastrosos da crise financeira e econômica que começou em 2008. Apesar disso, como alerta a própria OMC, essa projetada expansão do comércio pode ser comprometida pelo aumento de práticas restritivas, como aquelas que estamos começando a ver surgir.

Contra esse pano de fundo, o Mercosul e a União Europeia buscam finalizar uma das maiores negociações comerciais em andamento no mundo. Ao aproximar economias com PIB somado de US$ 19 trilhões e um mercado de 750 milhões de pessoas, um acordo comercial Mercosul-UE renovaria o compromisso com o comércio internacional como um instrumento para gerar crescimento sustentável, empregos, competitividade e desenvolvimento.

Não há espaço para um acordo no qual prevaleçam apenas as expectativas e interesses de um dos lados

Da perspectiva do Brasil, um acordo comercial pode intensificar nossa relação econômica com a UE, que já é densa. O Brasil é o sexto principal investidor na UE (excluídos os paraísos fiscais), em cujo território fabricamos aviões, motores e produtos alimentícios, entre outros. Por sua vez, o Brasil é o terceiro principal destino dos estoques de investimentos da UE no mundo. O Brasil frequentemente representa uma das mais importantes fontes do faturamento de empresas europeias – em alguns casos, o Brasil é a principal origem do faturamento dessas empresas. O comércio bilateral chegou a US$ 67 bilhões em 2017, um dos maiores volumes de comércio bilateral do Brasil. Há grande potencial ainda a ser explorado em áreas como compras governamentais e indicações geográficas.

Assim, há muito que ambos os lados poderão ganhar com maior estímulo ao comércio e ao investimento bilateral e com uma maior presença mútua nas respectivas economias.

Negociações comerciais nunca são tarefas fáceis dadas as complexidades de ordem técnica e política sempre presentes. No momento atual, isso é ainda mais desafiante. Evidentemente, temos de responder às demandas legítimas de nossas sociedades, que esperam dos acordos comerciais resultados justos e equilibrados para todos. Isso explica, por exemplo, por que o Brasil tem sempre defendido que negociações comerciais, inclusive aquela entre Mercosul-UE, incluam cláusulas que preservem o espaço para políticas em áreas como saúde pública, educação, proteção ambiental e desenvolvimento.

Desafios de uma natureza muito diferente surgem, todavia, em um momento no qual o mundo passa pelos rearranjos de ordem política, econômica e social que estamos vivenciando. De forma similar a outros atores globais, essas mudanças estruturais deverão afetar a forma como o Brasil se insere na economia mundial no futuro próximo.

Um cenário possível aponta para uma maior internacionalização e diversificação da economia brasileira, no qual a posição relativa de que atualmente desfruta a UE em nossa economia se vê afetada.

Já se podem detectar elementos que evidenciam essa tendência: Em 2017, a UE perdeu sua posição tradicional como o principal parceiro comercial do Brasil. Hoje em dia, a China não apenas é responsável pela maior parte de nosso comércio internacional, como ainda contribui para parcela considerável de nosso superávit. Ainda em 2017, o Brasil foi o sexto principal destino global de investimento estrangeiro direto, o que confirma a atratividade de nossa economia a investidores de todo o mundo.

O Brasil e os demais sócios do Mercosul estão expandindo a rede de acordo de livre comércio. Negociações com os países do EFTA (Islândia, Liechtenstein, Noruega e Suíça) estão em curso; há poucas semanas iniciaram-se as negociações com o Canadá e as tratativas com a Coreia do Sul devem começar em breve. O Mercosul está expandindo ainda seu acordo preferencial de comércio com a Índia e conduzindo negociações comerciais com o Líbano e a Tunísia.

Estamos em contato também, com vistas à possível abertura de negociações comerciais, com parceiros como Cingapura, Japão e Nova Zelândia. Em 2019, a maior parte da América do Sul se tornará, na prática, uma área de livre comércio, como resultado de acordos regionais nos quais estão previstas a eliminação de tarifas ao comércio. Os países do Mercosul estão trabalhando com a Aliança do Pacífico (Chile, Colômbia, México e Peru) para aproveitar as oportunidades criadas pela remoção de barreiras ao comércio e ao investimento.

As negociações MERCOSUL-UE devem ser visualizadas tendo em conta esse contexto. De modo particular, é preciso entender que o MERCOSUL não se encaixa em nenhuma das categorias de parceiros com os quais a União Europeia negociou acordos comerciais no passado.

O bloco sul-americano é um importante fornecedor de alimentos em escala global, ao mesmo tempo em que possui uma sólida base industrial e mercado consumidor muito promissor para bens e serviços.

Esses traços tornam as tratativas MERCOSUL-UE um processo único. Para ter um desfecho positivo, as negociações devem buscar o ponto de equilíbrio correto – uma constatação que se aplica sobretudo à interrelação entre bens agrícolas e industriais. Não há espaço para um acordo no qual prevaleçam apenas as expectativas e interesses de um dos lados.

Os negociadores têm conseguido, ao longo do processo, encontrar soluções mutuamente aceitáveis, que equacionam eventuais diferenças. Não deve causar surpresa, portanto, que os assuntos pendentes na atual etapa avançada da negociação sejam aqueles que suscitam as maiores sensibilidades: acesso a mercados para bens agrícolas, comércio e regras de origem para o setor automotivo e indicações geográficas.

Estamos em um momento fundamental nas negociações Mercosul-UE. É crucial poder contemplar esse processo desde a perspectiva mais ampla do contexto no qual ele se insere. Nossa expectativa é de que a UE possa dar passos concretos, como temos feito, para demonstrar o compromisso com um acordo equilibrado. Everton Vieira Vargas é embaixador do Brasil junto à União Europeia (Bruxelas).

Abertura sim, mas do jeito certo

Robson de Andrade – Valor Econômico

“Para todo problema complexo, existe sempre uma solução clara, simples e errada”. A frase, atribuída a um jornalista americano do início do século XX, sobrevive ao tempo e deveria ser pintada nas paredes de alguns órgãos do governo. O Ministério da Fazenda e a Secretaria de Assuntos Estratégicos (SAE) têm tratado de abertura comercial e sua relação com o desenvolvimento econômico. O tema é relevante e merecia ter sido discutido de forma ampla, com a participação de todos os interessados, sobretudo empresários e trabalhadores.

Com os debates promovidos pela Fazenda e pela SAE desconectados do dia a dia da economia brasileira, entrou na agenda da Câmara de Comércio Exterior (Camex) uma proposta de redução do Imposto de Importação concentrada em dois setores: bens de capital, e bens de informática e telecomunicações. Os órgãos sugerem que as referidas tarifas sejam reduzidas a 4%, de forma linear e unilateral. Ou seja, fora do contexto dos acordos comerciais e, portanto, sem nenhuma contrapartida em maior acesso dos produtos brasileiros ao mercado de outros países.

Quando necessárias, diminuições tarifárias precisam vir acompanhadas de medidas que contribuam para a adaptação dos setores afetados, incentivando sua competitividade. Devem, também, prever um período razoável de implementação, sob pena de tornar inexequível a adequação. Adotadas de modo abrupto e sem as cautelas apropriadas, elas impactam a indústria, provocando o fechamento de empresas e o desemprego. A proposta da Fazenda tem esse potencial destrutivo, pois não prevê iniciativas para tornar os dois segmentos mais competitivos.

Nenhuma grande economia do mundo propôs, como faz a Fazenda, a redução unilateral de tarifas

Além disso, ignora o momento crucial das negociações comerciais pelo qual o Mercosul está passando com a União Europeia, que têm na questão tarifária um de seus pontos mais relevantes. Nesse contexto, demonstra, sobretudo, descaso pelos esforços que o próprio governo, em parceria com o setor privado, vem empreendendo para estabelecer um acordo que será essencial para a abertura econômica e para o desenvolvimento do Brasil.

Discussões sobre abertura comercial costumam ser dominadas por argumentos ideológicos. Pode-se aceitar que isso ocorra no ambiente acadêmico, mas, quando se trata de políticas públicas, que afetam a vida das empresas e de seus trabalhadores, qualquer decisão deve ser baseada em critérios essencialmente técnicos.

Ao escolher duas áreas da indústria como alvo, a proposta promove um desequilíbrio das margens de proteção efetiva, distancia a nossa economia ainda mais do conceito de escalada tarifária e, sobretudo, esquece as disfunções do sistema tributário nacional, que impõe custos às empresas não aplicados a seus principais concorrentes no mundo. Somente o resíduo tributário no setor industrial exportador brasileiro soma, na média, 3% do valor das suas vendas, podendo ser superior em alguns segmentos.

A proposição da Fazenda e da SAE desconsidera, também, a conjuntura econômica do país e da indústria brasileira. Após 11 trimestres de retração, provocada pela maior crise da história da República, e ainda marcada por forte ociosidade, o setor industrial começa a dar os primeiros passos no sentido da recuperação, com aumento da confiança do empresário e do consumidor. Uma redução tarifária nos termos delineados certamente afetaria esse movimento de retomada.

Finalmente, a proposta é inconsistente com outras políticas do governo, que vêm estimulando investimentos em capacidade produtiva e desenvolvimento tecnológico nos setores produtores de bens de informática e telecomunicações e de bens de capital. Exemplos são as recém-lançadas iniciativas quanto à internet das coisas e à indústria 4.0, que têm o objetivo de preparar a economia brasileira para a 4ª revolução industrial.

O sistema de defesa comercial também vem sendo alvo de iniciativas da Fazenda e da SAE que têm contribuído para sua politização. O arcabouço hoje existente visa combater o comércio desleal e atinge menos de 1% das importações do país. As medidas são aplicadas após uma criteriosa análise técnica, conduzida pelo Departamento de Defesa Comercial (Decom), do Ministério da Indústria, Comércio Exterior e Serviços.

A Fazenda tem atuado para que a avaliação de “interesse público”, que é justa e legítima se usada realmente em casos de interesse do país, tenha sua função distorcida, tornando-se quase uma instância recursal para reverter algumas medidas de defesa comercial, por vezes sem respeito ao próprio processo legal estabelecido.

O órgão propõe, ainda, criar uma fase de decisão política antes de o Decom aceitar as petições do setor privado para começar as investigações. Na prática, isso estrangula o processo técnico, espremendo-o entre duas determinações políticas – uma para iniciá-lo e outra para adotar as medidas de defesa comercial propriamente ditas.

Para a indústria brasileira, a abertura comercial, caso seja bem planejada e executada, contribuirá para aumentar a competitividade do setor. Mas ela deve ser promovida no âmbito das negociações de acordos comerciais e realizada em paralelo a outras iniciativas, como parte de uma estratégia de desenvolvimento de longo prazo.

A competitividade depende de um amplo conjunto de fatores, como reforma tributária, eficiência do Estado e dos gastos públicos, segurança jurídica, desenvolvimento da infraestrutura, políticas mais consistentes de apoio à inovação e melhora da educação, entre outros. Nenhuma grande economia do mundo – incluídos China, Estados Unidos, Japão e União Europeia – fez o que a Fazenda propõe: redução unilateral de tarifas e enfraquecimento da defesa comercial. O Brasil já tentou, no passado, soluções simplistas e parciais como essas para seus desafios. Como sabemos, nunca deu certo.

Robson Braga de Andrade é empresário e presidente da Confederação Nacional da Indústria (CNI)

Parceria facilita acesso a recursos para pesquisa

Ediane Tiago – Valor Econômico:

“Há um grande potencial de inovação nas empresas de micro e pequeno porte. Temos de aproveitá-lo”. O diagnóstico é de Jorge Guimarães, diretor-presidente da Empresa Brasileira de Pesquisa e Inovação Industrial (Embrapii) – organização social, criada em 2013, financiada pelo Ministério da Ciência, Tecnologia, Inovações e Comunicações (MCTI) e pelo Ministério da Educação (MEC). No ano passado, uma parceria com o Sebrae deu início à incursão da Embrapii no universo dos negócios de menor porte, surpreendendo a instituição pela qualidade e maturidade dos projetos. “O Sebrae nos trouxe uma carteira de projetos competitivos e prontos para investimento”, comenta Guimarães.

Ao todo, 53 projetos gerados por micro e pequenas empresas estão em desenvolvimento nas unidades da Embrapii. As iniciativas somam investimentos na ordem de R$ 40 milhões. O modelo de compartilhamento de risco e a desburocratização para acesso de verbas públicas são os principais atrativos da parceria. A Embrapii responde por até um terço do valor dos projetos. São recursos públicos não reembolsáveis. Isso significa que, se a tecnologia não vingar, o contrato é encerrado, sem saldo de dívida para o empresário com o governo federal.

Outra terça parte é de responsabilidade dos centros técnicos homologados pela rede Embrapii. Estas instituições participam com o valor equivalente em serviços técnicos, mão de obra especializada e infraestrutura. “O problema para chegar aos negócios de menor porte está na estruturação financeira para a contrapartida delas, que também é de um terço”, explica Guimarães.

A maior parte dos projetos realizados pela Embrapii exige verbas na casa de R$ 1 milhão. Tomando esse montante como exemplo de modelagem financeira, a conta é simples: mesmo com o uso de recursos públicos e serviços pagos por institutos de pesquisas, o empresário precisa entrar com R$ 333 mil – valor relevante nos pequenos negócios. Para equilibrar a equação, o Sebrae anunciou, no ano passado, repasses de R$ 20 milhões, também em recursos não reembolsáveis. A ideia é pagar entre 70% e 80% da contrapartida da micro ou pequena empresa, reduzindo a exigência de capital do empreendedor. “Outro ponto relevante está no acesso a centros de excelência em pesquisa e inovação”, lembra Heloisa Menezes, diretora técnica do Sebrae.

O fato de as unidades Embrapii selecionarem e avaliarem as iniciativas é importante para reduzir o risco do empreendimento. Guimarães explica que a equipe está preparada para prestar uma consultoria prévia e adequar os projetos, quando necessário. “O empresário não está sozinho. Tem apoio técnico para entender o que é preciso fazer para obter sucesso”, diz. As iniciativas podem ser inscritas individualmente ou em sistema de encadeamento produtivo. Neste último caso, há a possibilidade de unir forças

com empresas de médio ou grande porte – que também colocam dinheiro no projeto. “O desenvolvimento conjunto permite a integração tecnológica e o adensamento da inovação nas cadeias produtivas”, lembra Heloisa.

Até agora, o Sebrae liberou metade do valor acordado. “Novas chamadas vão depender dos resultados alcançados por meio da parceria”, comenta Heloisa. Para Guimarães, o interesse das empresas pelos recursos já indica sucesso. “Em apenas um mês, inscrevemos 50 projetos”, lembra. Não é preciso esperar novas chamadas. Segundo Heloisa, os empresários e empreendedores podem submeter projetos às unidades da Embrapii. “É um processo de fluxo contínuo”, diz. Para saber a qual instituição enviar o projeto, basta realizar busca no site da www.embrapii.org.br ou procurar equipe do Sebrae.

Quando entrou em operação, a Embrapii recebeu orçamento de R$ 1,5 bilhão para aplicar em projetos de inovação, seguindo um plano de seis anos (2014 a 2019). O último balanço, fechado em dezembro, registrou desembolsos acumulados de R$ 646 milhões, 388 projetos em carteira – 75 deles concluídos – e 267 companhias envolvidas. A atuação da Embrapii consiste em facilitar o acesso a recursos financeiros e técnicos necessários para projetos de inovação. Mais de 40 unidades estão cadastradas para prestar serviços técnicos, entre institutos públicos e privados de pesquisa, universidades e polos federais de inovação. Toda a negociação é realizada diretamente entre a empresa e a unidade da Embrapii, o que inclui contratos de propriedade intelectual e participação financeira no projeto, caso haja sucesso.

Para Guimarães, a parceria com o Sebrae trouxe aprendizado sobre a demanda e a força inovadora das empresas de pequeno porte no Brasil. “Vamos ampliar o atendimento desse filão”, diz. Além da parceria com o Sebrae, a Emprapii busca outros instrumentos para financiar a contrapartida dos empreendedores. “Estamos conversando com fundos de investimento e com bancos públicos e privados. É essencial construir um ambiente de inovação que inclua negócios de menor porte”, defende.

Hypera revê expansão sob novo comando

Rodrigo Rocha – Valor Econômico: 

O plano de expansão da Hypera, defendido pela farmacêutica até fevereiro, deve ser adiado ao menos até o fim do ano. Segundo Breno Oliveira, novo presidente da companhia, o aumento de produtividade das atuais unidades adiou temporariamente a possibilidade.

“Estamos vendo uma mudança no cenário, com recorde de produção”, afirmou Oliveira em teleconferência sobre os resultados trimestrais. “A tendência é que não tenhamos mais gargalos de produção para a demanda deste ano.”

Com a melhora da produtividade, a empresa deve rever sua expectativa de investimentos e pode postergar ou até mesmo reduzí-los. Até fevereiro, cogitava a construção de nova fábrica em Anápolis (GO), hipótese que não é mais defendida com afinco pela companhia. A expectativa de desembolso era de até R$ 500 milhões para o projeto de expansão.

A empresa também está compensando a inflação menor que incide sobre seus produtos regulados com elevação de preços nos medicamentos isentos de prescrição, com o objetivo de manter os ganhos de rentabilidade.

A intenção é não entrar em “guerra” de preço nos medicamentos com reajuste controlado pela Anvisa, agência de vigilância sanitária. “Boa parte do portfólio não está sujeita a preços [regulados].

Estamos compensando inflação menor com aumento de produtos sem regulação de preço”, disse.

A mudança de rumo acontece no momento em que a Hypera é obrigada a fazer alterações em sua administração, após investigações sobre a companhia e executivos no âmbito da Operação Lava-Jato.

A Hypera anunciou na quinta-feira que o até então presidente da companhia, Claudio Bergamo, apresentou pedido de “afastamento voluntário” do cargo, sendo substituído por Oliveira, então diretor financeiro da empresa.

Além disso, a companhia confirmou que seu principal acionista, João Alves de Queiroz Filho, o “Júnior da Arisco”, pediu “afastamento voluntário” da presidência do conselho, pelo período necessário à conclusão de apuração interna e de investigação em curso pelo Ministério Público Federal (MPF).

“A decisão de afastamento deles é de interesse deles e da companhia”, destacou Oliveira.

Além dos dois comandantes, outros dois executivos, do escritório da companhia, foram alvo da Operação Tira-Teima, desmembramento da Lava-Jato. A empresa não abre o nome dos dois funcionários, mas Oliveira detalhou que ambos eram executivos de nível médio dentro da empresa, com funções administrativas e não tinham contatos com agentes externos, como agências reguladoras.

A companhia também voltou a afirmar que não assinou nenhum acordo de leniência e que não está em tratativas com a Procuradoria Geral da República (PGR).

Indústria sinaliza que acordo entre UE e Mercosul pode estar próximo

Assis Moreira – Valor Econômico: 

Várias questões que vinham bloqueando o avanço das negociações entre o Mercosul e a União Europeia (UE) para um acordo de livre comércio birregional parecem superadas e a reunião de negociadores, na semana que vem em Bruxelas, poderá determinar os próximos passos das barganhas, segundo expectativa de representante da indústria.

“Entendo que os principais óbices foram superados, os temas complicados estão bem encaminhados”, afirmou o diretor de Relações Internacionais e Comércio Exterior da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp), Thomaz Zanotto.

Para a Fiesp, o momento é oportuno para concluir as negociações e resultará tanto no aumento do fluxo comercial quanto em benefícios intangíveis quanto a transferência de tecnologia, capitais e serviços para a indústria nacional. “Há uma janela de oportunidade e isso tem prazo de validade, porque senão ela tende a se fechar”, diz Zanotto.

Pelas informações que circulam no setor privado, os europeus sinalizaram com aumento da quota para importação de carne bovina para 110 mil toneladas. A UE tinha começado com quota de 70 mil e depois com 99 mil. Negociadores dizem que muito do que foi conversado com Bruxelas nas últimas semanas precisa ser formalizado.

Duas questões centrais envolvendo o setor automotivo parecem ter avançado. Primeiro, os europeus queriam eliminação das tarifas de importação para seus carros num prazo de oito anos, enquanto as montadoras do Mercosul pediam prazo de 15 anos. A avaliação agora é de que o fim das tarifas deve ocorrer entre 10 e 12 anos.

Além disso, um dos princípios básicos da negociação é que não haveria prazo de carência, e a liberalização começaria desde o primeiro ano do acordo. O sentimento é de que, se houver carência, pela insistência de montadoras do Mercosul, será entre dois e três anos.

Outra questão técnica sensível estava em discussão no campo das regras de origem. Ponto que, pela análise de Zanotto, prosperou. O setor têxtil brasileiro defendia que para se ter a tarifa menor pela regra de origem nesse segmento, o fio, o tecido e a roupa precisariam ser da região. A regra acertada agora manteve só duas etapas do conteúdo local: o tecido e a roupa. Os europeus alegam que são importadores de fio.

A questão de produtos remanufaturados fica fora do acordo. Os europeus queriam sua inclusão, por exemplo, porque países como a Alemanha têm um programa que incentiva a troca de máquinas com frequência – e a revenda do equipamento com pouco uso. Mas permitir tarifa menor para esse tipo de produção causaria problemas para setores no Brasil. É o mesmo caso de pneus, que os europeus, por causa dos ciclos do verão e interno, descartam o produto com mais frequência e procuram exportar o que em outros países é visto como seminovo.

A avaliação é também de que a UE compreende a importância de se manter o regime de “drawback” – pelo qual há isenção na tarifa de importação para insumos usados na fabricação de bens industriais depois exportados. É um regime aduaneiro especial no Brasil e para o Paraguai com suas maquiladoras, por exemplo.

A UE queria manter uma forte proteção de mais de 300 denominações de origem, incluindo queijos, azeites etc. Agora, isso foi reduzido para cerca de 10%, o que também facilita o avanço da negociação birregional.

Nas negociações ministeriais em Buenos Aires, em dezembro de 2017, a Argentina parecia querer fechar o acordo a qualquer preço, e coube ao Brasil esfriar um pouco os ânimos diante do que Bruxelas colocava na mesa.

Mais tarde, alguns europeus procuraram representantes do setor privado brasileiro, indagando se o Brasil estava postergando a negociação para fazer o acordo em outro momento político.

De seu lado, a Fiesp considera que o momento para fechar a negociação é oportuno inclusive por ver uma convergência inédita de políticas econômicas entre o Brasil e a Argentina, cujos governos coincidem na decisão de realizar reformas estruturais, buscar o equilíbrio fiscal e promover maior inserção externa da região.

Thomas Zanotto destaca que, para a Fiesp, a negociação de acordos comerciais é o caminho mais seguro e inteligente para a abertura da economia brasileira. A entidade avalia que uma redução unilateral de tarifas de importação limita o poder de barganha do bloco com outros parceiros, como também ameaça a produção e emprego local, sobretudo de pequenas e médias empresas que terão dificuldade de se adaptar no curto prazo.

O fluxo comercial entre a UE e o Mercosul alcançou US$ 80 bilhões em 2017, com deficit de US$ 362 milhões para o bloco do cone sul. As exportações do Brasil, Argentina, Paraguai e Uruguai foram principalmente subprodutos das indústrias alimentícias (15%), minerais metálicos (10%) e soja (7%). As importações foram principalmente de reatores e caldeiras (19%), produtos farmacêuticos (11%) e máquinas e equipamentos elétricos (9%).

No primeiro trimestre deste ano, as exportações de manufaturados brasileiros para a UE cresceram 74%, na comparação interanual, e totalizaram US$ 4,9 bilhões. Para a Fiesp, esse resultado mostra o potencial do mercado europeu para as vendas de produtos industrializados de origem brasileira.

Do lado das importações, as compras de manufaturados europeus aumentaram 10% e totalizaram US$ 7,9 bilhões no período. Cerca de 60% da pauta de importações originárias da UE pode ser classificada como bens intermediários utilizados pela indústria de transformação no Brasil.

Para Zanotto, se as barganhas entre UE e Mercosul avançarem na semana que vem, como é a expectativa, o passo seguinte será a realização de uma reunião ministerial para anunciar o acordo político e, talvez ainda este ano, concluir a negociação do acordo de livre comércio birregional.

Hypera Pharma lidera em anúncios

Gustavo Brigatto – Valor Econômico: 

Com um salto de 64% em seu orçamento de compra de mídia, a Hypera Pharma (nome que a Hypermarcas passou a adotar em fevereiro), ultrapassou a Genomma e se tornou o maior anunciante do Brasil em 2017, segundo a Kantar Ibope Media. O salto da companhia da quarta para a primeira posição no ranking também foi auxiliado pela queda de 9% nos gastos da Genomma ao longo de 2017.

Em comunicado, a Kantar não divulgou valores, mas, em 2016, a Hypermarcas havia registrado R$ 2,28 bilhões em compra de mídia. A Genomma desembolsou R$ 3,45 bilhões.

A pesquisa se refere a quanto os anunciantes compram de espaço publicitário nos veículos de comunicação. Os valores considerados são os de tabela cheia, sem contar descontos e negociações.

O segmento farmacêutico, ao qual pertencem Hypera Pharma e Genomma, é o que tem mais empresas na lista dos 10 maiores anunciantes do país, com mais Divcom Pharma Nordeste e Ultrafarma.

A lista completa é formada por Unilever em terceiro lugar (mesma posição do ano anterior, mas com gastos 35% menores), seguida por Ambev – que subiu do sétimo para o quarto lugar, com alta de 29% nos investimentos. A Procter & Gamble (P&G) subiu da sexta para a quinta posição, apesar de reduzir os gastos com propaganda em 2%. Ainda estão entre os dez maiores anunciantes Claro, Caixa e Trivago.

De acordo com a Kantar, a compra de anúncios publicitários atingiu a marca de R$ 134 bilhões em 2017, um crescimento de 3,1% em relação a 2016. Descontada a inflação, o setor apresentou um crescimento real de 0,15%. O número de anunciantes caiu um pouco entre 2016 e 2017: de 63 mil para 61.380.

Entre os 10 setores que mais investiram em mídia em 2017, e que juntos representam mais de 80% de toda a atividade publicitária no período, apenas comércio, automotivo e bebidas apresentaram retração nos números aferidos. Os setores que mais cresceram no período foram administração pública e social, com 38%, e farmacêutico, com 22% de variação positiva.

Entre os mercados monitorados, São Paulo segue como líder, absorvendo um quarto de toda a verba destinada para compra de espaço publicitário. Ao lado de Rio de Janeiro e Belo Horizonte, os três mercados são responsáveis por receber 38% de todo o investimento de mídia do país.

Falta matéria-prima no setor de defensivos

Kauanna Navarro – Valor Econômico: 

Paralelamente aos efeitos negativos provocados pelos estoques elevados nos canais de distribuição no Brasil, agudos em 2017 e que ainda estão sendo debelados, as empresas de agroquímicos que atuam no país também sofrem com a escassez de matérias-primas para a formulação dos produtos finais vendidos aos agricultores.

O aperto da legislação ambiental na China levou ao fechamento de cerca de 700 fábricas de produtos químicos naquele país no último ano. Muitas eram responsáveis pela produção de ingredientes ativos e matérias-primas para indústrias de agroquímicos de todo o mundo.

Assim, apesar de altos estoques no canal de distribuição, a indústria também sofreu com o aumento do preço de ingredientes das formulações, ou mesmo com a falta de produtos. Analistas avaliam que essa crise de escassez de produtos só não foi percebida antes por causa dos estoques fartos nas distribuidoras.

Muitas empresas sentiram falta, inclusive, de produtos amplamente usados nas lavouras, como o herbicida glifosato. Em novembro, Rodrigo Gutierrez, presidente da Adama no Brasil, afirmou que já não tinha glifosato para vender – e isso que a empresa, israelense, é controlada pela ChemChina “Já não temos glifosato para vender faz cerca de três meses. O mercado inteiro não tem”, disse na época. Segundo Silvia Fagnani, diretora do Sindicato Nacional da Indústria de Produtos para Defesa Vegetal (Sindiveg), houve queda de 50% na produção de glifosato na China.

Apesar dos pesares, a Adama registrou seu melhor faturamento no Brasil. Em 2017, sua receita no país foi de US$ 480 milhões, pouco abaixo dos US$ 502 milhões projetados inicialmente. “Essa diferença ocorreu porque não conseguimos lançar dois grandes produtos no ano passado”, disse. Para 2018, a previsão, segundo Gutierrez, é que o faturamento chegue a US$ 570 milhões.

Como era de se esperar, a escassez de produtos no Brasil foi mais sentida por empresas que não estavam com grandes estoques parados nos canais de distribuição. “O ano passado foi muito bom em vendas, mas teria sido espetacular se não fosse a falta de matéria-prima”, afirmou Marcelo Damus Abdo, vice-presidente da Ourofino Agrociência – empresa brasileira com foco em defensivos pós-patente, os genéricos.

De acordo com o executivo, a empresa deixou de efetivar vendas estimadas em R$ 115 milhões – R$ 85 milhões viriam de vendas cujos pedidos já haviam sido tirados. “Eu já tinha vendido esses produtos e tive de recuar. Fora o que eu deixei de vender”, afirmou Abdo.

A situação afetou os resultados da empresa em 2017. O lucro líquido da Ourofino, que registrou receita líquida de R$ 636 milhões, ficou em R$ 71 milhões, 7,8% menor que em 2016. De acordo com o vice-presidente da companhia, algumas matéria-primas subiram 50%, mas, na média, houve aumento de 30%.

Mesmo quem não enfrentou problemas com a falta de ingredientes sofreu com a situação, em virtude do aumento de preços. Foi o caso da australiana Nufarm, que teve de sacrificar margens para não perder vendas no Brasil. “Houve aumento de preços e isso pressionou as margens. A gente tentou repassar o aumento, mas, em geral, as margens ficaram mais pressionadas”, disse Marcos Gaio, presidente da empresa para a América Latina.

A Nufarm faturou no Brasil cerca de US$ 500 milhões em 2017, 6,4% mais que em 2016 e pouco mais de 20% das vendas globais da múlti.

A consultoria Kleffmann estima que 15% das vendas de defensivos do ano passado no país tenham ficado nos canais de distribuição. Fontes do segmento calculam que, no total, a indústria tenha vendido ao redor de US$ 9 bilhões no ano passado. No início de 2017, os estoques somavam US$ 2,4 bilhões.

Poucas empresas sentiram tanto os reflexos desses estoques elevados no Brasil em 2017 como a alemã Bayer . Sob essa influência, a receita líquida da alemã na área agrícola recuou 3,4% no ano passado, para € 9,6 bilhões. Levando-se em conta apenas o “portfólio ajustado”, que envolve só ativos que não foram vendidos para que a aquisição da americana Monsanto seja aprovada, a queda foi de 2,2%.

Na divulgação do balanço do ano passado, a empresa destacou que os estoques no Brasil estavam “inesperadamente elevados” e que, basicamente por causa disso, na América Latina as vendas recuaram 18% – o equivalente a US$ 600 milhões. Desconsiderando o desempenho no mercado brasileiro, as vendas ajustadas da Bayer teriam crescido 3% no ano passado.

Com menos intensidade, o volume elevado de estoques também pressionou os resultados de outra alemã: a Basf. Segundo o CEO global da companhia, Kurk Bock, foram sobretudo adversidades no Brasil que levaram à queda de € 54 milhões no lucro antes dos juros e tributos (Ebit) em relação a 2016.

Droga da Merck & Co deve mudar combate ao câncer de pulmão

David Crow – Valor Econômico: 

A imunoterapia deverá tornar-se o tratamento padrão para a grande maioria dospacientes com câncer de pulmão, depois de um teste clínico do laboratório farmacêutico Merck & Co., que se chama MSD no Brasil, ter mostrado que um de seus novos medicamentos adicionado à quimioterapia aumenta as chances de sobrevivência.

Diferentemente dos remédios tradicionais contra o câncer, a imunoterapia trabalha encorajando o sistema imunológico do corpo a atacar os tumores. É amplamente celebrada por oncologistas como um dos maiores avanços em décadas.

Alguns pacientes recém-diagnosticados com câncer de pulmão já recebem um novo tipo de tratamento imunológico conhecido como “inibidor de checkpoint” quando seus tumores têm altos níveis de uma proteína conhecida como PDL1. O tratamento padrão para a maioria, no entanto, ainda é a quimioterapia.

Analistas preveem que esse tipo de medicamento vai gerar vendas superiores a US$ 34 bilhões em 2022

Isso parece destinado a mudar depois da publicação de um grande teste clínico, já em sua última fase, divulgado ontem em Chicago, no encontro anual da Associação Americana de Pesquisa do Câncer.

O estudo mostrou que a combinação de quimioterapia com o inibidor de checkpoint da Merck aumentou de forma significativa o índice de sobrevivência dos pacientes com o tipo mais comum da doença, conhecido como câncer de células de pulmão não pequenas e não escamosas (NSCLC, na sigla em inglês).

Pacientes que receberam o inibidor de checkpoint Keytruda e também foram tratados com quimioterapia tiveram chance 51% menor de morrer durante o período do teste em comparação aos que fizeram apenas quimioterapia, segundo o estudo, feito com 616 participantes.

“Esses dados clínicos agora sugerem essa combinação como o novo padrão de assistência médica para o tratamento de primeira linha para esses […] pacientes”, disse a doutora Leena Gandhi, oncologista no NYU Langone Medical Center, que comandou o estudo.

O doutor Roger Perlmutter, cientista-chefe da Merck, disse que os resultados “inequívocos” excederam a expectativa da empresa. “Como tratamento de primeira linha, este é melhor do que qualquer outro que conheçamos”, acrescentou.

A combinação de tratamentos, contudo, ainda sujeitou os pacientes aos efeitos colaterais debilitantes e, algumas vezes, potencialmente letais, associados à quimioterapia.

As conclusões significam que, a partir de agora, a maioria dos pacientes com câncer de pulmão por tratar vai receber imunoterapia como tratamento padrão. A dúvida, então, seria decidir se também vão receber quimioterapia como segundo tratamento – ou se podem ser poupados totalmente de seu desgaste.

Os pacientes com níveis maiores de proteína PDL1 – que tendem a responder muito bem à imunoterapia – poderiam ser capazes de evitar a quimioterapia, especialmente quando são mais idosos ou estão fragilizados, segundo o doutor Perlmutter.

“Muito disso tem a ver com o estado de saúde do indivíduo”, acrescentou. “É uma decisão muito personalizada, mas o fato de que se veja uma diferença tão dramática quando há a combinação [de tratamentos] acho que vai fazer com que as pessoas fiquem ansiosas por usá-la.”

O recente teste consolida a posição da Merck como líder na corrida por lançar tratamentos imunológicos para pacientes com câncer de pulmão, cujo mercado é visto como sendo o mais lucrativo, em vista do grande número de afetados: 1,8 milhão de pessoas são diagnosticadas com NSCLC por ano no mundo, sendo mais de 200 mil nos Estados Unidos.

Os inibidores de checkpoint, que removem freios do sistema imunológico para que este possa combater o câncer, foram criados pela Bristol-Myers Squibb, AstraZeneca e vários outros laboratórios farmacêuticos.

Já foram aprovados para tratar vários tipos de câncer, incluindo os de pele, bexiga e rim. Analistas preveem que esse tipo de medicamento vai gerar vendas superiores a US$ 34 bilhões em seu pico, em 2022.

O teste da Merck com o medicamento também serve de incentivo à teoria de que a combinação entre imunoterapia e outros tratamentos pode aumentar o número de pacientes que reagem positivamente.

Um dado importante é que mesmo pacientes com baixos níveis de proteína PDL1 – que normalmente não reagem à imunoterapia – se beneficiaram da combinação de drogas. Entre esses pacientes, a chance de morte diminuiu 41% em comparação ao que haviam sido tratados apenas com quimioterapia.

A teoria da combinação de tratamentos havia sofrido um grande golpe nas últimas semanas, depois de um grande teste de um medicamento da Merck combinado a outro do grupo de biotecnologia Incyte não ter exibido bons resultados.

A Bristol-Myers Squibb também havia publicado um estudo mostrando que a combinação de duas de suas imunoterapias ampliou o tempo em que um subgrupo de pacientes com câncer de pulmão ficou sem pioras em sua doença.

Os pacientes cujo câncer teve muitas mutações genéticas e que tomaram os dois remédios da Bristol-Myers Squibb ficaram 7,2 meses sem que o câncer crescesse. Os que apenas foram tratados com quimioterapia ficaram 5,5 meses.

Não está claro, no entanto, se os oncologistas e os pacientes vão escolher a combinação da Bristol-Myers Squibb agora que a Merck conseguiu um impacto tão grande nos índices gerais de sobrevivência, ao combinar a imunoterapia e a quimioterapia.

Uma análise inicial do estudo da Bristol-Myers Squibb, ainda não concluído, indicou que o subgrupo de pacientes com um alto grau de mutação nos tumores teve chance 21% menor de morrer durante o teste do que os tratados apenas quimioterapia.

No teste da Merck, a redução das chances de morte, de 51%, levou em conta todos os pacientes com câncer de pulmão.

Rentabilidade das exportações cresce 3,2%, acima da desvalorização cambial

Marta Watanabe – Valor Econômico: 

No primeiro bimestre o real desvalorizou-se 2,4% frente ao dólar em relação a igual período do ano passado. Mesmo assim,a rentabilidade média dos exportadores avançou mais, em 3,2%. Contribuíram para a alta do índice as demais variáveis da rentabilidade: o preço de exportação, que subiu 1,3%, e o custo de produção, que ficou praticamente estável, com alta de apenas 0,5% em igual período.

Na indústria de transformação, a margem de lucro do exportador avançou mais que a média, em 4,1%. Nesse setor, o custo de produção avançou um pouco mais que o total, em 0,8%, mas os preços de exportação ajudaram mais, com alta de 2,5%. Os dados são da Fundação Centro de Estudos do Comércio Exterior (Funcex).

Esse avanço pequeno no custo de produção reflete o recuo do índice de preços ao produtor, que caiu 2,02% no acumulado de 12 meses até fevereiro, diz André Mitidieri, economista da Funcex. Ele destaca que esse custo de produção praticamente estável representa uma mudança em relação aos anos anteriores, em que desvalorizações cambiais maiores foram em boa parte neutralizadas pelo aumento de custo. Em 2017 a elevação de custo foi de 2,3%. Em 2016, de 7,5%. Em 2015, de 8,2%, sempre em relação ao ano anterior. Para Mitidieri, a tendência é que o custo de produção se mantenha mais desacelerado ao menos no primeiro semestre deste ano.

O economista da Funcex destaca que na formação do custo de produção do total da exportação, os insumos nacionais caíram 0,5%, enquanto os salários e serviços aumentaram 0,5%, sempre no primeiro bimestre contra igual período de 2017. Os insumos importados subiram 8,8%, mas como a representatividade dos insumos domésticos é maior, no total o custo avançou apenas 0,5%.

Entre os grandes setores de atividade, a da indústria extrativa foi a que teve maior ganho de rentabilidade média nos dois primeiros meses do ano. O índice avançou 10,8% porque o preço médio de exportação subiu 6,8% e o custo de produção recuou 1,3%. O exportador na área de agricultura e pecuária foi o que amargou perda de margem de lucro no início do ano. A rentabilidade do setor, que inclui produção florestal e pesca, caiu 5%. O que mais pesou foi o preço médio de embarque, que recuou 6,8% enquanto o custo de produção cresceu 0,5%.

Dos 29 setores de atividade que a Funcex acompanha, em 23 houve avanço de rentabilidade em fevereiro contra igual mês do ano passado. A alta de preços puxou o índice do segmento de extração de petróleo e gás natural, com avanço de 31,9%. A margem do exportador de produtos têxteis subiu 9,9% enquanto a do de celulose e papel cresceu 26%. Os setores de máquinas e equipamentos e de metalurgia tiveram alta de 9,4% e 14,4%, respectivamente. No primeiro bimestre, a rentabilidade aumentou em 21 dos 29 segmentos.

Welber Barral, sócio da Barral M Jorge Consultores e ex-secretário de Comércio Exterior, lembra que no curto prazo é possível que haja pressão maior das importações no custo de produção. Com a retomada da economia, diz, aumentam as importações não somente de insumos como também de bens de capital, o que deve também reduzir o superávit comercial brasileiro. A maior compra de insumos externos, porém, é algo esperado com o aumento de produção industrial e a importação de bens de capital, que significa investimento, é positiva.

José Augusto de Castro, presidente da Associação de Comércio Exterior do Brasil (AEB), também acredita que não deve haver pressão maior sobre custo de produção este ano. Como a recuperação econômica deve continuar lenta, não há perspectiva de pressão maior sobre os salários ou sobre preços.

Pelo comportamento mais recente, o câmbio pode ter uma desvalorização maior que a imaginada inicialmente. A ressalva é que fatores que hoje influenciam o câmbio, como o conflito comercial entre China e Estados Unidos, dependendo do desfecho, podem ter impacto nas demais variáveis da rentabilidade do exportador.

No campo internacional, esse atrito entre os americanos e chineses é uma grande preocupação. No cenário doméstico há ainda a incógnita sobre o resultado das eleições, que também podem mudar a tendência de câmbio e do que se espera de retomada econômica.

Anvisa reabre debate sobre novos tipos de cigarro

Murillo Camarotto – Valor Econômico: 

A Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) reabriu nesta semana as discussões sobre a possibilidade de regulamentação dos dispositivos eletrônicos para fumar. Um debate realizado anteontem na sede do órgão, em Brasília, contou com a participação de várias empresas interessadas em comercializar os aparelhos no Brasil, entre as quais a Philip Morris International, que aposta boa parte de seu futuro em um aquecedor de tabaco.

Diferentemente dos cigarros eletrônicos, que vaporizam uma solução líquida de nicotina, o aquecedor é abastecido com o próprio tabaco. A diferença é que o fumo é processado e manipulado para ser apenas aquecido, e não queimado. Pesquisas conduzidas pela Philip Morris mostram que, sem a combustão, o número de substâncias nocivas produzidas cai algo entre 90% e 95%.

Foi em defesa dessas pesquisas que a vice-presidente de comunicação científica da Philip Morris, a escocesa Moira Gilchrist, participou do debate na Anvisa. Em entrevista ao Valor, ela disse esperar que a agência não adie por muito tempo a definição sobre a regulamentação dos produtos de risco reduzido, categoria em que se enquadra o aquecedor.

“Esses produtos têm os fumantes como foco exclusivo, porque eles não são livres de riscos. Não miram ex-fumantes ou não-fumantes. Eles contêm nicotina, que é viciante, e pequenos níveis de substâncias químicas nocivas. No entanto, temos a comprovação científica de que usar esses produtos é muito melhor do que continuar fumando os cigarros tradicionais. Sabemos que o melhor para os fumantes é parar de fumar, mas sabemos também que muitos deles não vão fazer isso”, afirmou a executiva.

O entendimento da empresa é de que a política nacional de combate ao tabagismo é bem-sucedida, mas dá pouca ou nenhuma atenção às pessoas que continuam fumando e que não querem ou não conseguem abandonar o vício. Apesar da queda vertiginosa nas últimas décadas, o Brasil ainda tem entre 15 milhões e 21 milhões de fumantes.

“Achamos que é muito importante que essas pessoas tenham acesso a escolhas melhores. Queremos que seja um elemento a mais no portfólio do que a Anvisa está fazendo para ajudar os fumantes”, completou Moira.

A agência proibiu a oferta dos dispositivos eletrônicos em 2009, mas agora está disposta a retomar os debates. Gerente de registro e fiscalização de produtos fumígenos na Anvisa, Patricia Francisco Branco diz que as empresas têm permissão para registrar os produtos, mas que a liberação ainda depende de uma série de testes e análises técnicas.

Philip Morris tenta aprovar aquecedor de tabaco, opção para seu negócio diante da queda no número de fumantes

“Sabemos que essa indústria evoluiu nos últimos anos, mas ainda precisamos escutar a academia, os pesquisadores e a Fundação Osvaldo Cruz, por exemplo. Precisamos entender melhor se de fato existe essa não maleficência”, disse Patricia. Uma nova rodada de debates está programada para outubro deste ano.

Para a Philip Morris, a demora na definição acaba protegendo o mercado atual. “Ontem, no painel, eu disse para a Anvisa agir o quanto antes e não postergar, porque nós sabemos que ao adiar esse debate nós simplesmente estaremos mantendo o ‘status quo’ para esses milhões de fumantes”, disse Moira Gilchrist.

Enquanto o mercado brasileiro não se abre, a multinacional conta com a boa aceitação dos dispositivos em países como o Reino Unido, Estados Unidos, Japão e Coreia do Sul e mantém pesados investimentos em produtos de risco reduzido. Na última década, a Philip Morris aplicou US$ 4,5 bilhões no desenvolvimento desse nicho de produto.

A meta no longo prazo é abandonar completamente a produção do cigarro tradicional, que segundo a executiva terá o mesmo destino das câmeras fotográficas analógicas. Ao fim deste ano, a empresa terá a capacidade de produzir 100 bilhões de “heatsticks”, nome em inglês do bastão de tabaco que é usado no aquecedor.

O bastão é parecido com um cigarro cortado ao meio. Ele é introduzido no aparelho, que contém uma lâmina de aquecimento. A temperatura chega, no máximo, aos 350º C, enquanto que para o início da combustão são necessários pelo menos 400º C. Cada bastão rende o mesmo que um cigarro: 6 minutos ou 14 baforadas, em média. Além de menos substâncias nocivas, o produto tem como apelo a ausência de odor, de cinzas e de fumaça.

No ano passado, a Philip Morris vendeu 36 bilhões de “heatsticks” no mundo, contra aproximadamente 900 bilhões de cigarros convencionais. Apesar da tendência de queda no número global de fumantes, pelo menos 1 bilhão de pessoas devem continuar consumindo tabaco até 2025, o que justifica a manutenção dos pesados investimentos.

Moira explica que a Philip Morris detém hoje uma fatia entre 16% e 17% do mercado global, e que a oferta de produtos de risco reduzido, como o aquecedor, podem ajudar a abocanhar clientes das concorrentes e, assim, manter o negócio sustentável em meio à queda no número de fumantes ao redor do mundo. No Brasil, a participação é de 20%.