Remédios puxam taxa de abril, mas inflação segue contida, dizem analistas

Arícia Martins – Valor Econômico

O reajuste anual de medicamentos autorizado pelo governo federal elevou a inflação em abril, segundo economistas, mas o comportamento dos preços seguiu ainda bastante tranquilo. De acordo com a estimativa média de 36 instituições financeiras e consultorias ouvidas pelo Valor Data, o Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) acelerou de 0,09% em março para 0,28% no mês passado.

As estimativas para o indicador oficial de inflação, a ser divulgado hoje pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), vão de alta de 0,25% até 0,34%. Como, no ano passado, a inflação de abril foi menor (0,08%), o IPCA acumulado em 12 meses também deve ter aumentado na passagem mensal, de 2,68% para 2,83%.

A principal pressão sobre os preços no quarto mês do ano foi a correção de remédios, que subiram até 2,84% em 31 de março, observam Patrícia Pereira e Breno Martins, da Mongeral Aegon Investimentos. Nos cálculos da gestora de recursos, os produtos farmacêuticos ficaram 1,7% mais caros em abril, depois de terem recuado 0,17% em março. Como resultado, a inflação do grupo saúde e cuidados pessoais dobrou, passando de 0,48% para 1,07%, estimam.

Mesmo assim, o cenário inflacionário segue favorável, afirma Patrícia, para quem o IPCA subiu 0,27% no mês passado. No primeiro trimestre, o indicador acumulou alta de 0,70%, lembra ela, a menor taxa para o período desde a criação do Plano Real. “O lado benéfico com a frustração da retomada da atividade é que não vemos espaço para repasses de preços”, comenta a economista.

Outra surpresa favorável foi a evolução dos preços de alimentos no início do ano, acrescenta ela. Em abril, estes itens devem ter acelerado, mas ainda em ritmo modesto. A Mongeral estima que o grupo alimentação e bebidas aumentou 0,30%, ante apenas 0,07% na leitura anterior. Os alimentos in natura são os maiores responsáveis pela inflação maior, principalmente os tubérculos, diz Martins. “É um movimento sazonal, que já era esperado. O cenário segue confortável.”

Além dos itens in natura, acrescenta a LCA Consultores, as coletas de preços e os índices ao produtor apontam que leite e derivados também estão em tendência de ascensão.

A equipe econômica da consultoria menciona, ainda, a queda mais fraca das passagens aéreas, a elevação sazonal de artigos de vestuário e a saída do impacto da redução de tarifas de telefonia fixa como outros fatores de pressão sobre o IPCA de abril, que aumentou 0,27% nas previsões da LCA.

Em sentido contrário, as tarifas de eletricidade residencial devem ter desacelerado, observa a LCA, após a diluição do efeito dos aumentos no Rio. As contas de energia subiram em três regiões pesquisadas pelo IBGE em abril, mas não compensaram a saída do impacto do reajuste efetuado pela Light em março, de acordo com os economistas.

Para o Itaú Unibanco, as partes de saúde e alimentação serão os maiores impactos sobre o IPCA de abril, e devem adicionar 0,14 ponto e 0,06 ponto ao indicador, respectivamente. O banco projeta que o IPCA subiu 0,30% no período, ou 2,84% na medida acumulada em 12 meses.

Patrícia, da Mongeral, estima que o índice oficial de inflação ficou em 2,81% nos 12 meses até abril. Em 2018, a expectativa é que o IPCA suba apenas 3,3%. “A despeito da taxa de câmbio real mais depreciada, é difícil ver alguém revisando suas estimativas para cima ou algum temor a respeito da inflação”, afirma.

Itamaraty mira a Ásia em busca de acordos

Daniel Rittner – Valor Econômico

Os países do Mercosul anunciam no dia 25, em reunião dos ministros de Comércio e de Relações Exteriores em Seul, a abertura de negociações para um acordo comercial com a Coreia. Ainda não está definido se o objetivo vai ser um tratado de livre comércio ou um acerto mais simples, de preferências tarifárias, em que se reduzem mutuamente as alíquotas de importação para um leque mais restrito de produtos.

No ano passado, Mercosul e Coreia finalizaram com sucesso um “diálogo exploratório”. Foi um mapeamento inicial sobre os interesses de cada lado para saber se existe viabilidade em uma negociação efetiva. A percepção foi de que as discussões podem prosperar e as duas partes passaram, então, a buscar um mandato negociador. No caso brasileiro, a Câmara de Comércio Exterior (Camex) deu o sinal verde.

A iniciativa do bloco sul-americano com a Coreia insere-se em um contexto maior, de aproximação com a Ásia, que o Itamaraty resolveu priorizar. Trata-se, segundo fontes diplomáticas, praticamente de uma necessidade diante da importância cada vez maior do continente e da mudança no eixo do crescimento global para a região do Pacífico.

Esse é o pano de fundo de um giro iniciado nesta semana pelo chanceler Aloysio Nunes a sete nações asiáticas, com 18 dias de duração, depois que o presidente Michel Temer suspendeu pela segunda vez sua visita oficial. Foi uma forma de mostrar relevância.

Na primeira escala do périplo, em Cingapura, foi assinado um acordo bilateral para evitar a dupla tributação. A cidade-país tem estoque de investimentos de US$ 1,4 bilhão no Brasil. Construção naval e administração aeroportuária – a Changi controla o Galeão (RJ) – são os destaques.

Em sua passagem pela China, onde está sediado o Novo Banco de Desenvolvimento (NBD), Aloysio firmará o acordo de instalação da unidade regional do Banco dos Brics no Brasil. O escritório deve ser inaugurado no segundo semestre. O ministro promoverá ainda uma reunião com todos os embaixadores e chefes do departamento de promoção comercial de postos brasileiros na Ásia. A mensagem é de buscar estreitamento econômico e comercial.

No âmbito político, mecanismos de consultas bilaterais que estavam parados há anos foram reativados recentemente. Algumas embaixadas do país na região, como Jacarta (Indonésia) e Seul, tiveram um reforço de equipe na atual gestão. Há ainda uma “dança das cadeiras” nos principais postos diplomáticos: a embaixada em Pequim será assumida por Paulo Estivallet; Eduardo Saboia vai para Tóquio; André Corrêa do Lago está sendo deslocado para Nova Délhi.

Vendas da Raia Drogasil perdem força

Adriana Mattos – Valor Econômico

O grupo RD, antiga Raia Drogasil, sentiu uma “dificuldade clara de vendas” no primeiro trimestre deste ano, disse ontem Eugênio De Zagottis, diretor de planejamento corporativo e relações com investidores da varejista de farmácias, após divulgação do balanço. Segundo ele, o movimento que afetou a companhia também se reflete sobre o setor. No grupo RD, a receita proveniente de lojas maduras, abertas há mais de três anos, encolheu 1% – a primeira queda nesse indicador desde a criação da rede, em 2011.

Ontem, o J.P.Morgan rebaixou a recomendação para as ações da companhia de “compra” para “neutro” e reduziu o preço-alvo de R$ 86 para R$ 73 – o papel fechou em queda de 4% para R$ 66. Por trimestres seguidos, o grupo apurou expansão acelerada e tornou-se um dos papéis mais “resilientes” da bolsa, segundo analistas. Mas o receio de piora em certos indicadores, além do risco de canibalização, com abertura de lojas, e concorrência mais acirrada fizeram o mercado adotar uma postura mais cautelosa. No ano, a empresa perdeu 28% de seu valor de mercado.

Segundo os dados publicados ontem, a receita líquida do grupo RD cresceu 12,3% de janeiro a março, para R$ 3,4 bilhões.

Foi a menor taxa de expansão desde o primeiro trimestre de 2013, mas ficou acima do desempenho mercado. A Abrafarma, entidade do setor, apurou alta de 6,3% no faturamento até março. As vendas “mesmas lojas” da RD subiram 2,7%, menor crescimento desde a criação do grupo.

“Estamos devolvendo o que tomamos lá atrás […]. Houve uma desaceleração forte no setor que está afetando a todos. E mesmo sentindo a concorrência maior, nós ganhamos ‘share’ [participação de mercado]. Hoje, temos nos medido mais pelo ‘share’ do que pelas vendas”, disse Zagottis.

O desaquecimento nas vendas reflete, na visão do comando do grupo, “uma transferência de demanda” das farmácias para outros segmentos, algo comum em processos de recuperação no consumo, quando clientes voltam a adquirir produtos que tinham tirado de suas listas de compra na crise.

Ele observa que categorias que perderam força na recessão – como moda e calçados – têm apurado melhora nas vendas agora. As drogarias conseguiram manter um ritmo de vendas acima da média do varejo brasileiro no período de crise, entre 2015 e 2017.

Neste ano, as farmácias sentem ainda o reflexo de um reajuste menor no preço dos medicamentos, que é determinado pelo governo. Foi autorizado um aumento de até 2,84%, o mais baixo em 11 anos.

De janeiro a março, o lucro líquido da RD cresceu 16,6%, para R$ 121,2 milhões, superando a alta média prevista por três analistas de mercado ouvidos pelo Valor, de 12%. Apesar da cautela maior, esses especialistas continuam a ressaltar que acertos na execução da estratégia e boa situação financeira e operacional do grupo sustentam expectativa de aumento nos ganhos em 2018.

Zagottis rebate a avaliação de analistas de que a canibalização de lojas afetou a receita, assim como entende que mesmo com o desaquecimento nas vendas, houve manutenção de rentabilidade. “Nosso nível de canibalização não subiu de um ano para cá e estamos mantendo nossas aberturas em 240 pontos no ano e em 2019.”

A margem bruta atingiu 28,5% de janeiro a março, leve queda de 0,2 ponto percentual, e a margem Ebitda, que mede lucro antes de juros, impostos, amortização e depreciação, ficou estável em 7,6%.

Zagottis não fez previsões sobre margens em 2018, mas considera que deve haver pressões nesse índice ao longo do ano, o que torna difícil achar espaço para melhora no indicador. A respeito da possibilidade de a empresa recuperar ritmo de vendas reduzindo margem e sendo mais agressiva em preço, o executivo diz que, no momento, não vê necessidade de “cortar na carne”. (Colaborou Marcelle Gutierrez)

Momento de tomar decisões na negociação Mercosul- UE

Everton Vargas – Valor Econômico

As mudanças em curso na economia global tornam as negociações Mercosul-União Europeia (UE) tão importantes do ponto de vista estratégico quanto os benefícios econômicos que um acordo deverá gerar. Agora é o momento de tomar decisões que irão definir o futuro da relação econômica entre o Mercosul e a UE.

A Organização Mundial do Comércio (OMC) recentemente projetou crescimento de 4,4% no comércio internacional de bens em 2018. Essa perspectiva é animadora porque indica estar a economia mundial deixando para trás, depois de dez anos, os efeitos desastrosos da crise financeira e econômica que começou em 2008. Apesar disso, como alerta a própria OMC, essa projetada expansão do comércio pode ser comprometida pelo aumento de práticas restritivas, como aquelas que estamos começando a ver surgir.

Contra esse pano de fundo, o Mercosul e a União Europeia buscam finalizar uma das maiores negociações comerciais em andamento no mundo. Ao aproximar economias com PIB somado de US$ 19 trilhões e um mercado de 750 milhões de pessoas, um acordo comercial Mercosul-UE renovaria o compromisso com o comércio internacional como um instrumento para gerar crescimento sustentável, empregos, competitividade e desenvolvimento.

Não há espaço para um acordo no qual prevaleçam apenas as expectativas e interesses de um dos lados

Da perspectiva do Brasil, um acordo comercial pode intensificar nossa relação econômica com a UE, que já é densa. O Brasil é o sexto principal investidor na UE (excluídos os paraísos fiscais), em cujo território fabricamos aviões, motores e produtos alimentícios, entre outros. Por sua vez, o Brasil é o terceiro principal destino dos estoques de investimentos da UE no mundo. O Brasil frequentemente representa uma das mais importantes fontes do faturamento de empresas europeias – em alguns casos, o Brasil é a principal origem do faturamento dessas empresas. O comércio bilateral chegou a US$ 67 bilhões em 2017, um dos maiores volumes de comércio bilateral do Brasil. Há grande potencial ainda a ser explorado em áreas como compras governamentais e indicações geográficas.

Assim, há muito que ambos os lados poderão ganhar com maior estímulo ao comércio e ao investimento bilateral e com uma maior presença mútua nas respectivas economias.

Negociações comerciais nunca são tarefas fáceis dadas as complexidades de ordem técnica e política sempre presentes. No momento atual, isso é ainda mais desafiante. Evidentemente, temos de responder às demandas legítimas de nossas sociedades, que esperam dos acordos comerciais resultados justos e equilibrados para todos. Isso explica, por exemplo, por que o Brasil tem sempre defendido que negociações comerciais, inclusive aquela entre Mercosul-UE, incluam cláusulas que preservem o espaço para políticas em áreas como saúde pública, educação, proteção ambiental e desenvolvimento.

Desafios de uma natureza muito diferente surgem, todavia, em um momento no qual o mundo passa pelos rearranjos de ordem política, econômica e social que estamos vivenciando. De forma similar a outros atores globais, essas mudanças estruturais deverão afetar a forma como o Brasil se insere na economia mundial no futuro próximo.

Um cenário possível aponta para uma maior internacionalização e diversificação da economia brasileira, no qual a posição relativa de que atualmente desfruta a UE em nossa economia se vê afetada.

Já se podem detectar elementos que evidenciam essa tendência: Em 2017, a UE perdeu sua posição tradicional como o principal parceiro comercial do Brasil. Hoje em dia, a China não apenas é responsável pela maior parte de nosso comércio internacional, como ainda contribui para parcela considerável de nosso superávit. Ainda em 2017, o Brasil foi o sexto principal destino global de investimento estrangeiro direto, o que confirma a atratividade de nossa economia a investidores de todo o mundo.

O Brasil e os demais sócios do Mercosul estão expandindo a rede de acordo de livre comércio. Negociações com os países do EFTA (Islândia, Liechtenstein, Noruega e Suíça) estão em curso; há poucas semanas iniciaram-se as negociações com o Canadá e as tratativas com a Coreia do Sul devem começar em breve. O Mercosul está expandindo ainda seu acordo preferencial de comércio com a Índia e conduzindo negociações comerciais com o Líbano e a Tunísia.

Estamos em contato também, com vistas à possível abertura de negociações comerciais, com parceiros como Cingapura, Japão e Nova Zelândia. Em 2019, a maior parte da América do Sul se tornará, na prática, uma área de livre comércio, como resultado de acordos regionais nos quais estão previstas a eliminação de tarifas ao comércio. Os países do Mercosul estão trabalhando com a Aliança do Pacífico (Chile, Colômbia, México e Peru) para aproveitar as oportunidades criadas pela remoção de barreiras ao comércio e ao investimento.

As negociações MERCOSUL-UE devem ser visualizadas tendo em conta esse contexto. De modo particular, é preciso entender que o MERCOSUL não se encaixa em nenhuma das categorias de parceiros com os quais a União Europeia negociou acordos comerciais no passado.

O bloco sul-americano é um importante fornecedor de alimentos em escala global, ao mesmo tempo em que possui uma sólida base industrial e mercado consumidor muito promissor para bens e serviços.

Esses traços tornam as tratativas MERCOSUL-UE um processo único. Para ter um desfecho positivo, as negociações devem buscar o ponto de equilíbrio correto – uma constatação que se aplica sobretudo à interrelação entre bens agrícolas e industriais. Não há espaço para um acordo no qual prevaleçam apenas as expectativas e interesses de um dos lados.

Os negociadores têm conseguido, ao longo do processo, encontrar soluções mutuamente aceitáveis, que equacionam eventuais diferenças. Não deve causar surpresa, portanto, que os assuntos pendentes na atual etapa avançada da negociação sejam aqueles que suscitam as maiores sensibilidades: acesso a mercados para bens agrícolas, comércio e regras de origem para o setor automotivo e indicações geográficas.

Estamos em um momento fundamental nas negociações Mercosul-UE. É crucial poder contemplar esse processo desde a perspectiva mais ampla do contexto no qual ele se insere. Nossa expectativa é de que a UE possa dar passos concretos, como temos feito, para demonstrar o compromisso com um acordo equilibrado. Everton Vieira Vargas é embaixador do Brasil junto à União Europeia (Bruxelas).

Abertura sim, mas do jeito certo

Robson de Andrade – Valor Econômico

“Para todo problema complexo, existe sempre uma solução clara, simples e errada”. A frase, atribuída a um jornalista americano do início do século XX, sobrevive ao tempo e deveria ser pintada nas paredes de alguns órgãos do governo. O Ministério da Fazenda e a Secretaria de Assuntos Estratégicos (SAE) têm tratado de abertura comercial e sua relação com o desenvolvimento econômico. O tema é relevante e merecia ter sido discutido de forma ampla, com a participação de todos os interessados, sobretudo empresários e trabalhadores.

Com os debates promovidos pela Fazenda e pela SAE desconectados do dia a dia da economia brasileira, entrou na agenda da Câmara de Comércio Exterior (Camex) uma proposta de redução do Imposto de Importação concentrada em dois setores: bens de capital, e bens de informática e telecomunicações. Os órgãos sugerem que as referidas tarifas sejam reduzidas a 4%, de forma linear e unilateral. Ou seja, fora do contexto dos acordos comerciais e, portanto, sem nenhuma contrapartida em maior acesso dos produtos brasileiros ao mercado de outros países.

Quando necessárias, diminuições tarifárias precisam vir acompanhadas de medidas que contribuam para a adaptação dos setores afetados, incentivando sua competitividade. Devem, também, prever um período razoável de implementação, sob pena de tornar inexequível a adequação. Adotadas de modo abrupto e sem as cautelas apropriadas, elas impactam a indústria, provocando o fechamento de empresas e o desemprego. A proposta da Fazenda tem esse potencial destrutivo, pois não prevê iniciativas para tornar os dois segmentos mais competitivos.

Nenhuma grande economia do mundo propôs, como faz a Fazenda, a redução unilateral de tarifas

Além disso, ignora o momento crucial das negociações comerciais pelo qual o Mercosul está passando com a União Europeia, que têm na questão tarifária um de seus pontos mais relevantes. Nesse contexto, demonstra, sobretudo, descaso pelos esforços que o próprio governo, em parceria com o setor privado, vem empreendendo para estabelecer um acordo que será essencial para a abertura econômica e para o desenvolvimento do Brasil.

Discussões sobre abertura comercial costumam ser dominadas por argumentos ideológicos. Pode-se aceitar que isso ocorra no ambiente acadêmico, mas, quando se trata de políticas públicas, que afetam a vida das empresas e de seus trabalhadores, qualquer decisão deve ser baseada em critérios essencialmente técnicos.

Ao escolher duas áreas da indústria como alvo, a proposta promove um desequilíbrio das margens de proteção efetiva, distancia a nossa economia ainda mais do conceito de escalada tarifária e, sobretudo, esquece as disfunções do sistema tributário nacional, que impõe custos às empresas não aplicados a seus principais concorrentes no mundo. Somente o resíduo tributário no setor industrial exportador brasileiro soma, na média, 3% do valor das suas vendas, podendo ser superior em alguns segmentos.

A proposição da Fazenda e da SAE desconsidera, também, a conjuntura econômica do país e da indústria brasileira. Após 11 trimestres de retração, provocada pela maior crise da história da República, e ainda marcada por forte ociosidade, o setor industrial começa a dar os primeiros passos no sentido da recuperação, com aumento da confiança do empresário e do consumidor. Uma redução tarifária nos termos delineados certamente afetaria esse movimento de retomada.

Finalmente, a proposta é inconsistente com outras políticas do governo, que vêm estimulando investimentos em capacidade produtiva e desenvolvimento tecnológico nos setores produtores de bens de informática e telecomunicações e de bens de capital. Exemplos são as recém-lançadas iniciativas quanto à internet das coisas e à indústria 4.0, que têm o objetivo de preparar a economia brasileira para a 4ª revolução industrial.

O sistema de defesa comercial também vem sendo alvo de iniciativas da Fazenda e da SAE que têm contribuído para sua politização. O arcabouço hoje existente visa combater o comércio desleal e atinge menos de 1% das importações do país. As medidas são aplicadas após uma criteriosa análise técnica, conduzida pelo Departamento de Defesa Comercial (Decom), do Ministério da Indústria, Comércio Exterior e Serviços.

A Fazenda tem atuado para que a avaliação de “interesse público”, que é justa e legítima se usada realmente em casos de interesse do país, tenha sua função distorcida, tornando-se quase uma instância recursal para reverter algumas medidas de defesa comercial, por vezes sem respeito ao próprio processo legal estabelecido.

O órgão propõe, ainda, criar uma fase de decisão política antes de o Decom aceitar as petições do setor privado para começar as investigações. Na prática, isso estrangula o processo técnico, espremendo-o entre duas determinações políticas – uma para iniciá-lo e outra para adotar as medidas de defesa comercial propriamente ditas.

Para a indústria brasileira, a abertura comercial, caso seja bem planejada e executada, contribuirá para aumentar a competitividade do setor. Mas ela deve ser promovida no âmbito das negociações de acordos comerciais e realizada em paralelo a outras iniciativas, como parte de uma estratégia de desenvolvimento de longo prazo.

A competitividade depende de um amplo conjunto de fatores, como reforma tributária, eficiência do Estado e dos gastos públicos, segurança jurídica, desenvolvimento da infraestrutura, políticas mais consistentes de apoio à inovação e melhora da educação, entre outros. Nenhuma grande economia do mundo – incluídos China, Estados Unidos, Japão e União Europeia – fez o que a Fazenda propõe: redução unilateral de tarifas e enfraquecimento da defesa comercial. O Brasil já tentou, no passado, soluções simplistas e parciais como essas para seus desafios. Como sabemos, nunca deu certo.

Robson Braga de Andrade é empresário e presidente da Confederação Nacional da Indústria (CNI)

Hypera revê expansão sob novo comando

Rodrigo Rocha – Valor Econômico: 

O plano de expansão da Hypera, defendido pela farmacêutica até fevereiro, deve ser adiado ao menos até o fim do ano. Segundo Breno Oliveira, novo presidente da companhia, o aumento de produtividade das atuais unidades adiou temporariamente a possibilidade.

“Estamos vendo uma mudança no cenário, com recorde de produção”, afirmou Oliveira em teleconferência sobre os resultados trimestrais. “A tendência é que não tenhamos mais gargalos de produção para a demanda deste ano.”

Com a melhora da produtividade, a empresa deve rever sua expectativa de investimentos e pode postergar ou até mesmo reduzí-los. Até fevereiro, cogitava a construção de nova fábrica em Anápolis (GO), hipótese que não é mais defendida com afinco pela companhia. A expectativa de desembolso era de até R$ 500 milhões para o projeto de expansão.

A empresa também está compensando a inflação menor que incide sobre seus produtos regulados com elevação de preços nos medicamentos isentos de prescrição, com o objetivo de manter os ganhos de rentabilidade.

A intenção é não entrar em “guerra” de preço nos medicamentos com reajuste controlado pela Anvisa, agência de vigilância sanitária. “Boa parte do portfólio não está sujeita a preços [regulados].

Estamos compensando inflação menor com aumento de produtos sem regulação de preço”, disse.

A mudança de rumo acontece no momento em que a Hypera é obrigada a fazer alterações em sua administração, após investigações sobre a companhia e executivos no âmbito da Operação Lava-Jato.

A Hypera anunciou na quinta-feira que o até então presidente da companhia, Claudio Bergamo, apresentou pedido de “afastamento voluntário” do cargo, sendo substituído por Oliveira, então diretor financeiro da empresa.

Além disso, a companhia confirmou que seu principal acionista, João Alves de Queiroz Filho, o “Júnior da Arisco”, pediu “afastamento voluntário” da presidência do conselho, pelo período necessário à conclusão de apuração interna e de investigação em curso pelo Ministério Público Federal (MPF).

“A decisão de afastamento deles é de interesse deles e da companhia”, destacou Oliveira.

Além dos dois comandantes, outros dois executivos, do escritório da companhia, foram alvo da Operação Tira-Teima, desmembramento da Lava-Jato. A empresa não abre o nome dos dois funcionários, mas Oliveira detalhou que ambos eram executivos de nível médio dentro da empresa, com funções administrativas e não tinham contatos com agentes externos, como agências reguladoras.

A companhia também voltou a afirmar que não assinou nenhum acordo de leniência e que não está em tratativas com a Procuradoria Geral da República (PGR).

Indústria sinaliza que acordo entre UE e Mercosul pode estar próximo

Assis Moreira – Valor Econômico: 

Várias questões que vinham bloqueando o avanço das negociações entre o Mercosul e a União Europeia (UE) para um acordo de livre comércio birregional parecem superadas e a reunião de negociadores, na semana que vem em Bruxelas, poderá determinar os próximos passos das barganhas, segundo expectativa de representante da indústria.

“Entendo que os principais óbices foram superados, os temas complicados estão bem encaminhados”, afirmou o diretor de Relações Internacionais e Comércio Exterior da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp), Thomaz Zanotto.

Para a Fiesp, o momento é oportuno para concluir as negociações e resultará tanto no aumento do fluxo comercial quanto em benefícios intangíveis quanto a transferência de tecnologia, capitais e serviços para a indústria nacional. “Há uma janela de oportunidade e isso tem prazo de validade, porque senão ela tende a se fechar”, diz Zanotto.

Pelas informações que circulam no setor privado, os europeus sinalizaram com aumento da quota para importação de carne bovina para 110 mil toneladas. A UE tinha começado com quota de 70 mil e depois com 99 mil. Negociadores dizem que muito do que foi conversado com Bruxelas nas últimas semanas precisa ser formalizado.

Duas questões centrais envolvendo o setor automotivo parecem ter avançado. Primeiro, os europeus queriam eliminação das tarifas de importação para seus carros num prazo de oito anos, enquanto as montadoras do Mercosul pediam prazo de 15 anos. A avaliação agora é de que o fim das tarifas deve ocorrer entre 10 e 12 anos.

Além disso, um dos princípios básicos da negociação é que não haveria prazo de carência, e a liberalização começaria desde o primeiro ano do acordo. O sentimento é de que, se houver carência, pela insistência de montadoras do Mercosul, será entre dois e três anos.

Outra questão técnica sensível estava em discussão no campo das regras de origem. Ponto que, pela análise de Zanotto, prosperou. O setor têxtil brasileiro defendia que para se ter a tarifa menor pela regra de origem nesse segmento, o fio, o tecido e a roupa precisariam ser da região. A regra acertada agora manteve só duas etapas do conteúdo local: o tecido e a roupa. Os europeus alegam que são importadores de fio.

A questão de produtos remanufaturados fica fora do acordo. Os europeus queriam sua inclusão, por exemplo, porque países como a Alemanha têm um programa que incentiva a troca de máquinas com frequência – e a revenda do equipamento com pouco uso. Mas permitir tarifa menor para esse tipo de produção causaria problemas para setores no Brasil. É o mesmo caso de pneus, que os europeus, por causa dos ciclos do verão e interno, descartam o produto com mais frequência e procuram exportar o que em outros países é visto como seminovo.

A avaliação é também de que a UE compreende a importância de se manter o regime de “drawback” – pelo qual há isenção na tarifa de importação para insumos usados na fabricação de bens industriais depois exportados. É um regime aduaneiro especial no Brasil e para o Paraguai com suas maquiladoras, por exemplo.

A UE queria manter uma forte proteção de mais de 300 denominações de origem, incluindo queijos, azeites etc. Agora, isso foi reduzido para cerca de 10%, o que também facilita o avanço da negociação birregional.

Nas negociações ministeriais em Buenos Aires, em dezembro de 2017, a Argentina parecia querer fechar o acordo a qualquer preço, e coube ao Brasil esfriar um pouco os ânimos diante do que Bruxelas colocava na mesa.

Mais tarde, alguns europeus procuraram representantes do setor privado brasileiro, indagando se o Brasil estava postergando a negociação para fazer o acordo em outro momento político.

De seu lado, a Fiesp considera que o momento para fechar a negociação é oportuno inclusive por ver uma convergência inédita de políticas econômicas entre o Brasil e a Argentina, cujos governos coincidem na decisão de realizar reformas estruturais, buscar o equilíbrio fiscal e promover maior inserção externa da região.

Thomas Zanotto destaca que, para a Fiesp, a negociação de acordos comerciais é o caminho mais seguro e inteligente para a abertura da economia brasileira. A entidade avalia que uma redução unilateral de tarifas de importação limita o poder de barganha do bloco com outros parceiros, como também ameaça a produção e emprego local, sobretudo de pequenas e médias empresas que terão dificuldade de se adaptar no curto prazo.

O fluxo comercial entre a UE e o Mercosul alcançou US$ 80 bilhões em 2017, com deficit de US$ 362 milhões para o bloco do cone sul. As exportações do Brasil, Argentina, Paraguai e Uruguai foram principalmente subprodutos das indústrias alimentícias (15%), minerais metálicos (10%) e soja (7%). As importações foram principalmente de reatores e caldeiras (19%), produtos farmacêuticos (11%) e máquinas e equipamentos elétricos (9%).

No primeiro trimestre deste ano, as exportações de manufaturados brasileiros para a UE cresceram 74%, na comparação interanual, e totalizaram US$ 4,9 bilhões. Para a Fiesp, esse resultado mostra o potencial do mercado europeu para as vendas de produtos industrializados de origem brasileira.

Do lado das importações, as compras de manufaturados europeus aumentaram 10% e totalizaram US$ 7,9 bilhões no período. Cerca de 60% da pauta de importações originárias da UE pode ser classificada como bens intermediários utilizados pela indústria de transformação no Brasil.

Para Zanotto, se as barganhas entre UE e Mercosul avançarem na semana que vem, como é a expectativa, o passo seguinte será a realização de uma reunião ministerial para anunciar o acordo político e, talvez ainda este ano, concluir a negociação do acordo de livre comércio birregional.

Hypera Pharma lidera em anúncios

Gustavo Brigatto – Valor Econômico: 

Com um salto de 64% em seu orçamento de compra de mídia, a Hypera Pharma (nome que a Hypermarcas passou a adotar em fevereiro), ultrapassou a Genomma e se tornou o maior anunciante do Brasil em 2017, segundo a Kantar Ibope Media. O salto da companhia da quarta para a primeira posição no ranking também foi auxiliado pela queda de 9% nos gastos da Genomma ao longo de 2017.

Em comunicado, a Kantar não divulgou valores, mas, em 2016, a Hypermarcas havia registrado R$ 2,28 bilhões em compra de mídia. A Genomma desembolsou R$ 3,45 bilhões.

A pesquisa se refere a quanto os anunciantes compram de espaço publicitário nos veículos de comunicação. Os valores considerados são os de tabela cheia, sem contar descontos e negociações.

O segmento farmacêutico, ao qual pertencem Hypera Pharma e Genomma, é o que tem mais empresas na lista dos 10 maiores anunciantes do país, com mais Divcom Pharma Nordeste e Ultrafarma.

A lista completa é formada por Unilever em terceiro lugar (mesma posição do ano anterior, mas com gastos 35% menores), seguida por Ambev – que subiu do sétimo para o quarto lugar, com alta de 29% nos investimentos. A Procter & Gamble (P&G) subiu da sexta para a quinta posição, apesar de reduzir os gastos com propaganda em 2%. Ainda estão entre os dez maiores anunciantes Claro, Caixa e Trivago.

De acordo com a Kantar, a compra de anúncios publicitários atingiu a marca de R$ 134 bilhões em 2017, um crescimento de 3,1% em relação a 2016. Descontada a inflação, o setor apresentou um crescimento real de 0,15%. O número de anunciantes caiu um pouco entre 2016 e 2017: de 63 mil para 61.380.

Entre os 10 setores que mais investiram em mídia em 2017, e que juntos representam mais de 80% de toda a atividade publicitária no período, apenas comércio, automotivo e bebidas apresentaram retração nos números aferidos. Os setores que mais cresceram no período foram administração pública e social, com 38%, e farmacêutico, com 22% de variação positiva.

Entre os mercados monitorados, São Paulo segue como líder, absorvendo um quarto de toda a verba destinada para compra de espaço publicitário. Ao lado de Rio de Janeiro e Belo Horizonte, os três mercados são responsáveis por receber 38% de todo o investimento de mídia do país.

Falta matéria-prima no setor de defensivos

Kauanna Navarro – Valor Econômico: 

Paralelamente aos efeitos negativos provocados pelos estoques elevados nos canais de distribuição no Brasil, agudos em 2017 e que ainda estão sendo debelados, as empresas de agroquímicos que atuam no país também sofrem com a escassez de matérias-primas para a formulação dos produtos finais vendidos aos agricultores.

O aperto da legislação ambiental na China levou ao fechamento de cerca de 700 fábricas de produtos químicos naquele país no último ano. Muitas eram responsáveis pela produção de ingredientes ativos e matérias-primas para indústrias de agroquímicos de todo o mundo.

Assim, apesar de altos estoques no canal de distribuição, a indústria também sofreu com o aumento do preço de ingredientes das formulações, ou mesmo com a falta de produtos. Analistas avaliam que essa crise de escassez de produtos só não foi percebida antes por causa dos estoques fartos nas distribuidoras.

Muitas empresas sentiram falta, inclusive, de produtos amplamente usados nas lavouras, como o herbicida glifosato. Em novembro, Rodrigo Gutierrez, presidente da Adama no Brasil, afirmou que já não tinha glifosato para vender – e isso que a empresa, israelense, é controlada pela ChemChina “Já não temos glifosato para vender faz cerca de três meses. O mercado inteiro não tem”, disse na época. Segundo Silvia Fagnani, diretora do Sindicato Nacional da Indústria de Produtos para Defesa Vegetal (Sindiveg), houve queda de 50% na produção de glifosato na China.

Apesar dos pesares, a Adama registrou seu melhor faturamento no Brasil. Em 2017, sua receita no país foi de US$ 480 milhões, pouco abaixo dos US$ 502 milhões projetados inicialmente. “Essa diferença ocorreu porque não conseguimos lançar dois grandes produtos no ano passado”, disse. Para 2018, a previsão, segundo Gutierrez, é que o faturamento chegue a US$ 570 milhões.

Como era de se esperar, a escassez de produtos no Brasil foi mais sentida por empresas que não estavam com grandes estoques parados nos canais de distribuição. “O ano passado foi muito bom em vendas, mas teria sido espetacular se não fosse a falta de matéria-prima”, afirmou Marcelo Damus Abdo, vice-presidente da Ourofino Agrociência – empresa brasileira com foco em defensivos pós-patente, os genéricos.

De acordo com o executivo, a empresa deixou de efetivar vendas estimadas em R$ 115 milhões – R$ 85 milhões viriam de vendas cujos pedidos já haviam sido tirados. “Eu já tinha vendido esses produtos e tive de recuar. Fora o que eu deixei de vender”, afirmou Abdo.

A situação afetou os resultados da empresa em 2017. O lucro líquido da Ourofino, que registrou receita líquida de R$ 636 milhões, ficou em R$ 71 milhões, 7,8% menor que em 2016. De acordo com o vice-presidente da companhia, algumas matéria-primas subiram 50%, mas, na média, houve aumento de 30%.

Mesmo quem não enfrentou problemas com a falta de ingredientes sofreu com a situação, em virtude do aumento de preços. Foi o caso da australiana Nufarm, que teve de sacrificar margens para não perder vendas no Brasil. “Houve aumento de preços e isso pressionou as margens. A gente tentou repassar o aumento, mas, em geral, as margens ficaram mais pressionadas”, disse Marcos Gaio, presidente da empresa para a América Latina.

A Nufarm faturou no Brasil cerca de US$ 500 milhões em 2017, 6,4% mais que em 2016 e pouco mais de 20% das vendas globais da múlti.

A consultoria Kleffmann estima que 15% das vendas de defensivos do ano passado no país tenham ficado nos canais de distribuição. Fontes do segmento calculam que, no total, a indústria tenha vendido ao redor de US$ 9 bilhões no ano passado. No início de 2017, os estoques somavam US$ 2,4 bilhões.

Poucas empresas sentiram tanto os reflexos desses estoques elevados no Brasil em 2017 como a alemã Bayer . Sob essa influência, a receita líquida da alemã na área agrícola recuou 3,4% no ano passado, para € 9,6 bilhões. Levando-se em conta apenas o “portfólio ajustado”, que envolve só ativos que não foram vendidos para que a aquisição da americana Monsanto seja aprovada, a queda foi de 2,2%.

Na divulgação do balanço do ano passado, a empresa destacou que os estoques no Brasil estavam “inesperadamente elevados” e que, basicamente por causa disso, na América Latina as vendas recuaram 18% – o equivalente a US$ 600 milhões. Desconsiderando o desempenho no mercado brasileiro, as vendas ajustadas da Bayer teriam crescido 3% no ano passado.

Com menos intensidade, o volume elevado de estoques também pressionou os resultados de outra alemã: a Basf. Segundo o CEO global da companhia, Kurk Bock, foram sobretudo adversidades no Brasil que levaram à queda de € 54 milhões no lucro antes dos juros e tributos (Ebit) em relação a 2016.

Droga da Merck & Co deve mudar combate ao câncer de pulmão

David Crow – Valor Econômico: 

A imunoterapia deverá tornar-se o tratamento padrão para a grande maioria dospacientes com câncer de pulmão, depois de um teste clínico do laboratório farmacêutico Merck & Co., que se chama MSD no Brasil, ter mostrado que um de seus novos medicamentos adicionado à quimioterapia aumenta as chances de sobrevivência.

Diferentemente dos remédios tradicionais contra o câncer, a imunoterapia trabalha encorajando o sistema imunológico do corpo a atacar os tumores. É amplamente celebrada por oncologistas como um dos maiores avanços em décadas.

Alguns pacientes recém-diagnosticados com câncer de pulmão já recebem um novo tipo de tratamento imunológico conhecido como “inibidor de checkpoint” quando seus tumores têm altos níveis de uma proteína conhecida como PDL1. O tratamento padrão para a maioria, no entanto, ainda é a quimioterapia.

Analistas preveem que esse tipo de medicamento vai gerar vendas superiores a US$ 34 bilhões em 2022

Isso parece destinado a mudar depois da publicação de um grande teste clínico, já em sua última fase, divulgado ontem em Chicago, no encontro anual da Associação Americana de Pesquisa do Câncer.

O estudo mostrou que a combinação de quimioterapia com o inibidor de checkpoint da Merck aumentou de forma significativa o índice de sobrevivência dos pacientes com o tipo mais comum da doença, conhecido como câncer de células de pulmão não pequenas e não escamosas (NSCLC, na sigla em inglês).

Pacientes que receberam o inibidor de checkpoint Keytruda e também foram tratados com quimioterapia tiveram chance 51% menor de morrer durante o período do teste em comparação aos que fizeram apenas quimioterapia, segundo o estudo, feito com 616 participantes.

“Esses dados clínicos agora sugerem essa combinação como o novo padrão de assistência médica para o tratamento de primeira linha para esses […] pacientes”, disse a doutora Leena Gandhi, oncologista no NYU Langone Medical Center, que comandou o estudo.

O doutor Roger Perlmutter, cientista-chefe da Merck, disse que os resultados “inequívocos” excederam a expectativa da empresa. “Como tratamento de primeira linha, este é melhor do que qualquer outro que conheçamos”, acrescentou.

A combinação de tratamentos, contudo, ainda sujeitou os pacientes aos efeitos colaterais debilitantes e, algumas vezes, potencialmente letais, associados à quimioterapia.

As conclusões significam que, a partir de agora, a maioria dos pacientes com câncer de pulmão por tratar vai receber imunoterapia como tratamento padrão. A dúvida, então, seria decidir se também vão receber quimioterapia como segundo tratamento – ou se podem ser poupados totalmente de seu desgaste.

Os pacientes com níveis maiores de proteína PDL1 – que tendem a responder muito bem à imunoterapia – poderiam ser capazes de evitar a quimioterapia, especialmente quando são mais idosos ou estão fragilizados, segundo o doutor Perlmutter.

“Muito disso tem a ver com o estado de saúde do indivíduo”, acrescentou. “É uma decisão muito personalizada, mas o fato de que se veja uma diferença tão dramática quando há a combinação [de tratamentos] acho que vai fazer com que as pessoas fiquem ansiosas por usá-la.”

O recente teste consolida a posição da Merck como líder na corrida por lançar tratamentos imunológicos para pacientes com câncer de pulmão, cujo mercado é visto como sendo o mais lucrativo, em vista do grande número de afetados: 1,8 milhão de pessoas são diagnosticadas com NSCLC por ano no mundo, sendo mais de 200 mil nos Estados Unidos.

Os inibidores de checkpoint, que removem freios do sistema imunológico para que este possa combater o câncer, foram criados pela Bristol-Myers Squibb, AstraZeneca e vários outros laboratórios farmacêuticos.

Já foram aprovados para tratar vários tipos de câncer, incluindo os de pele, bexiga e rim. Analistas preveem que esse tipo de medicamento vai gerar vendas superiores a US$ 34 bilhões em seu pico, em 2022.

O teste da Merck com o medicamento também serve de incentivo à teoria de que a combinação entre imunoterapia e outros tratamentos pode aumentar o número de pacientes que reagem positivamente.

Um dado importante é que mesmo pacientes com baixos níveis de proteína PDL1 – que normalmente não reagem à imunoterapia – se beneficiaram da combinação de drogas. Entre esses pacientes, a chance de morte diminuiu 41% em comparação ao que haviam sido tratados apenas com quimioterapia.

A teoria da combinação de tratamentos havia sofrido um grande golpe nas últimas semanas, depois de um grande teste de um medicamento da Merck combinado a outro do grupo de biotecnologia Incyte não ter exibido bons resultados.

A Bristol-Myers Squibb também havia publicado um estudo mostrando que a combinação de duas de suas imunoterapias ampliou o tempo em que um subgrupo de pacientes com câncer de pulmão ficou sem pioras em sua doença.

Os pacientes cujo câncer teve muitas mutações genéticas e que tomaram os dois remédios da Bristol-Myers Squibb ficaram 7,2 meses sem que o câncer crescesse. Os que apenas foram tratados com quimioterapia ficaram 5,5 meses.

Não está claro, no entanto, se os oncologistas e os pacientes vão escolher a combinação da Bristol-Myers Squibb agora que a Merck conseguiu um impacto tão grande nos índices gerais de sobrevivência, ao combinar a imunoterapia e a quimioterapia.

Uma análise inicial do estudo da Bristol-Myers Squibb, ainda não concluído, indicou que o subgrupo de pacientes com um alto grau de mutação nos tumores teve chance 21% menor de morrer durante o teste do que os tratados apenas quimioterapia.

No teste da Merck, a redução das chances de morte, de 51%, levou em conta todos os pacientes com câncer de pulmão.