Governo já tem até oito alvos para acordos bilaterais

Daniel Rittner – Valor Econômico:

À caça de acordos bilaterais para dar mais dinamismo ao comércio exterior e inserir o país nas cadeias globais de produção, o chanceler José Serra dispõe de um punhado de alvos imediatos.

São países com quem o governo brasileiro já vinha conversando nos últimos meses sobre a possibilidade de lançar ou intensificar negociações, mas cujas perspectivas ganham nova dimensão com as diretrizes recém-­anunciadas pelo novo ministro.

Fora da América do Sul, região onde produtos brasileiros já gozam de acesso privilegiado, pelo menos seis a oito países ou blocos econômicos estão no radar das equipes diretamente responsáveis no governo pelas negociações de novos acordos bilaterais.

Os resultados mais rápidos podem vir das discussões com o México. Elas não precisam ser tocadas em conjunto pelo Mercosul porque foram iniciadas antes da norma que impede seus sócios de negociar isoladamente. O acordo atual concede descontos mútuos nas tarifas de importação para quase 800 produtos industriais e agrícolas do Brasil. Há consenso para expandir essa lista para cerca de 4,5 mil itens. Busca-­se uma ampliação ainda maior, para até 6 mil produtos, com redução gradual das tarifas em um período máximo de dez anos. O novo tratado, que envolverá maior abertura em serviços e em compras públicas, tem boas chances de ser assinado no segundo semestre.

O Mercosul, no entanto, não é visto como empecilho por funcionários do governo brasileiro acostumados às negociações comerciais. A Argentina tem adotado um discurso de maior liberalização após a posse do presidente Mauricio Macri. Uruguai e Paraguai, dependentes de mercados externos e com menos setores para proteger, têm uma postura historicamente mais agressiva.

O único complicador apontado pelos brasileiros, em conversas reservadas, é a Venezuela. E a razão passa longe de divergências ideológicas. O país, que exercerá a presidência rotativa do bloco na segunda metade do ano, tem menos estrutura e experiência administrativa para concentrar as atividades negociadoras ­ isso exige organizar reuniões, compilar textos e liderar discussões entre os sócios do Mercosul.

Dois blocos estão na mira para acordos de livre comércio. Um é o EFTA, formado por quatro países ­Suíça, Noruega, Islândia e Liechtenstein ­ que não aderiram à União Europeia. Eles têm uma reunião agendada para a próxima semana, em Montevidéu, a fim de explorar a possibilidade de lançamento de negociações formais. A avaliação brasileira é que existe um caminho livre para avançar. Por ter apenas quatro membros, esse bloco não precisa enfrentar o mesmo exaustivo trâmite de consultas internas que Bruxelas precisa fazer aos 28 integrantes da UE ao discutir ofertas de liberalização para o Mercosul.

No caso da SACU, união aduaneira liderada pela África do Sul, os sul­americanos já têm um acordo de preferências tarifárias desde 2008. As alíquotas menores só entraram em vigência há dois meses porque o Congresso Nacional, no Brasil, aprovou um texto remetido pelo governo que tinha erros de tradução do inglês para o português e precisou ratificá­ lo novamente para corrigir as falhas constatadas. Agora, os dois lados querem discutir um tratado que não beneficie apenas setores específicos e cubra uma parte “substancial” do comércio.

Outra frente considerada promissora é com o Canadá. Há interesse manifestado pelos canadenses e a indústria brasileira não indicou, em consulta pública realizada pelo Ministério do Desenvolvimento (MDIC) no ano passado, grande quantidade de setores com necessidade de proteção ­ conhecidas pelas áreas técnicas como “sensibilidades”.

O mapeamento de interesses “ofensivos” e “defensivos” feito pelo MDIC ­ rebatizado como Ministério da Indústria, Comércio e Serviços ­ com a iniciativa privada abrangia possibilidades de negociações com outros três países: Índia, Tunísia e Líbano.

“Todos oferecem perspectivas promissoras”, afirma o ex-­ministro Armando Monteiro. Ele não vê contraposição, mas complementaridade entre os acordos bilaterais e as discussões no âmbito da Organização Mundial do Comércio (OMC), que considera o foro adequado para buscar redução dos subsídios à agricultura.

Para o embaixador Régis Arslanian, que chefiou a equipe de negociadores do Itamaraty na década passada e hoje é sócio­ sênior da GO Associados, Serra poderá colher os primeiros resultados em pouco tempo. A ampliação da cobertura de acordos existentes, como SACU e Índia, tende a ser mais rápida. “É uma tarefa que o novo chanceler poderia levar adiante, com resultados, em um período de seis a oito meses.”

Para tratados de livre comércio, que eliminam completamente as tarifas de pelo menos 85% a 90% dos produtos, o desafio é maior. Arslanian ressalta que os acordos discutidos atualmente não abrangem só bens e entram na discussão de temas como serviços, compras governamentais, normas técnicas e regras ambientais ou trabalhistas.

Por isso, sem deixar de buscar a abertura para seus produtos agropecuários, o embaixador recomenda que o Brasil não fique refém da agenda agrícola para sentar-­se à mesa de negociações com outros parceiros. “Precisamos demonstrar espírito construtivo e que somos guiados pela flexibilidade”, frisa Arslanian.

Monteiro concorda com a visão de que as negociações não passam mais somente pela questão de bens, mas afirma que sua gestão à frente do ministério já havia se pautado por esse princípio. Tanto que foram fechados acordos com os Estados Unidos, que não dependiam do Mercosul, para harmonizar regras e normas técnicas para setores da indústria. Acordos de serviços, de investimentos e compras governamentais foram firmados com países da América do Sul e da África.

abiquiflashes (30/05/2016 – 473)

  • virginiamicina: usado amplamente em veterinária como antibacteriano e promotor do crescimento, este antibiótico é um item importante na pauta brasileira de exportação de produtos manufaturados. Em 2016, até abril, o Brasil exportou US$ 11,7 milhões deste antibiótico.
  • heparina: embora o País ainda não esteja usufruindo de todo o potencial de exportação deste poderoso anticoagulante, nos primeiros quatro meses de 2016, o Brasil enviou a várias partes do mundo US$ 7,6 milhões deste importante farmoquimíco de origem biológica.
  • lisina: os aminoácidos são a expressão mais simples das proteínas. Eles são importantes no crescimento e na manutenção do corpo humano. Em 2016, até abril, o Brasil exportou US$ 23,0 milhões em lisina, seus ésteres e seus sais.

Libbs antecipa conclusão da fábrica e inicia produção piloto de biossimilar

Stella Fontes – Valor Econômico:

Uma das pioneiras no debate sobre a produção de medicamentos biológicos no país, a Libbs vai inaugurar no segundo semestre a maior fábrica de biofármacos de uso único na América Latina. Instalado no complexo de Embu das Artes (SP), o projeto de R$ 500 milhões produziu em 18 de março o primeiro lote piloto de rituximabe, um anticorpo monoclonal usado no tratamento de linfoma não Hodgkin, artrite reumatoide e outras doenças autoimunes.

Neste momento, a farmacêutica aguarda inspeção da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) para iniciar a produção com vistas ao pedido de registro de seu primeiro biossimilar, que deve ser protocolado no primeiro semestre de 2017. Com isso, a operação comercial da fábrica, cuja produção está estimada em 400 quilos por ano, pode ser iniciada em 2018.

“Inicialmente, a expectativa era de instalação da fábrica em 36 meses, mas conseguimos executar o projeto com metade do tempo”, disse ao Valor o gerente-­executivo de Operações da Libbs, Carlos Eduardo Reis. Em princípio, haverá apenas uma linha de anticorpos monoclonais em funcionamento, mas a unidade já foi preparada para receber outras duas linhas no futuro.

Batizado Biotec, o projeto da Libbs recebeu R$ 250 milhões em financiamento do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), aplicados na construção da fábrica e em equipamentos, e outros R$ 250 milhões da Financiadora de Estudos e Projetos (Finep), destinados a estudos clínicos.

De acordo com a diretora de relações institucionais Márcia Martini Bueno, o projeto no segmento de biossimilares nasceu da intenção da farmacêutica de ampliar a linha de produtos oncológicos. Ao mesmo tempo em que a farmacêutica traçava sua estratégia, o governo federal passou a fomentar parcerias entre laboratórios públicos e privados, com vistas à transferência de tecnologia (por meio das chamadas PDPs), e a construção de unidades voltadas à produção em larga escala de medicamentos biológicos de segunda geração.

A ideia do governo é que esses remédios sejam fornecidos ao Sistema Único de Saúde (SUS), em substituição às importações. Hoje, os produtos biológicos de segunda geração, categoria na qual estão incluídos os anticorpos monoclonais, representam apenas 1% das compras realizadas pelo SUS, mas consomem 40% do orçamento do Ministério da Saúde. Com a produção nacional de biossimilares, que custam até 30% menos que o produto biológico inovador, há expectativa de importante economia aos cofres públicos.

Em 2012, com apoio do governo, foram constituídas no país duas superfarmacêuticas, a partir da combinação de forças de grandes laboratórios nacionais, para a produção desses biossimilares. A Libbs fazia parte de uma delas, a Orygen, mas deixou a joint venture no ano seguinte para se dedicar a um projeto independente, com tecnologia transferida pela europeia mAbxience.

No total, o portfólio da Libbs contempla cinco biossimilares, que são alvo de PDPs e indicados para o tratamento de câncer e doenças autoimunes: rituximabe, bevacizumabe, etanercepte, trastuzumabe e adalimumabe.

Em março, a farmacêutica ingressou em um consórcio internacional, coordenado pela Universidade de Utrech, na Holanda, para desenvolver mais um anticorpo monoclonal, o palivizumabe, que é indicado para prevenção da infecção pelo vírus sincicial respiratório (VSR) em recém-­nascidos.

Segundo o diretor da unidade de negócios B2B do laboratório, Marco Dacal, num primeiro momento, a Libbs é investidora desse projeto. Na fase de pesquisas clínicas, terá participação efetiva com a inclusão de pacientes do Brasil e de outros países da América Latina. De acordo com a CBR Pharma, empresa de dados e análises voltadas à indústria de cuidados com a saúde, em 2020, o mercado global de biossimilares deve alcançar US$ 55 bilhões.

 

Destaques

Valor Econômico:

Índice Comerc cai

O Índice Comerc Energia ­ indicador de consumo dos clientes livres da comercializadora ­ registrou queda de 1,22% em abril, ante igual período do ano passado. Na comparação com março deste ano, o índice registrou recuo, de 0,61%. A medição engloba um grupo de empresas que respondem por cerca de 15% do consumo total no mercado livre, de acordo com informações da Comerc. Segundo a comercializadora, a tendência de retração mostrada pelo indicador reflete o cenário de fraco desempenho da economia. Em abril, apenas três dos doze setores contemplados pelo índice Comerc apresentaram crescimento próximo ou maior que 1%, em relação a março. O destaque foi o setor de manufaturados. Entre as quedas, o movimento foi liderado pelo setor de materiais de construção.

Lançamentos da Eli Lilly

A farmacêutica americana Eli Lilly comunicou ontem, em evento para investidores, que tem o potencial de lançar 20 novos medicamentos e tratamentos nos próximos dez anos. Os lançamentos se concentram nas cinco áreas terapêuticas mais ativas e com habilidades para desenvolver: diabetes, oncologia, imunologia, neurodegeneração e dores crônicas. “Estamos contentes em dividir com os investidores a amplitude e profundidade do portfólio da Lilly, que mostra nosso progresso em áreas terapêuticas importantes. O portfólio inclui desde lançamentos recentes até um forte acompanhamento de ativos em estágio avançado ou em revisão regulatória”, afirmou John C. Leichleiter, presidente da farmacêutica.

Mais um Legacy

A Embraer confirmou ontem que a venda de mais um Legacy 650 pela sua divisão de aviação executiva será feita para a operadora alemã de fretamento de aeronaves Air Hamburg. A entrega do novo jato está prevista para o terceiro trimestre. A notícia de que um cliente alemão iria comprar o jato foi antecipada pelo Valor em reportagem sobre a criação de um centro de treinamento para pilotos na Holanda. As informações foram divulgadas na 16ª Convenção Europeia de Aviação Executiva, em Genebra, na Suíça. No comunicado, a Embraer destaca que a aquisição aumentará para nove o número de jatos executivos da companhia na frota da Air Hamburg.

Diário Oficial (maio 2016)

  • Instituto de Tecnologia em Fármacos – Farmanguinhos/FIOCRUZ

    Chamada Pública para seleção de matéria-prima medicamentosas – IFA – Insumo Farmacêutico Ativo: AMOXICILINA, PARA POSTERIOR PROCEDIMENTO DE PADRONIZAÇÃO.

Serra busca apoio de Macri para flexibilizar Mercosul

Marli Olmos – Valor Econômico:

A visita do ministro de Relações Exteriores, José Serra, a Argentina, ontem, deixou claro o interesse do governo interino de Michel Temer de buscar no principal parceiro da região apoio à ideia de regras mais flexíveis para o Mercosul. Os dois lados mostram pressa na reaproximação. Ficou acertado, nas conversas em Buenos Aires que daqui a um mês a chanceler argentina, Susana Malcorra, deve visitar o Brasil enquanto Temer também faz planos de viajar à Argentina. Apesar do clima cordial nos encontros com o governo argentino, Serra teve, no entanto, que enfrentar grupos que protestaram contra o processo de impeachment da presidente afastada, Dilma Rousseff.

Em entrevista ontem após a agenda de encontros com o governo argentino, incluindo o presidente Mauricio Macri, Serra voltou a falar sobre os planos para uma flexibilização no Mercosul, da necessidade de fortalecer o bloco e resolver “problemas que ainda existem”. “Vamos criar mecanismos para investir na flexibilização”, destacou Serra.

A palavra flexibilização preocupou jornalistas argentinos que buscavam saber se o governo brasileiro pensa em incrementar acordos bilaterais com países fora do bloco, deixando a Argentina de fora. Serra declarou que esse tipo de questão não se resolvia “numa reunião de um dia” e, de forma diplomática, reiterou sobre o foco da sua ação de curto prazo, voltada à parceria com a Argentina, um dos principais pontos no seu discurso de posse.

No discurso de posse em Brasília Serra citou a Argentina como o país com o qual o Brasil “passou a compartilhar referências semelhantes para a reorganização da política e da economia”. Na visita a Buenos Aires ele apontou os problemas no Mercosul como “obstáculos decorrentes da situação macroeconômica”. Segundo Serra, os dois países vão intensificar ações contra delitos nas fronteiras e também trabalhar para aproveitar a facilidade do transporte fluvial que une os países. Os dois governos também coincidem em relação aos problemas na Venezuela e vão trabalhar em posições comuns.

No clima cordial entre os dois governos não houve espaço sequer para os argentinos reclamarem do rombo que a crise brasileira tem provocado no comércio entre os dois países. No primeiro quadrimestre, a Argentina amargou déficit de US$ 1,4 bilhão e em cinco anos o comércio entre os dois países encolheu mais de 40%. Serra disse que almoçou ao lado do ministro da Fazenda, Alfonso Prat­Gay e não entraram “nesse detalhe”. “Nós temos as listinhas das dificuldades em outros países; eles também têm as que o Brasil cria”, disse. O ministro não forneceu detalhes sobre seu encontro com Macri, tratado pela Embaixada do Brasil como “visita de cortesia”.

Se com o governo argentino o clima foi de parceria, nas ruas de Buenos Aires Serra enfrentou manifestações contrárias ao processo de impeachment de Dilma. O ministro teve de usar acessos alternativos para entrar e sair da chancelaria da Argentina para escapar dos manifestantes. Ele ingressou no Palácio San Martin por uma entrada de serviços, usada por funcionários. A saída foi por outra porta lateral.

Os seguranças do ministro fizeram de tudo para despistar os manifestantes, que se espalharam em torno do palácio. À saída do encontro entre Serra e Malcorra os manifestantes se confundiram com automóveis que passavam sob forte esquema de segurança. Pensaram que o ministro brasileiro estava dentro de algum desses veículos nos quais colaram nos vidros cartazes com a foto de Serra e a frase: “Procura­-se chanceler impostor do Brasil, golpista”. Outros deitaram na rua, para bloquear o caminho dos veículos. Mas Serra acabou saindo a pé, por outra porta lateral, onde havia menos manifestantes.

Formado por membros da corrente kirchnerista “La Cámpora” e também por brasileiros que moram na Argentina, o grupo se dispersou. Começou com cerca de 500 e terminou com menos de 100. Mas foi o suficiente para atrapalhar a agenda inicial do ministro. Estava previsto, por exemplo, que ao sair do Palácio San Martin, Serra iria até o Ministério da Fazenda. Mas, com o provável intuito de evitar constrangimentos no caminho, a visita ao Ministério da Fazenda, que fica ao lado da Casa Rosada, foi cancelada. O ministro Prat­Gay decidiu, então, ele mesmo ir encontrar­-se com Serra na chancelaria.

Mais tarde, já na sede da embaixada brasileira, Serra disse que os protestos, que continuavam, desta vez na frente da embaixada, tinham para ele “significado nulo”. Já em relação à decisão do senador Romero Jucá de se licenciar do cargo de ministro do Planejamento, Serra disse: “ele mostrou­-se um excelente ministro; espero que possa resolver o problema e volte”.

Ao ser questionado se ele estaria sendo cogitado para substituir Romero Jucá no Ministério do Planejamento, Serra disse que não estava sabendo de nada. Mas destacou: “não vou dizer ‘não aceitaria’ porque pressupõem­-se que isso seria cogitado”. Em seguida, o ministro disse, no entanto, que tinha assumido o cargo de ministro de Relações Exteriores com a intenção de implantar o que anunciou no discurso de posse. “Tenho muita coisa para fazer”, disse.

Bayer herdaria lucro da Monsanto e também polêmica dos transgênicos

Jacob Bunge e Christopher Alessi – Valor Econômico:

A investida da Bayer AG para comprar a americana Monsanto Co. vai colocar a farmacêutica alemã no centro do lucrativo, mas socialmente polêmico, setor de produtos agrícolas geneticamente modificados ao mesmo tempo em que ela enxuga sua área de cuidados com a saúde.

Sediada em St. Louis, no Estado do Missouri, a Monsanto é líder no seu setor, desenvolvendo e licenciando genes para outros fabricantes de sementes, num mercado que movimenta bilhões de dólares por ano e que transformou a agricultura em alguns países. Mas a empresa está às voltas com desafios comerciais e regulatórios.

Numa iniciativa que poderia rearranjar o setor de pesticidas e sementes, a Bayer, cuja sede fica na cidade alemã de Leverkusen, fez uma oferta de aquisição pela Monsanto, anunciaram as duas empresas na quarta­feira passada. O conselho de administração da Monsanto está analisando a proposta, mas não é certo que o negócio será fechado. Alguns analistas veem a Monsanto, que tem um valor de mercado de US$ 44 bilhões, como um alvo muito pesado para as finanças da Bayer.

A Bayer e a Monsanto não quiseram comentar.

Os investidores da Bayer podem ser um obstáculo ao negócio, já que muitos deles investiram na empresa principalmente por causa da área farmacêutica e conhecem menos sobre o negócio agrícola e de produtos transgênicos, diz Markus Manns, gestor de fundos na firma alemã Union Investment, uma acionista da Bayer. “Não tenho certeza se gostamos dessa saída do [setor] farmacêutico”, diz Manns.

Comprar a Monsanto, a maior fornecedora de sementes do mundo em vendas, tornaria os produtos agrícolas responsáveis por quase metade da receita total da empresa combinada, de acordo com analistas.

Segundo eles, as lavouras geneticamente modificadas estão entre as tecnologias adotadas mais rapidamente na história. Introduzidas há 20 anos, essas plantas agora cobrem mais de 90% da área cultivada com milho, soja e algodão nos Estados Unidos e estão amplamente disseminadas nos celeiros agrícolas da América do Sul, como o cerrado do Mato Grosso.

No Brasil, elas estavam presentes em 93% das plantações de soja, 82% de milho e 66% de algodão em 2014, segundo o Serviço Internacional para Aquisição de Aplicações em Agrobiotecnologia (ISAAA).

A FDA, agência que regula alimentos e remédios nos EUA, a Organização Mundial da Saúde e a Comissão Europeia concluíram que os produtos agrícolas geneticamente modificados são tão seguros para a alimentação quanto os convencionais. Um relatório recente da Academia Nacional de Ciências, Engenharia e Medicina dos EUA afirma que esses alimentos são seguros e inofensivos ao meio ambiente.

Mas o crescimento das vendas globais de produtos agrícolas biotecnológicos vem perdendo força nos últimos anos. A área plantada encolheu no ano passado pela primeira vez desde que a Monsanto vendeu sementes de seu primeiro organismo geneticamente modificado, ou OMG, em 1996.

Grupos ambientalistas têm combatido o uso de lavouras geneticamente modificadas, argumentando que elas são nocivas ao meio ambiente. As sementes de OMG são submetidas a análises demoradas por parte dos reguladores e questões de propriedade intelectual em países em desenvolvimento são um problema para os fabricantes.

Essas empresas estão acessando mercados que ainda não abraçaram essas tecnologias ou adotaram métodos para proteger a propriedade intelectual, diz Brett Wong, analista da gestora Piper Jaffray. “Estamos agora vendo uma reação.”

A aquisição da Monsanto traria uma série de novos desafios para a Bayer.

Na Argentina, a Monsanto cancelou na semana passada seus planos de começar a vender suas novas sementes de soja modificadas para a próxima safra, depois que o governo argentino questionou o sistema de testes que a empresa implantou para garantir que os agricultores paguem pelo OMG.

Na Índia, a Monsanto está brigando na Justiça com o Ministério da Agricultura para decidir o quanto empresas como ela podem cobrar por genes de plantas que repelem insetos, cujo uso é bastante generalizado nas lavouras de algodão do país.

E, nos EUA, o maior mercado da gigante do agronegócio, a empresa está conversando com grandes negociadoras de grãos, como Archer Daniels Midland Co. e Bunge Ltd., após elas afirmarem que não vão mais comprar grãos de soja cultivados com as novas sementes da Monsanto.

Essas sementes, que a Monsanto começou a vender neste ano, ainda não foram aprovadas para importação pela União Europeia, um importante comprador da soja americana. Empresas de grãos temem perder vendas se produtos não aprovados acabarem nos carregamentos destinados à Europa e forem recusados pelas autoridades europeias.

“Esse é um problema real e vai continuar sendo um problema para essa tecnologia porque os países vão continuar” revendo as questões de segurança em ritmos diferentes, diz Greg Jaffe, diretor de biotecnologia do Centro para a Ciência no Interesse Público, uma organização sem fins lucrativos que é sediada em Washington e se dedica a políticas de ciência e alimentos.

De fato, os produtos agrícolas geneticamente modificados continuam gerando polêmicas entre os consumidores.

A Europa, por exemplo ­ onde a Bayer já tentou, sem sucesso, introduzir OMGs ­ limita tanto a variedade quanto a quantidade de milho transgênico. Nos EUA, críticos lançaram iniciativas estaduais para obrigar a identificação nos rótulos dos alimentos que contêm OMGs.

A reputação da Monsanto também foi afetada pelo seu papel pioneiro e relutância inicial em debater com os críticos. No sábado, manifestantes se reuniram em cidades do mundo todo, inclusive em oito da Alemanha, para uma passeata anual chamada “Marcha Contra a Monsanto”.

A Bayer não deve tentar reintroduzir os OMGs na Europa, mesmo que consiga comprar a Monsanto, dizem especialistas.

Peter Spengler, analista do banco alemão DZ Bank, diz que, no geral, o público deve se opor à aquisição da Monsanto pela Bayer, já que a firma americana, segundo ele, tem uma “imagem muito negativa” na Alemanha. Mas ele acredita que a imagem da Bayer seria abalada só no curto prazo. “As pessoas costumam dar atenção por um período curto.”

abiquiflashes (23/05/2016 – 472)

  • Ácidos biliares: as exportações de ácidos biliares (NCM 2918.19.21) têm aumentado consistentemente nos últimos anos, a tal ponto que em 2016, até abril, já foram enviados ao exterior US$ 17.055.823,00 ao preço de US$ 30,57 por Kg.
  • celulose microcristalina: o Brasil é um importante produtor deste excipiente que é amplamente usado pela indústria farmacêutica na produção de comprimidos. Nos quatro primeiros meses de 2016 foram exportados US$ 6.723.189,00 deste adjuvante farmacotécnico.
  • sulfato de condroitina: este farmoquímico é extraído de cartilagens de frangos, suínos e bovinos. Hoje em dia é muito usado no tratamento das artroses. Em 2016, até abril, foram enviados ao exterior US$ 2.916.818,00 ao preço de US$ 106,71/kg.

Potencial fusão entre Bayer e Monsanto reduziria concorrência no agronegócio

Jacob Bunge e Jesse Newman – Valor Econômico:

Uma fusão entre a alemã Bayer AG e a americana Monsanto Co. colocaria uma fatia significativa do mercado de sementes e pesticidas nas mãos de apenas três empresas, elevando os temores de agricultores e legisladores de que os preços dos produtos subam e que haja menos opções de escolha no mercado.

A Bayer confirmou ontem que entrou em contato com a Monsanto para negociar uma possível fusão. As conversas haviam sido divulgadas pela Monsanto na noite de quarta­-feira. Embora os detalhes do acordo ainda não estejam claros, qualquer oferta de aquisição total seria avaliada em mais de US$ 42 bilhões, o valor de mercado atual da Monsanto.

Qualquer nova consolidação da indústria deve levar autoridades antitruste do Departamento de Justiça dos Estados Unidos e da Comissão Europeia a alterar suas análises dos negócios já anunciados do setor de agricultura, diz Andre Barlow, sócio da Doyle, Barlow & Mazard PLLC, firma que assessora empresas sobre fusões, mas não está envolvida em nenhum dos negócios agrícolas.

Em pouco mais de seis meses, a Dow Chemical Co. e a DuPont Co. fecharam uma fusão ­ num acordo que depois dividiu a nova empresa em três novas companhias concentradas em agricultura, materiais e produtos especiais. E a estatal chinesa China National Chemical Corp. fechou um acordo para comprar a gigante suíça de sementes e pesticidas Syngenta AG. Ambos os acordos ainda estão sendo avaliados pelas autoridades.

Os acordos “entre a Dow e a DuPont e entre a ChemChina e a Syngenta levantam suas próprias questões, mas o Departamento de Justiça terá de analisar a forma como as três ofertas podem impactar o cenário competitivo daqui para a frente no que se refere a sementes e na proteção de lavouras”, diz Barlow.

Se concluídos, esses acordos e a potencial fusão entre a alemã Bayer e a Monsanto, colocariam 83% das vendas de sementes de milho dos EUA e 70% do mercado global de pesticidas sob o controle de apenas três empresas, gerando preocupação no setor agrícola num momento em que os produtores enfrentam forte pressão, após três anos de queda nos preços das commodities.

“É praticamente certo que haverá bem menos concorrência no mercado e, como consequência, os agricultores vão acabar pagando mais caro”, diz Roger Johnson, presidente da União Nacional de Agricultores, grupo lobista de Washington que representa agricultores e pecuaristas.

A Monsanto informou que seu conselho de administração vai considerar a oferta não solicitada da Bayer, mas afirmou que não havia garantia de que um negócio será fechado. A Monsanto explorou a possibilidade de consolidação antes, incluindo uma tentativa frustrada de comprar a Syngenta por US$ 46 bilhões no ano passado. Não está claro se a Monsanto está interessada em ser comprada ou se as duas empresas chegarão a um acordo sobre os termos de uma fusão.

Empresas de sementes como a Monsanto e a DuPont entraram em guerras de preços para defender suas participações de mercado, à medida que um setor agrícola deprimido e o declínio de preços do milho e da soja têm forçado agricultores a reduzir os gastos com sementes, pesticidas, fertilizantes e equipamentos. A Monsanto, a maior empresa de sementes do mundo, também licencia genes que permitem que culturas biotecnológicas resistam a pragas, herbicidas e à seca.

Nos EUA, os políticos que representam Estados do cinturão agrícola poderiam levantar receios sobre segurança alimentar quando confrontados com a possibilidade de que cerca de 40% das sementes de milho e soja usadas no país sejam vendidos por empresas de fora, caso a Monsanto passe a ser propriedade de uma companhia alemã.

Ao mesmo tempo, a oposição a organismos modificados geneticamente é forte em grande parte da Europa. E apenas uma cultura biotecnológica tem aprovação para ser cultivada no bloco.

Embora a oposição não se traduza em fundamentos legais para impedir a compra da Monsanto pela Bayer, dizem analistas, ela pode desencadear uma nova onda de oposição dos críticos às culturas geneticamente modificadas, que alegam que os pesticidas voltados para sementes biotecnológicas causam danos ao meio ambiente e que o plantio generalizado de monoculturas diminui a biodiversidade.

“A Monsanto representa muito do que há de errado com o agronegócio”, diz Anton Hofreiter, que lidera a coalisão de oposição do Partido Verde no Parlamento alemão. “Ao mesmo tempo em que as pessoas ficam cada vez mais céticas sobre a indústria agrícola, a Bayer vai e investe nessa direção hostil ao consumidor e ao meio ambiente.”

Os detalhes da proposta não foram divulgados, mas uma possível união da Monsanto, maior fornecedora de sementes agrícolas do mundo, com o portfólio muito mais amplo de pesticidas da empresa alemã criaria uma firma com 28% das vendas de pesticidas no mundo, 36% do mercado de sementes de milho nos EUA e 28% do de soja.

O acordo entre a Dow e a DuPont fechado em 2015 criaria um rival com cerca de 17% do mercado mundial de pesticidas, 41% das vendas de sementes de milho nos EUA e 38% das de soja, segundo estimativas do banco americano Morgan Stanley.

A venda da Syngenta para a ChemChina daria à estatal chinesa 26% do mercado mundial de químicos agrícolas, além dos negócios de sementes de milho, soja e hortaliças da Syngenta.

Os analistas reagiram com opiniões divergentes sobre o mérito financeiro da potencial fusão entre Bayer e Monsanto. Analistas da gestora de recursos Sanford C. Bernstein & Co. disseram que uma aquisição total da Monsanto “não faz sentido financeiramente”, já que a Bayer provavelmente terá de emitir US$ 30,3 milhões em ações e captar US$ 16,8 bilhões em dinheiro, além de vender seu negócio de saúde animal para ajudar a financiar a acordo. Mas absorver a Monsanto e depois desmembrar os negócios de agricultura combinados “poderia criar valor”, disseram.

Os investidores da Bayer parecem questionar o possível acordo. A cotação da Bayer caiu 8,2% ontem,
para 88,51 euros. As ações da Monsanto fecharam com alta de 3,5%, para US$ 100,55.

Tim Malterer, produtor americano de milho e soja, diz que compreende as vantagens das fusões para
as empresas que querem cortar custos e serem mais competitivas. “Minha única preocupação é se vão pensar em nós também, consumidores finais, não só nos acionistas.” (Colaborou Sarah Sloat)

Sucesso dos genéricos muda ranking do setor

Stella Fontes – Valor Econômico:

Oito das dez maiores farmacêuticas do mercado brasileiro produzem genéricos e quatro entre as cinco maiores nesse ranking são também líderes nas vendas desse medicamento no país, segundo dados da consultoria IMS Health.

Desde 1999, quando foi regulamentado, a aposta em genéricos, cujo consumo cresceu quase cinco vezes em 17 anos, deu o tom à evolução do setor no Brasil. “A chegada dos genéricos trouxe uma revolução ao mercado farmacêutico”, diz Telma Salles, presidente-­executiva da Pró-­Genéricos, entidade que representa essa indústria.

Maior laboratório segundo o ranking da IMS, o brasileiro Aché tem hoje 15% de seu faturamento proveniente da venda de genéricos, que entraram em seu portfólio com a aquisição da Biosintética em 2005. A EMS, vice­-líder, é hoje a maior fabricante de genéricos do país. Na quarta colocação do ranking geral, atrás da Sanofi ­ que é dona da Medley, segunda maior fabricante de genéricos ­, a Eurofarma é a terceira maior no segmento de genéricos. Já a Neo Química, da Hypermarcas, é a quinta maior em operação no Brasil e quarta em genéricos.

De 1999 para cá, segundo levantamento da Pró-Genéricos, o volume de vendas desses medicamentos no país cresceu 343%, enquanto o mercado farmacêutico em geral, sem considerar os genéricos, avançou 242%. “Mais gente passou a cuidar da saúde a partir do acesso ampliado a medicamentos”, diz Telma. Em boa medida, o maior acesso deveu-­se ao preço dos genéricos. “É uma economia real para a população, independentemente do momento econômico.”

Levantamento da Pró-Genéricos mostra que os consumidores economizaram R$ 72 bilhões nos últimos 17 anos com a compra de genéricos, considerando-­se o desconto mínimo de 35% frente ao preço do medicamento de referência. Se considerado nesse cálculo o desconto médio de 60% oferecido nos últimos cinco anos, essa economia supera R$ 120 bilhões.

O caminho dos genéricos, porém, não foi fácil. Inicialmente, diz a executiva, havia pouca informação sobre esse medicamento, o que gerou desconfiança no mercado. Hoje, o portfólio é composto principalmente por medicamentos de uso contínuo, o que demonstra a eficácia em relação aos produtos de referência.

Levantamento recente mostra que os genéricos ampliaram o acesso, por exemplo, a produtos para tratamento do câncer. Conforme a Pró-Genéricos, no conjunto de produtos para essa finalidade em que há versões genéricas, houve alta de 80% no volume comercializado. E os genéricos respondem por quase metade das vendas.

No Brasil, os genéricos representam cerca de 30% das vendas totais, em unidades, de remédios, enquanto em mercados desenvolvidos, como Europa e Estados Unidos, essa fatia chega a 80%.