Anvisa recomendará o veto a PL que libera anorexígenos

A Anvisa vê com preocupação a aprovação, na Câmara Federal, do Projeto de Lei 2.431/2011, que autoriza a produção, a comercialização e o consumo, sob prescrição médica, de medicamentos à base das substâncias anorexígenas sibutramina, anfepramona, femproporex e mazindol. A Agência entende que a medida representa sério risco para a saúde da população ao retirar da Agência a competência legal para a regulação a respeito do registro sanitário dessas substâncias. Por conta disso, a posição da Agência é bem clara: vai recomendar ao presidente Michel Temer que vete a proposta.

Para a Anvisa, a aprovação do PL promove sério dano ao regime jurídico dos produtos submetidos ao controle da vigilância sanitária, estabelecido pelas Leis nº 6.360/76 e 9.782/99, e resguardado por recente decisão do Supremo Tribunal Federal (STF). A venda (dispensação) dos medicamentos à base de anfepramona, femproporex, mazindol e sibutramina é regulada pela Anvisa através da Resolução da Diretoria Colegiada (RDC) 133/2016.

“Não concordamos com a liberação de medicamentos feita por lei. Pode ser que, posteriormente, se descubra que esses medicamentos possam oferecer algum risco ou perigo a quem os consumir. O papel do Congresso é outro:
cobrar da Anvisa eficiência, transparência e acompanhar seus processos.
Mas não substituir as funções da Anvisa”, ressalta o diretor-presidente da Agência, Jarbas Barbosa.

O registro sanitário visa garantir a segurança e eficácia terapêutica dos medicamentos. Trata-se, portanto, de medida destinada a assegurar o direito constitucional fundamental da saúde, prevista de forma expressa como dever do Estado. A decisão do Congresso permite que as substâncias em questão sejam manipuladas mesmo sem a devida comprovação de segurança e eficácia asseguradas pelo registro na Anvisa, caracterizando-se, portanto, como risco para a saúde da população.
Um bom exemplo disso é o caso da fosfoetanolamina, propagada por seus produtores como a “pílula do câncer” e que teve seu uso autorizado pela Câmara, mesmo sem que a substância tenha registro na Anvisa. O STF barrou esta decisão, por entender que “a busca pela cura de enfermidades não pode se desvincular do correspondente cuidado com a qualidade das drogas distribuídas aos indivíduos mediante rigoroso crivo científico”.

Posteriormente à decisão do STF, todos os testes em torno da fosfoetanolamina demonstraram a não eficácia ou benefício clínico significativo na substância. Ou seja: se a decisão da Câmara estivesse em vigor, as pessoas teriam se submetido ao tratamento com um “medicamento” ineficaz e que poderia até mesmo ser prejudicial a esses pacientes ao fazê-los abandonar a quimioterapia tradicional.

Por fim, ressalta-se que a substância ativa sibutramina continua como opção terapêutica disponível para a população brasileira em medicamentos industrializados – com o devido registro na Anvisa – e que podem ser produzidos e comercializados por farmácias de manipulação. O registro de medicamentos com as substâncias anfepramona, femproporex, mazindol pode ser solicitado e poderá ser concedido mediante a apresentação de dados que comprovem a eficácia e segurança dos mesmos, conforme Art. 2º da Resolução de Diretoria Colegiada-RDC nº. 50/2014.

A Anvisa se coloca à inteira disposição do Congresso para colaborar com o debate e fornecer todas as informações técnicas possíveis. No entanto, é importante reiterar que liberar medicamentos que não passaram pelo devido crivo técnico seria colocar em risco a saúde da população.

Assessoria de Comunicação da Anvisa

Roche sofre revês em novo coquetel contra câncer

David Crow – Valor Econômico: 

As esperanças da Roche de lançar um novo coquetel de remédios para proteger-­se contra o fim da patente de seu principal medicamento contra o câncer de mama sofreram um golpe depois de um amplo teste ter mostrado que a combinação é apenas um pouco melhor do que o tratamento antigo.

O laboratório farmacêutico suíço esperava defender-­se contra o lançamento de uma versão “biossimilar” rival de seu tratamento contra o câncer de mama Herceptin, cujas vendas anuais chegam a US$ 7 bilhões, por meio da combinação da droga com um de seus novos remédios, o Perjeta.

O teste clínico realizado mostrou que os dois remédios combinados eram melhores do que se usados isoladamente para impedir a volta do câncer depois de cirurgias, mas que a vantagem era muito pequena.

Um grande acionista disse que havia “muito nervosismo” entre os investidores quanto ao resultado dos testes

Depois de três anos, 94,1% dos pacientes que usaram o coquetel ficaram livres da doença em comparação aos 93,2% que não tomaram o coquetel, de acordo com os dados do experimento, apresentados na maior conferência mundial sobre câncer realizado ontem.

A Roche já havia obtido aprovação das autoridades de supervisão para o uso da combinação em alguns doentes de câncer, mas agora, depois de ver os dados, os oncologistas poderiam decidir ficar apenas com o remédio antigo para a maioria dos pacientes.

“Os testes nos dizem que a combinação é melhor do que a administração única, mas que a diferença é pequena”, disse o doutor Daniel Hayes, presidente da Sociedade de Oncologia Clínica dos Estados Unidos (ASCO, na sigla em inglês), que organizou a conferência, em Chicago.

Os tratamentos com o Herceptin e o Perjeta custam, cada um, em torno a US$ 70 mil por ano. Os remédios combinados geraram vendas de 8,6 bilhões de francos suíços (US$ 8,6 bilhões) para a Roche em 2016.

As patentes que protegiam o Herceptin venceram e o laboratório farmacêutico de remédios genéricos Mylan chegou à acordo com a Roche, em março, que lhe permitirá começar a vender um versão “biossimilar” mais barata do medicamento em grandes mercados.

Analistas acreditam que a Roche pretendia combater a versão rival alardeando os benefícios de sua nova terapia com o coquetel, que é vendido em uma embalagem conjunta.

Hayes disse que os oncologistas podem optar por evitar a nova combinação não apenas por motivos de custo, mas também porque o Perjeta provoca casos de diarreia severa em alguns pacientes.

Nos testes clínicos, cerca de 10% dos pacientes tiveram diarreia de grau 3, o que significa que as pessoas podem ter dificuldade para controlar os movimentos intestinais e podem precisar de tratamento em clínicas ou hospitais.

Hayes ressaltou, contudo, que alguns pacientes podem ser bons candidatos para o uso do coquetel e que mais estudos precisam ser feitos para descobrir quais seriam os que mais podem se beneficiar.

“Espero que sejamos ponderados sobre como usamos o Perjeta ­ sem causar diarreia desnecessariamente e sem quebrar as contas nos bancos.”

Antes da divulgação dos dados, nesta segunda-­feira, um grande acionista do laboratório farmacêutico disse que havia “muito nervosismo” entre os investidores quanto ao resultado dos testes.

“A grande questão é se os dados são suficientes para convencer os clínicos de que o padrão de tratamento para o câncer de seio HER2 positivo agora é a combinação de Herceptin e Perjeta”, disseram analistas do HSBC.

Aché planeja crescer no mercado externo e acelera lançamentos

Stella Fontes – Valor Econômico: 

O Aché, um dos maiores laboratórios brasileiros, está pavimentando o caminho para internacionalizar seus negócios. Hoje responsáveis por menos de 1% da receita, as exportações deverão representar mais de 5% das vendas em cinco anos. Ao mesmo tempo, a farmacêutica, que é a número um no mercado nacional de medicamentos vendidos sob prescrição, está acelerando o ritmo de lançamentos para alcançar R$ 3 bilhões em receita líquida neste ano e chegar a R$ 20 bilhões em 2030.

O Aché já tem em curso um programa de registro de medicamentos em diferentes países e a fábrica que será instalada em Pernambuco, mediante investimento de R$ 500 milhões, nascerá com certificação para os grandes mercados mundiais, entre elas a da Agência Europeia de Medicamentos (EMA, na sigla em inglês) e a do Food and Drug Administration (FDA), dos Estados Unidos.

“Quero que esse seja o meu legado, para perpetuar a empresa e ser o lugar onde o jovem profissional quer estar, uma multinacional de dentro para fora”, diz o presidente do Aché, Paulo Nigro. Na avaliação do executivo, que durante anos trabalhou na multinacional Tetra Pak, a internacionalização das operações traz mais qualificação ao negócio, amplifica o conhecimento e abre outras frentes de oportunidade.

O fato de o Brasil contar com uma agência regulatória forte, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), e o marco regulatório para a biodiversidade brasileira, enumera Nigro, funcionam como vantagem competitiva para os laboratórios nacionais, que têm encontrado mais facilidade de registrar seus medicamentos em outros mercados. “O Aché está fazendo um movimento de registro de produtos e, mais adiante, vai definir o ‘go­to­market’ [ir a mercado, em tradução literal]”, afirma.

A construção da nova fábrica e de um centro de distribuição no Complexo Industrial Portuário de Suape (PE) é peça fundamental na estratégia de internacionalização, tanto pela adição de capacidade produtiva, quanto pela localização estratégica para o comércio internacional. Com tecnologia de ponta e apta a atender mercados super regulados, a unidade fabril, que deve entrar em operação em 2019 também terá base de custo competitiva, segundo o executivo.

Aquisições no mercado externo para acelerar a internacionalização não estão nos planos ­ as exportações são o pilar dessa estratégia. Novas compras no país também não estão no radar neste momento, de acordo com o presidente, mas oportunidades que surgirem no caminho poderão ser avaliadas. “Uma operação maior não é interesse nesse momento”, disse Nigro, em entrevista concedida em uma sala no 20º andar do prédio onde fica o Complexo Aché Cultural, que também é composto pelo Instituto Tomie Ohtake, na zona oeste de São Paulo.

Segundo Nigro, os esforços estão voltados à consolidação de dois laboratórios recém-­comprados. No ano passado, o Aché reforçou presença no mercado de fitoterápicos e de nutracêuticos com as compras do gaúcho Tiaraju e da paranaense Nortis Farmacêutica, especializada na fabricação de antibióticos cefalosporínicos e comercialização de alimentos funcionais.

No terreno dos lançamentos, o Aché apresentou 27 novos produtos no ano passado, entre medicamentos de prescrição, isentos de prescrição, genéricos e dermatológicos. Esse último segmento, que funcionava como uma espécie de start­up dentro da farmacêutica, cresceu e transformou-­se em área quase independente com a unificação do portfólio de dermo-medicamentos e dermocosméticos.

Para promover os dermocosméticos, o Aché apostou na plataforma digital e, hoje, o canal online de venda desses produtos e de nutracêuticos já comercializa mais que o melhor ponto de vendas físico. A ideia é ampliar essa plataforma, transformando­-a no futuro em um “market place”, com oferta de outros produtos e serviços relacionados a saúde e bem­ estar.

Ao fim de 2016, o Aché tinha 127 projetos de novos produtos no pipeline e, desde 2012, foram 136 lançamentos. Nos últimos cinco anos, a participação dos produtos recém-­lançados na receita líquida ficou em 27,1%. Neste ano, se tudo der certo, serão colocados no mercado 30 novos produtos e, de janeiro a maio, já foram sete: um medicamento sob prescrição, três dermatológicos, dois isentos de prescrição e um genérico.

Apesar de as vendas de medicamentos terem crescido nos dois últimos anos, a crise econômica deixou marcas também nessa indústria ­ com a redução do ritmo de expansão, principalmente. No Aché, o ambiente mais desafiador ampliou as iniciativas de ganho de produtividade e redução das despesas.

“Tomamos medidas de curto prazo. Olhamos para nosso custo e para a base de despesas e apertamos o cinto”, diz Nigro. Como resultado, a empresa colheu avanço de 11% nas métricas de produtividade, o que deu fôlego à contratação de 277 pessoas, alocadas sobretudo em força de vendas, área regulatória e desenvolvimento.

Esse esforço de curto prazo foi combinado, conforme o executivo, à adesão das premissas estabelecidas no planejamento de longo prazo do Aché, que olha para 2030. “O plano 20/30 me diz o que tenho de fazer e, ainda mais, o que não tenho de fazer. O Aché tem muito claro o que quer”, diz. No ano passado, a receita líquida do laboratório cresceu 15,1%, para R$ 2,7 bilhões.

 

Baxter volta às compras e adquire clínica de hemodiálise no Brasil

Stella Fontes – Valor Econômico: 

Marca onipresente nas farmácias hospitalares ao redor do mundo e referência em produtos para tratamento renal, a americana Baxter deu a volta por cima no último um ano e meio e está pronta para ir às compras. Após reduzir o endividamento e fortalecer o caixa, hoje a companhia está confortável para dedicar algo entre US$ 6 bilhões e US$ 7,5 bilhões a uma ou mais aquisições em diferentes regiões.

No Brasil, estão na mira clínicas de hemodiálise e diálise peritoneal e a estratégia virou negócio recentemente, com a aquisição da Clínica Núcleo, em Belo Horizonte (MG), por valor não revelado. A compra marca a chegada da Baxter a um novo mercado no país ­ em outros países, entre os quais Argentina, Colômbia e Espanha, a farmacêutica já tem entre 50 e 60 clínicas próprias ­ e a ideia é crescer mais.

Em entrevista ao Valor, o executivo­chefe global da farmacêutica, Joe Almeida, diz que há mais dois ou três ativos brasileiros dessa área em fase de prospecção no momento. A Baxter está entre os maiores fornecedores de equipamentos para essas clínicas e, conforme o país e o sistema de reembolso público e privado, faz sentido estar nesse negócio, explica o executivo.

Almeida chegou oficialmente ao comando da farmacêutica em janeiro do ano passado, vindo da Covidien, que foi comprada pela americana Medtronic, e as medidas adotadas em sua gestão parecem ter agradado aos investidores. Naquele momento, as ações da farmacêutica eram negociadas por aproximadamente US$ 36 cada na Nasdaq. Atualmente, valem algo perto de US$ 57, uma alta de quase 60%.

Essa valorização veio na esteira de um processo relativamente rápido de reorganização dos negócios após a cisão da área biofarmacêutica, em operação que deu origem à Baxalta em 2015. Meses depois, a nova empresa foi comprada pela irlandesa Shire por US$ 32 bilhões.

No ano passado, com a venda de ações remanescentes da Baxalta, a farmacêutica levantou recursos suficientes para eliminar dívidas de aproximadamente US$ 3,6 bilhões, recomprar mais de 10 milhões de ações e calibrar o fundo de pensão dos funcionários nos Estados Unidos.

Em custos estruturais, a economia na Baxter chegou a US$ 800 milhões e problemas de qualidade foram contornados, garante Almeida. “Nossos alicerces são qualidade e segurança dos pacientes, melhor empresa para se trabalhar e desempenho líder no setor”, diz.

Como reflexo da reestruturação, a alavancagem financeira caiu a menos de 1 vez, o que colocou a companhia em posição bastante confortável ou para ir às compras ou ampliar o retorno aos acionistas. Ou ambos. Sobre possíveis operações de fusão ou aquisição, ressalta Almeida, o ponto de partida para tomada de decisão é o compromisso com pacientes, funcionários e acionistas.

Além da aposta em crescimento inorgânico, que poderá aumentar a participação da área hospitalar no faturamento, a Baxter quer acelerar o ritmo de lançamentos. Com isso, a participação de novos produtos nas receitas poderá chegar a 10% nos próximos cinco anos, frente a 2% atualmente. Somente em 2016, conta o executivo-­chefe, foram lançados mais de 20 produtos.

A farmacêutica tem operação no Brasil há 40 anos e a fábrica de Interlagos, na zona Sul da capital paulista, ainda tem capacidade para absorver a produção de novos itens. Em breve, a unidade passará a produzir localmente uma solução utilizada na hidratação de pacientes em estado crítico desenvolvida nos Estados Unidos, com reformulação no país. Segundo Almeida, a fábrica brasileira é uma das campeãs de produtividade no universo da Baxter.

Brasileiro, o executivo de 54 anos que deixou o país há cerca de três décadas, diz que o mercado farmacêutico local permanece atraente, a despeito da crise econômica, com crescimento anual da operação local de “um dígito alto” ou “dois dígitos baixos”. “É certo que há crise, mas estamos trazendo produtos novos e temos um portfólio bem balanceado entre público e privado”, conta o executivo. Além disso, há bons hospitais no país e bem gerenciados.

Fornecedora de hospitais e clínicas, a Baxter não vende seus produtos diretamente ao consumidor final, em farmácias ou drogarias. No ano passado, teve vendas líquidas de US$ 10,2 bilhões, 62% das quais geradas no segmento hospitalar ­ desde soluções intravenosas a diferentes dispositivos médicos ­ e 38%, na área de tratamento renal. Individualmente, os Estados Unidos ainda são o mercado mais importante da farmacêutica, com cerca de 40% das vendas, mas 60% dos negócios já estão em outros países que não a sede.

No fim de abril, junto com a divulgação dos resultados globais do primeiro trimestre, a companhia melhorou as projeções para este ano e informou que espera crescimento de 2% a 3% nas receitas de 2017 em bases constantes de câmbio.

 

EUA pedem que Brasil apresse registro de medicamentos

Juliano Basile – Valor Econômico: 

O Representante Comercial dos Estados Unidos (USTR, na sigla em inglês) cobrou maior celeridade nos procedimentos para registro de patentes de medicamentos no Brasil num relatório em que mantém o país em lista negativa sobre proteção de propriedade intelectual. Em documento concluído recentemente, que o Valor teve acesso, a revisão de pedidos de patentes de remédios pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) foi apontada como uma preocupação pelo USTR sob a alegação de que haveria “falta de transparência” e atrasos excessivos de registros para novos remédios num processo que dificultaria o exame desses pedidos pelo Instituto Nacional de Propriedade Intelectual (INPI).

O Brasil foi colocado ao lado da Suíça, do México, do Canadá e da Bolívia entre os países que ficam numa “lista de observação” na última edição do “Special 301” ­ relatório que trata dos avanços e declínios dos países do mundo na área de proteção industrial. O USTR até reconheceu que houve avanços nesse campo no Brasil no último ano e qualificou como um “passo adiante” o acordo feito com os Estados Unidos para acelerar os exames dos registros de inovações nos setores de óleo e gás. Já no caso da Anvisa, os americanos esperam que haja uma aceleração dos procedimentos de patentes a partir de uma nova sistemática entre a Anvisa e o INPI.

“Os Estados Unidos esperam ansiosamente a revisão do acordo e pretendem monitorar o impacto do novo papel da Anvisa em sua implementação”, informou o relatório, referindo-­se ao anúncio de novos procedimentos entre a agência e o instituto, que foi feito em abril passado.

O USTR acrescentou ainda que, embora a legislação brasileira garanta proteção contra o uso comercial desleal de testes não revelados e de outras informações geradas para obter a aprovação da comercialização para produtos químicos agrícolas e veterinários, ela não prevê proteção semelhante para os produtos farmacêuticos.

Os Estados Unidos também manifestaram preocupação com eventuais ações do INPI para invalidar ou encurtar o prazo de duração de um número significativo de patentes para produtos farmacêuticos e agrícolas. “Uma forte proteção de propriedade intelectual, tanto doméstica quanto para os detentores de direitos internacionais, garante um incentivo crucial ao mercado para investir na inovação futura no Brasil e os Estados Unidos esperam ansiosamente para se engajar de maneira construtiva com o Brasil na confecção de um ambiente fortalecido e para endereçar as preocupações existentes”, completou o relatório.

No campo do combate à pirataria, o governo dos Estados Unidos reconheceu os esforços para proteção de direitos de propriedade intelectual nos Jogos Olímpicos e Paraolímpicos de 2016, mas, mesmo assim, manteve o país na lista negativa de nações que descumprem regras de direito autoral. De maneira geral, prevalece a visão de que o Brasil tem uma forte pirataria “on­line” e problemas na tríplice fronteira com o Paraguai e a Argentina. O USTR também reclamou do enfraquecimento do Conselho Nacional de Combate à Pirataria (CNPC), órgão do Ministério da Justiça, que, segundo o relatório, teve uma atuação, em 2016, que “pareceu não operacional”.

 

Farmacêutica Biotoscana planeja IPO de R$ 850 milhões

Carolina Mandl e Rodrigo Rocha – Valor Econômico: 

Controlado pela gestora de fundos de private equity Advent International, a fabricante e distribuidora de medicamentos de alta complexidade Biotoscana deu a largada ontem ao processo de abertura de capital na bolsa de valores. A companhia pretende listar recibos de ações (BDRs) na B3 (ex­-BM&FBovespa).

A transação deve movimentar cerca de R$ 850 milhões, segundo o Valor apurou com duas fontes a par da transação. Procuradas pela reportagem, a Biotoscana e a Advent não comentaram o assunto.

Cerca de 60% desses recursos vão para os acionistas da Biotoscana, vendedores de uma parcela das ações que detém. Além da Advent, a empresa americana de investimentos na área de saúde Essex Woodlands, além de Robert Friedlander e Roberto Luiz Guttman, ambos da United Medical, uma das companhias controladas da Biostocana, vão vender papéis.

A companhia pretende utilizar o restante dos recursos da oferta na redução do endividamento com o Bancolombia e no resgate de certificados de ações preferenciais, emitidos em 2015.

A oferta tem como coordenadores os bancos BTG Pactual, Itaú BBA e J.P. Morgan.

A companhia, que tem operações em dez países da América Latina e sede fiscal em Luxemburgo, começou a ser criada pela Advent International em 2011, quando a gestora comprou uma fabricante de remédios de alta complexidade na Colômbia, chamada Biotoscana. Depois disso, outras duas aquisições foram feitas: em 2014, a empresa comprou a fabricante brasileira de medicamentos United Medical, e, em 2015, a distribuidora de remédios argentina LKM.

O modelo de negócios da Biotoscana é voltado para áreas terapêuticas especiais, que abrangem doenças infecciosas, raras, oncologia e oncohematologia, tratamentos especiais, imunologia e inflamações. A venda é voltada a canais privados, como hospitais e clínicas.

Altamente especializada, a Biotoscana está em um nicho de mercado bastante diferente daquele criado por outra farmacêutica também listada na bolsa de valores, a Hypermarcas, que é voltada para remédios sem prescrição médica, como Benegrip, Epocler e Atroveran.

A Biotoscana opera duas unidades de fabricação na Argentina, em Buenos Aires, com outra em construção e, detém, opera ou terceiriza centros de distribuição em todos os países onde tem atua. A sede administrativa do grupo fica em Montevidéu.

Até o fim do ano passado, o portfólio da farmacêutica na América Latina contava com 200 produtos. No Brasil, eram sete medicamentos registrados.

Em 2016, a companhia registrou receita de R$ 794,5 milhões, alta de 42% ante 2015, e lucro líquido de R$ 47,2 milhões, revertendo perda de R$ 12,1 milhões. Principal mercado, o Brasil foi responsável por 43% da receita. É aqui que está a United Health, empresa farmacêutica comprada pela Biotoscana em 2014.

Ainda de acordo com o prospecto preliminar divulgado ontem, os recibos de ações serão lastreados em papéis negociados no segmento Euro MTF da bolsa de Luxemburgo. (Colaborou Stella Fontes)

 

EMS assume produção da Medley no DF

Stella Fontes – Valor Econômico:

Maior farmacêutica do país segundo ranking da IMS Health, a EMS assumiu ontem a operação da fábrica de Brasília (DF) da Medley, fabricante de genéricos e similares do laboratório francês Sanofi. Detalhes do acordo, tratado como de locação e não de venda, bem como o valor da operação, não foram revelados. Mas é público que o contrato de longo prazo envolve a compra dos equipamentos produtivos e a transferência de 60 colaboradores da Medley, que deixará de ter produção no local porém manterá as atividades comerciais, para a EMS.

A unidade é voltada à produção de hormônios e antibióticos genéricos e similares, que agora serão produzidos para a Medley por outro fornecedor. A EMS, por sua vez, complementará seu portfólio de medicamentos e se aproximará ainda mais de ter plataforma de produção de 100% das formas e segmentos farmacêuticos ­ a empresa ainda não produz injetáveis, que estão contemplados no plano de expansão que deve ser concluído nos próximos anos.

Desde 2013, a EMS tem em marcha um plano de expansão que supera R$ 600 milhões. Parte dos recursos já foi aplicada na construção de novas fábricas em Manaus (AM) e Jaguariúna (SP) e na atualização tecnológica do complexo industrial de Hortolândia (SP), incluindo uma nova fábrica de embalagens de medicamentos sólidos no local.

Pioneira em genéricos no país, a EMS faz parte do grupo NC, da família Sanchez, com receita de R$ 2,9 bi no ano passado

O acordo com a Medley faz parte desse pacote de investimentos, que também previa a construção de uma fábrica em Brasília. A unidade que é base do acordo foi anunciada pela Sanofi em 2009, mesmo ano em que a Medley foi comprada pelos franceses, e foi inaugurada em 2014. A intenção da EMS é investir na operação para alcançar produção anual de 80 milhões de unidades, o que elevará para quase 200 o número de funcionários diretos em dois anos.

Segundo o diretor de Desenvolvimento Estratégico da EMS, Ricardo Marques, o plano de desinvestimentos da Medley representou uma oportunidade para a empresa. “Foi um ganha-­ganha”, diz. Com a nova unidade, a farmacêutica chega perto de 1 bilhão de unidades (caixas de medicamentos) por ano de capacidade instalada, um aumento de mais de 80% em relação ao tamanho da farmacêutica antes do plano expansão.

A EMS faz parte do grupo NC, controlado pela família Sanchez, e registrou receita de R$ 2,9 bilhões no ano passado, alta de 26%. Pioneira na fabricação de genéricos no país, gera atualmente 35% de seu faturamento nesse mercado. Em nota, o vice-­presidente institucional da farmacêutica, Marcus Sanchez, diz que, com a fábrica de Brasília, o complexo industrial “está praticamente pronto para suportar o crescimento da empresa nos próximos anos”. Para 2017, a previsão é de crescimento de 20% do faturamento.

De acordo com Carlos Aguiar, diretor responsável pela Medley, o encerramento da operação produtiva em Brasília está alinhada à estratégia de buscar sustentabilidade do negócio de genéricos no longo prazo. Nesse sentido, a decisão foi concentrar a produção desses medicamentos em Suzano (SP) e em Campinas (SP), onde funcionam os dois maiores parques industriais da Sanofi no Brasil.

Ao mesmo tempo, a Medley mantém firme a aposta em medicamentos similares como motor de crescimento nos próximos anos. Em 2016, conta Aguiar, foram sete lançamentos e outros 2 estão programados para este ano.

No ano passado, circularam informações na indústria farmacêutica de que a Sanofi estaria disposta a vender a Medley e deixar o mercado brasileiro de genéricos. À época, o grupo negou a intenção de venda e hoje, em nota, reiterou que a Medley é parte da estratégia de longo prazo no país. “As negociações envolveram exclusivamente a fábrica de Brasília, e não têm nenhum impacto nas demais unidades da Medley no Brasil”, diz a nota.

O segmento de genéricos no país é bem concorrido, o que eleva o nível de descontos concedidos ao consumidor final e reduz a margem da indústria. Ao mesmo tempo, tem puxado o crescimento das vendas de medicamentos no país. Em 12 meses até janeiro, conforme a Pró-Genéricos, a alta nas vendas em unidades (1,14 bilhão) foi de 12,87%, contra 5,05% de expansão do mercado farmacêutico no geral. Há grande expectativa de consolidação no setor, que desde meados do ano passado aguarda a venda do Teuto, laboratório que atua nesse segmento e tem como acionistas a família Melo (60%) e a Pfizer (40%).

Bayer Pharma deve crescer no país, mas vê ano mais difícil

Stella Fontes – Valor Econômico:

Dona do medicamento mais vendido no Brasil no ranking por receitas, o anticoagulante oral Xarelto (rivaroxabana), a Bayer Pharmaceuticals projeta crescimento de “dois dígitos baixos” nas vendas no país em 2017, ano que tende a ser mais difícil do que foi 2016, de acordo com o gerente-­geral da operação local, Rubens Weg.

Dois lançamentos na área de oncologia e a manutenção do forte ritmo de crescimento de outros produtos considerados estratégicos, porém, prometem mitigar os efeitos negativos da crise econômica nas vendas de medicamentos e do reajuste anual menor autorizado pelo governo federal, de no máximo 4,76%.

De acordo com Weg, a manutenção do desemprego em níveis elevados é um dos principais desafios à indústria farmacêutica, uma vez que retira usuários dos planos de saúde e leva pacientes a buscar tratamentos mais baratos. “Há um aspecto positivo, que é não abrir mão do tratamento”, pondera o executivo. “Apesar da relativa estabilidade econômica, ainda é preciso gerar emprego”, acrescenta.

No ano passado, as vendas da Bayer Pharma Brasil cresceram 14% em receita, beneficiadas pelo reajuste autorizado pelo governo de até 12,5% e pelo desempenho de produtos inovadores como o Eylia (aflibercepte) e o próprio Xarelto, que segundo o ranking da consultoria IMS Health consolidou-­se em janeiro como campeão nacional de vendas, com participação de mercado de 56% em seu segmento. O anticoncepcional Mirena (levonorgestrel), cujas vendas subiram 74%, também contribuiu para a alta nas receitas.

Em 2016, as vendas subiram 14% em receita, beneficiadas pelo reajuste autorizado pelo governo de até 12,5%

Na seara de lançamentos de 2017, a Bayer trouxe ao país em janeiro o Xofigo (radio223), um radiofármaco produzido na Noruega e com validade de 28 dias. Ainda na área de oncologia, o Stivarga (regorafenibe) é usado no tratamento de câncer colo­retal e tumores do estroma gastrointestinal. No primeiro trimestre, as vendas da Bayer Pharma no mundo totalizaram € 4,3 bilhões, com alta de 9,6% na comparação anual. Na América Latina, que teve o maior índice de crescimento entre os mercados atendidos pela multinacional, as vendas somaram € 272 milhões, avanço de 19,3%.

“A região é uma das que mais tem contribuído para o crescimento orgânico”, diz o vice­presidente da Bayer Pharmaceuticals para a América Latina, Eduardo Magallanes. E o Brasil, com 40% de participação nas receitas, é o motor dessa expansão, acrescenta. No ano passado, o faturamento na região foi de € 1 bilhão.

Segundo o executivo, cerca de metade das receitas ainda é proveniente de produtos maduros, mas os lançamentos globais na área de oncologia tendem a desempenhar o papel de crescimento da receita nos próximos anos. “Há marcas importantes, como Aspirina, que não têm mais peso no faturamento, mas são emblemáticas”, conta.

A única fábrica de medicamentos sólidos da multinacional na América Latina fica no Brasil, na capital paulista, com exportação para outros países da região e da Ásia. Segundo Magallanes, para 2017, a expectativa é de crescimento de “dois dígitos altos” nas vendas no mercado latino­americano, que inclui o México.

Questionado sobre os efeitos da crise econômica do Brasil na operação latino­americana, o executivo pondera que há crises constantes na região. “O que acontece no Brasil em âmbito político e econômico acontece no restante da Ámérica Latina. Isso nos obriga a ter uma comunicação mais direta com o governo”, afirma Magallanes.

A nova aposta farmacêutica de Omilton Visconde Junior

Stella Fontes – Valor Econômico:

Filho do fundador do laboratório Biosintética, Omilton Visconde Junior é conhecido na indústria farmacêutica pela habilidade em fazer dinheiro montando ou comprando empresas que, depois de ganharem musculatura, são vendidas a múltiplos elevados. Aos 54 anos de idade, ele volta com a mesma estratégia na criação da sua nova empresa, a Cellera Farma, que nasce em sociedade com o fundo Victoria Capital Partners e plano de investimento de R$ 400 milhões em quatro anos.

Em cinco ou seis anos, quando o faturamento anual estiver em torno de R$ 500 milhões, o que colocaria a Cellera no grupo das farmacêuticas de médio porte, o objetivo é vender a operação para um laboratório americano ou europeu que queira entrar no mercado brasileiro. Ou então dar saída ao fundo de private equity, que neste momento tem participação de 85%, por meio de uma oferta pública inicial de ações (IPO).

Foi assim com a Biosintética, vendida por Visconde Junior em 2005 para o Aché, por R$ 600 milhões, e com a Segmenta, que se tornou a maior fabricante de soros hospitalares do país sob seu comando e acabou nas mãos da Eurofarma em 2010, por R$ 450 milhões. O empresário conta que, após a venda da Biosintética, ficou sujeito a uma quarentena na indústria que não abrangeu o mercado hospitalar ­e o Aché não havia levado no pacote uma fábrica de soluções parenterais, usadas em hospitais, da qual nasceu a Segmenta.

De lá para cá, Visconde Junior participou de outros negócios. Em 2011, vendeu a Prev Saúde, de gestão de benefícios de medicamentos, para a Orizon (que hoje tem como acionistas Cielo, Bradesco Seguros e Cassi). No ano seguinte, juntou­-se ao criador da Netshoes, Marcio Kumruiam, na Netfarma, maior farmácia online do país, da qual é dono de 70% ­ Kumruiam vendeu sua participação em 2014.

Além de manter essa posição, o empresário constituiu a Mip Brasil Farma, que atua no mercado de medicamentos isentos de prescrição e, agora, será incorporada na Cellera Farma. O comando da nova farmacêutica caberá a Nelson Libbos, executivo com 45 anos de experiência no setor e passagem pela presidência de laboratórios como Hoescht, Aventis Farma, Farmasa e Teva Farmacêutica. Parceiro de Visconde Jr. em outros negócios e ocasiões, Libbos é sócio da Netfarma e atua como consultor na indústria.

É Libbos quem conta como nasceu a Cellera Farma e qual é a estratégia de longo prazo. “Já temos uma boa plataforma de produção e, agora, estamos contratando o time no mercado”, diz, acrescentando que toda a diretoria já está formada. Sobre a plataforma produtiva, há pouco mais de um mês, a Victoria Capital Partners e Visconde Junior concluíram a compra da fábrica de genéricos e similares da canadense Valeant em Indaiatuba (SP), por valor não revelado.

A Victoria Capital Partners e Visconde Jr compraram a fábrica de genéricos e similares da Valeant em Indaiatuba A aquisição integra o pacote de investimentos de R$ 400 milhões em quatro anos, que inclui pelo menos mais uma compra, da Mip Brasil Farma, pertencente a Visconde Junior. Com a incorporação da Mip na Cellera, por valor ainda não definido, a participação de 15% de Visconde Junior na Cellera subirá.

A compra da fábrica já foi aprovada pelo Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade) e envolveu ainda a linha de produtos Caladryl, adquirida pela Valeant da Johnson & Johnson em 2012. De acordo com Libbos, a tradicional marca de produtos pós­sol será reformulada e a linha crescerá, voltada também a proteção solar.

Além disso, a Cellera nasce com um contrato de produção para a farmacêutica canadense, em regime de terceirização, por sete anos. Hoje, a taxa de ocupação da capacidade instalada na fábrica é de apenas 20%, o que dá ampla margem de crescimento de portfólio. Genéricos e similares não estão no centro da estratégia da empresa, que pretende lançar um probiótico no próximo ano e já negocia licenças de marca e formulações com laboratórios estrangeiros que ainda não atuam no país. Já as áreas de dermatologia, neurociência e OTC (medicamentos isentos de prescrição) estão no radar.

Segundo Libbos, o contato com a Valeant em torno do Instituto Terapêutico Delta, razão social da operação de Indaiatuba, começou há pouco mais de dois anos, quando os canadenses recusaram uma primeira proposta apresenta conjuntamente pelo fundo e por Visconde Junior.

Há cerca de um ano, a própria Valeant procurou os potenciais compradores e, após nova due diligence (auditoria nas informações financeiras, operacionais e contábeis), o negócio foi fechado. Com dívidas de aproximadamente US$ 30 bilhões, a Valeant colocou à venda uma série de ativos em mercados considerados não estratégicos e, em teleconferência em fevereiro, o executivo­-chefe Joe Papa citou desinvestimentos em curso no Brasil, Indonésia e Vietnã.

A Victoria Capital Partners, por sua vez, tem em seu portfólio de investimentos, entre outros, o grupo argentino Los Grobo, a brasileira Elemidia, a rede chilena de academias Energy e é controlador da Oncoclínicas, maior rede privada de centros de oncologia da América Latina, cujo faturamento deve chegar perto de R$ 1 bilhão neste ano.

“A Cellera será uma grande plataforma de negócios em sua área”, diz Visconde Junior. Complementa o portfólio de investimento do empresário uma participação de 30% na rede de clínicas Doutor Agora.

Brasileira Farmabase chega à Argentina

Luiz Henrique Mendes – Valor Econômico:

Em uma mercado cada vez mais dominado por multinacionais estrangeiras, a indústria veterinária paulista Farmabase quer fugir do script. Em vez de ser incorporada por algum player interessado em avançar no Brasil, país­-chave quando o assunto é a cadeia produtiva de carnes, a companhia mira o exterior.

O movimento, inédito para uma empresa de capital nacional, começou a tomar forma em março, com a compra da indústria veterinária argentina Cevasa. Com isso, a Farmabase se tornou a primeira indústria brasileira a ter fábrica fora do país.

Ao Valor, os irmãos Alexandre e Guilherme Machado, sócios da Farmabase, ressaltaram que a trajetória rumo ao exterior começou justamente com a recusa em ser vendida.

Em 2009, a companhia foi alvo de uma investida da americana Alpharma (que hoje faz parte da Zoetis). Rejeitada, a oferta resultou no ano seguinte em uma alteração societária. Dos quatro sócios fundadores, restou apenas Paulo Machado, que hoje preside a Farmabase. “Alguns sócios queriam vender. Meu pai ficou e comprou a participação dos sócios”, disse Guilherme.

Sem os antigos sócios, Paulo Machado recrutou os dois filhos para a empresa. Veterinário, Alexandre trabalhava na antiga Sadia. Administrador de empresas com passagens pelos fundos de investimentos GP e Carlyle, Guilherme se juntaria à Farmabase em 2012, após concluir MBA nos EUA. Juntos, os irmãos lideram as operações da empresa no Brasil e, desde março, também no exterior.

“De uns tempos para cá, temos percebido que crescer no mercado brasileiro virou um desafio, porque já conseguimos uma posição muito relevante aqui”, afirmou Guilherme, que é vice-­presidente financeiro da Farmabase. Atualmente, a empresa é a sexta maior do segmento de saúde animal no Brasil, onde faturou cerca de R$ 350 milhões em 2016. As multinacionais MSD, da americana Merck, e a também americana Zoetis lideram esse mercado no país.

Com atuação concentrada na fabricação de produtos para aves e suínos ­ sobretudo medicamentos que são misturados às rações ­, a Farmabase disputa a liderança nas vendas nas duas áreas com a americana Elanco, braço da farmacêutica Eli Lilly. Em suínos, a companhia detém fatia de 27% do mercado brasileiro, segundo Alexandre Machado, que é vice­-presidente de operações.

Se já se vê consolidada nas áreas de aves e suínos, a Farmabase admite não ter condições de competir com as rivais nos segmentos de bovinos e animais de companhia (cães e gatos, principalmente). Tanto é assim que, em 2010, a empresa decidiu descontinuar uma linha de produtos de bovinos “que não vinha dando certo”, conforme Guilherme Machado. Na mesma época, vendeu a linha de itens para animais de companhia. “Focamos no que sabemos fazer”, disse ele.

Carro­chefe da indústria veterinária no Brasil, o mercado de bovinos demanda grandes investimentos, dentre os quais na produção de vacinas contra febre aftosa. No segmento de animais de companhia, as múltis têm uma vantagem de atuar em países onde os gastos com cães e gatos são bem maiores do que no Brasil, o que lhes dá escala.

Nesse cenário, avançar no exterior foi a alternativa escolhida. Recém­-adquirida pela Farmabase, a argentina Cevasa é encarada como a porta de entrada da brasileira na Ásia. Com uma fábrica em Pilar, na Província de Buenos Aires, a Cevasa obtém 50% de seu faturamento fora da Argentina ­ em 2016, a receita total da empresa foi de US$ 12 milhões. Na Farmabase, as exportações representaram somente 1% em 2016.

A avaliação do vice­-presidente de operações da Farmabase é que a rede de distribuição da Cevasa ajudará a impulsionar as vendas externas da empresa brasileira, além de dar “know­how” para os registros de seus medicamentos fora do Brasil. “As vendas da Cevasa estão espalhadas por 50 países”, disse Alexandre, destacando o potencial de crescimento dos embarques para Filipinas, Tailândia e Indonésia.

“Na Tailândia, estamos engatinhando. Estamos conhecendo os distribuidores”, afirmou Guilherme. Segundo o sócio da Farmabase, o registro de produtos na Tailândia demora, em média, três anos.