abiquifi Alerta (017/2015)

Resumo da Carta de Não Conformidade para o fabricante Chinês JINAN JINDA PHARMACEUTICAL CHEMISTRY CO., LTD. com site de produção em No. 6121 Longquan Road, Zhangqiu, Shandong Province, 250 200, China:

In total 18 deficiencies were identified by the inspection team, one of them was classified as critical and six as major. The critical observation was related to an unofficial and non-controlled storage area containing mainly raw materials and finished products which had been made inaccessible to inspectors as the door had been removed and replaced with a panel fixed with screws to the wall, which during the inspection the Company was requested to remove. The material stored in this area was to be managed outside of the Quality Assurance system and the investigation carried o ut by the inspection team concluded there was a serious risk of data falsification. One of the six major deficiencies was related to a very similar issue, as access to a locked garage was given to the inspection team only hours after requesting it. In both cases the explanations provided were not sound and different versions were given during the inspection. The remaining five major deficiencies were related to specific aspects of the Quality Assurance System with regards to training, cleaning validation, breaches of data integrity in the context of HPLC analysis, microbiological laboratory, qualification of contract manufacturer of a key intermediate of Nitrofurantoin production.

Produtos fabricados no site:

Foscarnet Sodium, Rosuvastatin Calcium, Carprofen, Dantrolene Sodium, Trospium chloride, Nitrofurantoin, Nitrofurantoin Macrocrystals, Nitrofurantoin Monohydrate, Tolperisone hydrochloride, Nitrofu razone (FDA), Furazolidone, Feprazone, Cyclandelate, Phenylbutazone, Haloperidol, Clozapine, Carbamazepine, Berberine Tannate, Methylbenactyzine Bromide, (+)-Sotalol Hydrochloride, Dipyridamole, Cimetidine, Allantoin, Bifendate, 1-Aminohydantoin, 1-Aminohydantoin Hydrochloride, Laurocapram, Foscarnet Sodium Hexahydrate, Bromfenac Sodium, Cidofovir Dihydrate, Racecadotril, Florfenicol.

abiquiflashes (31/08/2015 – 409)

  • Contraceptivos: as preparações químicas contraceptivas produzidas no Brasil sempre tiveram uma excelente aceitação no mercado internacional. Nos primeiros seis meses de 2015 estas preparações contribuíram com US$ 46,7 milhões para a nossa pauta de exportações de produtos manufaturados.
  • Medicamentos: US$ 26,1 milhões foi o montante exportado pelo Brasil em medicamentos à base de cafalosporínicos, principalmente dirigidos ao mercado norte-americano, em 2015, até junho.
  • ácido salicílico: além da sua ação queratolitica, este ácido é usado como intermediário na produção do ácido acetilsalicílico (aspirina), pelo processo de acetilação. Em 2015, até junho, foram exportados US$ 4.871.440,00 deste ácido.

Falta de tratado UE-Mercosul seria ‘erro histórico’, diz diplomata

Fernando Exman – Valor Econômico:

O novo chefe da delegação da União Europeia no Brasil, embaixador João Gomes Cravinho, afirmou ontem considerar um “erro histórico” se Mercosul e UE não concluírem as negociações para um acordo de livre comércio.

Há a expectativa de que as partes troquem ofertas em novembro, encontro que será precedido por uma reunião vista por ele como “importante”, no fim de setembro, no Paraguai, entre negociadores técnicos. “Este é um momento para ter ambição, um momento em que importa ser ousado, porque é isso que pode criar uma dinâmica positiva. Ofertas pouco ambiciosas serão ofertas desencorajantes”, afirmou ele em sua primeira entrevista a jornalistas no novo posto. Para ele, isso não significa que uma parte deva ceder 100% em um determinado segmento para a outra dar 100% de outra área. “Um acordo tem que ser equilibrado.”

Ele disse ver uma maior disposição do setor industrial brasileiro de engajar­-se nas chamadas cadeias globais de valor, acrescentando que claramente um acordo daria mais abertura no mercado europeu à agroindústria brasileira ­ cuja potencial concorrência sofre resistências entre alguns países europeus. Para o embaixador, as sociedades e economias como um todo têm muito a ganhar com um acordo equilibrado, o que inclui mecanismos de transição para determinados setores. “Não podemos ficar reféns de um ou outro setor. Isso vale para os dois lados.”

Cravinho disse que o acordo com a União Europeia “pode fazer toda a diferença” para o Mercosul, pois como conjunto de países a UE é o principal parceiro comercial do bloco. “Para nós também é importante. Mas, para o Mercosul, devido ao fato de a Europa ser o primeiro parceiro comercial, creio que o impacto pode ser grande. Do lado da UE, o Brasil é o nono parceiro comercial e, no fim das contas, olhando para todo o Mercosul, talvez seja o sétimo”, ponderou. “Portanto, o impacto pode ser grande e algo que, no meu entender, seria um erro histórico não conseguirmos fazer nesta altura.”

O diplomata lembrou ainda que, em seu conjunto, a UE é um parceiro comercial do Brasil maior que a China e importa produtos brasileiros de maior valor agregado do que os chineses, além de ser grande fonte de investimento estrangeiro direto. “Agentes econômicos europeus acreditam no Brasil. Creio ser importante sublinhar num momento de alguma turbulência política aqui. Nossa perspectiva é de médio e longo prazos”, destacou, complementando que a situação doméstica deve melhorar em poucos anos. Para ele, não são “plenamente justificáveis” nem o “desenfreado otimismo” observado há alguns anos em relação à economia brasileira nem o atual “terrível pessimismo”.

Perguntado sobre a situação na China e seu potencial efeito em relação à capacidade de o país asiático manter projetos e uma trajetória de crescente presença na região, Cravinho disse acreditar que a China continuará mantendo uma taxa de crescimento significativa. “É muito desejável dar as boas-­vindas ao investimento chinês, desde que esse investimento funcione de acordo com as regras que imperam em relação a todos os outros”, destacou. “Ao mesmo tempo temos a convicção de que é importante que o investimento seja apenas para efeitos econômicos e não tenha propósitos além dos efeitos econômicos. Compete a cada país identificar aquilo que é desejável.”

abiquifi Alerta (016/2015)

Resumo da Carta de Não Conformidade para o fabricante Indiano PARABOLIC DRUGS LIMITED, com site de produção em PDL-2, Plot No. 45, Industrial Area, Phase II, Panchkula District, Haryana, 134 113, India:

The quality management system was found to be seriously uncontrolled and deficient in all “Principles” (except principle 2.13 and 2.14) reported in the EU- GMP requirements as evidenced by critical and major deviations found in the following areas: inadequate storage and control of documents and samples and material, falsification of documents and data, integrity and security of data in the QC laboratory, Change Control, Deviations management and Risk management. In total 27 deficiencies were found: 3 classified as Critical were found in the area of Documentation man agement system, Falsification and Security and integrity data; 7 classified as Major deficiencies were found in the area of QC, Personnel, Documentation and Change Control.

Produtos fabricados no site:

This inspection was performed in the framework of the CEP dossier for the manufacture of Dicloxacillin sodium. The found deficiencies could affect the other penicillin family APIs manufactured at the site (AMOXICILLIN TRIHYDRATE, PIVAMPICILLIN,FLUCLOXACILLIN SODIUM,CLOXACILLIN SODIUM, AMPICILLIN TRIHYDRATE, AMPICILLIN ANHYDROUS,BACAMPICILLIN HYDROCHLORIDE).

Diário Oficial (agosto 2015)

abiquiflashes (27/08/2015 – 408)

  • Medicamentos (1): os medicamentos à base de insulina (NCM 3004.31.00) continuam sendo o tipo mais exportado pelo Brasil. Em 2015, até junho, foram enviados ao exterior US$ 119,7 milhões destes produtos para várias partes do mundo, especialmente para a Dinamarca.
  • Medicamentos (2): naturalmente que os medicamentos terminados (NCM 3004) são os mais exportados. Nos primeiros seis meses de 2015 o Brasil remeteu ao exterior US$ 453 milhões deste tipo de medicamento, o que comprova a excelência da produção brasileira.
  • Medicamentos (3): já os medicamentos a granel (NCM 3003) apresentam uma exportação reduzida e dirigida a países da América Latina. US$ 56,89 milhões foi o total exportado em 2015, até junho.

Preço chinês atrapalha substituição de importado

Marta Watanabe – Valor Econômico:

A desvalorização recente do yuan pode reduzir ainda mais os preços dos produtos made in China, dando ao país asiático maior competitividade na disputa por mercados internacionais. Ao mesmo em que gera maior concorrência ao exportador brasileiro, a desvalorização do yuan possibilita maior redução de preço dos produtos chineses desembarcados no Brasil, o que tira parte da vantagem da indústria doméstica que, com a depreciação do real frente ao dólar, inicia o processo de substituição de importações.

Levantamento do comportamento de preços em dólar mostra que houve redução de preços médios em seis dos sete segmentos mais representativos das importações brasileiras vindas do país asiático no período de janeiro a julho, contra iguais meses do ano passado. Em três deles ­ equipamentos de informática e eletrônicos, produtos químicos e têxteis ­ a redução de preços dos produtos chineses foi maior que a média total.

Enquanto os preços dos equipamentos de informática e eletrônicos chineses recuou 6%, a queda média de preços do total dos importados nesse mesmo setor foi de 1,2%. Em têxteis e produtos químicos a redução dos chineses foi de 3% e 23%, respectivamente. Enquanto isso, na média do total dos produtos brasileiros importados nos mesmos segmentos houve alta de 0,4% e 0,2%, respectivamente.

Em dois segmentos ­ fabricação de máquinas, aparelhos e materiais elétricos e vestuário ­ a redução de produtos chineses se igualou à queda média do total de importados pelo Brasil nos mesmos setores. Máquinas e equipamentos foi o único dentre os sete setores em que houve elevação de preços do importado chinês, com a alta de 1%. Mesmo assim, o aumento foi menor que o avanço de 3,1% da média do total das importações no mesmo segmento.

O levantamento foi feito pela Funcex, a pedido do Valor. Os sete segmentos analisados representam 70% do valor das importações brasileiras com origem na China. Para Daiane Santos, economista da Funcex, o levantamento revela a competitividade do fornecedor chinês, que em alguns segmentos conseguiu reduzir em nível maior que a média os seus preços de exportação. A desvalorização da moeda chinesa, diz a economista, permite que o país asiático reduza ainda mais seus preços. Desde o início do ano até ontem, o real acumulou perda de 26,1% frente ao dólar. No mesmo período, o euro e o renmimbi se desvalorizaram 3,23% e 6,48%, respectivamente.

“A China é tradicionalmente um competidor agressivo, com margem para reduzir preços quando o objetivo é manter ou ganhar mercado”, diz Welber Barral, sócio da Barral M Jorge Consultores. “Além da competitividade na produção, os chineses são fornecedores capitalizados, o que facilita mais a redução de preços na venda ao mercado brasileiro, que é relativamente pequeno na comparação com Estados Unidos e União Europeia.”

Os dados da Funcex, diz Daiane, mostra que os chineses conseguiram elevar a quantidade exportada ao Brasil em alguns segmentos, mesmo com a retração econômica nacional. A importação brasileira com origem na China de produtos químicos cresceu, em volume, 24% de janeiro a julho contra igual período de 2014. Na mesma comparação a quantidade desembarcada de vestuário e acessórios aumentou 14% enquanto a de máquinas e materiais elétricos subiu 1%.

“O aumento da quantidade embarcada chama atenção, já que a importação brasileira tem caído. Mas em alguns casos, a elevação de importação podem indicar que a China tomou espaço de outros fornecedores”, diz Rafael Bistafa, economista da Rosenberg Associados.

“Alguns produtos, como os do grupo de vestuário, mostram o grande poder de competitividade e redução de preços da China”, diz Daiane. Os chineses fornecem cerca de 65% do valor importado em vestuário no Brasil. Por isso, diz a economista, não surpreende que o nível de redução de 7% do preço médio do vestuário comprado do país asiático seja os mesmos 7% de recuo do preço médio do total da importação brasileira no mesmo segmento. “Mesmo assim, chama a atenção o preço do vestuário chinês, que se manteve num nível mais baixo.” De janeiro a julho do ano passado, destaca Daiane, o preço médio do vestuário comprado da China era de US$ 16,7 por quilo importado enquanto que o preço médio pago pelo vestuário de todas as origens era de US$ 19,7 o quilo. Com o recuo de 7%, o preço da China baixou para US$ 15,5 o quilo e o do total da importação, para US$ 18,3 o quilo.

Com a desvalorização do yuan, diz Barral, aumenta o espaço da China para ser mais agressivo nos preços. A isso se adiciona o movimento natural de negociação de preços propiciado quando há desvalorização cambial, avalia. “Assim como o importador chinês de carne e frango do Brasil quer um preço menor em dólar porque sabe da depreciação do real, o importador brasileiro também calcula o preço que quer passar a pagar com a nova desvalorização.”

Para Bistafa, o movimento de recuo de preços de produtos made in China pode tornar mais lento o processo de substituição de importação iniciado pela indústria brasileira. “Isso deve acontecer com lentidão maior que a inicialmente imaginada. Provavelmente a substituição ainda deve acontecer pouco a pouco nos próximos trimestres.” Ao mesmo tempo em que a desvalorização do yuan retira vantagens da depreciação do real, a desaceleração da economia chinesa em ritmo maior que o esperado acende uma luz amarela para a exportação brasileira.

O grande receio é a repercussão que a desaceleração pode ter nos preços das commodities e, como consequência, para a receita de exportação e a balança comercial. Para Barral, esses efeitos devem ficar mais claros no fim do ano, já que os embarques atuais se referem a contratos mais antigos.

Embrapa foca nova aliança para inovação

Fernando Lopes – Valor Econômico:

Maurício Antônio Lopes assumiu a presidência da Embrapa, em outubro de 2012, com a clara visão de que a estatal precisava definir novas estratégias e fontes de recursos para preservar o status de principal referência global em pesquisas agropecuárias tropicais, sedimentado nas quatro décadas anteriores. Nesse período, entre outros feitos, colaborou decisivamente para tornar viável o plantio de grãos em grande escala e de forma competitiva no Cerrado.

No início de 2013, o pesquisador alçado ao posto de executivo tinha ao menos uma perna da equação que tentava resolver em gestação: começava a ser analisada no Congresso a criação da Embrapatec, subsidiária privada, de capital fechado, com o objetivo de comercializar as tecnologias da Embrapa e liberdade para se tornar sócia de outras empresas de seu raio de ação, de forma a multiplicar projetos e pesquisas. Isso mesmo com orçamento limitado ­ no total, foram R$ 2,6 bilhões em 2014, a maior parte destinada ao pagamento de seus funcionários, entre os quais 2.444 pesquisadores.

Mas Lopes sabia que não era suficiente. Para manter seu protagonismo e colaborar para o aumento dos investimentos em pesquisa e inovação no país a pelo menos 2% do PIB agropecuário (em 2012, último dados disponível, o percentual foi de 1,51%), a Embrapa precisaria ser ainda mais ousada. O gás para isso, segundo ele, veio neste ano, apesar das turbulências político-­econômicas do país. Com apoio da ministra da Agricultura, Kátia Abreu, que assumiu o cargo no início de 2015, começava a ser delineada a Aliança para a Inovação Agropecuária, a grande aposta atual da estatal para maximizar seu protagonismo e seus resultados.

Anunciada no fim do primeiro semestre pela própria Kátia ­ a Embrapa é vinculada ao Ministério da Agricultura ­, a Aliança já aparece nos slides como “Uma nova visão de futuro para pesquisa e a inovação”. E é tratada por Maurício Lopes como uma “plataforma” que trabalhará os objetivos de longo prazo da estatal, e da pesquisa agropecuária em geral, a partir do estabelecimento de portfólios, processos e uma nova cultura de gestão. “Não podemos nos acomodar em lógicas e processos desenvolvidos nas últimas décadas”. A ordem é dar vida nova à Embrapa, que em abril completou 42 anos.

Lopes esclarece que isso não significa que a Embrapatec tenha sido esquecida. Mas mudou, cresceu e agora está inserida na Aliança, que buscará acelerar seus resultados por meio de uma união de forças entre Embrapa, órgãos estaduais de pesquisa, universidades, produtores rurais e empresas. A ideia é que da união desses elos sejam produzidas as inovações, seja em unidades mistas tocadas com universidades em linha com o modelo francês de plataformas virtuais, seja a partir da capilaridade dos órgãos estaduais. Ou como no caso da soja transgênica Cultivance, lançada ontem em Brasília pela Embrapa e pela alemã Basf após 20 anos de cooperação e US$ 33 milhões em investimentos.

Trata­-se da primeira tecnologia transgênica ­ a semente é resistente a herbicidas 100% desenvolvida no Brasil. No ano que vem, adianta Lopes, será a vez de a Embrapa lançar no mercado um feijão geneticamente modificado com uma nova tecnologia, que ele preferiu não detalhar. Em outra frente, a estatal e as parceiras John Deere, Syngenta, Dow e Cocamar, entre outras empresas, investem cada uma R$ 500 mil por ano no desenvolvimento de modelos sustentáveis de integração lavoura-­pecuária e lavoura-­pecuária-­floresta.

Quando fala em atrair mais investimentos privados para as pesquisas agropecuárias ­ 90% dos aportes nessa frente são provenientes do setor público ­, Lopes não pensa apenas em empresas, mas também em produtores. Nesse caso, talvez o programa que esteja amadurecendo mais rapidamente é algo similar ao “soja check­off” que existe nos Estados Unidos. Financiado através de uma taxação equivalente a 0,5% do preço de mercado líquido de cada bushel (medida equivalente a 27,2 quilos) de soja colhido, o programa permite promoção do produto americano no país e no exterior, bem como pesquisas na melhoria do grão.

“Também temos que trabalhar melhor o conceito de inteligência territorial estratégica com um conjunto rico de dados e informações. Há mapas de todo o país [feitos com fotos tiradas de satélites] e podemos criar uma base extraordinária concentrada na Embrapa Gestão Territorial”, diz o presidente da estatal. Do desenvolvimento desse conceito viriam planos mais bem embasados para aplicação em regiões como o “Matopiba” (confluência entre Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia), o Semiárido e a Amazônia.

“Até por conta das mudanças climáticas e da preocupação com a segurança alimentar, o mundo tropical atrai cada vez mais interesse da Ciência”, observa Lopes. Mas para que a Embrapa consiga responder às expectativas que gera, será preciso elevar um montante de aportes limitado a R$ 500 milhões em 2014 (entre custeio e investimentos nas pesquisas) e que, neste ano, talvez nem chegue a isso. Pouco para acompanhar o passo de multinacionais que investem mais de US$ 1 bilhão por ano e valor insuficiente para que o Brasil amplie sua fatia nos aportes globais em pesquisa e inovação agropecuária, hoje em torno de 5%.

Pesquisadores nos EUA descobrem como ‘desligar’ células cancerígenas

Sérgio Matsuura – O Globo:

Os tratamentos contra o câncer envolvem debilitantes cirurgias e sessões de radio e quimioterapia, mas uma descoberta anunciada ontem pode abrir caminho para novas terapias capazes de reprogramar as células cancerígenas, revertendo-as em saudáveis. De acordo com Panos Anastasiadis, diretor de Biologia do Câncer no campus Flórida da Clínica Mayo e coautor do estudo, o achado representa “uma nova biologia que fornece o código, o software para desligar o câncer”.

A pesquisa foi publicada na revista acadêmica “Nature Cell Biology”. O “software” foi revelado pela descoberta que proteínas de adesão, uma espécie de cola que mantém as células unidas, interagem com o microprocessador, no caso o microRNA (miRNA), que desempenha papel fundamental na produção de moléculas.

Os pesquisadores descobriram que, quando células normais entram em contato umas com as outras, o miRNA suprime os genes que promovem o crescimento celular. Entretanto, quando a adesão acontece entre células cancerígenas, o miRNA fica desregulado e a multiplicação das células, fora de controle. Em experimentos em laboratório, o restabelecimento do nível normal do miRNA em células cancerígenas foi capaz de reverter a sua multiplicação.

— O estudo revela uma nova estratégia para terapias contra o câncer — afirmou Antonis Kourtidis, líder do estudo.

O problema surgiu por causa de estudos conflitantes sobre a e-caderina e a p120-catenina, proteínas de adesão essenciais para a formação de tecidos epiteliais normais, e que há muito eram consideradas supressoras de tumores. Entretanto, diz Anastasiadis, a hipótese parecia falsa, pois pesquisas recentes mostraram que ambas as proteínas estão presentes em células cancerígenas:

— Isso nos levou a crer que essas moléculas têm duas faces. A boa, que mantém o comportamento normal das células, e a má, que leva ao surgimentos dos tumores.

Essa teoria se mostrou verdadeira, mas faltava descobrir o que regulava esses comportamentos. A peça que faltava era outra proteína, chamada PLEKHA7, que se associa de forma superficial às outras duas e mantém o estado normal das células, formando um complexo com o miRNA, a e-caderina e a p120-catenina.

— Quando esse complexo é interrompido pela perda da PLEKHA7, o miRNA fica desregulado, e a e-caderina e a p120-catenina mudam de lado para se tornarem oncogênicas — explicou Anastasiadis. — Nós acreditamos que a perda do complexo PLEKHA7-miRNA é um evento precoce e, de alguma forma, universal no câncer. Na vasta maioria das amostras de tumores humanos que examinamos, essa estrutura está ausente.

CÉLULA RESISTE A TRATAMENTOS

De acordo com Anastasiadis, experimentos iniciais de restabelecimento dos níveis normais da PLEKHA7 “se mostraram promissores em alguns tipos agressivos de câncer”:

— É o equivalente a ter um carro em alta velocidade sem freio. Ao restabelecer os miRNAs aos níveis normais, nós consertamos os freios, e a função celular voltou ao normal.

Entretanto, ainda é cedo para se pensar em uma nova terapia. Para o oncologista Celso Rotstein, consultor médico da Fundação do Câncer, a descoberta “aprofunda o conhecimento sobre os mecanismos que fazem a célula cancerígena se reproduzir sem controle”.

— Mas para transformar esse achado em um medicamento, o passo pode ser muito distante — avalia. — Não é algo que possa ser considerado todas as vezes que você aprende mais sobre o mecanismo.

De acordo com o Rotstein, a ciência está passando por um período de rápido aprofundamento do conhecimento sobre o fenômeno oncogênico, sobre o surgimento dos tumores, e novas formas de combate à doença estão surgindo, como as imunoterapias e os medicamentos alvo moleculares.

— O problema é que a célula neoplásica é extremamente instável. Isso significa que ela vai se tornando resistente aos tratamentos — diz ele.

Pesquisadores estão mais perto da vacina universal contra a gripe

Cesar Baima – O Globo:

A prodigiosa capacidade do vírus da gripe (influenza) de mudar a configuração externa de suas proteínas e assim escapar das defesas de nosso organismo é o principal obstáculo na busca por uma chamada vacina universal contra a doença, isto é, que ensine o sistema imunológico a atacar todos os seus variados subtipos, dispensando a elaboração e a administração anual de um novo imunizante. Entre estas proteínas está a hemaglutinina (HA), que o vírus usa para se ligar às nossas células para poder invadi-las e se multiplicar em seu interior.

Mas enquanto a “ponta” da hemaglutinina, alvo primário de nossos anticorpos para a gripe, passa por alterações frequentes, o que impede que estas pequenas moléculas em forma de Y que são os “soldados” de nosso sistema imunológico se unam ao vírus e evitem que ele infeccione nossas células, a estrutura base da proteína, ou seja, seu “caule”, praticamente não sofre mutações, justamente para não atrapalhar seu trabalho de abrir caminho para que o vírus invada nossas células. E é de olho nesta estabilidade que dois grupos de pesquisadores, atuando de forma independente, relataram ontem avanços na obtenção de uma vacina que estimule as defesas do organismo a atacar esta base da hemaglutinina e não apenas sua “ponta”, oferecendo assim proteção contra as diversas “versões” do vírus.

— Nosso estudo mostra que estamos caminhando na direção certa na procura por uma vacina universal contra a gripe — comemora Ian Wilson, cientista do Instituto de Pesquisas Scripps, nos EUA, e integrante de um dos grupos, cujos resultados foram publicados on-line ontem no site da prestigiada revista “Science”. — Se o corpo consegue produzir uma resposta imunológica contra o caule da hemaglutinina, o vírus terá dificuldades de escapar.

Treinando uma “tropa de elite”

Para isso, os cientistas criaram uma maneira de remover a variável “ponta” da proteína viral, expondo sua estrutura base à reação do sistema imunológico. Assim, ele pode produzir em grande quantidade os chamados anticorpos de ampla neutralização (bnAbs, na sigla em inglês) contra o influenza, algo como uma “tropa de elite” no exército de defesa do organismo que raramente é “treinada” para combater a gripe. Em testes com camundongos e macacos, um imunizante feito com uma versão da hemaglutinina “decapitada” protegeu os animais de vários subtipos do vírus, inclusive os da família do H5N1, causador da gripe aviária, contra o qual as atuais vacinas anuais não surtem efeito e que já provocou diversos surtos epidêmicos ao redor do mundo, matando quase 400 pessoas desde que a primeira infecção de seres humanos por ele foi identificada, em 1997.

— Esta foi a prova do princípio — conta Wilson. — Os testes demonstraram que os anticorpos produzidos com um dos subtipos do influenza deram proteção contra outros subtipos. E embora ainda reste muito trabalho a ser feito, o objetivo final, é claro, será criar uma vacina que dure a vida inteira.

Já o trabalho do segundo grupo de pesquisadores, publicado na edição desta semana da revista “Nature Medicine”, teve uma abordagem ligeiramente diferente. Nele, os cientistas produziram nanopartículas estáveis similares ao “caule” da hemaglutinina do subtipo 1 (H1), que foram ligadas a substâncias adjuvantes, desenhadas para estimular ainda mais a resposta imunológica, para criar a vacina. Administrado em camundongos e furões, o imunizante protegeu os animais não só contra os vírus com o mesmo subtipo da proteína como evitou os piores sintomas e a morte quando eles foram deliberadamente infectados com quantidades potencialmente letais do H5N1 — apesar de os anticorpos gerados não terem se mostrado capazes de neutralizar por completo o subtipo da gripe aviária. Os adjuvantes usados nesta pesquisa, no entanto, não são aprovados para administração em humanos, e os cientistas ainda precisam provar que obteriam o mesmo tipo de resposta imunológica com substâncias permitidas para uso humano.

— Estes são achados animadores vindos de pesquisadores altamente respeitados e conhecidos por sua atenção aos detalhes — comenta Garry Lynch, professor da Universidade de Sydney, na Austrália, e especialista em gripe, que não tem relação com nenhum dos dois grupos de cientistas responsáveis pelos avanços na busca por uma vacina universal contra a doença. — O mais importante é que estes estudos trazem as necessárias evidências sólidas de que anticorpos que têm como alvo uma região estável da hemaglutinina podem fornecer uma proteção ampla contra diferentes linhagens do influenza. Mas para uma proteção verdadeiramente universal, é preciso estudar e testar outros subtipos do influenza. De qualquer modo, esperamos mais avanços maravilhosos nesta área de forma que uma vacina verdadeiramente universal contra a gripe se torne uma realidade.

Testes ainda vão levar anos

Outro que está otimista é o pneumologista brasileiro Carlos Alberto de Barros Franco, que, no entanto, destaca que ainda vai demorar para uma vacina universal contra a gripe chegar ao mercado.

— Existem várias pesquisas sobre o tema há bastante tempo. E “estar perto”, na medicina, não é uma viagem do Rio de Janeiro a Petrópolis. Estar perto na medicina são, no mínimo, cinco anos — diz Barros Franco. — Mas, se der certo, será fantástico. As pessoas não precisarão encarar a vacina todo ano. E isso poderá ser um passo enorme para a criação de outras vacinas cujos vírus sofrem mutação, assim como o da gripe, em que os antígenos da superfície se modificam. A dificuldade é exatamente essa: identificar e isolar o antígeno que não sofre a mutação e desenvolver a vacina.

Opinião semelhante tem Walter Orenstein, professor da Escola de Medicina da Universidade Emory, nos EUA, e também não relacionado com ambos os grupos de pesquisadores.

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— As abordagens que estão sendo desenvolvidas de fato oferecem potencial para uma vacina universal contra o influenza, mas estes são estudos com animais, então ainda estamos muito longe de desenvolver e testar uma vacina em humanos — considera. — Mas as técnicas são promissoras e um passo na direção certa. Os estudos devem ser aprofundados mais e esperamos que sejam bem-sucedidos.

Por fim, Sarah Gilbert, professora da Universidade de Oxford, no Reino Unido, destaca que, ao ter como alvo parte do vírus que não sofre mutações, ambas as vacinas superaram um grande obstáculo, mas ainda devem passar por ensaios clínicos controlados com humanos para se saber como e por quanto tempo ofereceriam proteção contra o vírus.

— São desenvolvimentos excitantes, mas as novas vacinas precisam ser testadas agora em ensaios clínicos para saber o quão bem elas funcionam em humanos — lembra Sarah. — Esta será a próxima fase da pesquisa, que ainda vai demorar muitos anos. Assim, ainda estamos um tanto distantes de ter melhores vacinas contra a gripe para serem aplicadas em seres humanos. (Colaborou Carol Knoploch)