EMS sobe capacidade de produção e aposta na “indústria 4.0”

Stella Fontes – Valor Econômico:

Maior farmacêutica do país, a EMS tem em curso um agressivo plano de expansão, que elevará a 1 bilhão de caixas de medicamentos por ano a capacidade produtiva em suas fábricas e consumiu mais de R$ 800 milhões em investimentos nos últimos cinco anos. Ao mesmo tempo em que dá sequência ao projeto, que resultará em expansão de mais de 50% frente ao volume produzido em 2017, o laboratório se prepara para implantar uma “solução” de indústria 4.0 da Bosch, que também deve ampliar de maneira “significativa” a capacidade produtiva.

“O objetivo claro é aumentar eficiência e produtividade, fabricar mais com menos recursos. Todos estão falando, mas pouco fazendo”, disse ao Valor o vice-presidente de Operações da farmacêutica, Tobias Henzel. Conforme a EMS, é a primeira vez que uma farmacêutica investe nesse tipo de tecnologia na América Latina.

De acordo com Henzel, a EMS já enxergava grande potencial na indústria 4.0 e iniciou os contatos com a Bosch no ano passado, durante a feira Interpack em Düsseldorf, na Alemanha. A gigante alemã é referência dessa nova abordagem na Europa e desenvolveu uma solução específica para a indústria farmacêutica, que é customizada conforme a necessidade de cada laboratório – no caso da EMS, equipes da Alemanha e do Brasil trabalharão em conjunto nesse desenvolvimento.

As conversas ganharam contornos formais em fevereiro deste ano e o contrato efetivo foi firmado na semana passada, no complexo fabril de Hortolândia (SP), com a presença, entre outros executivos, do presidente da Bosch América Latina, Besaliel Botelho, e do presidente do conselho de administração do grupo NC, dono da EMS, Carlos Sanchez.

Na etapa piloto de implantação da nova tecnologia, que abarca uma das 14 linhas de produção de embalagens na fábrica de Hortolândia, a expectativa é de ganhos de produção de pelo menos 10%. O projeto será executado no quarto trimestre e inicialmente se concentra em duas áreas, produtividade e melhoria de manutenção.

“São dois pilotos separados: como posso conectar linhas de embalagens numa primeira etapa e verificar as causas para paradas em máquinas e como minimizá-las”, explicou Henzel. Com a experiência inicial bem sucedida, a EMS estenderá já no ano que vem a indústria 4.0 para toda a produção de embalagens em Hortolândia e, mais à frente, para outras fábricas como as de Manaus (AM)
e Brasília (DF).

Em dois ou três anos, quando a nova tecnologia tiver conectado todos os equipamentos da EMS, será possível usar os dados coletados para operar as máquinas de maneira mais previsível, comentou o executivo.

No ano passado, a EMS produziu 650 milhões de caixas de medicamentos e, em 2018, deve chegar a 700 milhões de unidades produzidas. Com a continuidade do plano de expansão, a previsão é chegar a 850 milhões de unidades em 2019 – atingindo 1 bilhão após a conclusão do projeto, com todas as unidades fabris funcionando a plena capacidade. Hoje, o principal segmento da EMS é o de prescrição médica, com 38% das vendas, seguido de genéricos, com 36%. O restante das vendas vem das áreas de medicamentos isentos de prescrição, marcas e hospitalar.

Sanofi revê estratégia de marca e aposta em volumes em 2018

Stella Fontes – Valor Econômico:

Uma das maiores farmacêuticas do mundo, a Sanofi reviu sua estratégia de marca no Brasil e está acelerando iniciativas para se consolidar como a mais digital entre os laboratórios presentes no país, inclusive sob a ótica do consumidor. Em plena transformação e com receitas de € 1,13 bilhão em 2017, ou cerca de R$ 4,9 bilhões pelo câmbio atual, a operação brasileira registrou nos primeiros meses de 2018 o melhor desempenho de vendas em relação às taxas do mercado dos últimos cinco anos, disse ao Valor o diretor-geral da farmacêutica, Pius Hornstein.

Os próximos meses, porém, devem trazer volatilidade e isso sem considerar potenciais efeitos da greve de caminhoneiros, que gerou prejuízos também à indústria farmacêutica brasileira – no caso específico da Sanofi, ao menos até ontem, não houve interrupção na operação fabril por causa da paralisação.

Conforme Hornstein, a expectativa de um ano bom mas mais volátil que 2017 se deve à ocorrência de dois grandes eventos, Copa do Mundo e eleições, o que levou a farmacêutica a iniciar o planejamento anual mais cedo do que de costume. “2018 já foi pensado como ano do volume”, afirmou o executivo, dado que o reajuste de preços autorizado pelo governo foi de apenas 2,84%, um dos mais baixos dos últimos anos por causa do cenário de inflação controlada.

A estratégia surtiu efeito e, de janeiro a abril, as vendas subiram 11% em volume, ante expansão de 6% do mercado. Foram três meses consecutivos de taxas de crescimento acima da média geral e o sentimento é resumido em duas frases do executivo: “Começamos o ano bem, mas não sabemos como serão os próximos meses. Estamos prudentemente otimistas”.

Do ponto de vista da marca, a revisão da estratégia da Sanofi foi holística e incluiu a transferência da sede em São Paulo para um edifício 100% sustentável, sem escritórios individuais e com mesas compartilhadas. Funcionários administrativos que estavam no Rio de Janeiro e em Campinas foram reunidos na capital paulista – no total, são mais de 4 mil trabalhadores no país.

Na mudança, as diferentes divisões no Brasil (Sanofi Farma, Medley, Pasteur, Genzyme e Consumer Healthcare) passaram a funcionar efetivamente de maneira integrada, sob o mesmo teto. De acordo com Hornstein, a mudança de endereço começou a ser pensada em 2015, mas a decisão final foi tomada dois anos depois. Em apenas 69 dias, a nova sede da farmacêutica, em um moderno conjunto de edifícios comerciais na Zona Sul, foi montada e a mudança ocorreu em agosto passado.

A cultura da inovação, antes concentrada na área de pesquisa e desenvolvimento, agora é disseminada por toda a organização. “Inovar apenas no produto não é suficiente. É preciso inovar também no contato com médicos e pacientes, mudar a abordagem de mercado”, afirmou o executivo. Para tanto, a Sanofi criou no ano passado uma
unidade de aceleração digital, com o objetivo de ampliar uso de ferramentas tecnológicas para a execução de suas estratégias, sejam comerciais, sejam de relacionamento com a classe médica ou com o consumidor final.

“Queremos ser a farmacêutica brasileira de referência nesse assunto”, afirmou o executivo. Diferenciação da marca é um dos ganhos com essa estratégia digital, além de estimular o desenvolvimento do quadro de funcionários e funcionar como um importante atrativo de mão de obra qualificada.

Ao mesmo tempo, a farmacêutica lançou no mercado brasileiro a nova assinatura global do grupo, “Empowering Life”, na primeira campanha institucional no país desde 2011. Do lado da ciência, para 2018, estão previstos cinco lançamentos, sem considerar as novidades da Medley, de genéricos e similares: Dupixent, para o tratamento contínuo da dermatite atópica; Soliqua, para pacientes com diabetes tipo 2; Cerdelga, para tratamento da doença de Gaucher; Menactra, uma vacina contra meningite meningocócica; além da mudança do anti-histamínico Allegra para medicamento isento de prescrição (com exceção do Allegra D).

Vacina contra febre aftosa, um produto em vias de extinção

Luiz Henrique Mendes – Valor Econômico:

A extinção da vacinação contra o vírus da febre aftosa no Brasil nunca foi tão real, o que é motivo de comemoração para os pecuaristas mas de grande preocupação para a indústria veterinária. Ainda hoje, a vacina contra a aftosa é o segundo produto mais importante dessa indústria, respondendo por um faturamento anual de R$ 400 milhões – 7% das vendas totais do segmento.

A situação da indústria é delicada, admite Emílio Salani, vice-presidente executivo do Sindicato Nacional da Indústria de Produtos para Saúde Animal (Sindan). O problema é que, em 2019, o parque industrial brasileiro será capaz de produzir cerca de 1 bilhão de doses de vacinas contra o vírus, ante a capacidade de 700 milhões deste ano. O volume supera em muito a demanda, que é de 330 milhões de doses e não deve parar de cair até ser extinta em 2023.

Na semana passada, todo o território nacional recebeu da Organização Mundial de Saúde Animal (OIE) o status de livre de febre aftosa com vacinação. Com isso, o Ministério da Agricultura pode avançar no cronograma para a retirada da vacina. Em 2019, o Estados do Acre e Rondônia deixarão de vacinar, o que deve reduzir a demanda por vacina em mais de 25 milhões de doses, segundo o presidente do Conselho Nacional de Pecuária de Corte (CNPC), Sebastião Guedes.

Além disso, a redução no tamanho da dose das vacinas determinada pelo ministério agravou a ociosidade das fábricas. A partir da primeira etapa de 2019 da campanha de vacinação, em maio, as vacinas deverão ter 2 ml, e não mais 5 ml. Com isso, a capacidade da indústria foi elevada em mais de 40%, a 1 bilhão de doses.

Não bastasse isso, muitas veterinárias sequer amortizaram os investimentos feitos nessa área. No ano passado, a divisão veterinária da farmacêutica alemã Boehringer inaugurou sua nova fábrica de vacinas. A planta, em Paulínia (SP), custou mais de R$ 150 milhões. O projeto foi idealizado pela Merial antes de a francesa ser vendida para a Boehringer, em meados de 2016.

Além da alemã, outras veterinárias também adquiriram empresas no Brasil que têm na produção de vacinas contra aftosa uma fatia relevante das vendas. O braço de saúde animal da farmacêutica americana MSD concluiu no ano passado a compra da mineira Vallée, em uma transação de quase R$ 1,3 bilhão. A Vallée tem a maior fábrica de vacinas contra aftosa, sendo responsável por mais de 50% das vendas. Em 2016, a francesa Ceva também ingressou no mercado de aftosa, com a aquisição da Inova Biotecnologia.

Ex-executivo da indústria veterinária e hoje defensor ferrenho do fim da vacinação, Sebastião Guedes, do CNPC, não poupa críticas à indústria. “Eles comparam porque acharam que a vacinação seria eterna”, disse, elogiando a disposição do ministro da Agricultura, Blairo Maggi, em mudar. Para o Brasil, deixar de vacinar pode representar o ganho de mercados importantes para a carne bovina, como Japão e Coreia do Sul.

Nos bastidores, a relação entre a indústria veterinária e o Ministério da Agricultura não está no melhor momento, e a questão envolvendo as vacinas contra a aftosa explica parte disso. Em 2017, os Estados Unidos embargaram a carne bovina in natura do Brasil em razão da detecção de abscessos (acúmulo de pus) na carne. A reação dos bovinos à vacina foi apontada como um dos motivos dos abscessos. Foi a partir daí que o governo mudou a dose das vacinas.

Neste ano, mais problemas envolvendo as vacinas colocaram em lados opostos, outra vez, o Ministério da Agricultura e as veterinárias. Entre o fim do ano passado e o início de 2018, um volume recorde de cerca de 40 milhões de doses de vacinas foi reprovado nos testes realizados pelo ministério. Essas vacinas pertenciam à MSD e à Boehringer. De acordo com Emílio Salani, as indústrias perderam ao menos R$ 15 milhões com o descarte das doses.

As indústrias veterinárias chegaram a pedir liminar para que o Ministério da Agricultura refizesse os testes, afirmou Janaína Garçone, diretora do departamento de fiscalização de insumos pecuários da Pasta. No caso da Boehringer, os novos testes reprovaram as vacinas pela terceira vez. Segundo a diretora, as vacinas não passaram no teste de potência – que exige uma taxa mínima de 80% para a imunização. Procurada, a MSD informou que ainda pede na Justiça a realização de novos testes.

Ao Valor, o presidente da MSD, Edival Santos, disse que as reprovações fizeram com que os estoques de vacinas ficassem mais apertados, elevando o preço das doses de R$ 1,20 em 2017 a R$ 1,40. Apesar disso, não há risco de desabastecimento.

Procurada, a Boehringer não comentou.

Demanda mais fraca de químicos confirma desaceleração econômica

Stella Fontes – Valor Econômico:

O ritmo de consumo de produtos químicos de uso industrial no país está confirmando que a recuperação da economia perdeu força. E a greve dos caminhoneiros, que já levou algumas indústrias do setor a iniciar paradas de produção, pode piorar esse cenário.

Segundo dados preliminares da Associação Brasileira da Indústria Química (Abiquim), o consumo aparente nacional, que mede a produção mais importação menos exportação desses produtos, caiu 10,1% nos quatro primeiros meses do ano, em comparação a desempenho positivo no início do ano passado.

De janeiro a abril, enquanto a produção da indústria química recuou 6,56%, as importações caíram 21,2%, afetadas tanto pela procura menor quanto pela valorização do dólar, que reduz a competitividade do produto importado. Esse desempenho, destacou a diretora de Economia e Estatística da Abiquim, Fátima Giovanna Coviello Ferreira, evidencia a desaceleração da atividade econômica e contrasta com os números positivos exibidos no início do ano passado.

A queda na produção foi motivada por esse cenário macro e pelo menor consumo de intermediários para fertilizantes. Vale ressaltar que a cadeia de agroquímicos iniciou o ano com estoques elevados e, ao invés de ampliar a produção, preferiu regular os níveis de inventário.

Houve, porém, um aspecto positivo nos dados apresentados pela Abiquim. O encolhimento nas importações reabriu espaço no mercado doméstico para o fabricante local. As vendas internas subiram 4,54%, no quadrimestre, com recuperação de participação de mercado pelo produto brasileiro.

No período, a parcela de químicos fabricados localmente e destinada às exportações caiu 27,8%. Em parte, esse desempenho é atribuído ao apagão de energia ocorrido no Nordeste em março e que afetou a produção em fábricas instaladas na região. A produção menor levou a taxa de utilização da capacidade instalada a 74%, quatro pontos abaixo do verificado no mesmo período do ano passado.

Diante disso, após 27 meses consecutivos de resultados positivos, a produção de químicos no acumulado de 12 meses passou para o terreno negativo, com queda de 1,57%, enquanto as vendas domésticas cresceram 1,45%.

Chama a atenção, porém, o fato do volume de produção destinado às exportações vir caindo desde dezembro, após mais de três anos de resultados positivos, apesar de a desvalorização do real aumentar a atratividade das exportações. Em 12 meses até abril, as vendas externas caíram 10,4%.

Em São Paulo, as empresas que formam o polo petroquímico do Grande ABC informaram a parada de suas operações a partir de ontem, por tempo indeterminado, de acordo com o Comitê de Fomento Industrial do Polo do Grande ABC (Cofip), por causa da paralisação dos caminhoneiros.

No Polo de Camaçari (BA), além do setor automotivo, que anunciou a paralisação das operações, outras empresas estão operando com carga reduzida, de acordo com o Comitê de Fomento Industrial de Camaçari (Cofic).

O polo baiano conta com mais de 90 empresas. De acordo com o Cofic, há “grande preocupação” com o recebimento de matérias-primas e escoamento da produção. “Os esforços estão voltados a manter a operação neste momento. Mas a situação já está chegando perto do limite.”.

Janela para concluir acordo com Mercosul está se fechando, diz UE

Daniel Rittner – Valor Econômico:

A janela para concluir o tratado de livre comércio União Europeia-Mercosul está se fechando e pode ser reaberta somente em 2020, segundo negociadores e lideranças políticas em Bruxelas.

Por isso, a aposta na UE é que um acordo possa finalmente ser anunciado no fim de junho, após quase duas décadas de idas e vindas. Se esse calendário não for cumprido, há temores de que as discussões sejam colocadas em ponto morto por mais de um ano.

Do lado europeu, já se admite um acerto para a eliminação mútua de 91% das tarifas industriais, o que é descrito por negociadores como algo “significativamente menos ambicioso” do que tratados recentes da Europa com o Canadá e o Japão. Nesses dois casos, os acordos cobriam praticamente 100% das alíquotas cobradas de bens industriais, com exceção de um ou outro produto sensível.

Conforme apurou o Valor em conversas com representantes do bloco em Bruxelas, sede da Comissão Europeia, as demandas da UE nesta reta final de negociações se concentram em poucos pontos. Um dos objetivos é acelerar o cronograma de liberalização do Mercosul para a indústria automotiva – não apenas carros, mas autopeças. Outro é ampliar a lista de produtos com denominação de origem protegida no Brasil, Argentina, Uruguai e Paraguai.

O bloco sul-americano já concordou em reconhecer 320 das 357 indicações geográficas pedidas. Ainda há divergências sobre itens como queijo parmesão, presunto parma, vinhos de La Rioja (existem regiões produtoras com o mesmo nome na Espanha e na Argentina) e Budweiser. Para os europeus, a cerveja tem origem na República Tcheca e ninguém mais deve usar esse nome, como é o caso da marca hoje comercializada pela Ambev.

Há reclamações, mas um tom de aceitação, de que o Mercosul não se dispõe a ir muito além do que já ofereceu em duas áreas importantes para a UE: compras governamentais (maior abertura nas licitações públicas) e direitos de propriedade intelectual. Uma queixa ouvida em Bruxelas: países com nível de desenvolvimento semelhante ou até inferior, como México e Equador, foram mais “ousados” nessas áreas em negociações feitas recentemente.

Negociadores europeus adotam uma postura de silêncio absoluto em torno da demanda sul-americana de aumento das cotas com acesso privilegiado para produtos como carne bovina. No caso da carne, o compromisso já assumido pela UE é para 100 mil toneladas/ano. Para etanol, são 600 mil toneladas/ano. Não está claro sequer se o que for exportado intracota ficará livre de tarifas.

Uma nova rodada de discussões deve ocorrer no início de junho, provavelmente em Montevidéu, onde os dois blocos pretendem afunilar suas divergências. Certamente haverá a necessidade de uma reunião adicional, então com a presença de ministros do Mercosul e da comissária europeia Cecilia Malmström (responsável pelo comércio exterior), em que poderiam ser feitas as barganhas mais delicadas – aquelas que os técnicos já não têm autonomia para fazer. Para isso, no entanto, um avanço definitivo em Montevidéu é crucial.

“É preocupante que haja toda essa demora em fecharmos o acordo”, afirma o eurodeputado português Fernando Ruas, presidente da delegação UE-Brasil no Parlamento Europeu e um dos legisladores mais atentos às negociações. Ele lembra que havia a expectativa de anunciar o tratado em Buenos Aires, à margem da conferência ministerial da Organização Mundial do Comércio (OMC), em dezembro. Não houve anúncio e o assunto até esfriou.

“Estamos muito perto do fim. Entendo que o diabo esteja nos detalhes, como diz o ditado, mas me preocupa sempre haver razões para novos adiamentos”, acrescenta Ruas. Ele faz uma crítica à própria postura europeia: “A UE tem o dever de zelar pelos interesses de seus agricultores, mas não podemos deixar que um único setor impeça o acordo. Dificilmente chegaremos a um consenso em tudo, tudo, tudo”.

Apesar do otimismo quanto ao desfecho, começam a surgir alertas de que o acordo entrará em banho-maria caso não seja possível fechá-lo nas próximas semanas. A Comissão Europeia, braço executivo da UE, fica praticamente deserta em julho e agosto, meses de férias de verão no Hemisfério Norte. Em seguida, a campanha presidencial atinge o auge no Brasil. Nos bastidores, é quase um consenso em Bruxelas a preocupação com uma eventual vitória do deputado Jair Bolsonaro (PSL), por seus discursos relativizando direitos humanos.

Em menor grau, teme-se ainda a eleição de um presidente com viés mais protecionista. Embora os candidatos normalmente se declarem favoráveis ao acordo UE-Mercosul, há receio de como um novo governo se comportaria para valer no momento mais sensível das negociações, quando os blocos se veem diante da necessidade de fazer concessões que desagradam a setores produtivos.

Do outro lado, a janela política também pode ficar complicada. A partir de outubro, o Parlamento Europeu deixa de receber novos acordos para análise. Os tratados de livre comércio firmados pela UE só entram em vigência depois de ratificação. Depois, em maio de 2019, haverá eleições para renovar todo o Parlamento.

Quatro meses depois, trocam-se comissários e até escalões mais técnicos podem ser afetados. Por isso, sem entendimento agora, adverte-se em Bruxelas que uma sucessão de circunstâncias poderia levar a conclusão do acordo com o Mercosul só para 2020.

O jornalista viajou a convite da UE

Pressão funciona e projeto de lei de agrotóxicos será revisto

Cristiano Zaia – Valor Econômico:

Em meio a uma forte reação contrária de órgãos do governo, da opinião pública, de personalidades como Caetano Veloso e Gisele Bündchen e de renomados chefs de cozinha, o relator do polêmico projeto de lei que flexibiliza e agiliza o registro de agrotóxicos no país, o deputado ruralista Luiz Nishimori (PR-PR), deverá recuar de pontos centrais do texto.

Um deles é o que fortalece o poder do Ministério da Agricultura na análise desses produtos, alvo maior das críticas da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) e do Instituto Brasileiro do meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama).

“Posso mudar alguns itens do texto para garantir segurança alimentar e já estou avaliando alterar três ou quatro pontos”, admitiu Nishimori ao Valor. “Se tem que mudar, eu mudo. Ainda há tempo para modificações, então por que não acolher as sugestões?”, admitiu o deputado.

Tanto a Anvisa quanto o Ibama, que atualmente são corresponsáveis pela análise dos pedidos de registros de agrotóxicos no país, em conjunto com o Ministério da Agricultura, não abrem mão de manter suas atribuições previstas na lei atual, de 1989, que lhes garante poder para negar ou reavaliar registros de agroquímicos.

Ainda que não fale com todas as letras, Nishimori considerou ser melhor manter o poder de decisão desses órgãos. Em seu relatório, o deputado paranaense determina que compete apenas ao Ministério da Agricultura “homologar os pareceres técnicos apresentados nos pleitos de registro de produtos técnicos, produtos equivalentes, pré-mistura, produtos formulados e produtos genéricos, conforme as análises de risco à saúde e ao meio ambiente, e divulgar em seu sítio, sem a necessidade de aprovação”.

Fontes próximas a Nishimori dizem que ele cogita retirar do texto os termos “homologar” e “sem a necessidade de aprovação”. Dessa forma, seria preservado o que diz a atual lei sobre agrotóxicos. O deputado tem sinalizado que pretende manter a atribuição da Anvisa no caso da realização de testes toxicológicos e a do Ibama na avaliação de possíveis impactos ambientais.

“Se aprovado do jeito que está, o projeto de lei trará danos à saúde humana e ao meio ambiente. O texto confere caráter apenas consultivo às atribuições da Anvisa e do Ibama, o que é um absurdo”, afirmou o presidente da Anvisa, Jarbas Barbosa.

Outro ponto sensível são os prazos estabelecidos para o registro de novos agrotóxicos. Ainda que o texto de Nishimori triplique esse prazo de 120 dias para um ano, o deputado tem enfrentado pressão de Anvisa, do Ibama, da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) e até do Ministério da Agricultura e da Embrapa para que o período seja ampliado para dois anos no caso de novas moléculas.

O deputado resiste em promover alterações nessa frente, pois entende que o prazo de três a oito anos que o governo leva hoje na prática para analisar esses pedidos precisa ser urgentemente reduzido. “A fila hoje está em 30 produtos. Será mesmo que o governo não consegue analisar isso em um ano?”, indaga Nishimori.

Ele entende que, se a lei estipular prazos mais bem definidos para cada tipo de defensivo agrícola – seu relatório estabelece no máximo um ano – e integrar a demanda de registros em um único “guichê”, a agricultura poderá ter acesso a produtos mais modernos que exijam um menor número de aplicações nas lavouras e o custo para os agricultores vai cair. Logo, avalia o deputado, a população sairá ganhando com a possibilidade de consumir alimentos mais baratos.

Entre os outros pontos que o deputado deverá alterar em seu texto está o termo que define o insumo. No texto atual, Nishimori adota “defensivos fitossanitários”, não “agrotóxicos”, mas deverá adotar “pesticidas”. E ainda pode acrescentar um ponto que não consta de seu texto atual: prever a criação de um cadastro nacional público de agrotóxicos, que seria disponibilizado no site do Ministério da Agricultura para conferir transparência aos processos.

Farmácias sentem efeito tardio da crise

Adriana Mattos – Valor Econômico

O mercado de farmácias vive hoje efeitos da crise que atingiu o varejo nos últimos anos. Esse cenário adverso deve afetar o desempenho das empresas ao longo deste ano, segundo executivos das principais redes do país.

Os sinais de que as vendas das farmácias têm desacelerado ficaram mais claros nas últimas semanas, quando os números do primeiro trimestre das grandes cadeias foram publicados ao mercado. A Pague Menos não cresceu de janeiro a março e o grupo RD (Raia Drogasil), apesar de se expandir acima da média, perde ritmo desde o terceiro trimestre de 2017.

As empresas afirmam que os efeitos da recessão chegaram ao setor após a segunda metade do ano passado e se intensificaram em 2018. A resiliência desse segmento conseguiu, de certa forma, “blindá-lo” durante um período, mas a lentidão na retomada da economia, e especialmente, a manutenção das elevadas taxas de desemprego – o segmento é altamente dependente de renda – mudou os hábitos dos consumidores e afetou as vendas.

Ainda compõe esse quadro a acelerada expansão da categoria de medicamentos genéricos, que reduz o tíquete médio nas lojas. “O consumo de genéricos está crescendo muito mais. É algo que já vinha aumentando, mas subiu mais de seis a oito meses para cá. São produtos com preço menor, e não há aumento em volume que consiga compensar a desaceleração na receita total” diz Sergio Mena Barreto, presidente executivo da Associação Brasileira de Redes de Farmácias e Drogarias (Abrafarma).

De janeiro a abril, a venda de genéricos subiu R$ 16% (em valor) e nos medicamentos em geral, a alta foi de 11,5%. Para efeito de comparação, no ano anterior houve aumento de 14,9% nos genéricos e no mercado farmacêutico, de 13,2%, segundo dados do Sindicato da Indústria de Produtos Farmacêuticos no Estado de São Paulo (Sindusfarma). Ou seja, o genérico “descolou” do resto do mercado neste ano. Genéricos são, em média, 60% mais baratos que os medicamentos de referência, segundo a PróGenéricos, associação do setor.

Outro fator que pesa para as drogarias é o desempenho abaixo do esperado nos segmentos de higiene e beleza. “A gente poderia conseguir algum contrapeso com a venda maior desses produtos. Mas eles não estão reagindo da forma como prevíamos”, diz o presidente da Abrafarma. “O primeiro trimestre foi desastroso. Estamos estimando que o mercado [de farmácias] deverá crescer a mesma taxa de 2017, em torno de 9%, e se ficar mesmo nisso, vamos nos dar por satisfeitos”, disse.

Na avaliação de Luiz Novais, diretor financeiro da Pague Menos, existe um efeito do aumento das taxas de desemprego, especialmente no Nordeste, regiões onde a concorrência entre as farmácias acirrou-se após 2017 (leia abaixo).

“O consumidor dessa regiões, que perdeu o emprego no ano passado, tentou manter suas compras usando o seguro desemprego e depois, eventualmente, alguma reserva financeira. Mas isso acabou e a farmácia é uma das primeiras que sente esse movimento”, diz.

O setor também identificou um movimento de substituição de gastos, que afeta o mercado, segundo o
presidente da Abrafarma. “Muita gente manteve suas compras nas farmácias nos últimos anos, mas
agora está voltando a consumir mercadorias que abandonou, e a usar serviços de que abriu mão. Estão
reduzindo gastos nas farmácias para voltar a
comprar outros produtos.”

O comando da Raia Drogasil, em entrevista ao Valor no início de maio, já havia alertado para o movimento mencionado por Mena Barreto. “Nosso setor é contracíclico. Quando a economia não vai bem, o cliente gasta no essencial e reduz compras de bens duráveis e consumo discricionário. Com a economia retomando, isso se inverte”, disse Eugênio De Zagottis, diretor de planejamento corporativo da Raia Drogasil;

Na avaliação de Luiz Novais, da Pague Menos, ainda houve o efeito da queda no reajuste dos medicamentos, determinado pelo governo federal, e que tem impacto direto sobre a taxa de expansão da receita. O aumento definido neste ano é de até 2,84%, menor taxa dos últimos 11 anos.

Em relatório sobre o setor enviado a investidores na semana passada, o analista da corretora Brasil Plural, Guilherme Assis, afirmou que as varejistas devem continuar a apresentar resultados “mornos” a curto prazo.

“Em nossa opinião, o crescimento da receita será prejudicado pela queda contínua nos preços médios e pela redução de tíquetes médios, o que deve consequentemente pesar sobre a rentabilidade, mesmo com os maiores volumes gerados pelos planos de expansão [de aberturas de lojas] em andamento”, escreveu Assis.

“É um novo cenário em termos de vendas e concorrência a que o mercado deve ter que se adaptar daqui para frente”, disse Rodrigo Pizzinatto, diretor superintendente da Extrafarma, ao Valor dias atrás. Especialistas ressaltam que o setor ainda se expande de forma mais rápida do que a média varejo brasileiro, apesar do desaquecimento recente. De janeiro a março, enquanto a receita nominal do varejo restrito subiu 4,1%, segundo o IBGE, as farmácias se expandiram 6,2%, de acordo com a Abrafarma.

Remédios puxam taxa de abril, mas inflação segue contida, dizem analistas

Arícia Martins – Valor Econômico

O reajuste anual de medicamentos autorizado pelo governo federal elevou a inflação em abril, segundo economistas, mas o comportamento dos preços seguiu ainda bastante tranquilo. De acordo com a estimativa média de 36 instituições financeiras e consultorias ouvidas pelo Valor Data, o Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) acelerou de 0,09% em março para 0,28% no mês passado.

As estimativas para o indicador oficial de inflação, a ser divulgado hoje pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), vão de alta de 0,25% até 0,34%. Como, no ano passado, a inflação de abril foi menor (0,08%), o IPCA acumulado em 12 meses também deve ter aumentado na passagem mensal, de 2,68% para 2,83%.

A principal pressão sobre os preços no quarto mês do ano foi a correção de remédios, que subiram até 2,84% em 31 de março, observam Patrícia Pereira e Breno Martins, da Mongeral Aegon Investimentos. Nos cálculos da gestora de recursos, os produtos farmacêuticos ficaram 1,7% mais caros em abril, depois de terem recuado 0,17% em março. Como resultado, a inflação do grupo saúde e cuidados pessoais dobrou, passando de 0,48% para 1,07%, estimam.

Mesmo assim, o cenário inflacionário segue favorável, afirma Patrícia, para quem o IPCA subiu 0,27% no mês passado. No primeiro trimestre, o indicador acumulou alta de 0,70%, lembra ela, a menor taxa para o período desde a criação do Plano Real. “O lado benéfico com a frustração da retomada da atividade é que não vemos espaço para repasses de preços”, comenta a economista.

Outra surpresa favorável foi a evolução dos preços de alimentos no início do ano, acrescenta ela. Em abril, estes itens devem ter acelerado, mas ainda em ritmo modesto. A Mongeral estima que o grupo alimentação e bebidas aumentou 0,30%, ante apenas 0,07% na leitura anterior. Os alimentos in natura são os maiores responsáveis pela inflação maior, principalmente os tubérculos, diz Martins. “É um movimento sazonal, que já era esperado. O cenário segue confortável.”

Além dos itens in natura, acrescenta a LCA Consultores, as coletas de preços e os índices ao produtor apontam que leite e derivados também estão em tendência de ascensão.

A equipe econômica da consultoria menciona, ainda, a queda mais fraca das passagens aéreas, a elevação sazonal de artigos de vestuário e a saída do impacto da redução de tarifas de telefonia fixa como outros fatores de pressão sobre o IPCA de abril, que aumentou 0,27% nas previsões da LCA.

Em sentido contrário, as tarifas de eletricidade residencial devem ter desacelerado, observa a LCA, após a diluição do efeito dos aumentos no Rio. As contas de energia subiram em três regiões pesquisadas pelo IBGE em abril, mas não compensaram a saída do impacto do reajuste efetuado pela Light em março, de acordo com os economistas.

Para o Itaú Unibanco, as partes de saúde e alimentação serão os maiores impactos sobre o IPCA de abril, e devem adicionar 0,14 ponto e 0,06 ponto ao indicador, respectivamente. O banco projeta que o IPCA subiu 0,30% no período, ou 2,84% na medida acumulada em 12 meses.

Patrícia, da Mongeral, estima que o índice oficial de inflação ficou em 2,81% nos 12 meses até abril. Em 2018, a expectativa é que o IPCA suba apenas 3,3%. “A despeito da taxa de câmbio real mais depreciada, é difícil ver alguém revisando suas estimativas para cima ou algum temor a respeito da inflação”, afirma.

Itamaraty mira a Ásia em busca de acordos

Daniel Rittner – Valor Econômico

Os países do Mercosul anunciam no dia 25, em reunião dos ministros de Comércio e de Relações Exteriores em Seul, a abertura de negociações para um acordo comercial com a Coreia. Ainda não está definido se o objetivo vai ser um tratado de livre comércio ou um acerto mais simples, de preferências tarifárias, em que se reduzem mutuamente as alíquotas de importação para um leque mais restrito de produtos.

No ano passado, Mercosul e Coreia finalizaram com sucesso um “diálogo exploratório”. Foi um mapeamento inicial sobre os interesses de cada lado para saber se existe viabilidade em uma negociação efetiva. A percepção foi de que as discussões podem prosperar e as duas partes passaram, então, a buscar um mandato negociador. No caso brasileiro, a Câmara de Comércio Exterior (Camex) deu o sinal verde.

A iniciativa do bloco sul-americano com a Coreia insere-se em um contexto maior, de aproximação com a Ásia, que o Itamaraty resolveu priorizar. Trata-se, segundo fontes diplomáticas, praticamente de uma necessidade diante da importância cada vez maior do continente e da mudança no eixo do crescimento global para a região do Pacífico.

Esse é o pano de fundo de um giro iniciado nesta semana pelo chanceler Aloysio Nunes a sete nações asiáticas, com 18 dias de duração, depois que o presidente Michel Temer suspendeu pela segunda vez sua visita oficial. Foi uma forma de mostrar relevância.

Na primeira escala do périplo, em Cingapura, foi assinado um acordo bilateral para evitar a dupla tributação. A cidade-país tem estoque de investimentos de US$ 1,4 bilhão no Brasil. Construção naval e administração aeroportuária – a Changi controla o Galeão (RJ) – são os destaques.

Em sua passagem pela China, onde está sediado o Novo Banco de Desenvolvimento (NBD), Aloysio firmará o acordo de instalação da unidade regional do Banco dos Brics no Brasil. O escritório deve ser inaugurado no segundo semestre. O ministro promoverá ainda uma reunião com todos os embaixadores e chefes do departamento de promoção comercial de postos brasileiros na Ásia. A mensagem é de buscar estreitamento econômico e comercial.

No âmbito político, mecanismos de consultas bilaterais que estavam parados há anos foram reativados recentemente. Algumas embaixadas do país na região, como Jacarta (Indonésia) e Seul, tiveram um reforço de equipe na atual gestão. Há ainda uma “dança das cadeiras” nos principais postos diplomáticos: a embaixada em Pequim será assumida por Paulo Estivallet; Eduardo Saboia vai para Tóquio; André Corrêa do Lago está sendo deslocado para Nova Délhi.

Vendas da Raia Drogasil perdem força

Adriana Mattos – Valor Econômico

O grupo RD, antiga Raia Drogasil, sentiu uma “dificuldade clara de vendas” no primeiro trimestre deste ano, disse ontem Eugênio De Zagottis, diretor de planejamento corporativo e relações com investidores da varejista de farmácias, após divulgação do balanço. Segundo ele, o movimento que afetou a companhia também se reflete sobre o setor. No grupo RD, a receita proveniente de lojas maduras, abertas há mais de três anos, encolheu 1% – a primeira queda nesse indicador desde a criação da rede, em 2011.

Ontem, o J.P.Morgan rebaixou a recomendação para as ações da companhia de “compra” para “neutro” e reduziu o preço-alvo de R$ 86 para R$ 73 – o papel fechou em queda de 4% para R$ 66. Por trimestres seguidos, o grupo apurou expansão acelerada e tornou-se um dos papéis mais “resilientes” da bolsa, segundo analistas. Mas o receio de piora em certos indicadores, além do risco de canibalização, com abertura de lojas, e concorrência mais acirrada fizeram o mercado adotar uma postura mais cautelosa. No ano, a empresa perdeu 28% de seu valor de mercado.

Segundo os dados publicados ontem, a receita líquida do grupo RD cresceu 12,3% de janeiro a março, para R$ 3,4 bilhões.

Foi a menor taxa de expansão desde o primeiro trimestre de 2013, mas ficou acima do desempenho mercado. A Abrafarma, entidade do setor, apurou alta de 6,3% no faturamento até março. As vendas “mesmas lojas” da RD subiram 2,7%, menor crescimento desde a criação do grupo.

“Estamos devolvendo o que tomamos lá atrás […]. Houve uma desaceleração forte no setor que está afetando a todos. E mesmo sentindo a concorrência maior, nós ganhamos ‘share’ [participação de mercado]. Hoje, temos nos medido mais pelo ‘share’ do que pelas vendas”, disse Zagottis.

O desaquecimento nas vendas reflete, na visão do comando do grupo, “uma transferência de demanda” das farmácias para outros segmentos, algo comum em processos de recuperação no consumo, quando clientes voltam a adquirir produtos que tinham tirado de suas listas de compra na crise.

Ele observa que categorias que perderam força na recessão – como moda e calçados – têm apurado melhora nas vendas agora. As drogarias conseguiram manter um ritmo de vendas acima da média do varejo brasileiro no período de crise, entre 2015 e 2017.

Neste ano, as farmácias sentem ainda o reflexo de um reajuste menor no preço dos medicamentos, que é determinado pelo governo. Foi autorizado um aumento de até 2,84%, o mais baixo em 11 anos.

De janeiro a março, o lucro líquido da RD cresceu 16,6%, para R$ 121,2 milhões, superando a alta média prevista por três analistas de mercado ouvidos pelo Valor, de 12%. Apesar da cautela maior, esses especialistas continuam a ressaltar que acertos na execução da estratégia e boa situação financeira e operacional do grupo sustentam expectativa de aumento nos ganhos em 2018.

Zagottis rebate a avaliação de analistas de que a canibalização de lojas afetou a receita, assim como entende que mesmo com o desaquecimento nas vendas, houve manutenção de rentabilidade. “Nosso nível de canibalização não subiu de um ano para cá e estamos mantendo nossas aberturas em 240 pontos no ano e em 2019.”

A margem bruta atingiu 28,5% de janeiro a março, leve queda de 0,2 ponto percentual, e a margem Ebitda, que mede lucro antes de juros, impostos, amortização e depreciação, ficou estável em 7,6%.

Zagottis não fez previsões sobre margens em 2018, mas considera que deve haver pressões nesse índice ao longo do ano, o que torna difícil achar espaço para melhora no indicador. A respeito da possibilidade de a empresa recuperar ritmo de vendas reduzindo margem e sendo mais agressiva em preço, o executivo diz que, no momento, não vê necessidade de “cortar na carne”. (Colaborou Marcelle Gutierrez)