Bancos incentivam exportação de pequena empresa

Aline Oyamada – Valor Econômico:

Com o dólar valorizado e a demanda doméstica fraca, grandes bancos estão aumentando os esforços para incentivar pequenas e médias empresas a venderem seus produtos no exterior. A exportação desse segmento ainda é pequena, mas executivos têm notado o início de um crescimento no volume de clientes buscando estruturar vendas em outros países ou reforçar sua internacionalização.

As instituições financeiras têm se focado em facilitar a tomada de crédito no exterior, fornecer os serviços financeiros necessários para a exportação e dar informação e orientação sobre os mercados em que seus clientes querem entrar. Em alguns casos, há até mesmo ações para tentar encontrar entre os clientes estrangeiros possíveis compradores para os produtos brasileiros.

O objetivo dos bancos é começar a explorar um segmento de empresas que ainda exportam pouco e que, se internacionalizadas, irão demandar novos produtos financeiros. Para as empresas, embora ainda haja obstáculos­ como os altos tributos e a insegurança jurídica ­, dar início ou reforçar as vendas no exterior são alternativas para tentar driblar a demanda fraca no país e aproveitar um momento em que os preços ganharam competitividade por conta da desvalorização do real.

Marco Carvalho, presidente e fundador da Toys Talk, uma empresa que produz brinquedos interativos, intensificou suas vendas no exterior este ano para compensar a demanda mais fraca do Brasil. Ele aumentou as exportações e hoje cerca de 85% de seu faturamento vêm de vendas internacionais. Ano passado, esse percentual era de apenas 20%. “Se não fosse a internacionalização a gente estava, sinceramente, falido. Teria sido muito difícil se recuperar dessa crise”, disse Carvalho. Em 2014, sua empresa faturou US$ 4 milhões e a projeção para 2016 é de US$ 15 milhões.

O Santander, que auxiliou a Toys Talk a montar sua operação no exterior, tenta ajudar seus clientes a fazer negócios lá fora por meio de uma plataforma online batizada de “portal Trade”. O canal tem informações de 25 mil empresas em 186 países, e por meio dele os clientes do banco em diversas localizações podem se comunicar. “O cliente consegue colocar uma informação dele e falar com um cliente da China”, afirma Ede Viani, diretor de empresas e instituições do Santander. O banco também tem promovido diversos eventos para conectar empresas.

Marlene Milan, diretora executiva do Bradesco, afirma que os pequenos empresários precisam de muita orientação para estruturar vendas no exterior. “Esse é o tipo de cliente que precisa que você ensine, pegue na mão e mostre exatamente o caminho”, afirma. “Percebendo esse movimento, temos buscado dar foco específico para ensinar, orientar e focar na parte de prestação de serviços.” Para isso, o Bradesco mapeou as pequenas empresas que já fizeram algum negócio no exterior e colocou um representante do banco naquela região. “Tenho 26 pontos com o foco de explorar oportunidades e orientar o cliente em suas necessidades, tanto de serviço, cobrança de carta de crédito, fechamento de câmbio”, diz Marlene.

O resultado dessas ações, segundo a executiva, ainda é um “crescimento tímido” no número de pequenas e médias empresas exportando, já que há barreiras a serem vencidas, como a insegurança jurídica, os altos tributos e a burocracia de muitos processos. De acordo com Marlene, o número de companhias exportadoras com faturamento abaixo de US$ 100 mil cresceu cerca de 6,6% entre julho de 2014 e o mesmo mês de 2015, com base em dados da Secretaria de Comércio Exterior (Secex). Já a quantidade de empresas exportadoras de maior porte, com faturamento acima de US$ 100 milhões, caiu 4,4% no período.

O Banco do Brasil fez este ano 52 seminários com pequenos empresários para apresentar seus produtos financeiros, como linhas de crédito à exportação e seguros, e capacitar os representantes com cursos sobre o tema. O banco também busca incentivar a internacionalização por meio de iniciativas em parceria com entidades que apoiam o comércio exterior, como o Sebrae e a Apex­-Brasil.

Vicente Vieira, sócio fundador da Manifesto Games, empresa de desenvolvimento de jogos online, afirma que está conseguindo expandir suas vendas no Brasil mas, ao mesmo tempo, tem buscado cada vez mais negócios no exterior para aproveitar o câmbio favorável. Hoje, cerca de 60% de sua receita vêm do exterior e este ano a empresa deve faturar R$ 2,5 milhões, mais que o dobro do resultado do ano passado. “Com a alta do dólar, conseguimos oferecer nossos serviços a um preço mais competitivo”, diz.

O dólar alto também criou oportunidades na mão contrária. O Itaú chama atenção para o número de empresas estrangeiras que estão se instalando no país. “Vemos empresas entrando no Brasil hoje com visão de longo prazo, não apenas para aproveitar a oportunidade de preço”, diz Eneas Ferreira, responsável pelo atendimento de multinacionais no Itaú. “O que a gente busca fazer é ajudar os clientes a entender o que está acontecendo no Brasil”, diz.

Sanofi traz 1ª vacina contra dengue

Stella Fontes – Valor Econômico:

A vacina contra a dengue desenvolvida pelo laboratório francês Sanofi, a primeira a receber o aval da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) para comercialização no Brasil, deve estar disponível para venda no país até o fim do primeiro trimestre, disse ao Valor o vice-­presidente da Dengue Company da Sanofi Pasteur, Guillaume Leroy.

Em todo o mundo, a farmacêutica francesa foi a primeira a obter registro para uso da vacina contra a dengue. Além do Brasil, México e Filipinas aprovaram recentemente o produto, de um total de 20 países tropicais ou subtropicais que já receberam pedidos de registro apresentados pelo laboratório.

Para chegar à rede privada de saúde, a Dengvaxia, que protege contra os quatro tipos do vírus, depende agora da definição do preço pela Câmara de Regulação do Mercado de Medicamentos (Cmed). Ao mesmo tempo, o laboratório está em conversas preliminares com o Ministério da Saúde para possível fornecimento do produto ao SUS e determinação dos grupos que terão prioridade em uma eventual campanha de vacinação.

“O registro sanitário concedido pela Anvisa é um passo-­chave, resultado de mais de 20 anos de pesquisa”, afirmou o executivo, referindo-­se ao aval da agência publicado nesta segunda-­feira no Diário Oficial da União. “Hoje [ontem] é um dia histórico para a Sanofi e para o país”, acrescentou. O Brasil participou dos estudos globais de eficácia de fase 3 da vacina.

Conforme Leroy, já há produto preparado disponível para entrega ao Brasil, que neste ano registrou mais de 1,4 milhão de casos da doença. Com a informação do registro sanitário em mãos, a farmacêutica poderá iniciar a confecção da embalagem da vacina e enviar os primeiros lotes ao país a partir de janeiro.

A Sanofi investiu mais de € 300 milhões na instalação de uma fábrica dedicada à produção da vacina, em Neuville­sur­Saône, perto de Lyon, na França, com capacidade para 100 milhões de doses por ano. Diante da escala da unidade, explicou Leroy, a farmacêutica pode desenhar um modelo econômico que permite preços mais acessíveis para programas abrangentes de vacinação.

Um trabalho com modelagem matemática desenvolvido pela farmacêutica indica que, se a vacina for aplicada em até 20% da população brasileira em cinco anos, pode haver queda de 50% no número de casos de dengue registrados no país. Internacionalmente, a Organização Mundial da Saúde (OMS) estabeleceu como meta a redução pela metade da mortalidade por causa da dengue até 2020. Por ano, segundo o órgão, 400 milhões de novos casos são registrados e a doença é endêmica em 128 países.

A vacina da Sanofi deve ser aplicada em três doses com intervalos de seis meses, em indivíduos com 9 a 45 anos, e diminui em 81% os casos de hospitalização. Além disso, tem 65,6% de eficácia média contra os quatro tipos de vírus. Conforme Leroy, a primeira dose já garante proteção contra a doença.

No início do mês, a Anvisa já havia liberado a fase três da pesquisa com a vacina contra a dengue desenvolvida pelo Instituto Butantã a partir de uma parceria com os Institutos Nacionais de Saúde dos Estados Unidos (NIH, na sigla em inglês), iniciada em 2010.

O Butantan deu continuidade aos estudos iniciados pelo centro americano e chegou a uma vacina semelhante à de febre amarela, produzida a partir do vírus vivo atenuado e distribuída em pó, o que amplia seu prazo de validade. A última etapa dos estudos deve envolver 17 mil voluntários de três faixas etárias (2 a 6 anos, 7 a 17 anos e 18 a 59 anos), mas ainda não há prazo para que a vacina esteja disponível.

Em nota, a Anvisa informou que a decisão de fornecimento da vacina no SUS cabe ao Ministério da Saúde e “levará em conta fatores como a relação custo x efetividade e impacto orçamentário, entre outros”. “Vale destacar que a vacina não protege contra os vírus Chikungunya e Zika”, acrescentou.

abiquiflashes (28/12/2015 – 439)

  • Venezuela: a Venezuela continua sendo um importante destino das exportações brasileiras de medicamentos. Nos dez primeiros meses de 2015 foram exportados, a este país bolivariano, US$ 86,0 milhões em medicamentos (NCMs 3003 e 3004).
  • Argentina (1): este país austral da América do Sul é o nosso principal parceiro nas exportações brasileiras de medicamentos. Em 2015, até outubro, a Argentina importou do Brasil US$ 87,0 milhões em medicamentos de vários tipos.
  • Argentina (2): US$ 2.875.143,00 foi o montante de heparina enviado à Argentina em 2015, até outubro. Foram 1.120 kg deste farmoquímico, o que indica um preço médio de US$ 2.567,09/kg. A heparina é um destacado anticoagulante e tem um bom mercado neste país do sul.

Diário Oficial (dezembro 2015)

Rota da diplomacia comercial brasileira começa a mudar

Valor Econômico:

Mudanças políticas e econômicas estão levando a uma inflexão na diplomacia comercial brasileira e podem se configurar uma tendência promissora. A crise financeira e o subsequente fim do ciclo das commodities desfizeram fluxos comerciais consolidados em uma década e exigem agora revisão de estratégias. No âmbito regional, a ascensão de um liberal à Presidência da Argentina abriu mais perspectivas de negócios para o Brasil e o Mercosul do que ocorreria no caso da permanência de aliados ideológicos dos governos petistas, como Cristina Kirchner. O Brasil ainda está inclinado a apoiar o que supõe ser governos de esquerda, como o da Venezuela.

O arrefecimento do comércio internacional depois da crise, quando passou a dar passos menores que os do crescimento global, compõe o pano de fundo da revisão em curso do papel da Organização Mundial do Comércio. A proliferação de acordos bilaterais, primeiro, e de mega­-acordos transregionais depois, tirou do radar a Rodada Doha. Uma das saídas da OMC para fugir do risco de tornar­-se insignificante emergiu da reunião ministerial de Nairóbi, onde sobressaíram dois tipos de ações que prometem revigorar a organização. Com a decisão de eliminar subsídios diretos às exportações agrícolas de países, abriu-­se a via da discussão de temas importantes ­ mas focados e não de agenda ampla, como Doha ­que podem ser resolvidos em reuniões bianuais de cúpula. O Acordo de Tecnologia de Informação reforçou a via dos entendimentos plurilaterais, abertos ou fechados, que tendem a incluir setores ainda não abrangidos pelos acordos convencionais.

O Brasil apostou a maior parte de suas fichas em Doha e já está se adaptando à nova realidade. Passou a buscar com mais empenho acordos bilaterais e multilaterais e tende a participar ativamente das oportunidades que restam após a hibernação, talvez para sempre, de Doha.

Um pequeno sinal de deslocamento diplomático foi dado em Nairóbi, onde o Brasil aliou-­se à União Europeia contra a posição da Índia, que busca defender seu mercado agrícola das importações. Não há mais alinhamento automático com os países em desenvolvimento, como no G­77, e sim com grupos ou países que estejam afinados com interesses brasileiros, pontuais ou gerais. Além disso, a evolução dos Brics, deixou mais clara ainda a existência de interesses divergentes entre seus membros, em especial da China, já a segunda potência econômica mundial, que segue rumo próprio, e da Rússia, potência decadente que tenta resgatar nacos de seu antigo império.

A política de privilegiar o eixo Sul-­Sul coincidiu com o boom das commodities e com a perda de competitividade dos manufaturados brasileiros. A ofensiva comercial por novos parceiros não foi bem sucedida, como mostra o déficit comercial com a África. Apesar da retórica, os mercados compradores relevantes são quase todos de países desenvolvidos, enquanto que no eixo Sul há formidáveis concorrentes, como China, Coreia do Sul e ex­-tigres asiáticos.

Seis países concentram 50% das importações e das exportações brasileiras. Com as commodities em baixa não resta outro caminho que o de correr de novo atrás dos principais consumidores de manufaturados, EUA, Argentina, Holanda, Alemanha e Japão, pela ordem ­ juntos, são 48,6% do total de exportações até novembro.

A nova realidade já recolocou a urgência do acordo entre União Europeia e Mercosul. Sob Macri, o governo argentino deu nova dinâmica ao bloco e à relação bilateral com o Brasil, ao começar a destravar a parafernália montada pelo kirchnerismo para frear as importações vindas do outro lado da fronteira. A Argentina, segunda economia do Cone Sul e a Venezuela, mais novo membro do bloco, ajudaram a paralisar o Mercosul com políticas que seguiam suas ideologias anacrônicas. Agora, o bloco pode progredir.

Mais pragmatismo não significa que o Brasil tenha abandonado paternalismos ideológicos nocivos. A cúpula do Mercosul assistiu ao embate entre Argentina com Venezuela, governada pelo chavismo, cujo autoritarismo parece não ter volta. A presidente Dilma saudou a vitória de Macri e a derrota de Maduro como exemplos de democracia. Maduro não pensa assim e já busca maneiras de tornar irrelevante o parlamento dominado pela oposição.

Governo vai lançar nova política industrial, diz Armando Monteiro

Gabriela Valente – O Globo:

Em mais uma cartada para tentar reativar o crescimento econômico, o Ministério do Desenvolvimento lançará uma nova política industrial. Num cenário completamente diferente do passado – quando os estímulos eram dados por renúncia fiscal – o governo, desta vez, não elegerá setores para serem beneficiados. E pretende incentivar a produtividade e eficiência de empresas médias e pequenas, já que considera que temerário fazer mudanças mais profundas na atividade econômica antes da estabilização da economia brasileira.

Por isso, segundo o ministro Armando Monteiro, o Desenvolvimento prepara uma política industrial com foco em ganhos de eficiência – com mudança de processos (como a produção é feita) e melhoria da mão de obra – e acesso ao crédito para modernizar o parque industrial. No entanto, Monteiro não detalhou como isso será feito.

— Como ainda temos um processo de ajuste econômico em curso, seria um processo temerário relançar uma política industrial como antes. Vamos tratar a política industrial nas empresas. Há um espaço dentro das empresas para redefinição de processos — frisou.

De acordo com ele, há metodologia disponível para atender 3 mil empresas. As primeiras a receberem consultoria serão de setores afetados pela crise como vestuário, metal-mecânico, moveleiro, alimentos e bebidas. A intenção é fazer com que essas empresas comecem a exportar ou intensifiquem as vendas para o exterior.

Brasil não descarta entrar em mega-acordos

Assis Moreira – Valor Econômico:

O Brasil apresenta-se pragmático para 2016 no comércio global. O país sinaliza que pode aceitar a negociação de novos temas na Organização Mundial do C.Omércio (OMC), ao contrário de outros emergentes, como a índia. Tampouco exclui entrar nas negociações plurilaterais, que aceleram a liberalização em setores específicos da economia e nas quais participa quem quiser.

Em entrevista ao Valor, o embaixador brasileiro junto à OMC, Marcos Galvão, detalha as prioridades do Brasil e enfatiza: “Não trabalhamos com base em preconceitos e estereótipos, mas sim nos interesses reais do pais. Ponto”.

O representante brasileiro já dá também um alerta sobre a demanda da índia para obter direito de elevar tarifa em caso de súbito aumento na importação agricola. Para o Itamaraty, isso só vai ter chance de ser negociado na OMC se for precedido de uma liberalização no mercado indiano. O país insistirá. igualmente no combate aos bilionários subsídios na produção agrícola global.

Leia, a seguir, os principais trechos da entrevista:

Valor: Com a Rodada Doha praticamente morta, quais as prioridades do Brasil na OMC em 2016?

Marcos Galvão: A conferência ministerial de Nairóbi confinnou que se pode realmente negociar na OMC. As prioridades do Brasil continuarão a ser o disciplinamento dos subsídios à produção agricola, que é o chamado apoio doméstico, e o acesso a mercado aos bens agricolas. Vinculado a isso, temos o tema das barreiras não tarifárias, inclusive as sanitárias e fitossanitárias, também de muita importância para o Brasil, já que esse tipo de obstáculo é cada vez mais usado e obstrui o acesso de exportações brasileiras. Outro tema que o Brasil suscitou na OMC, e há um parágrafo na declaração ministerial de Nairóbi, é sobre os acordos regionais de comércio. Acordos regionais e megarregionais estão se multiplicando e cabe à OMC examiná-los, verificar sua compahm.lidade com as regras do sistema multilateral e seu impacto sobre elas. Existe uma certa resistência a isso, por parte de alguns poucos, mas é preciso fazer esse trabalho. E garantir que esses acordos complementem, sem pretender substituir, o marco normativo multilateral, de modo compatível com ele.

Valor: Não seria mais produtivo o Brasil, na verdade, buscar participar desses acordos?

Galvão: O Brasil de modo algum exclui participar de acordos regionais ou bilaterais, jâ o vem fazendo e quer fazer mais. Nesse caso a questão é reforçar o papel do comitê que já existe exatamente com a finalidade de examinar a compatibilidade desses acordos com as normas multilaterais, bem como seu impacto sistêmico. A iniciativa do Brasil não significa oposição a esses acordos. Interessa aos nossos exportadores que não tenham de consumir recursos para decifrar e cumprir um emaranhado de acordos incompatíveis entre si. Há um interesse prático, econômico, nessa compatibilidade. Não é uma questão de princípio jurídico.

Valor: Qual a possibilidade concreta agora de serem retomadas as negociações sobre redução dos subsídios domésticos na agricultura, já que o que os Estados Unidos fizeram foi aumentar essa ajuda a seus produtores?

Galvão: Sabemos que essa discussão está cercada de grande sensibilidade política interna mundo afora, mas nem mesmo nos países subsidiadores existe consenso para que recursos públicos sejam gastos em ajuda a setores que representam um segmento muito pequeno de suas economias. Existe em todos os países uma noção de limites fiscais. E o Brasil continuará a fazer essa demanda, como prioridade maior. Enquanto o corte de tarifas pode ser negociado em diferentes formatos, apenas na OMC se pode fazer o disciplinamento dos subsídios à agricultura.

Valor: Qual a possibilidade de a Índia conseguir na OMC salvaguarda para elevar tarifas contra importações agrícolas?

Galvão: Criar uma salvaguarda significa autorizar que um país membro possa dar um passo atrás, para defender-se de surtos de importação derivados de cortes tarifários significativos. O Brasil considera, portanto, que essa possibilidade só pode ser discutida quando estivermos diante de um cenário que estabeleça vários passos adiante em termos de abertura comercial. E esses passos adiante têm que vir antes de uma conversa eventual sobre a regulamentação do passo atrás. Na ausência de liberalização expressiva, parece inconcebível que possamos tratar do tema de novas salvaguardas contra importações agrícolas. O Brasil tem defendido esse entendimento com o necessário vigor.

Valor: O Brasil aceitará a negociação de novos temas na OMCe participará, a partir de agora, de negociações plurilaterais, que aceleram a liberalização e nas quais participa quem quer?

Galvão: Sobre os novos temas, o Brasil deseja em primeiro lugar que a sua possível inclusão na agenda não retire a prioridade dos temas ainda pendentes, como o apoio doméstico agrícola e o acesso a mercado. O Brasil está aberto a considerar a incorporação de novos temas na agenda. Como tudo na OMC, porém, isto terá de acontecer por consenso. Quanto a negociações plurilaterais, não se trata de um tabu, de um bicho-papão para o Brasil. No futuro, poderemos refletir objetivamente, com naturalidade, caso a caso, diante de possibilidades concretas que se apresentem.

Valor: Com relação ao debate sobre a Rodada Doha, o Brasil está confortável para continuar negociando em novo formato?

Galvão: Nessa matéria, a posição do Brasil é objetiva e não ideológica ou formalista. O Brasil continuará ativamente engajado em negociações na OMC, desde que elas se façam de modo equilibrado, justo e que possam atender aos nossos interesses.

Valor: Alguns observadores pareciam surpresos, em Nairóbi, com a aliança do Brasil com a União Europeia e com os atritos com a Índia. Até que ponto a ambição brasileira de liderar o bloco dos países em desenvolvimento terá sido afetada?

Galvão: O Brasil não tem ambições de liderança nesse sentido. Continuamos, no entanto, a atribuir grande importância a que o sistema multilateral de comércio responda aos anseios da maioria dos membros da OMC, que são países em desenvolvimento. Nessa frente, a nossa postura não mudou. Quanto a alianças de geometria variãvel para alcançar objetivos concretos, não é uma novidade na diplomacia e o Brasil buscará os apoios e as parcerias que melhor convenham à realização dos propósitos. Não trabalhamos com base em preconceitos e estereótipos, mas sim nos interesses reais do pais. Ponto.

Valor: Na nova fase da OMC, os grandes emergentes, como Brasil, China e Índia, vão ser pressionados a fazer maiores concessões nas.futuras negociações, como querem os países industrializados?

Galvão: Eu só posso responder pelo Brasil. No nosso caso, embora não aceitemos o conceito da chamada diferenciação formal entre países em desenvolvimento, sempre dissemos que estamos dispostos a dar contribuição segundo as nossas possibilidades. Temos noção das responsabilidades que nos cabem, do que podemos fazer, e agiremos de acordo com essa consciência.

Valor: Os atritos entre Brasil e Índia nos últimos tempos, na agricultura, podem ter algum efeito em outros foros, como no Brics?

Galvão: De modo algum! O Brasil e a Índia tem perfis muito diferentes em termos de sua participação no comércio agrícola mundial e é natural que essas realidades distintas se expressem em posições também diferentes. Estou certo de que a Índia compreende a postura do Brasil, assim como o Brasil compreende a da Índia.

Macri concorda que acordo com europeus é prioridade

Marll Olmos – Valor Econômico:

O início das negociações para um acordo comercial entre Mercosul e União Europeia s6 depende agora dos europeus, segundo os chefes de Estado e ministros que se reuniram domingo e ontem na cúpula do Mercosul, em Assunção. A maioria apontou um acordo com os europeus como questão prioritária. Mas também ficou decidido que o bloco tentará uma aproximação com a Aliança Pacífico.

“Já temos nossa proposta pronta e esperamos que a União Europeia marque uma data para o intercâmbio de ofertas “, destacou o presidente do Paraguai, Horacio Cartes. Segundo ele, a conclusão da proposta do grupo sul­americano para negociar com os europeus foi uma das conquistas mais significativas nos seis meses em que o Paraguai assumiu a presidência pro tempore do bloco.

Os representantes dos países latino-americanos sabem das resistências que encontrarão pela frente. Os europeus querem a liberação de pelo menos 9096 dos produtos trocados entre os dois blocos enquanto que o Mercosul mantém firme sua proposta em 8796.

Segundo os ministros da área econômica que participaram do encontro em Assunção, apesar de aparentemente pequena, a diferença envolve, sobretudo, produtos agrícolas que representam grande parte das exportações dos sul-americanos. O ministro brasileiro do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior, Armando Monteiro, prevê que os próximos seis meses serão de “muito trabalho” para agilizar a aproximação com os europeus.

A recente mudança de governo na Argentina favorece não apenas no sentido de reaproximar o bloco dos europeus como também de resgatar sua vocação econômica. ‘Trata-se de um novo momento para o Mercosul, que nos últimos anos ficou mais marcado pelas afinidades ideológicas”, disse o argentino Carlos Álvarez, secretário geral da Associação Latino-Americana de Integração (Aladi).

Para o novo presidente da Argentina, Mauricio Macri, um acordo com a União Europeia tem que ser agora a prioridade do bloco. A presidente Dilma Rousseff concordou. “A decisão está agora do outro lado do Atlântico”, disse Dilma. Macri afirmou ver o Mercosul como um projeto de longo prazo que s6 funcionará bem a partir da unidade entre os países.

“Não queremos o Mercosul em duas velocidades; chegou o momento de todos apertarmos o acelerador”, disse. Segundo o presidente argentino, sob a ótica da urgência na aproximação com a União Europeia, “a Argentina está comprometida e disposta a fazer os esforços necessários para dinamizar as negociações”.

Os chefes de Estado lamentam o estado de letargia que tomou conta do bloco. Cartes disse que 25 anos depois de criado, o Mercosul estâ ainda distante de ser uma âárea de livre comércio. “Foram os próprios governos que não colocaram empenho suficiente”, destacou o presidente do Paraguai.

Parte do problema se deve às dificuldades no comércio entre os próprios paises do bloco. Segundo o vice-ministro de Relações Econômicas e Integração do Paraguai, Rigoberto Gauto, os técnicos identificaram um total de 80 barreiras que travavam o livre comércio na região.

O presidente do Uruguai, Tabaré Vâzquez, também reconheceu que o Mercosul estâ “um tanto fatigado”. ”Vamos trabalhar em torno dos aspectos comerciais e econômicos, que são a razão de ser do Mercosul”, destacou ao assumir a presidência pro tempore do bloco.

Na corrida contra o relógio, os chefes de Estado decidiram, em Assunção, trabalhar agora para uma aproximação com a Aliança Pacífico. Segundo o chanceler do Paraguai, Eladio Loizada, a ideia inicial era marcar ainda em dezembro a reunião com representantes do grupo que reúne os países do Pacífico. Mas problemas de agenda adiaram o encontro. Caberá agora ao Uruguai organizar a reunião.

Venezuela é o pomo da discórdia em reunião do Mercosul

Marll Olmos – Valor Econômico:

O encontro começou num clima muito cordial. Mas bastou o presidente da Argentina, Mauricio Macri, propor a libertação de políticos de oposição, presos na Venezuela, para a chanceler daquele pais, Delcy Rodriguez, revidar duramente, o que marcou a reunião de chefes de Estado do Mercosul pelo confronto ideológico que divide o bloco.

Parecia até que o assunto não suscitaria o debate, já que o clima pacífico da eleição parlamentar na Venezuela, no dia 6, havia levado Macri a desistir de invocar a cláusula democrática para suspender o pais do Mercosul.

Mas Delcy foi ao encontro preparada para dar ao argentino de centro-direita recentemente eleito presidente da República uma resposta à altura do que entende essa política de 45 anos, filha do fundador de um partido marxista, morto pelo serviço de inteligência venezuelano na década de 70. O presidente Nicolás Maduro não compareceu à cúpula do Mercosul. Fez-se representar pela chanceler.

Na sua vez de discursar na sede da Confederação Sul-Americana de Futebol (Conmebol), Macri pediu “pela pronta libertação dos presos políticos na Venezuela”. Segundo disse, não pode haver no bloco “lugar para perseguição politica por razões ideológicas nem a privação ilegitima da liberdade por pensar diferente”.

A primeira a contestar o argentino foi a presidente Dilma Rousseff. A brasileira usou sutileza e um pouco de diplomacia. Em seu discurso, apontou “construção e consolidação da democracia depois de anos de autoritarismo” na região. Em seguida, citou o próprio exemplo da eleição de Macri e a parlamentar na Venezuela. “Dois exemplos recentes que mostram a nossa maturidade”, destacou Dilma.

Ao desejar a Macri “êxito para conduzir os destinos da Argentina”, completou: “Também felicito o presidente Maduro e o povo venezuelano pelo espírito democrático que marcou as eleições do pais”. Encerrou, depois o discurso de maneira leve ao convidar os presentes a acompanhar a Olimpíada no Rio, em 2016 – “sei que todos gostam de futebol”, disse – e desejou boas festas.

Delcy aguardava a sua vez. Antes de responder a Macri, porém, a venezuelana anunciou solidariedade a Dilma
“pelo assédio que a presidente brasileira vem sofrendo” e disse que Maduro “lhe enviava um carinho”.

A chanceler levou fotos para ilustrar sua fala. A primeira imagem mostrava Leopoldo Lopez, oposicionista condenado a 13 anos de prisão, acusado por incitar atos de violência durante as manifestações de fevereiro de 2014, que terminaram com vários mortos e incêndios.

“O senhor está fazendo ingerência sobre um assunto da Venezuela; está defendendo essa pessoa, nós sabemos”, disse a chanceler, ao rapidamente exibir outra imagem, desta vez de cenas de violência durante as manifestações. “O senhor está defendendo esse tipo de manifestação; bazucas foram usadas. Incendiaram o Ministério Público e serviços essenciais”, destacou.

As declarações da representante venezuelana provocaram profundo mal-estar na reunião. Os demais chefes de Estado continuaram seus discursos sem entrar no mérito da discussão.

Enquanto a representante da Venezuela falava,assessores de Macri e a chanceler argentina, Susana Malcorra, nitidamente incomodados, conversavam com o presidente argentino, numa suposta orientação de como ele deveria proceder diante do problema que o envolveu logo em sua estreia na cúpula Mercosul. Decidiram que não dariam nenhuma resposta durante a reunião.

A saída do encontro, depois que todos posaram para fotos, a chanceler argentina conversou com jornalistas sobre o episódio. Ela destacou que os chefes de Estado de todos os países que compõem o Mercosul assinaram, no encontro de Assunção, uma declaração que prevê a criação de um grupo de trabalho para monitorar a questão dos direitos humanos no bloco. O texto foi depois distribuído pela organização do evento.

Segundo Susana, o mecanismo de revisão dos direitos humanos na região complementará o que se faz no conselho de direitos humanos das Nações Unidas. “Esse será um elemento essencial das nossas relações na região”, disse a chanceler argentina.

A chanceler argentina reconheceu que, do ponto de vista político, ”hã certas visões diferentes” no Mercosul. Mas isso, disse Susana, favorece a “união da diversidade”.

abiquiflashes (21/12/2015 – 438)

  • Mercosul-5 (1): o mercado comum no qual o Brasil está inserido continua sendo um importante destino das exportações brasileiras de medicamentos. Nos primeiros dez meses de 2015, foram enviados aos parceiros do Mercosul-5 a expressiva cifra de US$ 193,7 milhões em medicamentos (NCM 3003 e 3004).
  • Mercosul-5 (2): as preparações químicas contraceptivas produzidas no País têm excelente aceitação no Mercosul-5. Em 2015, até outubro, foram exportados para este bloco econômico US$ 15.945.355,00 em preparações deste tipo.
  • Mercosul-5 (3): entre os farmoquímicos o produto de maior valor nas exportações é a lisina (seus sais e ésteres), que em 2015, até outubro, alcançou a expressiva cifra de US$ 69.832.350,00.