Glaxo quer revolucionar tratamento da Aids

Denise Roland – Valor Econômico:

A farmacêutica britânica GlaxoSmithKline PLC está definindo o futuro de sua unidade de remédios para o HIV com uma aposta audaciosa: virar de cabeça para baixo uma estratégia de tratamento que vigora há décadas e que transformou uma doença fatal em crônica.

O tratamento contra o HIV, o vírus que causa a Aids, mudou pouco desde meados da década de 90, quando uma nova classe de drogas melhorou drasticamente a terapia adotada. Os médicos descobriram que uma combinação de tipos mais novos de remédios antirretrovirais com duas drogas já usadas impediam o vírus de desenvolver resistência.

Desde então, um regime de três drogas se firmou como o tratamento padrão e o foco do desenvolvimento de novos remédios continua sendo combinações triplas cada vez mais eficazes.

Agora, os executivos da Glaxo querem mudar isso. Eles esperam que o mais recente comprimido da farmacêutica seja forte o suficiente para debelar o vírus HIV com a ajuda de apenas mais uma droga. Isso, diz o diretor-presidente Andrew Witty, seria uma reviravolta no setor porque o uso de menos drogas produziria menos efeitos colaterais.

A ViiV Healthcare ­ unidade dedicada a combater o HIV que é controlada pela Glaxo e na qual a americana Pfizer Inc. e a japonesa Shionogi & Co. possuem fatias minoritárias ­ deu início à longa missão de transformar o projeto em realidade.

A droga em questão, a dolutegravir, pertence a uma classe conhecida como inibidores da enzima integra-se, cujo efeito é reduzir rapidamente o nível do vírus HIV no sangue. Ela foi aprovada para uso como parte de uma terapia tripla tradicional e, até agora, não há casos registrados em que o vírus tenha desenvolvido resistência à droga em novos pacientes.

Isso torna o dolutegravir único entre os inibidores da integra-se, diz David Hardy, médico especialista em HIV e porta-­voz da Associação de Medicamentos contra o HIV, um grupo de defesa dos interesses dos pacientes. Embora o perfil do dolutegravir sugira que o remédio talvez possa suprimir o HIV sem a ajuda de qualquer outro remédio, a Glaxo está adotando uma abordagem mais cautelosa, diz uma porta­-voz da empresa.

O benefício mais importante de um tratamento com duas drogas é que ele causa menos efeitos colaterais. Náusea, diarreia, problemas renais e enfraquecimento dos ossos são as razões mais comuns para alterar o tratamento contra o HIV. O uso de só duas drogas também custaria menos.

Rochelle Walensky, professora associada da Faculdade de Medicina de Harvard, estimou que migrar 25% dos pacientes que hoje usam a terapia tripla para uma combinação de dolutegravir e 3TC ­ um remédio genérico mais antigo ­ reduziria em mais de US$ 3 bilhões o custo de tratamento do HIV durante cinco anos. A economia é menos clara se as duas drogas do tratamento ainda estiverem sob proteção de patentes.

A Glaxo está pondo “um foco e prioridade tremendos” no desenvolvimento do tratamento com as duas drogas, diz Witty.

Segundo o banco suíço UBS, a oportunidade é significativa: se o tratamento “dual” tornar­-se a estratégia preferida dos médicos, a Glaxo pode abocanhar uma fatia bem maior do mercado e substituir a Gilead Sciences Inc. como a principal
farmacêutica da área de HIV em três anos.

Em 2015, a Glaxo iniciou uma série de amplos testes clínicos com o objetivo de mostrar que a combinação do dolutegravir com apenas outro remédio contra o HIV funciona tão bem quanto a terapia tripla tradicional.

Um grupo desses testes está testando o dolutegravir com a rilpivirina, remédio produzido pela Janssen Pharmaceuticals, uma unidade da Johnson & Johnson. Outro teste combina o dolutegravir com o 3TC, droga genérica usada na análise de Walensky.

A Glaxo também planeja iniciar um teste de estágio avançado combinando uma versão injetável do dolutegravir com a rilpivirina. Um teste anterior revelou que esta combinação era tão eficaz quanto o tratamento com três drogas quando o vírus já havia sido eliminado por um período inicial de terapia tripla.

Os testes só começarão a produzir resultados em 2017, mas um pequeno estudo realizado pelo médico argentino Pedro Cahn oferece razões para otimismo. No teste de 48 semanas, a combinação do dolutegravir e o 3TC reduziu os níveis de HIV em 18 de 20 pacientes que nunca haviam recebido tratamento.

Mesmo se os testes clínicos mais amplos da Glaxo tiverem sucesso, ela pode enfrentar outro desafio: a inércia. Em 2015, a Gilead lançou uma série de terapias triplas usando uma nova droga contra o HIV, a TAF, que pode ser administrada em doses muito menores que seus antecessores, causando menos danos aos rins.

Christoph Wyen, especialista em HIV do Hospital Universitário de Colônia, na Alemanha, diz que o advento de terapias triplas menos tóxicas reduz o incentivo dos médicos mudarem os tratamentos para outros mais simples. Ele diz que a terapia dual pode ser adotada mais rapidamente entre pacientes mais velhos e mais propensos a complicações de saúde relacionadas à idade.

A Gilead está desenvolvendo um novo inibidor de integra-se que, se for similar ao dolutegravir, pode dar a ela uma vantagem importante no mercado de terapia tripla. O pior cenário para a Glaxo ocorreria se suas terapias duais fracassarem e o inibidor de integrase da rival ­ que, se tiver êxito, deve ser lançado em 2018 ­ tirar participação de mercado do dolutegravir, embora Witty diga que o dolutegravir estará bem estabelecido quando a concorrência da Gilead chegar.

“Não é uma conclusão garantida que [a terapia dual] funcionará”, diz Hardy. Mas “vi o desenvolvimento do dolutegravir por tempo suficiente para entender a razão de estarem tentando fazer isso”.

Abiquim diz que Temer deve buscar equilíbrio das contas públicas sem aumento de impostos

Stella Fontes – Valor Econômico:

O presidente interino Michel Temer (PMDB) recebeu um crédito de confiança do empresariado e, confirmado o impeachment da presidente afasta Dilma Rousseff (PT), deve trabalhar para equilibrar as contas públicas sem aumento de impostos, diz o presidente-­executivo da Associação Brasileira da Indústria Química (Abiquim), Fernando Figueiredo.

“Sinto que já houve melhora da confiança. Isso é visível nos empresários”, afirma o executivo, que se reuniu há poucos dias com Temer para endereçar questões prioritárias específicas da indústria química.

Nos últimos meses de comando, diz Figueiredo, a presidente afastada demonstrou falta de compromisso com reformas essenciais, como a trabalhista, a previdenciária e a tributária. E isso colaborou para a piora das expectativas. “O Temer tem demonstrado disposição de fazer isso e há consenso no país do que precisa ser feito.”

Para o dirigente da Abiquim, são três as prioridades do novo governo, caso o afastamento de Dilma seja definitivo. Primeiro, é preciso sanear as contas públicas, mas sem transferir a conta para a indústria por meio de impostos. O segundo ponto se refere às reformas que devem ser encaminhadas e o terceiro, ao planejamento de longo prazo do país. “O Brasil precisa saber qual caminho vai seguir para a infraestrutura, como vai explorar o petróleo do pré-­sal, entre outras questões que precisam ser respondidas”, afirmou.

Especificamente no setor químico, os temas matéria­-prima e energia são prioritários. No encontro com o presidente interino, o comando da Abiquim entregou uma agenda com oito tópicos, entre os quais governança, matérias-­primas, tributação, logística e comércio exterior. Conforme Figueiredo, Temer lembrou da condição interina de seu governo, mas encaminhou as pautas apresentadas aos ministérios correspondentes. Na esteira dessa reunião foi marcada uma audiência de Figueiredo no Ministério de Minas e Energia (MME) para hoje, na reta final do processo de impeachment.

Nesse período de governo interino, diz Figueiredo, houve alguma reação dos negócios da indústria química em julho, segundo indicação de executivos do setor. Os números até junho, porém, indicam estabilidade. “A perspectiva é que o segundo trimestre foi mais estável, enquanto o terceiro trimestre começa a mostrar melhora”, afirma. “O ponto é que a
indústria química só começa a melhorar se as outras reagirem”.

abiquiflashes (29/08/2016 – 496)

  • Mercosul-5: os ésteres e sais de lisina (NCM 2922.41.90) representam um importante item das exportações brasileiras de produtos manufaturados. Este aminoácido essencial é indispensável no crescimento e manutenção do corpo humano. US$ 2.619.112,00 destes produtos foram exportados para países do Mercosul-5 em 2016, até junho.
  • Itália: o principal destino das exportações brasileiras de ácidos biliares (NCM 2918.19.29) é o país romano. Em 2016, até junho, foram enviados àquele país US$ 11.013.899,00 destes ácidos colágogos e coleréticos.
  • Malásia: o ácido glutâmico é um aminoácido não essencial, contudo, é um importante suplemento nutricional. Este país asiático importou do Brasil em 2016, até junho, US$ 3.810.926,00 em ácido glutâmico (NCM 2922.42.10).

Merck vai além dos remédios para crescer

Christopher Alessi – Valor Econômico:

A maioria das farmacêuticas globais está enxugando suas operações diante da forte concorrência das drogas genéricas, mas a alemã Merck KGaA vem contrariando a tendência ao se expandir fora do setor de saúde.

A empresa de remédios mais antiga do mundo está ampliando duas unidades não relacionadas ao negócio principal. Uma fabrica produtos químicos especiais, como cristais líquidos usados em telas de aparelhos eletrônicos. A outra produz equipamentos de laboratório para a indústria de biotecnologia.

A empresa, informalmente chamada de “a Merck alemã”, em oposição à sua rival americana de mesmo nome, afirma que a estratégia ajuda a administrar os riscos do negócio farmacêutico e a manteve lucrativa nos últimos anos, apesar dos fracassos nos testes clínicos de novos remédios para pancreatite e câncer cerebral. A diversificação pode até permitir que a empresa acabe vendendo a divisão farmacêutica se as novas drogas em desenvolvimento não forem adiante, dizem investidores e analistas.

A proteção contra riscos é parte da cultura orgulhosamente sóbria da empresa. “Para uma companhia de quase 350 anos que tem controle familiar, a aversão ao risco tem que estar no DNA”, disse o diretor­-presidente Stefan Oschmann, em entrevista ao The Wall Street Journal. “Esta empresa já sobreviveu a guerras e catástrofes. Então, somos avessos ao risco quando se trata de grandes decisões.”

A família Merck, através de sua empresa E. Merck KG, possui 70% da farmacêutica e define a orientação geral da firma. Os 30% restantes são negociados na bolsa de Frankfurt. A cotação das ações já subiu 10,1% neste ano, para 95,14 euros (US$ 107,31).

A empresa é um “negócio diversificado, orientado para o longo prazo e resistente”, diz Peter Spengler, analista do banco alemão DZ Bank AG. Ela é líder de mercado em todas as áreas que atua “exceto remédios”, diz ele.

Oschmann, que tem 59 anos, assumiu a empresa em maio, depois de passar cinco anos no conselho executivo. Antes, ele havia trabalhado por 20 anos na rival homônima americana Merck Sharp & Dohme.

As duas Mercks remontam a 1668, quando Friedrich Jacob Merck comprou sua primeira farmácia em Darmstadt, pequena cidade perto de Frankfurt. Em 1890, seus descendentes haviam construído uma grande operação de remédios e produtos químicos. Ela se expandiu no mercado americano ao formar uma subsidiária nos Estados Unidos.

Durante a Primeira Guerra Mundial, o governo dos EUA assumiu o controle da Merck americana, forçando a cisão da empresa. A separação e o início da Segunda Guerra Mundial acabaram alijando a Merck alemã do mercado americano por décadas.

A empresa americana, a MSD, cresceu e se tornou bem maior que a alemã. A receita da Merck KGaA em 2015 foi de 12,84 bilhões de euros (US$ 14,31 bilhões), ante US$ 39,5 bilhões da MSD. Mas o grupo alemão conquistou o direito de usar o nome no mundo todo com exceção dos EUA e Canadá, onde a MSD ainda se chama Merck & Co.

Oschmann e seu antecessor tornaram os EUA uma prioridade para a Merck alemã, que opera no país com o nome EMD Group.

“Se você voltar dez anos no tempo, quase não tínhamos negócios nos EUA”, disse o executivo. Agora, a empresa tem cerca
de 10 mil empregados nos EUA, pouco menos que os cerca de 12 mil que tem na Alemanha, disse. Mais de 25% da receita do último ano veio da América do Norte.

A mais recente ­ e a maior ­ investida da Merck nos EUA aconteceu no ano passado, com a aquisição, por US$ 17 bilhões, da fabricante de equipamentos de laboratório Sigma­Aldrich Corp., agora parte da divisão de Ciência da Vida da Merck. A compra também foi o maior passo da empresa fora de suas raízes farmacêuticas. A Merck estima que o negócio gere sinergias de 260 milhões de euros até 2018.

Oschmann disse que a Merck pode se beneficiar da estratégia inteligente da Sigma­Aldrich na internet. “A Sigma Aldrich é uma empresa que está muito avançada em relação a nós quando se trata de comércio eletrônico e modelos de negócios digitais”, disse. Eles “fizeram um tremendo trabalho na cadeia de suprimento e distribuição.”

A integração da Sigma­Aldrich elevou as vendas da unidade Ciências da Vida em quase 80% no trimestre encerrado em junho, para 1,4 bilhão de euros, divulgou a empresa neste mês.

Em 2014, a Merck já havia pago 1,9 bilhão de euros pela britânica AZ Electronic Materials, fabricante de produtos químicos especiais com elevado grau de pureza para o setor de eletrônicos. A aquisição ampliou o portfólio de produtos químicos especiais da Merck, a maior fornecedora global de cristais líquidos para a produção de telas usadas em televisores, smartphones e tablets.

Mesmo com a firma se afastando dos remédios, Oschmann vê chances de ela colocar no mercado drogas possivelmente importantes para o combate ao câncer ­ inclusive uma desenvolvida em parceria com a Pfizer Inc.

No fim de 2014, a Merck se uniu à rival americana para desenvolver e comercializar um tratamento para câncer chamado anticorpo anti­PD­L1. Dados do estágio final de testes de algumas aplicações do tratamento devem se tornar disponíveis em 2017. (Concorrentes como MSD, Roche Holding AG, Bristol­Myers Squibb e Astra Zeneca PLC também vêm desenvolvendo ativamente drogas semelhantes.)

“Acreditamos que temos uma série significativa de drogas em desenvolvimento. Achamos que os mercados de capital ainda não entenderam isso totalmente”, disse Oschmann. “Mas os mercados têm uma atitude de ‘ver para crer’ e acho que vão reagir quando virem os dados.”

Markus Manns, gestor de portfólio da Union Investment, acionista da Merck que faz parte da Union Asset Management Holding AG, diz que antes a empresa era vista como tendo poucos novos produtos para lançamento no futuro, “mas isso mudou drasticamente no último ano”. Se, porém, os dados do anti-­PD­L1 não forem bons, vender a divisão farmacêutica “deve ser uma opção”, diz Manns.

Oschmann não quis especular sobre o futuro da divisão. Ele disse que a “Merck tem uma história de sempre avaliar muito ativamente nosso portfólio”.

abiquiflashes (25/08/2016 – 495)

  • Canadá: país membro do NAFTA o Canadá é um tradicional importador da virginiamicina produzida no Brasil. Este antibiótico é amplamente usado como antibacteriano e promotor do crescimento em veterinária. Em 2016, até junho, foram enviados ao Canadá US$ 14.269.900,00 deste produto.
  • EUA: US$ 2.139.138,00 em ácido salicílico (NCM 2918.21.10) foram enviados ao Tio Sam em 2016, até junho. O ácido salicílico, além de sua ação queratolítica é o principal intermediário na produção da aspirina.
  • União Europeia: este bloco econômico é o principal destino das exportações brasileiras de pilocarpina e seus sais. US$ 1.294.432,00 foram enviados à Europa em 2016, até junho, deste importante alcaloide produzido no nordeste brasileiro.

Ministério renova programa de desburocratização

Cristiano Zaia e Bruno Peres – Valor Econômico:

Em cerimônia no Palácio do Planalto que contou com a presença do presidente interino Michel Temer, o ministro da Agricultura, Blairo Maggi, lançou ontem o programa “Agro +”, que envolve ações voltadas à desburocratização na área de defesa agropecuária.

Foram anunciadas 69 medidas que respondem a reivindicações do setor privado no sentido de revisar ou criar normas de modo a reduzir a burocracia nos processos de fiscalização sanitária e fitossanitária. Algumas dessas medidas, como a simplificação do processo de registro de rótulos e a reformulação do Regulamento de Inspeção Industrial e Sanitária de Produtos de Origem Animal (Riispoa) já vinham sendo implementadas pela gestão da ex­ministra Kátia Abreu, que deixou o cargo em maio passado.

A implantação do pacote, porém, depende de decretos presidenciais, portarias ou instruções normativas que ainda precisam ser publicados no “Diário Oficial da União”. A previsão é que as normativas saiam até a próxima sexta-­feira. “O Brasil precisa se abrir para o mundo e se modernizar. Por isso estamos lançando esse plano, para desentupir o que não serve mais”, afirmou Blairo Maggi.

Segundo ele, o governo precisa confiar mais nas práticas de autoinspeção do setor privado, mas que as empresas continuarão sendo penalizadas se cometerem irregularidades. E que o ministério vai intensificar o remanejamento de fiscais de áreas de produção onde não há necessidade de inspeção permanente (lácteos e vegetais) para as mais necessitadas, como a área de carnes.

“Queremos estimular investimentos, não criar embaraços para o desenvolvimento. Mas a desburocratização que estamos promovendo não significa abrir mão de fiscalização”, reforçou o presidente Temer.

Entre as medidas anunciadas, o secretário-­executivo do ministério, Eumar Novacki, destacou o fim da reinspeção agropecuária em portos ou de carregamentos de produtos agropecuários provenientes de estabelecimentos industriais que já contam com selo do Serviço de Inspeção Federal (SIF).

Novacki também ressaltou outras medidas que deverão ser implementadas em breve: o início efetivo do sistema de rotulagem de produtos de origem animal, que vai dispensar a análise prévia por parte dos fiscais agropecuários do ministério; a redução, de 18 para 12 graus Celsius, da temperatura exigida pela fiscalização federal para congelamento de carne suína nos frigoríficos; participação do setor privado (agrônomos credenciados por empresas) na certificação fitossanitária para fins de exportação; publicação de decreto que regulamenta definitivamente o comércio de medicamentos veterinários genéricos; e a aceitação de laudos digitais de empresas fiscalizadas em espanhol e em inglês.

Segundo o secretário, as primeiras ações serão adotadas já nos próximos dois meses, enquanto as demais deverão ser implementadas em até quatro meses. “Essas medidas devem representar uma economia de R$ 1 bilhão em custos para o ministério e para o setor privado, que hoje representam ineficiência”.

Conforme Novacki, o ministério consultou 88 entidades que representam produtores e indústrias ­que, por sua vez, apresentaram 315 demandas relacionadas à necessidade de revisão de normas e procedimentos de fiscalização e inspeção adotados pelo ministério. As reivindicação motivaram a criação de um grupo de trabalho, no qual foram gestadas as medidas anunciadas. “Identificamos mais de 13 mil leis que regem o arcabouço legal do ministério e decidimos que vamos limpar o que não está de acordo om a nossa realidade atual”, disse.

Diário Oficial (agosto 2016)

Propagandista perde espaço para novos canais de vendas

Stella Fontes – Valor Econômico:

Importante instrumento de apresentação de novos produtos farmacêuticos à classe médica, a visitação a consultórios tende a dividir cada vez mais espaço com outros canais de contato na América Latina. Um estudo da McKinsey & Company, intitulado “Reinventando o modelo comercial latino­americano: Multicanais”, indica que não apenas os médicos estão abertos a novidades na forma como se relacionam com os laboratórios como a indústria pode incrementar vendas e reduzir custos ao adotar uma estratégia que inclua também plataformas remotas ou digitais.

Os resultados do uso de multicanais ­ vídeos, telefonemas, e-­mails, entre outros ­ são mensuráveis e, de acordo com a consultoria, levaram determinadas farmacêuticas a registrar aumento de 10% a 15% nas vendas e a reduzir gastos com marketing em torno de 10%.

Especialmente na América Latina, os custos com visitação médica têm sido pressionados pela inflação. E essa alta não é acompanhada por aumento de produtividade, afirma Tracy Francis, sócia da McKinsey responsável pelo estudo do setor.

Quando se compara o Brasil a outros países, o uso de multicanais aqui ainda é muito incipiente”, diz Tracy. “O contato físico segue como meio principal, mas as conversas sobre os contatos digitais estão entrando na pauta”, acrescenta. No mercado internacional, explica a executiva, o uso mais difundido de outros meios de acesso à classe médica pode ter sido estimulado pelo maior impacto da perda de patentes nos negócios dos laboratórios, o que obrigou esses empresas a olhar com atenção para a linha de custos.

Um dos obstáculos no país ao avanço do uso de canais digitais é a crença de que a classe médica prefere o contato pessoal. Mas uma pesquisa com 250 médicos de diferentes regiões do país mostra que esse mito está perto de cair. Do total de entrevistados pela McKinsey – e cada entrevista durou cerca de 30 minutos -, 83% estão abertos ao contato multicanal. “Desses, cerca de 20% querem também a presença do representante [do laboratório], mas a maior parte é entusiasta de outros meios de contato”, afirma Tracy.

Segundo a pesquisa, mais de 30% dos médicos preferem o uso de outros canais à visita tradicional e, contrariando a crença em vigor, uma menor parcela, de apenas 17% dos entrevistados, indicou que “quer manter as coisas como estão”. Profissionais mais jovens, aponta o estudo, estão mais abertos aos meios digitais e médicos com preço de consulta mais elevados preferem esse “novo” contato. A agenda sempre apertada, o valor da hora de trabalho e a objetividade do contato digital ajudam a explicar essa preferência, diz Tracy.

A despeito das experimentações que já estão em curso em outros países, não é possível arriscar um prazo para que os meios digitais alcancem participação significativa na relação entre médicos e representantes de laboratórios. A experiência em outras áreas, porém, mostra que a partir do momento em que novos canais passaram a ser explorados e trouxeram resultados, sua difusão foi acelerada.

No Brasil, a expectativa é que tanto multinacionais quanto farmacêuticas nacionais participem ativamente dessa nova onda. “A indústria brasileira tem sido muito inovadora em como chegar ao mercado”, avalia Tracy.

Pfizer fecha compra da Medivation por US$ 14 bilhões

Jonathan D. Rockoff – Valor Econômico:

A Pfizer acertou ontem a compra da companhia de biotecnologia Medivation por cerca de US$ 14 bilhões, medida que proporcionará à carteira da companhia farmacêutica americana uma das joias da coroa do multibilionário mercado de medicamentos de combate ao câncer.

O acordo encerra meses de lances pela Medivation, cuja sede fica em San Francisco e é uma das mais desejadas companhias independentes de biotecnologia, por ser dona de um dos medicamentos de combate ao câncer de próstata mais vendidos.

A Pfizer pagará US$ 81,50 por ação, um ágio de 21% sobre o preço de fechamento da ação da Medivation na sexta­feira. As ações da Medivation subiram quase 20% ontem, para US$ 80,41 no pregão da manhã em Nova York, enquanto o preço da ação da Pfizer caiu 5 centavos de dólar, para US$ 34,86.

O medicamento da Medivation, chamado Xtandi, já gera cerca de US$ 2 bilhões em vendas anuais e segundo analistas tem potencial para dobrar esse número.

A Pfizer disse que o negócio acrescentará 5 centavos de dólar aos lucros do primeiro ano cheio após sua conclusão, que ele não deverá afetar suas diretrizes financeiras de 2016. A Pfizer disse que pretende financiar a transação com recursos próprios.

Se a aquisição não for concluída, a Medivation poderá pagar à Pfizer uma taxa de anulação de US$ 510 milhões, segundo consta em documentos encaminhados às autoridades reguladoras. A notícia de que o negócio era iminente foi veiculada no domingo.

A Pfizer vem tentando ampliar sua linha de tratamentos oncológicos e o Xtandi dará à companhia de Nova York uma vantagem na área de tratamentos contra o câncer de próstata, complementando o Ibrance, seu medicamento de combate ao câncer de seio, que caminha para ser um grande sucesso de vendas.

Os medicamentos que a Medivation está desenvolvendo também poderão complementar os esforços da Pfizer no desenvolvimento de combinações de agentes que causam o câncer com as chamadas imunoterapias, que usam o sistema imunológico no combate ao câncer.

O negócio deverá ser concluído no terceiro ou quarto trimestre de 2016 e está sujeito às aprovações antitruste

A aquisição vai reforçar os esforços de Ian Read, o ex-ecutivo­chefe da Pfizer, para reforçar o que ele se refere como lado
inovador dos negócios da companhia. A medida “acelera nossa estratégia de acordo com nossas prioridades”, disse ele ontem em uma conferência telefônica com analistas. O negócio deverá ser concluído no terceiro ou quarto trimestre de 2016 e está sujeito às aprovações antitruste.

No fim do ano passado, a Pfizer comprou a Allergan por US$ 150 bilhões, mas as duas companhias se separaram em abril, depois que a administração Obama impôs novas regras à combinação proposta.

Read já disse que a Pfizer vai decidir até o fim do ano se divide ou não a companhia em duas, com uma dedicando­se à venda de medicamentos com vendas em acelerado crescimento, como o Ibrance, e a outra dedicando­se à venda de medicamentos que perderam a proteção de patentes ­ uma medida que vem sendo discutida frequentemente nos últimos anos.

O diretor financeiro Frank D’Amelio disse ontem que o negócio com a Medivation “não vai impactar a timing de qualquer decisão” de desmembrar a companhia.

Analistas vêm afirmando que a Pfizer precisa fazer mais negócios para agregar medicamentos protegidos por patente, se esse lado da companhia quiser desenvolver a massa crítica de receita de que precisará para operar por conta própria. O combate ao câncer é um dos maiores mercados da indústria farmacêutica, com vendas mundiais que chegam a US$ 80 bilhões por ano e vêm crescendo mais de 10% ao ano, segundo a EvaluatePharma.

Apesar dos altos preços, com frequência superando os US$ 100 mil ao ano por paciente, as companhias não estão enfrentando os desafios apresentados pelos direitos de reembolso que estão limitando as vendas de novos medicamentos para outras doenças.

A Medivation é uma das poucas companhias independentes de biotecnologia com um tratamento contra o câncer já aprovado e que está vendendo bem. O ex-ecutivo­chefe, David Hung, diz que decidiu fundar a companhia em 2003 após ver uma paciente de 28 anos com câncer no seio morrer durante sua pós­graduação em oncologia.

O Xtandi está saindo bem contra um tratamento de combate ao câncer da Johnson & Johnson (J&J) chamado Zytiga. O Xtandi, também oferecido pela Astellas Pharma, poderá ser um dos medicamentos contra câncer mais vendidos até 2020, segundo a EvaluatePharma. Mas a J&J está desenvolvendo nova droga contra o câncer de próstata que pode representar uma ameaça ao Xtandi, avaliam analistas.

A Medivation passou a ser assediada após a farmacêutica Sanofi ter feito uma proposta não solicitada de US$ 52,50 por ação, em dinheiro, que a companhia de biotecnologia rejeitou em abril, alegando que a oferta não dava o devido valor à companhia. As ações da Medivation chegaram a ser negociadas a US$ 26,41 em fevereiro.

Após a proposta da Sanofi, uma guerra de lances se seguiu. Com o acordo com a Pfizer, a Medivation está conseguindo mais que o dobro dos US$ 6 bilhões que foi avaliada este ano. Ontem, a Sanofi disse que via benefícios num potencial negócio com a Medivation, mas observou que “somos, antes de mais nada, um comprador disciplinado e continuamos comprometidos com os melhores interesses dos acionistas da Sanofi”.

Biofármacos causam rombo de R$ 2 bi nas contas

João Sorima Neto – O Globo:

Os chamados biomedicamentos, remédios feitos a partir de células modificadas, provocam atualmente um rombo de quase R$ 2 bilhões na balança comercial do setor farmacêutico do país, mas só agora o Brasil começa a se mexer para produzir esses produtos. Segundo especialistas, o Brasil está atrasado 30 anos num mercado que já movimenta US$ 160 bilhões por ano no mundo, cresce 12% ao ano e é a vanguarda da indústria famacêutica – As primeiras plantas para produzir estes medicamentos começam a surgir por aqui, mas o Brasil está atualmente onde Estados Unidos e Europa estavam na década de 80 em relação aos biofármacos. É um atraso de mais de 30 anos – diz Leda Castilho, professora de engenharia química do Instituto Alberto Luiz Coimbra de Pós-Graduação e Pesquisa de Engenharia da Universidade Federal do Rio (Coppe-UFRJ).

Um estudo do Grupo FarmaBrasil, que reúne as maiores farmacêuticas do país, mostra que em 2015 o déficit total da balança comercial de medicamentos foi de US$ 5,2 bilhões, com os biofármacos representando US$ 2 bilhões.

– O governo sabe que a produção local precisa começar logo para não perder o bonde – diz uma fonte do setor que vem discutindo o assunto no Ministério da Saúde.

Sem centro de pesquisa

Produzidos a partir de sofisticados processos de modificação de células vivas e considerados mais precisos no tratamento de doenças como câncer, artrite e psoríase, o país é obrigado a importar praticamente todos os biofármacos que utiliza e distribui através do Sistema Único de Saúde (SUS). Isso faz aumentar o rombo da balança comercial do setor farmacêutico do país.

– O Brasil está aprendendo a tecnologia dos biofármacos, construindo fábricas e formando gente. Mas aqui os padrões de exigência da Anvisa são muito elevados, e o tempo para os estudos clínicos é maior – diz Reginaldo Arcuri, presidente do Grupo FarmaBrasil, integrado por grandes laboratórios, que têm como objetivo fomentar o avanço tecnológico desse segmento.

Segundo especialistas, o país não investiu em pesquisa para criar e desenvolver medicamentos biofármacos no país. Isso explica o estágio de atraso em que o país está em relação a países como Coreia do Sul, Índia, Cuba, Argentina e México, na produção dos chamados remédios do futuro.

– Não temos um centro específico de pesquisa e desenvolvimento de biofármacos. Atualmente, existem as chamadas Parcerias de Desenvolvimento Produtivo (PDPs), desenvolvidas pelo governo, em que participam laboratórios públicos e as empresas, com objetivo de produzir os medicamentos e fornecer ao SUS. Mas, nas PDPs, copiamos tecnologia já existente. O país não se organizou para a a inovação – diz Antonio Britto, presidente da Interfarma, que reúne os laboratórios de pesquisa.

Remédios já concentram metade dos gastos, diz Coppe

Quase metade (51%) dos gastos do Ministério da Saúde é feito com biofármacos, embora eles representem apenas 4% das unidades adquiridas, o que mostra o alto valor desses medicamentos. Os dados foram compilados pela professora Leda Castilho, do Instituto Alberto Luiz Coimbra de Pós-Graduação e Pesquisa de Engenharia da Universidade Federal (Coppe-UFRJ).

Por exemplo, para oferecer tratamento a 700 pessoas em todo o país que sofrem da doença de Gaucher, que é a deficiência no processamento de gordura, o governo tem que gastar US$ 200 milhões por ano com a importação desses biofármacos.

– Uma dose de um biofármaco chega a custar R$ 8 mil e um tratamento pode sair por R$ 200 mil a R$ 300 mil – observa Leda Castilho, lembrando que de 10 mil produtos em pesquisa e desenvolvimento no mundo, nos últimos anos, 40% são biofármacos.

O Ministério da Saúde não respondeu ao pedido de entrevista para comentar os gastos. Todas as fábricas de biofármacos em construção contam com recursos do BNDES, através de programa destinado ao setor criado em 2004. Já há operações contratadas que somam R$ 3,5 bilhões em 118 projetos.

A Bionovis, joint venture entre Biolab e Eurofarma, está construindo fábrica em São Paulo, assim como a Orygen (de Aché, EMS, Hypermarcas e União Química). O laboratório Cristália, também de São Paulo, e com duas fábricas, já produz um princípio ativo desenvolvido no país, que cura queimaduras e feridas.