Brasil quer estar entre os 10 maiores exportadores

Paulo Brito – Valor Econômico:

Os empresários do setor pet trabalham guiados por uma certeza inspiradora: a de que os cães, gatos e outros animais domésticos são amados por seus donos, que jamais os deixarão sem ração, bifinhos, nuggets, roupas, coleiras, acessórios e mesmo brinquedos.

Esse comportamento, que os especialistas do mercado chamam de “humanização dos animais”, faz o mercado pet no mundo crescer a taxas anuais que oscilam entre 8% e 10%, com um faturamento estimado atualmente em US$ 98,4 bilhões por ano, diz José Edson França, presidente da Associação Brasileira da Indústria de Produtos para Animais de Estimação (Abinpet).

O Brasil já é um dos grandes desse mercado é o segundo produtor mundial de alimentos pet, diz o presidente da Abinpet, num ranking onde os EUA estão em primeiro lugar, Alemanha, França e México em terceiro, segundo a pesquisa Altech Global Feed Survey, 2014. “As exportações começaram a ganhar força em 2004, mas nessa época o país vendia pouco para o exterior”, diz França.

Trabalhando com a Agência Brasileira de Promoção de Exportações e Investimentos (ApexBrasil) para promover produtos e serviços brasileiros no exterior, a Abinpet vislumbrou a possibilidade de colocar o país entre os dez maiores exportadores mundiais de alimentos para pets. “Selecionamos um grupo de países para trabalhar, entre eles Rússia, Colômbia, Uruguai, Índia e China, deixando EUA e países europeus apenas como referências para aquisição de
conhecimento e não para competir”, explica.

Atualmente, as exportações brasileiras de alimentos e artigos pet, feitas por um total de 42 empresas apoiadas pela Apex, estão em 80 países, e no ano passado somaram US$ 269 milhões.

Boa parte desse cenário é resultado de ações organizadas desde 2005 pela agência. Ígor Brandão, coordenador de projetos setoriais do órgão, diz que nos últimos anos tem havido um crescimento nas exportações que ele considera atípico. “As taxas contradizem o atual ritmo da economia.” Uma das principais estratégias do órgão, segundo ele, tem sido adquirir espaço em feiras internacionais, levando a elas empresas do setor, numa parceria em que o governo brasileiro paga 70% do aluguel e a Abinpet 30% as empresas pagam a hospedagem mais o transporte de seu pessoal, além do seu material de exposição e divulgação.

Duas das mais recentes feiras com a presença de fabricantes do setor pet brasileiro foram a Interzoo 2014, em Nuremberg, Alemanha, e a Zoosphere 2014, em São Petersburgo, Rússia. “No ano passado, durante a copa, trouxemos compradores de empresas do exterior ao Brasil”, acrescenta Brandão. Entre as empresas que participam do programa, conta Brandão, o crescimento das exportações em 2014 foi de 24%, enquanto entre as não participantes o crescimento no mesmo período foi de 10%.

A Guabi Pet Care, de Campinas (SP), joint venture da Mogiana Alimentos com a espanhola Affinity Petcare, é uma das empresas que está no programa da Apex e hoje exporta para 40 países, diz o CEO Eduardo Aron: “Temos clientes em países como Rússia, Angola, Colombia e Indonésia”, detalhe.

Um ano atrás, o mercado externo representava apenas 5% do faturamento da empresa, mas agora a meta, segundo Aron, é dobrar essa participação. Neste momento, diz ele, 7% da receita vêm das vendas internacionais: “No ano passado, tivemos um crescimento da ordem de 20% em volume exportado”, acrescenta. E para este ano a expectativa dele é de crescimento ainda maior: “Esperamos uma elevação em 30% no volume, entre outras razões por causa do câmbio favorável”, diz. Se isso acontecer, a Guabi devera encerrar o ano com as exportações representando 8% do faturamento.

Pelo planejamento de Aron, a meta de 10% poderá ser alcançada dentro de dois anos. “Abrir um mercado é um processo lento, mesmo onde já operamos por meio de um distribuidor. E exportar não e só um compromisso de negócio tratase
de estar integrado ao mundo, e de responder bem aos desafios de inovação e de qualidade”, acrescenta.

Outro forte exportador brasileiro de alimentos para pets é a Total Alimentos, de Três Corações (MG), adquirida em outubro do ano passado pela francesa InVivo. Cláudio Dafferner, gerente de vendas internacionais, conta que as exportações começaram há 12 anos, e que hoje a empresa vende para todos os continentes, com expectativa de crescer 30% neste ano. “Mesmo com a retração do mercado e com as oscilações do câmbio, continuamos otimistas e mantendo nossos planos de expansão”, diz. Atualmente, segundo ele, os principais mercados são a Colômbia e o Uruguai.

Receita complexa

Gleise de Castro – Valor Econômico:

Um dos grandes desafios da indústria de saúde no Brasil é reduzir a dependência tecnológica, com mais investimento em pesquisa e inovação. O setor conta hoje com R$ 3,6 bilhões de programas federais para financiar projetos de P&D, dos quais R$ 1,9 bilhão do Inova Saúde, da Financiadora de Estudos e Projetos (Finep), vinculada ao Ministério de Ciência e Tecnologia. Iniciado em abril de 2013, o programa tem duração prevista até dezembro de 2017. O R$ 1,7 bilhão restante vem de programas do Ministério da Saúde.

São valores que as empresas consideram insuficientes. Mas o que mais atrapalha, apontam, é a burocracia e a falta de um ambiente mais favorável à inovação. A aprovação de uma pesquisa clínica no Brasil, por exemplo, leva 365 dias, ante 30 dias na Coreia do Sul e 45 a 60 dias nos EUA.

O Brasil importa a maior parte do que utiliza, desde material hospitalar e de medicina diagnóstica até fármacos e medicamentos, com um déficit comercial que chegou a US$ 11,6 bilhões em 2014, segundo levantamento da Websetorial, consultoria econômica da Associação Brasileira da Indústria de Alta Tecnologia de Produtos para Saúde (Abimed). O maior nível de dependência está no setor de medicamentos. Segundo a Associação da Indústria Farmacêutica de Pesquisa (Interfarma), 86% dos princípios ativos são importados. As inovações feitas no país são basicamente incrementais, ou seja, patentes já existentes com pequenas alterações de processo ou dosagem, ou associação de dois ou três medicamentos.

“Infelizmente, o Brasil tem posição medíocre na descoberta, desenvolvimento e patenteamento de medicamentos, desproporcional à qualidade de seus cientistas”, diz Antonio Brito, presidente da Interfarma, que aponta como causas a desconexão entre universidade, iniciativa privada e governo e o excesso de burocracia. A exceção é a área de vacinas, desenvolvidas por institutos públicos, como Fiocruz e Instituto Butantã, que trabalham em parceria com empresas globais.

No setor de produtos para saúde, que compreende desde pinças e bisturis até equipamentos sofisticados, a produção brasileira chega a 38% do que é utilizado no país, com déficit comercial de US$ 4 bilhões, de acordo com a Associação Brasileira da Indústria de Artigos e Equipamentos Médicos, Odontológicos, Hospitalares e de Laboratórios (Abimo).

O setor é composto por 13 mil empresas, 90% das quais de médio e pequeno porte, com faturamento de US$ 11,7 bilhões em 2014, equivalente a 5% do total de gastos com saúde, segundo a Associação Brasileira da Indústria de Alta Tecnologia de Produtos para Saúde (Abimed). “O Brasil é o 15º importador e o 37º exportador. Há um espaço enorme para participarmos do mercado mundial”, diz Carlos Goulart, presidente-­executivo da Abimed.

Segundo Goulart, mais do que financiamento, o setor precisa de um ambiente que estimule a inovação. “O governo tem reconhecido a importância da inovação, com políticas industriais e financiamento. Mas enfrentamos burocracia e lentidão para registro e comercialização de novos produtos e aprovação de pesquisas clínicas e patentes”, diz o executivo. Estudo feito em 2014 pela Abimed e Fundação Dom Cabral, com 20 CEOs do setor, aponta como principais entraves a falta de articulação entre governo, universidades e indústria e o custo Brasil, que inclui a burocracia.

Para o presidente­executivo da Abimo, Paulo Henrique Fraccaro, há necessidade de reduzir o gap entre os estudos acadêmicos e as necessidades da indústria. A seu ver, o problema é o tamanho do mercado brasileiro de produtos de saúde. “Essa indústria precisa crescer para exportar. Nenhuma empresa se fortalece se não tiver participação no mercado internacional”, diz Fraccaro. A exceção são equipamentos da área neonatal e de odontologia. Produtos como gabinetes e tomógrafos odontológicos e para implantes dentários criados no país registraram saldo de US$ 14 milhões em 2014, com exportações de US$ 122 milhões.

Há também casos bem­-sucedidos de empenho profissional, como o do monitorador pulmonar Timpel Enlight 180, que conquistou o primeiro lugar do Prêmio Inova Saúde, da Abimo, entregue em 16 de abril. Aprovado pela Anvisa em setembro de 2014, o aparelho já é utilizado em hospitais brasileiros e exportado para a Europa e EUA, acumulando mais de 60 patentes aprovadas em outros países. Foram dez anos de pesquisa de um grupo de médicos, engenheiros, administradores, pesquisadores e fisioterapeuta e R$ 20 milhões de investimento, entre recursos próprios e de agências governamentais.

Desenvolvido pela Timpel, em parceria com a Serdia Eletrônica, o aparelho captura imagens em tempo real para monitorar à beira do leito os pulmões de pacientes em ambiente hospitalar. “A ideia partiu de médicos do Hospital das Clínicas de São Paulo. Existem mais de 20 aparelhos para se verificar o funcionamento do coração, mas não havia nenhum para o pulmão”, diz Rafael Holzhacker, presidente da Timpel.

Equipamentos e sistemas mais complexos, como cirurgias robóticas, são adotados por hospitais tecnologicamente mais avançados. O Hospital Albert Einstein, que adota a tecnologia desde 2009, criou, neste ano, uma associação para estender os conhecimentos às novas gerações de médicos do país, disponibilizando a médicos­-residentes acesso gratuito a 1.500 vídeos dos melhores cirurgiões do mundo. “No futuro, todas as cirurgias serão robóticas”, prevê o dr. Antonio Macedo, do Einstein. Especialista em cirurgia do aparelho digestivo, Macedo é o cirurgião com maior número de cirurgias feitas com ajuda de robôs no país, um total de 350 até o momento. As vantagens, segundo ele, são a precisão e melhor qualidade da cirurgia.

No Hospital Sírio­Libanês, um dos destaques é o portal do paciente, plataforma web que armazena e integra resultados de exames, prontuário médico e histórico de atendimentos e cirurgias dos pacientes. “O paciente deixa de ser passivo para se tornar cada vez mais agente ativo de seu processo de cuidar”, explica o dr. Luiz Reis, superintendente de pesquisa do hospital. A tendência, segundo ele, é que tais informações sejam armazenadas na nuvem.

Tecnologias digitais, conhecidas como telemedicina, e­Health e m­Health, ainda estão concentradas em instituições de referência.

Liberação de recursos para inovação fica mais lenta

Gleise de Castro – Valor Econômico:

A expectativa de empresas e da própria Financiadora de Estudos e Projetos (Finep) é de que o ajuste fiscal pretendido pelo governo não afete os recursos destinados a pesquisa e inovação na área da saúde. Se afetar, espera­se que seja o mínimo possível. “Apoiar projetos de inovação das empresas e torná-­las competitivas é saída para a crise. Com o ajuste fiscal, vai haver algum impacto, mas espero que seja reduzido”, diz Igor Bueno, superintendente do escritório da Finep em São Paulo. Segundo ele, pelo programa Inova Saúde, a financiadora já contratou projetos no valor de R$ 1,2 bilhão e a demanda qualificada, isto é, propostas que podem virar projetos, soma R$ 2,6 bilhões. Já os programas de financiamento da Finep, para todas as áreas, continuam abertos.

Mas empresas e institutos de pesquisa já sentem reflexos das dificuldades fiscais do país, como ritmo menor na liberação de verba para projetos aprovados. “A promessa é não cortar, é manter os fluxos. Na prática, porém, alguns associados, com projetos aprovados, se queixam da velocidade menor da liberação de recursos”, diz Naldo Dantas, secretário executivo da Associação Nacional de Pesquisa e Desenvolvimento das Empresas Inovadoras (Anpei).

Entre os projetos apoiados pela Finep estão os de medicamentos de origem biotecnológica, a nova fronteira do setor, que contam com R$ 550 milhões do Inova Saúde. “A Finep espera também que as empresas brasileiras tenham domínio das novas plataformas tecnológicas, como telemedicina, para a população”, diz Bueno.

Para Dantas, da Anpei, o pacote do Inova Saúde foi muito bem estruturado, prevendo subvenções, empréstimos reembolsáveis e não ­reembolsáveis e investimento de venture capital (em que a Finep se torna sócia do empreendimento). Mas, na prática, a lógica de fomentar empresas inovadoras ainda não vingou, porque os três editais realizados até agora, contemplaram apenas universidades. “Só ficou na fase da pesquisa, não houve o desdobramento para empresas”, afirma Dantas. Foram dez projetos na área de equipamentos, no valor total de R$ 11,38 milhões, 16 projetos de engenharia biomédica, com R$ 1,97 milhão, e sete projetos na área de oncologia, com R$ 1,38 milhão.

Já os programas do Ministério da Saúde, segundo Dantas, estão caminhando bem. O Programa para o Desenvolvimento do Complexo da Indústria da Saúde (PDC) destina recursos a instituições públicas de pesquisa, enquanto as Parcerias de Desenvolvimento Produtivo (PDPs) envolvem cooperação entre instituições públicas e entidades privadas para desenvolvimento, transferência e absorção de tecnologia e capacitação produtiva e tecnológica do país. O objetivo de ambos é fomentar a produção de medicamentos, vacinas e diagnósticos para atender à demanda do Sistema Único de Saúde (SUS).

Para Dantas, o melhor programa é o PDP, para desenvolvimento de fármacos considerados prioritários pelo Ministério da Saúde, como antipsicóticos, antirretrovirais, imunossupressores e oncológicos. De 2009 a 2014, registrou um total de 104 propostas aprovadas. Mas a falha desse sistema, segundo Dantas, é o modelo de substituição de importações. A área de medicina de fronteira, prevista pelo Inova Saúde e que daria ao país independência tecnológica, na prática não é contemplada porque o programa até agora só atendeu à parte da pesquisa básica.

“A medicina de fronteira é a nova lógica da inovação”, diz Dantas. Pela lógica da substituição de importações, o
foco é o mercado brasileiro, mas a biotecnologia exige escala mundial. “Tudo que é novo leva tempo. São longos ciclos clínicos, longos investimentos e custa caro. O risco só é pagável com perspectiva de mundo. A cultura de
fabricar para o Brasil barra o desenvolvimento de novos fármacos”, afirma o executivo da Anpei.

Negociações com o México mostram caminho a seguir

O Globo:

Com mais de 1.350 quilômetros de fronteira terrestre com os Estados Unidos, o México acabou voltando sua economia para o grande mercado do país vizinho, distanciando-se, de certa maneira, do restante da América Latina, com a qual tem laços culturais. Na década de 1990, essa distância iria se ampliar devido ao Tratado de Livre Comércio da América do Norte (Nafta, na sigla em inglês), pelo qual México, Estados Unidos e Canadá eliminaram uma série de barreiras à circulação de mercadorias entre os três países.

O Nafta encontrou resistências domésticas em cada signatário, pois sempre se atribuía aos outros parceiros os maiores benefícios do tratado. No México, os críticos diziam que talvez fosse preferível entregar ou vender logo aos Estados Unidos os “50% do território original” que ainda estavam sob soberania mexicana (numa alusão à venda e conquista, no século XIX, de áreas que corresponderiam a 50% do México).

A verdade é que a economia mexicana acabou se fortalecendo no pós-Nafta. Recuperou décadas de atraso e, no lugar de uma elevada dependência em relação aos Estados Unidos (pouco antes do Nafta, o país chegara a importar dos seus vizinhos mais industrializados enormes volumes de milho e feijão, base da alimentação dos mexicanos), buscou também a diversificação de mercados. O Nafta não foi obstáculo para que o México firmasse outros acordos comerciais, especialmente com nações banhadas pelo Pacífico, na Ásia e na América do Sul.

As economias brasileira e mexicana sempre foram vistas como concorrentes. Ambos países têm grande população, vastos territórios e estágios de desenvolvimento similares. Porém, ainda que não sejam tantas as afinidades culturais, sempre houve uma simpatia mútua entre brasileiros e mexicanos. Nas telecomunicações, os mexicanos marcaram presença no Brasil, mas foi o acordo automotivo que abriu as portas para a negociação de um acordo mais abrangente que os presidentes Dilma Rousseff e Enrique Peña Neto estão agora dando partida. A visita de Dilma ao México selou o início de negociações que deverão envolver mais de seis mil produtos e serviços, no lugar dos atuais 800. As transações entre Brasil e México representam menos de 2% da corrente total de comércio de cada um dos países, um percentual bem aquém do potencial.

O Brasil apostou suas fichas na evolução do Mercosul, esperando que acordos entre blocos comerciais fossem a melhor saída. O Mercosul não está sendo abandonado, mas o Brasil não pode ficar de braços cruzados enquanto o mundo se mexe e o Mercosul se mantém paralisado devido às crises argentina e venezuelana, principalmente. Neste sentido, as negociações bilaterais com o México configuram um bom exemplo de novos caminhos que devem ser seguidos no plano das relações comerciais.

Antibióticos sob fogo cerrado

Luiz Henrique Mendes e Bettina Barros – Valor Econômico:

Acalorada nos Estados Unidos graças à forte pressão de grupos de consumidores, a discussão sobre o uso de antibióticos para promover o crescimento de animais criados para a produção de carnes ainda não parece ser uma questão prioritária para frigoríficos e grandes compradores no Brasil, tampouco para o governo federal. O uso
desses medicamentos alguns deles também destinados ao tratamento de humanos se transformou em uma das hipóteses mais aventadas para explicar o recente fenômeno das “superbactérias”, que ganharam resistência a algumas drogas.

Enquanto nos Estados Unidos empresas como a Tyson Foods e a Pilgrim’s Pride, controlada pela JBS, anunciaram que estão reduzindo o uso de antibióticos em suas criações de frango, no Brasil a iniciativa ainda se restringe a pequenos nichos (ver No Brasil, frango sem medicamento ainda é para poucos).

Para representantes da sociedade civil mundial, o aumento da resistência a alguma drogas pode estar associado à ingestão involuntária de antibióticos através do consumo de carnes, que aumentou exponencialmente na última década. Ao contrário do uso humano, restrito ao período da enfermidade, os antibióticos para criação são oferecidos diariamente, como prevenção a doenças e para promover o crescimento mais rápido. Estimativas indicam que cerca de 80% dos antibióticos comercializados hoje nos EUA são direcionados à indústria veterinária.

Autoridades em saúde são unânimes em ressaltar que ainda não é possível comprovar a relação entre o consumo de carnes de animais criados com antibiótico e o aparecimento das superbactérias. Mas os questionamentos, sobretudo nos países desenvolvidos, crescem à medida em que os casos de óbitos por resistência a medicamentos sobem nas estatísticas hospitalares e entram na pauta de discussões dos simpósios internacionais de saúde. E é nesse contexto que grandes grupos começam a promover mudanças no modo de produção animal nos EUA.

A primeira a anunciar uma nova política sobre a questão foi o McDonald’s. Em março passado, a rede americana
de fastfood que tem procurado adotar um cardápio mais saudável em meio a resultados financeiros ruins anunciou que não venderá mais nos EUA produtos com carne de frango tratado com antibióticos de uso humano.

A decisão vale só a partir de 2017, mas deflagrou um movimento em cascata de grandes fornecedores de frango no país: Tyson Foods e Pilgrim’s Pride declararam a eliminação gradual desses medicamentos. Na semana passada, a varejista Walmart engrossou o coro.

A postura dessas empresas reflete o esforço anunciado em 2013 pela FDA, a Agência para Alimentação e Medicamentos dos EUA, para retirar antibióticos com importância médica da aplicação animal. Ao todo, a FDA pretende eliminar o uso de 283 produtos veterinários que também têm uso humano, na expectativa de que isso evite que mais bactérias ganhem resistência. O pedido é “voluntário”, mas a pressão é grande o bastante para a estratégia avançar.

Boa parte desses medicamentos é misturada à ração também no Brasil. Apesar do debate no exterior, o assunto
não entrou na “agenda” nacional. Procurado por duas semanas, o Ministério da Agricultura evitou dar
informações, alegando indisponibilidade de portavozes.

Segundo o Valor apurou, o tema não foi contemplado na reunião de planejamento da Associação Brasileira de Proteína Animal (ABPA), entidade que representa empresas de carnes de frango e suína, neste mês.

O Mc Donald’s, que nos EUA capitaneou a corrente “carne livre de antibiótico”, afirmou que “100% do seu consumo de carne no Brasil é sem antibiótico” o que o colocaria, em um caso inédito, à frente da política da matriz. Mas seu principal fornecedor, a BRF, admite usar alguns medicamentos. Já o Walmart respondeu que a diretriz é restrita aos EUA, onde o debate está mais avançado.

O principal foco de discussão está na indústria de aves, o que explica por que só os fornecedores de frango se manifestaram até agora. Diferentemente dos suínos (tratados profilaticamente) e dos bovinos (medicados para crescer só quando confinados), as aves são criadas com antibióticos com a finalidade de apressar o crescimento e o abate.

De acordo com o professor João Palermo Neto, da Faculdade de Medicina Veterinária e Zootecnia da Universidade de São Paulo (USP), o ganho de peso mais rápido é a principal vantagem do antibiótico. O produto “normaliza a microbiota intestinal do animal, evitando processos inflamatórios subclínicos [que não são detectados], que prejudicam a absorção de nutrientes”. As inflamações são comuns em granjas com alta concentração de animais.

Aqui, a decisão americana e a repercussão na indústria foram vistas com surpresa. “Vai demorar um pouco para chegar ao Brasil, mas sempre achamos que a pressão viria só da Europa. Nunca imaginávamos que viria dos EUA”, afirma Ariel Mendes, diretor de produção da ABPA.

Historicamente, os EUA não se pautavam pelo “princípio da precaução”, que permite proibir determinado produto pelo risco potencial e não pela confirmação desse risco. Com os antibióticos, porém, o princípio adotado pelos americanos foi justamente esse, diz Palermo. “Os EUA se basearam nos princípios da ciência, que são os do Codex. Nesse caso, a pressão política e do consumidor falou alto”, diz o professor, membro do Comitê de Especialistas em Aditivos Alimentares do Codex Alimentarius, instituição vinculada à Organização Mundial de Saúde (OMS), e responsável pelos parâmetros de resíduos em alimentos.

Segundo Palermo, o risco de resistência bacteriana existe e preocupa em locais onde os antibióticos são muito usados. Mas, na avaliação do especialista, caso os promotores de crescimento provocassem resistência, os animais seriam os primeiros afetados. “Mas essa demonstração não tem sido comprovada”, afirma.

No Brasil, frango sem medicamento ainda é para poucos

Luiz Henrique Mendes e Bettina Barros – Valor Econômico:

São poucas as iniciativas de criação sem antibióticos no país. Segundo especialistas, o cenário tende a se alterar no longo prazo, o que deve motivar adaptações na indústria e inovações em nutrição e saúde animal. Entre os grandes nomes da indústria nacional de carnes, apenas a JBS já explora nichos de mercado com a venda de carne de frango criado sem qualquer tipo de antibiótico. Na prática, a companhia obtém preço melhor com a venda do produto diferenciado e ainda entende quão mais lento é o ganho de peso do frango tratado sem o medicamento.

Segundo Gilberto Tomazoni, CEO da JBS Foods, subsidiária da JBS que reúne as operações em aves, suínos e alimentos processados no Brasil, esse produto específico, da marca Seara, foi além da eliminação do promotor de crescimento. Também não são usados antibióticos com o objetivo de prevenção, com destaque para os anticoccidianos, que evitam uma doença causada por protozoário. Para isso, a JBS Foods também dedicou uma fábrica de ração apenas para esse fim. Isso acontece porque, normalmente, antibióticos são misturados na ração e a fábrica correria o risco de deixar resíduos dos aditivos. O frango sem antibiótico é produzido em Amparo (SP).

Do ponto de vista operacional, Tomazoni reconhece que o frango leva mais tempo para atingir o peso de abate definido pela empresa. Enquanto o frango convencional leva de 40 a 42 dias para atingir o peso ideal, o sem antibiótico leva 45 dias.

Pioneira na criação livre de antibióticos, há 20 anos a Korin abate seus frangos no país em ciclos de 46 dias, e usa nos animais probióticos e óleos essenciais. Diz que nunca registrou mortes por doença e a razão é o espaço entre as aves, que vivem soltas. Mas o abate é de 18 mil frangos/dia, contra os milhares de grandes produtores.

“Acredito que no futuro você pode ter um substituto para o aditivo antimicrobiano, mas hoje isso ainda não seria possível”, diz o professor João Palermo Neto, da Faculdade de Medicina Veterinária e Zootecnia da Universidade de São Paulo (USP).

Entre as alternativas estão os probióticos. Gerente de eubióticos da DSM para América Latina, Dino Garcez diz que as opções da empresa holandesa podem ter efeito “parecido”. Para isso, porém, os produtores teriam de adaptar o pacote tecnológico (manejo, nutrição e sanidade), o que encareceria a produção.

Maior produtora de carne de frango do país, a BRF não concedeu entrevista. Mas informou que utiliza os antibióticos conforme recomendação veterinária e a lei ­ a empresa tem quatro antibióticos registrados para uso no Ministério da Agricultura. E disse que “monitora possibilidades de redução gradual de seu uso na cadeia”.

abiquiflashes (28/05/2015 – 383)

  • Excipiente:  um dos principais excipientes utilizados pela indústria farmacêutica mundial na produção de comprimidos é a celulose microcristalina. O Brasil é um dos principais produtores mundiais deste adjuvante farmacotécnico e exportou, deste produto, US$ 6,4 milhões em 2015, até abril.
  • sulfato de condroitina: extraído de cartilagens de aves, bovinos e suínos este farmoquimico é usado, amplamente, no tratamento da osteoartrite. O Brasil exportou até abril de 2015 a importante cifra de US$ 2,1 milhões deste antiartrítico.
  • heparina: extraída da mucosa intestinal de bovinos e suínos a heparina é um dos mais importantes anticoagulantes usados no mercado mundial. Embora aquém das suas possibilidades, o Brasil exportou em 2015, até abril, US$ 7,4 milhões deste produto biológico.

De volta ao azul

Paulo Vasconcellos – Valor Econômico:

O enfraquecimento do mercado interno com a queda da atividade econômica reativou a importância de o Brasil recuperar espaço no comércio exterior. Exportar é o que importa para que a sétima economia do mundo saia do 25º lugar que ocupa hoje no ranking comercial entre as nações. Depois de ter registrado saldo negativo de US$ 3,9 bilhões em 2014, a balança comercial deve fechar no azul em 2015 e 2016.

Pesquisa Focus do Banco Central mostra que o mercado espera um superávit comercial de US$ 4,3 bilhões neste ano e de US$ 9,95 bilhões em 2016. A má notícia é que o resultado positivo não vai refletir uma melhora do desempenho nacional, mas a redução das importações, que será maior que a queda nas exportações. É o que o se chama de superávit negativo.

Governo e empresas lutam para reverter o cenário para embalar uma recuperação mais sustentável com o lançamento do Plano Nacional de Exportações (PNE), que começa a ganhar forma no Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior (Mdic), e os esforços da cadeia produtiva para aproveitar a desvalorização cambial, que torna o produto brasileiro mais competitivo. “As exportações, juntamente com o investimento, deverão ser os principais vetores do crescimento brasileiro pós­-ajuste da economia”, diz o ministro do Mdic, Armando Monteiro.

“Há queda de demanda nos mercados externos, mas o resultado da balança será positivo, principalmente por causa da recessão brasileira. O desempenho do comércio exterior brasileiro é pouco nobre”, afirma Fábio Silveira, diretor de pesquisa econômica da consultoria GO Associados. Especialistas e empresários também defendem um programa de desoneração da cadeia produtiva, porque só a desvalorização do câmbio não é capaz de impulsionar a venda do produto brasileiro no exterior. “O que o setor não precisa é de mais diagnóstico. Já está todo feito. Falta é uma política integrada de exportações”, diz José Augusto de Castro, presidente da Associação de Comércio Exterior do Brasil (AEB).

Em 2014, o saldo comercial brasileiro diminuiu US$ 6,2 bilhões na comparação com 2013. O déficit chegou a US$ 3,9 bilhões. Quinze dos 30 maiores países exportadores tiveram crescimento no valor exportado, entre eles os líderes ­ a China, que cresceu 11,8% e atingiu US$ 2,2 trilhões, e os Estados Unidos, que aumentaram 8,4% e venderam US$ 1,57 trilhão. Cinco repetiram o desempenho que vinham tendo. Dez registraram queda, puxados pelo Brasil.

A vulnerabilidade do comércio exterior brasileiro se explica pela dependência da pauta de produtos básicos. Os manufaturados perderam competitividade na última década e meia. A participação dos industrializados caiu de 59%, em 2000, para 38%, em 2013, de acordo com estudo da Fundação Centro de Estudos do Comércio Exterior (Funcex).

Já a participação das commodities saiu de 23% para 47% no mesmo período. O país colheu resultados positivos com a valorização da matéria­prima e o crescimento na demanda por insumos, mas perdeu a chance de aproveitar os anos de superávits da balança para azeitar os mecanismos de exportação. A reforma de portos e ferrovias é lenta, a cabotagem é praticamente inexistente, as estradas, por onde trafegam a maioria dos produtos, são mal conservadas. A política tributária e os juros desestimulam os investimentos. Sem fechar acordos comerciais bilaterais ou regionais, o Brasil fica fora das negociações internacionais que dão acesso a novos mercados. O real sobrevalorizado só estimulava as importações.

O ajuste do câmbio já se reflete em alguns segmentos. As exportações de madeira devem crescer 20% em 2015 na comparação com 2014 e alcançar 1,3 milhão de m3. “O setor florestal é muito competitivo no Brasil, que produz 35 mil m3 de pinus por hectare/ano em comparação a 10 mil m3 por hectare/ano dos Estados Unidos, mas toda a competitividade se perde depois nos gargalos logísticos”, diz Marco Tuoto, presidente da Tree Trading. “Os acessos aos portos são difíceis, a administração portuária ineficiente, a dragagem insuficiente para que o país receba grandes navios e os editais para os terminais privados previstos na nova Lei dos Portos foram impugnados pelo TCU por erros técnicos e legais”, diz Wilen Manteli, presidente da Associação Brasileira de Terminais Portuários (ABTP)

Beneficiada pela desvalorização do real, a indústria de calçado deve crescer de US$ 1,2 bilhão para US$ 1,3 bilhão neste ano. O segmento têxtil também projeta aumento nas vendas para o exterior. O carro brasileiro ficou 30% mais barato com o câmbio desvalorizado e vai ajudar no crescimento das exportações. Mas a melhora deve se restringir a esses produtos e nem todos têm contribuição significativa à balança comercial. A contrapartida negativa virá das commodities com preço em queda no mercado internacional.

“Agora era hora de exportar bens industrializados para compensar as perdas de commodities, mas nossa indústria está enfraquecida. O Brasil se deixou encurralar em poucos setores”, afirma Fábio Silveira, da consultoria GO Associados. “A cotação atual do dólar facilita, temos que aproveitar, mas precisamos aumentar a capacitação das empresas. Onze mil empresas estão no nosso foco de capacitação para tirar o país do descompasso nas relações comerciais”, diz David Barioni, presidente da Agência Brasileira de Promoção de Exportações e Investimentos (Apex­Brasil), que apoia o setor.

Das 16 milhões de empresas brasileiras, 44 mil importam. Menos da metade (20 mil) exportam. O dado revela um paradoxo. Durante mais de 500 anos, a economia do país foi voltada para a exportação ­ madeira, ouro, cana­de­ açúcar, cacau, café, borracha e soja. Nos anos 80, o superávit na balança comercial era usado para pagar os juros da dívida externa. A abertura do mercado brasileiro, na década de 90, e a aposta no mercado interno, principalmente para que o país passasse pela crise financeira mundial, marcam um novo ciclo, de acordo com os especialistas. O Brasil ainda pode ser o celeiro do mundo, mas precisa reinventar a sua vocação exportadora.

Busca de novos mercados será reforçada

Paulo Vasconcellos – Valor Econômico:

A expectativa do governo para este ano é que o setor exportador apresente uma performance melhor do que a do ano
passado. A estimativa é que o Brasil inverta o resultado negativo da balança comercial, com um pequeno superávit, influenciado também pela redução do déficit da conta ­petróleo e das importações. Mas esse é o primeiro passo para a retomada. “Uma maior integração da nossa economia aos fluxos do comércio exterior é condição essencial para a retomada do crescimento econômico”, diz o ministro do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior (Mdic), Armando Monteiro. Veja abaixo a entrevista que ele concedeu ao Valor por e­mail.

Valor: O que está sendo feito para repor o país no caminho do crescimento das exportações ­ como adequação cambial, ajuste fiscal, obras de infraestrutura e mudanças tributárias ­ é suficiente?

Armando Monteiro: O câmbio, sem dúvida, é um elemento muito importante. As exportações brasileiras sofreram muito com o longo período de valorização cambial. O novo patamar já significa um estímulo. Além disso, estamos apostando em uma agenda de desburocratização, simplificação e numa política comercial mais ativa, que possa inserir o país nas grandes correntes de comércio globais. A minha primeira visita oficial aos Estados Unidos, e em especial ao Departamento de Comércio Exterior, já está produzindo resultados concretos, com assinatura de um acordo de facilitação de comércio e definição de uma agenda de convergência regulatória. Já com relação às medidas gerais de desburocratização e facilitação, estamos trabalhando para acelerar as etapas que viabilizarão o pleno funcionamento do Portal Único do Comércio Exterior, uma iniciativa de ampla reformulação das operações de exportação, importação e trânsito aduaneiro que estabelece processos mais eficientes, harmonizados e integrados entre todos os intervenientes públicos e privados do comércio exterior. Um conjunto de medidas estruturantes e de apoio ao setor exportador estará reunido no Plano Nacional de Exportações.

Valor: Empresas e entidades do setor dizem que, no que compete ao Mdic, um dos pontos cruciais é o financiamento às exportações. Que providências estão sendo tomadas neste sentido?

Monteiro: Financiamento, seguros de crédito e garantias às exportações são itens muito importantes para a indústria nacional e estarão, certamente, contemplados no Plano Nacional de Exportação. Na última reunião da Câmara de Comércio Exterior foi aprovada a elevação do limite de exportação anual, de US$ 1 milhão para US$ 3 milhões, para enquadramento das empresas no conceito de micro, pequena e média empresa (MPME), mantendo­-se inalterado o limite de faturamento bruto anual das empresas em R$ 90 milhões. Com a alteração ampliamos significativamente o número de empresas que poderão acessar as coberturas do Seguro de Crédito à
Exportação.

Trabalhamos também para ampliar o grau de exposição e de alavancagem do Fundo de Garantia às Exportações. Essa condição é fundamental para que o setor privado possa aumentar sua participação no financiamento às exportações. Uma prova de que o governo está conferindo prioridade a essa agenda é a recente publicação de um decreto que isenta de PIS­/Cofins as operações de hedge realizadas pelos exportadores.

Valor: O Brasil é a sétima maior economia do mundo, mas ocupa apenas o 25º lugar no ranking comercial. Como corrigir isso?

Monteiro: O Brasil tem que conferir um novo status ao comércio exterior, que não pode ser tratado apenas como uma política conjuntural. Buscamos justamente trilhar este caminho com o Plano Nacional de Exportação, que objetiva estruturar uma política de médio prazo para ampliar o volume exportado, diversificar a pauta de exportação e os destinos.

Valor: Como elevar o valor agregado das nossas exportações e recuperar a competitividade dos manufaturados?

Monteiro: Além dos instrumentos de financiamento e garantias, uma agenda pró ativa de acesso aos mercados será importante para ampliar a participação dos manufaturados nas exportações. Por exemplo: o fortalecimento do comércio bilateral com os Estados Unidos, o nosso principal destino para esses bens, poderá produzir efeitos rápidos. No ano passado, essas exportações para a economia norte­americana cresceram 4%. Os Estados Unidos se tornaram o principal destino de bens manufaturados brasileiros. Em 2015, nos quatro primeiros meses, a expansão já alcançou 5,5%. Destaco ainda as vendas de máquinas e equipamentos para os Estados Unidos, que no ano passado
cresceram 25%.

Valor: O que se prevê para as commodities com a queda de preços nos mercados internacionais?

Monteiro: No primeiro quadrimestre deste ano, observamos a exportação de volumes recordes de minério de ferro e de petróleo, apesar da baixa cotação dessas duas commodities. Só para se ter uma ideia, os volumes de minério de ferro chegaram a 108 milhões de toneladas entre janeiro e abril. Isso reflete o aumento da produção, resultado de investimentos nesses setores nos últimos anos. Os preços das principais commodities se acomodaram e que podemos esperar pequenas altas, em relação aos preços praticados nos primeiros quatro meses. Mas, no geral, seguimos com uma perspectiva de preços inferiores aos praticados em 2014.

Valor: Em um cenário de queda da atividade econômica, que contribuição o comércio exterior pode dar
à recuperação do país?

Monteiro: No curto prazo, as exportações representam um importante canal para que as empresas possam manter seu volume de vendas e produção em níveis adequados evitando o acúmulo indesejado de estoques e o excesso de ociosidade, sobretudo num período em que o mercado interno está mais retraído. Em razão disso, e com o câmbio mais competitivo, as empresas já estão voltando o seu radar para o mercado externo. No médio prazo, a ampliação das exportações se traduzirá em ganhos de produtividade e de competitividade que transbordam para o mercado doméstico. É indiscutível que quem está submetido ao crivo da competição internacional está sempre buscando melhorar processos e produtos. Ou seja, a performance das exportações pode ser considerada um escrutínio da competitividade do país.

 

Acordos com México agradam setor produtivo

Sergio Lamucci – Valor Econômico:

A decisão de ampliar as negociações comerciais e a assinatura de um acordo para facilitar investimentos com o México atendem em grande medida demandas do setor produtivo e dos empresários brasileiros por uma atitude mais ousada do Brasil nas relações com outros países. Os principais documentos acertados ontem entre a presidente Dilma Rousseff e o presidente Enrique Peña Nieto buscam intensificar as trocas comerciais entre os países com tarifas reduzidas e dar mais estabilidade e segurança às empresas para investir, pleitos da Confederação Nacional da Indústria (CNI) embora a instituição também queira outros passos, como crédito para empresas que investem no exterior e medidas que evitem a bitributação.

Entre os documentos firmados ontem, o mais importante foi o acordo de cooperação e facilitação de investimentos (ACFI), para dar mais estabilidade às companhias brasileiras e mexicanas e tentar evitar controvérsias. A expectativa do governo é que isso dê mais segurança aos investimentos já existentes e ajude a atrair mais recursos para os dois países. O México tem US$ 23 bilhões investidos no Brasil, havendo US$ 2 bilhões de investimentos brasileiros na economia mexicana.

Ao falar das relações com o México, Dilma disse que é fundamental uma aproximação maior entre os dois países, as duas maiores economias da América Latina, que contam com grandes populações e grandes territórios. “Brasil e México não podiam ficar de costas um para o outro”, afirmou ela.

O presidente mexicano, Enrique Peña Nieto, afirmou que os dois países estão reinventando as suas relações, e que os acordos assinados “modernizam e atualizam o marco regulatório” do relacionamento.

Na visita de Estado da presidente Dilma, os dois governos firmaram ainda um acerto sobre serviços aéreos, para aumentar o número de voos entre os dois países. México e Brasil assinaram ainda memorandos de entendimento nas áreas de cooperação turística, de pesca e aquicultura, de conservação e uso sustentável de recursos naturais e um documento entre o BNDES e o Banco de Comércio Exterior do México.

Por fim, os dois países acertaram o reconhecimento mútuo da cachaça e da tequila como designações próprias e produtos típicos do Brasil e do México. Um dos objetivos do acordo é prevenir “o uso indevido dessas designações”, segundo nota do Itamaraty.