Aspen Pharma muda estratégia e volta a crescer

Stella Fontes – Valor Econômico: 

Depois de registrar, em meados do ano passado, os piores meses de sua história no Brasil, a sul-africana Aspen Pharma, dona do antiácido Leite de Magnésia de Phillips e do fitoterápico Calman, ajustou a estratégia de negócios no país. A nova abordagem funcionou e, além de reverter o mau momento, a operação brasileira encerrou o ano fiscal de 2017 com o melhor desempenho entre as filiais da multinacional, a despeito da recessão que afetou o consumo doméstico de medicamentos.

No exercício, encerrado em junho passado, a receita líquida no país cresceu 30%, para US$ 110 milhões, a maior taxa entre as operações da Aspen, e a lucratividade também foi a mais elevada. Globalmente, a farmacêutica faturou 41,2 bilhões de rands (cerca de US$ 3,15 bilhões).

Para fazer frente à crise econômica no Brasil, a farmacêutica colocou o foco da visitação médica nos três produtos com maior potencial de prescrição, reestruturou a força de vendas em farmácias e cortou despesas internas em 15%.

No ano fiscal em curso, o crescimento tem ficado em 10% e a meta é encerrar os 12 meses com alta de dois dígitos nas vendas. O controle diligente dos gastos e a postura conservadora foram mantidas, mas a farmacêutica voltou a contratar, a conta-gotas, de acordo com o principal executivo da Aspen do Brasil, Alexandre França. “O mercado começou a melhorar, mas ainda não dá para soltar fogos”, diz.

Conforme o executivo, não é tarefa fácil explicar para a matriz o momento atual do país, com descolamento entre economia e política. “O cenário [político] ainda é muito nebuloso, mas é fundamental que as reformas saiam do papel”, analisa.

Implementada, a reforma trabalhista poderia acelerar novas contratações na Aspen se trouxer maior flexibilidade, diz França. “Se ela for efetiva em novembro, vamos contratar mais do que esperamos”,  acrescenta França.

O pacote de iniciativas para reduzir o impacto da crise econômica nos negócios envolveu principalmente a renegociação ou cancelamento de contratos com fornecedores e um novo posicionamento na promoção dos medicamentos mais vendidos. Houve ainda demissões, que não chegaram a 5% do quadro de funcionários – hoje são 340 empregados.

Hoje, o principal produto da Aspen no Brasil é o Diprivan (propofol), um anestésico intravenoso de uso hospitalar que chegou à empresa no ano passado, após a compra do portfólio de anestésicos da AstraZeneca. Junto com o Leite de Magnésia, Calman e Omcilon (usado no tratamento de aftas), representa 60% do faturamento da farmacêutica no país.

A fábrica de Serra (ES), que pode produzir sólidos (comprimidos) e semi-sólidos (cremes), está quase que 100% ocupada e a capacidade instalada deve crescer no futuro, com o objetivo de absorver a produção que hoje cabe a terceiros. De acordo com França, investimentos da ordem de US$ 10 milhões a US$ 15 milhões nos próximos dois anos devem mudar esse quadro.

Já está certo que a Aspen terá um novo depósito e faz parte dos planos instalar uma nova fábrica. O Omcilon, que hoje é produzido em regime de terceirização pela Takeda, pode ser o primeiro a transferido para a nova linha – o Calman é produzido pela Myralis e o Leite de Magnésia, pela GlaxoSmithKline.

Biolab abre centro de P&D e planeja fábrica no Canadá

Stella Fontes – Valor Econômico: 

A Biolab Farmacêutica está acelerando seu projeto de internacionalização. O laboratório abre hoje as portas do primeiro centro de pesquisa e desenvolvimento (P&D) próprio fora do Brasil, na província de Ontário, Canadá, e, nos próximos dois ou três anos, pretende instalar uma fábrica de medicamentos naquele país.

Resultado de investimentos de 56 milhões de dólares canadenses (cerca de US$ 45 milhões), o centro funcionará como plataforma tecnológica para avanço do laboratório, o primeiro de capital 100% nacional a instalar uma unidade de P&D em outro país, em mercados internacionais.

Forte cultura de inovação e agilidade na aprovação de pesquisas e novos produtos, que já saem do Canadá com registro automático nos países que fazem parte da Comunidade Britânica, levaram a Biolab até lá, de acordo com o presidente Cleiton de Castro Marques. “Agilidade foi o fator que mais nos impulsionou”, afirma.

Antes, o laboratório brasileiro chegou a olhar Nova Jersey, nos Estados Unidos, como alternativa ao investimento, mas a estrutura oferecida pelos canadenses foi determinante. “Num primeiro momento, vamos replicar no Canadá as pesquisas que estamos fazendo no Brasil, para produzir dossiês fortes para [aprovação de produtos] em mercados altamente regulados.”

Pesquisas em curso no Brasil serão conduzidas também pela Biolab Canadá. Inicialmente, o centro contará com equipe de 60 pesquisadores até o fim da primeira fase, todos contratados no mercado canadense. A direção-geral da unidade caberá a Paulo Wickbold Marques, representante da segunda geração à frente da Biolab.

Conforme o empresário, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) já atua com elevado rigor em termos de regulamentação e tem avançado nos debates sobre inovação, mas os processos ainda são demorados no país. “É uma política ainda em construção, em andamento”, diz. No Canadá, é mais fácil avançar em P&D, acrescenta. A farmacêutica brasileira já está presente em mercados internacionais, via licenciamento de produtos. Mas não conta ainda com produção própria em outros países.

O interesse da Biolab por aquele país não é isolado. Em entrevista ao Valor, o cônsul comercial de Ontário, Todd Barrett, afirmou que sete das maiores farmacêuticas do Brasil, incluindo a Biolab nessa conta, estão em conversas com o governo local. Essas tratativas poderão, no médio prazo, resultar em investidas similares à da farmacêutica dos irmãos Cleiton e Paulo de Castro Marques, e do farmacêutico Dante Alario Jr.

Além de já contar com a presença de todas as grandes farmacêuticas do mundo, a província canadense lançou mão de incentivos financeiros para consolidar-se como polo de inovação do setor. No caso da Biolab, o governo de Ontário colocará à disposição 2,8 milhões de dólares canadenses para despesas relacionadas a pesquisa e desenvolvimento.

Segundo Barrett, os recursos serão provenientes de um fundo criado em 2013 com o objetivo de fomentar a atividade de P&D e atrair projetos nas áreas de ensaios clínicos, pesquisas farmacêuticas e “start-ups de biotecnologia. O governo oferece ainda um programa de créditos fiscais, que podem resultar em redução de pelo menos 15% do imposto de renda. “Há um forte interesse do governo em impulsionar a indústria farmacêutica”, afirma.

Novo programa deve reduzir atraso em concessão de patentes a partir de 2018

Assis Moreira – Valor Econômico: 

Um programa de procedimento simplificado de concessão de patentes, para reduzir substancialmente o “backlog” de 230 mil pedidos, poderá ser implementado a partir do ano que vem, afirmou em Genebra o presidente do Instituto Nacional de Propriedade Industrial (Inpi), Luiz Otávio Pimentel.

Centroflora vende divisão de nutracêuticos para Givaudan

Stella Fontes – Valor Econômico: 

 

Com objetivo de reforçar a atuação no mercado farmacêutico, a Centroflora, maior fabricante de extratos para medicamentos fitoterápicos de capital nacional, vendeu a divisão de produtos nutracêuticos para a gigante suíça Givaudan. O valor do negócio não foi revelado, mas os recursos recebidos ajudarão a empresa a colocar em marcha um programa de investimentos de R$ 75 milhões a R$ 90 milhões nos próximos três anos.

Na divisão de alimentos, que é objeto da transação com a líder mundial em sabores e fragrância, a Centroflora tem uma linha de extratos vegetais e sucos e polpas desidratadas. A operação deve ser concluída no início de 2018 e, por até cinco anos, as duas empresas vão compartilhar a fábrica de Botucatu (SP), que também está dedicada à produção de extratos para fitomedicamentos.

A Centroflora continuará operando uma fábrica em Parnaíba (PI), de insumos farmacêuticos ativos (IFAs), e uma fazenda na mesma região onde cultiva a Cordia verbenácea, a partir da qual é obtido o óleo usado no anti-inflamatório Acheflan, do Aché.

A primeira etapa do plano de investimentos compreende a transferência do centro de pesquisa e desenvolvimento de Botucatu para Campinas, também no interior paulista, de forma a preservar a propriedade da própria farmacêutica e de seus clientes.

A Centroflora já está presente na cidade por meio de sua empresa de inovação radical, a Phytobios, que trabalha em parceria com o Laboratório Nacional de Biociências (LnBio) na área de desenvolvimento de medicamentos a partir da biodiversidade brasileira.

A segunda etapa, e que consumirá a maior parte dos desembolsos, é a transferência da produção de extratos fitoterápicos de Botucatu para uma nova fábrica, cuja localização ainda não foi definida. De acordo com o presidente do grupo Centroflora, Peter Andersen, o objetivo é iniciar as obras na segunda metade do ano que vem.

Conforme Andersen, há cerca de três anos o grupo decidiu pela separação dos negócios em diferentes divisões, de nutracêuticos e farmacêutica. “Fomos abordados por diferentes empresas até contratarmos um banco para nos assessorar na transação, há pouco mais de um ano”, conta. A Givaudan foi selecionada, segundo o empresário – a família é dona do grupo por meio da holding KTA -, por causa do valor oferecido e da compatibilidade de valores. “A Givaudan tem grande preocupação com sustentabilidade e rastreabilidade”, acrescenta.

Segundo Andersen, a principal estratégia da Centroflora no Brasil é o desenvolvimento de novos fitomedicamentos brasileiros. “A grande aposta é nas empresas que queiram desenvolver esses produtos e depois os extratos tradicionais”, afirma. O grupo, que no ano passado faturou US$ 100 milhões, é sócio da alemã CMS Pharma na Centroflora CMS, que produz na Índia um portfólio de oito farmoquímicos comprado da Boehringer Ingelheim.

Ativos à venda movimentam farmacêuticas

Stella Fontes – Valor Econômico: 

Há uma cesta de ativos farmacêuticos à venda no Brasil, fruto da revisão da estratégia tanto de laboratórios multinacionais quanto locais e da elevada ociosidade em certas unidades fabris, apurou o Valor. Juntas, essas potenciais transações podem movimentar bilhões de reais no curto e médio prazos e, apesar da recente correção nos preços pretendidos pelos vendedores, a avaliação geral é a de que os ativos disponíveis continuam caros.

Segundo fontes do setor, no Rio Grande do Sul, a Takeda colocou à venda o laboratório Multilab. O valor da operação, sem considerar dívida, gira em torno de R$ 90 milhões a R$ 100 milhões, bem abaixo dos R$ 540 milhões pagos pela farmacêutica japonesa em 2012. Em Minas Gerais, a Hipolabor contratou um banco brasileiro para buscar compradores dispostos a desembolsar R$ 1 bilhão pela empresa.

Há ainda informações que circulam no setor que envolvem diferentes farmacêuticas e unidades industriais dedicadas tanto a medicamentos de uso humano quanto veterinário que estariam à espera de um comprador.

A TheraSkin, de dermocosméticos, teria sido colocada novamente à venda por R$ 1 bilhão – segundo uma fonte, uma oferta de R$ 800 milhões foi recusada – e a Hypermarcas estaria em busca de um sócio, o que a farmacêutica negou “veementemente” há alguns dias.

No caso da Multilab, disseram fontes, o processo já está em andamento e ao menos dois interessados, um deles um laboratório nacional, apresentaram ofertas não vinculantes ao banco estrangeiro que tem o mandato da operação. A expectativa é a de que a transação seja concluída no curto prazo.

Um dos desafios à concretização da venda em um prazo mais acelerado, conforme uma das fontes, está relacionado a problemas regulatórios em um dos principais produtos do laboratório, o MultiGrip. Além disso, pesa contra a empresa um passivo tributário de R$ 120 milhões.

Por outro lado, desde a aquisição da Multilab, a Takeda teria investido na operação e atualizado a fábrica de São Jerônimo do Sul (RS). A decisão de se desfazer do ativo, conforme uma fonte, se deve ao ajuste do foco da Takeda em três áreas estratégicas, gastroenterologia, oncologia e sistema nervoso central, além das pesquisas na área de vacinas.

A Multilab produz genéricos, similares, medicamentos hospitalares e isentos de prescrição (OTCs) e, segundo outra fonte, não trouxe o retorno esperado pelos japoneses. A Takeda Pharmaceutical, cujo faturamento anual gira em torno de US$ 16 bilhões, fechou a compra do laboratório brasileiro por preço considerado elevado à época – cerca de 17 vezes o resultado antes de juros, impostos, depreciação e amortização (Ebitda).

Com a crise econômica e a redução do ritmo de crescimento do mercado farmacêutico, os ativos em geral na indústria estão ganhando “valores mais reais”, segundo a fonte. Um laboratório nacional com intenção de ampliar presença no Sul do país teria o perfil do provável comprador, destacou. Procurada, a Takeda informou que não comenta rumores de mercado.

Essa decisão de venda, na avaliação de fontes da indústria, é parecida à tomada pela Pfizer ao se desfazer de sua fatia no Teuto, de genéricos. No início de julho, a multinacional revendeu à família Melo a participação de 40% que tinha comprado no laboratório brasileiro em 2010 por R$ 400 milhões. Também nesse caso, o valor da transação ficou abaixo do preço pago pelo ativo.

O Hipolabor, cujo faturamento está na casa de R$ 500 milhões, também informou que não comenta rumores de mercado. Conforme uma fonte, o laboratório, especializado no segmento hospitalar, enfrenta com alguma recorrência a suspensão de medicamentos pela Anvisa e já foi alvo de investigações, a mais grave delas por sonegação fiscal, fraude em licitações e adulteração de medicamentos, em 2011.

Por outro lado, é dono de uma fábrica que goza de incentivos fiscais em Minas Gerais, o que pode ser um bom atrativo no processo de venda.

Exportação sobe 18,7% no ano e superávit renova recorde

Fábio Pupo, Edna Simão e Marta Watanabe – Valor Econômico: 

A balança comercial registrou mais um recorde ao alcançar um superávit de US$ 53,283 bilhões de janeiro a setembro. O resultado, puxado pela continuidade do crescimento da exportação mesmo com um real levemente mais valorizado em relação ao começo do ano, levou o governo a recalcular as projeções e estimar um superávit ainda maior que a expectativa atual de US$ 60 bilhões.

No ano, o ritmo de crescimento das exportações foi bem mais forte que o das exportações. Enquanto os embarques registraram alta de 18,7% (para US$ 139,4 bilhões) de janeiro a setembro, os desembarques subiram 8,5% (para US$ 103,2 bilhões). Segundo o secretário de Comércio Exterior do Ministério da Indústria, Comércio Exterior e Serviços (Mdic), Abrão Neto, o aumento das exportações é influenciado tanto pela melhora na quantidade exportada (crescimento de 5,9%) como no preço dos produtos (12,5%).

“Pelas exportações, verificamos crescimento não só do valor, mas também das quantidades exportadas, em todas as categorias de produtos, além de aumento no número de empresas exportadoras”, disse Abrão.

O efeito do aumento de preços é visto principalmente no minério de ferro, que se valorizou 52,3% entre janeiro e setembro deste ano contra igual período do ano passado. Também registram alta contra um ano antes produtos como semimanufaturados de ferro e aço (33,8%) e açúcar bruto (20,2%).

Os produtos básicos foram justamente os que puxaram os números de exportação em setembro, com crescimento de 36,7%. Eles foram seguidos pelos manufaturados (como óleos combustíveis, tratores e automóveis), que cresceram 18%; e pelos semimanufaturados (como ferro fundido e madeira serrada), que cresceram 11%.

Apesar de ainda em patamares baixos em valores, as importações no ano estão em ritmo de recuperação ao registrar o décimo mês consecutivo de aumento em relação a um ano antes, o que indica retomada da atividade interna.

“É um indicativo positivo de recuperação da economia. Confirmaremos essa tendência nos próximos meses, mas é fato que a média diária de importações vem apresentando crescimentos nos três últimos trimestres”, disse o secretário. No acumulado até setembro o crescimento nas compras foi puxado pelo aumento de 35,3% em combustíveis e lubrificantes. Também subiram, embora em ritmo menor, as compras de bens intermediários (11,4%) e bens de consumo (5,7%).

No mês de setembro, a importação veio em ritmo mais acelerado, com alta de 18% contra igual mês de
2016. Na
comparação mensal interanual, foi a maior taxa de crescimento do ano. O maior ritmo dos
desembarques, diz José Augusto de Castro, presidente da Associação de Comércio Exterior do Brasil
(AEB), está de acordo com a melhora das expectativas para economia tanto para o quarto trimestre
como para 2018.

Mantidas as expectativas atuais, diz Castro, uma reação maior das importações deve se tornar mais clara em 2018, o que deve pressionar o superávit comercial para baixo no ano que vem. A corrente de comércio, porém, que dá o tom do dinamismo econômico, deve melhorar.

Rafael Cagnin, economista do Instituto de Estudos para o Desenvolvimento Industrial (Iedi), destaca que a importação brasileira tem alta elasticidade com a atividade interna. “A importação responde rapidamente com a economia girando um pouco mais. O desempenho bom de alguns ramos industriais, como bens de consumo duráveis da linha marrom e branca, também contribuem bastante porque o volume de componentes e de insumos importados nesses segmentos é expressivo, o que puxa a importação de bens intermediários.”

Por conta dessa elasticidade, o aumento das importações pode ser um sinalizador positivo, diz ele. “Mas há também o efeito do câmbio que pode fazer com que parte desse dinamismo escape para a importação.” O problema, explica ele, não está somente no câmbio, mas na questão da competitividade. O que preocupa, diz Cagnin, é que a recuperação muito lenta da economia pode dificultar às empresas a incorporação de novas tecnologias, o que é um desafio não somente para melhorar como para manter a competitividade.

O Mdic chama atenção ainda para as compras de bens de capital por importadores brasileiros, que cresceram pelo segundo mês consecutivo. Após um crescimento de 6,6% em agosto, houve aumento de 34,5% em setembro, sempre na comparação interanual. “Pode indicar uma tendência de recuperação dessa linha de importações, muito relacionada a investimentos. Confirmaremos essa tendência nos próximos meses”, ressaltou o secretário de Comércio Exterior.

Os dados também continuam mostrando uma melhora significativa na balança comercial de petróleo e derivados, que chegou a US$ 4,3 bilhões de janeiro a setembro. Um ano antes foi registrado déficit de US$ 446 milhões. Segundo Abrão Neto, os números são puxados pelo aumento de produção e também pela recuperação do preço da commodity (alta de 37,6%) contra um ano antes. Segundo ele, o saldo de petróleo e derivados também deve fechar o ano com superávit.

Apesar dos números positivos no acumulado do ano, os analistas do Itaú ressaltam que as exportações, que avançaram fortemente no início do ano, agora “se estabilizaram em patamar mais baixo, em linha com os preços internacionais de commodities menores”. Os fortes saldos em 2017, diz relatório do banco, é garantido por importações ainda em patamar baixo.

 

Governo promete ‘limpeza’ em mais de 140 normas do comércio exterior

Daniel Rittner – Valor Econômico: 

O governo prepara uma limpeza geral nas regras do comércio exterior. Um conjunto de 143 dispositivos – leis, decretos, portarias, instruções normativas e resoluções – precisa de mudanças. A necessidade de modernização foi identificada pelo Ministério da Indústria, Comércio Exterior e Serviços (Mdic) em levantamento realizado com 27 órgãos oficiais que detêm alguma atribuição no processo de autorizar exportações ou importações.

“É uma agenda já consensuada entre todos”, afirmou ao Valor a secretária-executiva da Câmara de Comércio Exterior (Camex), Marcela Carvalho. São autarquias como Polícia Federal, Vigiagro, Ibama, Comissão Nacional de Energia Nuclear (Cnen), Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) e diretoria de fiscalização de produtos controlados do Comando do Exército.

Uma consulta pública deve sair, ainda em outubro, com 60 dias de duração. Haverá sugestões de aprimoramentos em pelo menos dez leis, 13 decretos e 120 atos normativos. O governo quer recolher contribuições de empresas, associações e agentes interessados. A intenção é implementar a “agenda regulatória” de mudanças entre 2018 e 2019.

Algumas modificações são quase anedóticas, como um decreto ainda em vigência que se refere à extinta Cacex – um departamento do Banco do Brasil – como principal órgão do setor.

Uma portaria de 2012, do próprio Mdic, também deve passar por alterações. Ela restringe a lista de serviços passíveis de serem cobertos por adiantamento de contrato de câmbio (ACC) ou adiantamento de cambiais entregues (ACE), dois importantes instrumentos de crédito para exportadores, com isenção de IOF.

A consulta pública, preparada em coordenação com a Casa Civil, introduz ainda discussões sobre uma minuta de decreto que deve reduzir os prazos para emissão de licenças à exportação ou importação de produtos militares. Os ministérios da Defesa e das Relações Exteriores têm procedimentos de controle para o comércio de armamentos. O objetivo da medida é ganhar agilidade nos trâmites, mas sem abrir mão da prevenção ao tráfico de armas ou potenciais desvios.

“Essa agenda regulatória é uma iniciativa para conferir maior transparência, previsibilidade e eficiência na regulação aplicada ao comércio exterior”, diz a secretária, que assumiu o cargo em junho, com a volta da Camex ao Mdic – o colegiado ficou um ano sendo tocado pelo Itamaraty.

Desde o retorno ao ministério de origem, a Camex teve duas reuniões do conselho de ministros. A próxima foi marcada para o dia 25 de outubro. O Gecex, instância que congrega os secretários-executivos de cada pasta, tem se encontrado mensalmente.

De acordo com Marcela, já foi criado um grupo de trabalho voltado exclusivamente a estudos no setor de serviços, que representa 73% do PIB nacional. Uma das primeiras ações concretas do grupo deve ser uma proposta, que também constaria da consulta pública, de mudança do artigo 2º da Lei Complementar 116 de 2003. O objetivo é ampliar a desoneração de ISS sobre as exportações de serviços, como já estabelece a Constituição Federal.

A redação atual da lei restringe a cobertura dos serviços que podem ser isentos da cobrança de ISS. Com a mudança, espera-se um aumento de sua competitividade no exterior, além de maior segurança na obtenção de financiamentos – como o Proex – para essas operações. “O Brasil ainda não se preparou adequadamente para o comércio exterior de serviços”, resume Marcela.

 

Oferta insuficiente põe acordo em risco, vê Mercosul

Assis Moreira – Valor Econômico: 

O Mercosul vai advertir a União Europeia (UE) hoje, em Brasília, que uma oferta insuficiente europeia na área agrícola descumpre o que foi acertado e coloca um alto risco de não se concluir o acordo de livre comércio em dezembro. O ambiente à véspera das discussões era de incerteza. O Mercosul não recebeu sequer indicação de que a UE apresentará as concessões, mesmo modestas, para os dois produtos sensíveis que faltam na oferta agrícola, que são carne bovina e etanol.O porta-voz de comércio da UE não respondeu às questões sobre o tema, algo inusual.

A UE receberá um rechaço do Brasil, Argentina, Paraguai e Uruguai se apostar que vai fechar um acordo oferecendo cotas de 70 mil toneladas para carne bovina e de 600 mil toneladas para etanol, livre de tarifas – cifras mínimas e que, ainda assim, provocam revolta de protecionistas, em Bruxelas. Negociadores do Mercosul vão cobrar dos europeus que o combinado entre os dois blocos, na retomada da negociação, em 2010, foi de que fariam ofertas de acesso ao mercado melhores que aquelas apresentadas em 2004, quando quase foi fechada a barganha final. Significa que, para a carne bovina, o Brasil e seus sócios do Mercosul esperavam cota de mais de 100 mil toneladas, e para etanol de mais de 1 milhão – muito além do que Bruxelas quer propor agora.

A concessão que a Comissão Europeia, braço executivo da UE, preparou para a carne bovina do Mercosul, além de insuficiente, é um exemplo de como os detalhes escondem ganhos ainda menores. A cota seria de 70 mil toneladas para a carne bovina, mas o volume é dividido em duas subcotas: uma para carne congelada, com valor comercial bem menor, e outra para carne fresca. Essas duas subcotas são divididas ainda em outras categorias de cortes. Assim, naquela de carne fresca, só uma parte é para a Cota Hilton, composta por produto de maior qualidade e melhor preço. E na outra, deve ter uma parte de carne cozida, de menor valor.

Para se ter uma ideia, o Brasil exportou para a UE em 2016 cerca de 27 mil toneladas de carne bovina fresca, pelo valor de US$ 260 milhões. Já a carne congelada teve volume bem maior, de 37 mil toneladas, mas valor menor, US$ 228 milhões. Foram exportadas 42 mil toneladas de carne para maior uso industrial, valendo US$ 197 milhões. São detalhes que vão pesar na barganha final, se é que a Comissão Europeia terá condições de ir adiante, considerando a mobilização dos protecionistas. Amanhã, negociadores vão dar entrevista coletiva em Brasília.

O representante da União Europeia no Brasil, embaixador João Cravinho, ponderou que a rodada começa hoje, e portanto, neste não faria sentido antecipar-se ao processo negocial. Mas admitiu que é preciso avançar mais: “Também do lado europeu temos a ideia de que o progresso é insuficiente, mas é por isso mesmo que vamos sentar juntos ao longo desta semana para ver se podemos aproximar posições”, disse.

Na avaliação dentro do Mercosul, ao desenhar oferta bastante piorada para dois produtos-chave, e em cima da hora, a UE coloca em risco o que esta mesmo propôs, que é anunciar um pré-acordo à margem da conferência ministerial da Organização Mundial do Comércio (OMC) em dezembro, em Buenos Aires.

Na sexta-feira, o grupo protecionista de 11 países liderados pela França avisou a Comissão Europeia que não estavam em condições de autorizar a apresentação da oferta com as cotas para produtos sensíveis como carne bovina e etanol.

Já o grupo de oito países favoráveis ao acordo, incluindo Alemanha, Itália, Espanha, Portugal, Reino Unido, Dinamarca, Suécia e República Checa, insistiu que a Europa não pode perder a oportunidade de fechar a negociação birregional até o fim do ano e deve apresentar a oferta ao Mercosul, em troca de ganhos em outros setores. Para negociadores, é ridículo o que está acontecendo. O valor das duas concessões agrícolas não tem comparação com o que empresas europeias vão ganhar com maior acesso ao Mercosul.

Normalmente, a rodada de discussões a partir de hoje deveria ser a largada das barganhas finais. Ou seja, é preciso haver margem para aumentar as ofertas. Mas a UE deve alergar que tem margem de manobra muito curta. Apesar da percepção na Europa de que o Brasil, sobretudo, quer fechar o acordo a qualquer preço, negociadores dizem que dentro do bloco a decisão é de continuar negociando até obter concessões satisfatórias. No ano passado, quando os dois blocos voltaram a trocar ofertas, o Mercosul aumentou a abertura do mercado para produtos industriais, serviços e em outros setores para os europeus.

A UE por sua vez tirou da mesa concessões para carne bovina e etanol, enquanto ofereceu melhora na cota para carne de frango – de 75 mil toneladas em 2004 para 78 mil toneladas. Para carne suína, que o Brasil não consegue exportar hoje para a Europa, também houve acerto de uma cota pequena com alíquota menor. Os europeus prometeram eliminar uma série de tarifas de importação principalmente para produtos industriais. Um ganho vem com a restituição parcial da redução tarifária que o Brasil tinha perdido com o novo Sistema Geral de Preferências (SGP) europeu. (colaborou Cristiano Zaia, de Brasília)

 

Sandoz aposta em biossimilar e parcerias para crescer no Brasil

Stella Fontes – Valor Econômico: 

Uma das grandes competidoras em medicamentos genéricos e similares, a Sandoz, do grupo Novartis, se prepara para avançar no mercado farmacêutico brasileiro. O plano é incrementar a oferta de biossimilares, produtos biológicos que prometem ampliar o acesso a tratamentos de doenças de maior complexidade, e firmar parcerias de licenciamento, tanto com multinacionais quanto com grandes laboratórios nacionais, garantindo o crescimento de seu portfólio.

Com vendas anuais estimadas em R$ 700 milhões a partir de dados da consultoria QuintilesIMS, a Sandoz Brasil tem uma carteira de produtos ainda muito concentrada no concorrido segmento de genéricos, vendidos no varejo e sem promoção médica. Foram necessários alguns anos de transformação para alavancar a rentabilidade da operação local. Agora, com a consolidação das margens em terreno positivo, o desafio é manter em expansão o mix de medicamentos. Isso se dará com a adição de produtos de maior valor agregado.

“Para melhorar o mix, vamos trazer mais biossimilares”, disse ao Valor o diretor-geral da Sandoz Brasil, André Brázay. A farmacêutica já vende no país um biossimilar, o hormônio de crescimento Omnitrope (somatropina). Outro produto dessa natureza já tem registro na Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), mas ainda não está disponível comercialmente. Mais duas moléculas serão submetidas ao aval do órgão regulador no curto prazo.

A previsão, conservadora segundo o executivo, é a de que os registros sejam concedidos até 2019. “Os anticorpos monoclonais são o futuro da companhia”, ressaltou. Hoje, a Sandoz tem forte presença no segmento de antibióticos – é da empresa a maior fábrica de antibióticos do mundo ocidental, instalada na Áustria -, com vendas relevantes ainda nas áreas cardiovascular, de sistema nervoso central (SNC) e tratamentos oncológicos e hormonais.

A farmacêutica também quer trazer ao país novos projetos de desenvolvimento e está em busca de parceiros, ao redor do mundo, com vistas ao licenciamento de produtos. Um acordo firmado fora do Brasil poderá resultar na chegada de novos medicamentos ao mercado doméstico. Da mesma forma, a parceria com um laboratório local resultaria na distribuição, pela Sandoz, de remédios de produção nacional em mercados da Europa e da Ásia. Já há conversas em curso, mas o projeto ainda está em fase inicial.

Com 25 anos de grupo Novartis, Brázay chegou ao comando da Sandoz Brasil em 2014, pouco depois de uma nova estratégia ter sido colocada em prática por seu antecessor. Naquele momento, conta o executivo, a grande questão da operação local eram as margens, “muito próximas do break even”, e não havia entendimento muito claro, sobretudo por parte da matriz, das especificidades do mercado brasileiro de medicamentos genéricos.

Com foco em escala, a nova estratégia trouxe os resultados que não estavam sendo obtidos via preço. A partir da aposta em moléculas com maior volume de vendas e presença no Farmácia Popular, programa do governo federal que oferece medicamentos de uso mais comum gratuitamente ou por seu valor de custo, a Sandoz Brasil conseguiu ocupar a capacidade ociosa na fábrica de Cambé (PR). “Mantivemos o tamanho da operação, mas ampliamos as vendas e o portfólio”, contou.

Tipicamente, uma multinacional de genéricos tem retorno sobre vendas entre 20% e 22% – e é nesse patamar que está a operação brasileira da Sandoz. Ainda assim, segundo Brázay, o excesso de competição nesse segmento e a concessão de benefícios fiscais por Estados que quiseram atrair investimentos de laboratórios geraram distorções de mercado.

Além disso, embora o nível de exigência da Anvisa seja bastante elevado, não há recursos suficientes para que a agência consiga supervisionar o cumprimento desses padrões. Essas características criaram um ambiente de competição desigual, avalia o executivo. Hoje, a matriz já compreende a complexidade do mercado local.

Quatro anos depois da implementação da nova estratégia, a Sandoz dobrou de tamanho no país e ampliou em 25% a produção local. Entre o fim do ano passado e o começo de 2017, investiu R$ 54 milhões em ampliação e modernização de linhas da fábrica paranaense, que também produz para exportação.

A farmacêutica também ajustou o foco no cliente e em melhorar o nível de serviço nas farmácias, o que reduziu a quantidade de reclamações e a devolução de produtos. Em logística, passou a operar com um centro de distribuição consolidado com a Novartis, cujas vendas no país somaram cerca de R$ 3 bilhões em 2016.

Exportações para a UE crescem 8,4% até julho

Marta Watanabe – Valor Econômico: 

As exportações brasileiras para a União Europeia (UE) cresceram 8,4% de janeiro a julho deste ano contra iguais meses do ano passado. O desempenho está abaixo dos 10,1% de alta das exportações à União Europeia originadas de países fora do bloco, mas está acima do crescimento de 4,1% e de 7,4% das vendas aos europeus com origem nos Estados Unidos e na China, embora esteja bem aquém do avanço da Rússia e da Coreia do Sul, cujos embarques cresceram 30% e 21,4%, sempre respectivamente. As variações são divulgadas em euros pela Eurostat, que reúne os dados estatísticos do bloco europeu.

O desempenho dos embarques brasileiros rumo a países o velho continente mostrado pela Eurostat difere do que indica a balança comercial brasileira. Segundo dados do Ministério da Indústria, Comércio Exterior e Serviços (Mdic), a exportação brasileira à União Europeia cresce apenas 0,4% de janeiro a julho contra iguais meses do ano passado. Um desempenho aparentemente muito aquém dos 18% de alta das exportações totais brasileiras no período.

O câmbio e a valorização em curso do euro em relação ao dólar, dizem analistas, contribui em grande parte para a diferença entre os dados do Mdic, divulgados na moeda americana, e os números em euro referentes à União Europeia. O euro avançou 12,1% em relação ao dólar em 2017, até o fim de julho, numa tendência de reversão da desvalorização da moeda europeia que vinha acontecendo desde 2014.

Outro fator que faz diferença entre os números é a metodologia de cálculo. As exportações brasileiras são computadas em valor FOB, ou seja é considerado somente o valor do bem. Os dados de importação pela União Europeia estão em valor CIF, que incluem também frete e seguro, explica Welber Barral, sócio da Barral M Jorge Consultores e ex-secretário de comércio exterior. “Mas quando se faz a variação de valores CIF com CIF, porém, parte dessa diferença é neutralizada.”

José Augusto de Castro, presidente da Associação de Comércio Exterior do Brasil (AEB), diz que o desempenho pelos números da UE mostram que o país tem conseguido aproveitar ao menos parte do crescimento das importações pelos países do bloco europeu. Ele pondera, porém, que o valor exportado pelo Brasil é relativamente pequeno em relação a Estados Unidos e China. No topo da lista dos exportadores para o bloco – considerando sempre países fora da União Europeia -, a China responde por embarque de € 206,9 bilhões de janeiro a julho. Os Estados Unidos exportaram para a UE € 151,8 bilhões enquanto o Brasil, em décimo lugar, embarcou €18,57 bilhões, sempre no mesmo período.

Barral destaca que um crescimento de 8% das exportações brasileiras aos europeus não é certamente “algo extraordinário”, mas ele avalia que a recuperação da economia europeia cria oportunidade de avanço para o Brasil. “Um crescimento em torno de 1,5% pode parecer pequeno, mas a União Europeia é uma economia muito grande e madura.”

A pauta de exportação brasileira para o bloco europeu, diz Castro, também permite elevação de embarques não somente de commodities. Os básicos representam atualmente cerca de 50% do valor embarcado pelo Brasil rumo à UE. Os manufaturados são 34%.

Os dados em dólar de exportação do Mdic indicam que o comportamento das exportações rumo aos 28 países que compõe o bloco europeu é heterogêneo. Os embarques brasileiros para o principal destino da UE, a Holanda – que funciona em grande parte como ponto reexportador – caiu 25% de janeiro a agosto. Neutralizando o efeito de uma plataforma de petróleo embarcada para os holandeses no ano passado e não repetida este ano, a queda fica mais amena, em 13%. Para o segundo destino de exportação, o recuo foi de 15%. Para a Espanha, em terceiro lugar, as vendas do Brasil avançaram 20%. Portugal está em oitavo no ranking, mas chama a atenção porque comprou 55% a mais do Brasil, sempre no acumulado até agosto, na comparação com iguais meses do ano passado.

Abrão Neto, secretário de comércio exterior do Mdic, avalia que o comércio com os países da UE têm oportunidade de avançar com o acordo em negociação entre Mercosul e o bloco europeu. Ele lembra que está marcada para a primeira semana de outubro a entrega, pela União Europeia, da complementação da oferta do bloco, com a fixação de cotas para carnes e etanol. A partir disso, diz ele, os dois blocos passarão a discutir as listas ofertadas, negociando prazos, tarifas e produtos.

Segundo o secretário, um acordo propiciaria avanço das exportações de manufaturados, não somente de básicos. “Embora a média tarifária da União Europeia para esses bens seja relativamente baixa, uma redução de 4%, 5% ou 6% faz diferença para a competitividade do produto.” Ele lembra que muitos dos países concorrentes já possuem acesso preferencial ao mercado europeu. “É preciso lembrar que o acordo não deve se restringir às tarifas, alcançando também as barreiras não tarifárias, além de serviços, investimentos e compras governamentais.”