Diário Oficial (abril 2015)

abiquiflashes (30/04/2015 – 375)

  • Aminoácidos: o Brasil é um destacado produtor mundial de aminoácidos, que representam a menor expressão das proteínas, úteis no desenvolvimento e manutenção da saúde humana. Em 2015, até março, foram exportados US$ 43,2 milhões para várias partes do mundo.
  • ácidos biliares: estes ácidos (NCM 2918.14.00) representam uma expressiva fonte de divisas para o País. No primeiro trimestre de 2015, foram enviados ao exterior US$ 13.207.576,00, particularmente para o mercado italiano.
  • ácido salicílico: este produto, além da sua ação queratolitica, é um importante intermediário de síntese do ácido acetilsalicílico, pelo processo de acetilação. Foram exportados em 2015, até março, US$ 2.164.381,00 deste ácido.

abiquiflashes (27/04/2015 – 374)

  • sulfato de condroitina: este farmoquímico é importante no tratamento da artrose e é produzido a partir de cartilagens de bovinos, suínos e aves. Em 2015, até março, o Brasil exportou US$ 1.350.432,00 deste produto, com grandes possibilidades de aumento de volume de exportações em 2015.
  • Excipiente: a celulose microcristalina é um excipiente amplamente usado na produção de comprimidos pela indústria farmacêutica e o Brasil é um dos principais produtores mundiais deste adjuvante farmacotécnico. Foram enviados ao exterior em 2015, até março, US$ 5.041.152,00.
  • Antibióticos: US$ 11.958.142,00 em antibióticos (farmoquimicos) foram exportados pelo Brasil no primeiro trimestre de 2015, destacando-se a virginiamicina e algumas cefalosporinas.

abiquifi Alerta (011/2015)

Por ser do interesse daqueles empenhados na internacionalização da indústria brasileira, entendemos ser válida a publicação dos ótimos estudos desenvolvidos pela SOBEET – Sociedade Brasileira de Estudos de Empresas Transnacionais e da Globalização Econômica.

Embora de 2011, o primeiro estudo é muito atual e as conclusões não diferem dos dias atuais.

Já o segundo, de 2014, revela a mudança do perfil do investimento brasileiro.

http://www.sobeet.org.br

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Vacina para conter o HIV

O Globo:

Estudo de pesquisadores italianos indica que imunizante com proteína pode aumentar a eficácia de antirretrovirais utilizados por pacientes infectados.

A utilização de uma vacina por pessoas infectadas pelo HIV pode representar um avanço no tratamento do vírus. É o que indica estudo desenvolvido por pesquisadores do Centro Nacional Italiano de Aids do Instituto Superior de Saúde, em Roma. Divulgada ontem pelo periódico científico “Retrovirology”, a pesquisa constatou um aumento da eficácia de antirretrovirais a partir da aplicação de vacina com uma proteína considerada chave na replicação viral.

Os antirretrovirais, usados por pessoas com o HIV, impedem quase completamente a reprodução do vírus. No entanto, ele permanece se replicando em baixa velocidade. Além disso, os micro-organismos continuam a existir nos chamados “reservatórios”, células infectadas que podem ficar adormecidas por anos e não são afetadas pelos remédios.

A vacina utilizada pelos pesquisadores italianos é baseada na proteína TAT. Produzida no início da infecção do HIV, ela é responsável pela replicação do vírus e pelo enfraquecimento do sistema imunológico. Aplicando a vacina com uma pequena quantidade da TAT, os pesquisadores conseguiram estimular uma resposta imunológica, prevenindo a progressão da doença.

“Provamos, pela primeira vez, que a terapia antirretroviral pode ser intensificada por uma vacina. Esses resultados abrem novos cenários de investigação, como se a vacina pode ajudar a controlar o vírus onde os pacientes têm baixa adesão à terapia antirretroviral, simplificar o tratamento e reduzir a transmissão da doença”, afirmou a pesquisadora líder do estudo, Barbara Ensoli, em nota.

Os cientistas do Centro Nacional Italiano de Aids realizaram um ensaio clínico com 168 pacientes

infectados pelo HIV. Neles, foram aplicadas vacinas que continham 7,5 microgramas ou 30 microgramas da proteína. Para ambas as doses, os participantes receberam o imunizante uma vez por mês, ao longo de três ou cinco meses.

No início do experimento, nenhum dos participantes tinha anticorpos anti-TAT. Ao fim de três anos de acompanhamento, o estudo verificou que a vacina foi capaz de estimulá-los. Ela induziu também crescimento significativo de células que demonstram força do sistema imunológico. As melhores respostas foram observadas entre os que receberam a vacina com 30 microgramas de TAT, ao longo de três meses.

De acordo com Amilcar Tanuri, professor do Laboratório de Virologia Molecular da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), a mesma vacina já havia sido testada na prevenção do HIV e não apresentou bons resultados.

— Além disso, outros grupos da França e dos EUA já tentaram vacinar pacientes em uso da terapia antirretroviral sem sucesso — acrescenta.

Ele explica que, quando pacientes param de tomar antirretrovirais, o vírus latente nos “reservatórios” pode começar novos ciclos de reprodução e voltar agredir o sistema imune.

— Foi o que faltou no trabalho dos italianos. Se eles acharam que o “reservatório” de vírus latente diminuiu depois da vacinação com TAT, eles deviam retirar os antirretrovirais e ver se a carga viral reapareceria no plasma em altas concentrações — ressalva.

Ainda serão realizadas novas etapas de pesquisa sobre a eficácia da vacina no tratamento do HIV.

Serão realizados testes duplo-cego, em que participantes não sabem se estão tomando a substância em teste ou placebo, e examinadores não sabem qual amostra pertence a qual fonte.

Venda de defensivos cresceu em ritmo menor no Brasil em 2014

Mariana Caetano – Valor Econômico:

As vendas de defensivos agrícolas bateram um novo recorde no país em 2014, mas o ritmo de avanço do segmento
arrefeceu em relação aos anos anteriores. Levantamento recém concluído pelo Sindicato Nacional da Indústria de Produtos para Defesa Vegetal (Sindiveg) indica que a comercialização rendeu US$ 12,2 bilhões, 6,9% a mais que em 2013 (US$ 11,4 bilhões). Mesmo festejado pela indústria, o resultado sinaliza que o ciclo de crescimento de dois dígitos, registrado nos cinco anos anteriores, pode ter ficado para trás.

“Claro que dependerá muito do preço das commodities, do dólar e do clima. Mas o crescimento médio de 15% ao ano [de 2009 a 2013] foi muito positivo, até meio atípico, e já não deve se repetir”, disse ao Valor Amaury Paschoal Sartori, vice-presidente executivo do Sindiveg. A disparada alçou o Brasil ao topo do mercado global de defensivos, com pouco mais de 20% de vendas totais estimadas em US$ 56,5 bilhões. Os EUA ocupam a segunda colocação, com um mercado próximo de US$ 9 bilhões.

A desaceleração de 2014 foi fruto da combinação entre problemas climáticos (que estimularam a redução dos investimentos nas lavouras) e a diminuição da área plantada de culturas como milho, cana e algodão. Mas a soja ampliou sua participação nas vendas totais de 51,3%, em 2013, para 56% no ano passado e voltou a embalar o segmento.

A hegemonia da soja contribuiu também para que a comercialização de fungicidas apresentasse o incremento mais significativo entre as categorias de defensivos: 12,1%, para US$ 2,91 bilhões. O impulso foi dado pela maior necessidade de combate à ferrugem asiática, fungo responsável por perdas consideráveis em lavouras do grão. “Condições climáticas favoráveis à ferrugem e o desrespeito ao vazio sanitário em algumas regiões ajudaram a elevar a pressão da doença”, avaliou Ivan Sampaio, gerente de informação do Sindiveg.

Apesar de os fungicidas terem ganhado peso, a classe permaneceu como a terceira mais vendida, com 24% da comercialização total, atrás dos herbicidas (32%, ou US$ 3,902 bilhões) e dos inseticidas (39,9%, ou US$ 4,892 bilhões). A helicoverpa, lagarta que dizimou lavouras de grãos e fibras duas safras atrás, ainda colabora para manter os inseticidas como o carro chefe do segmento. “O agricultor está convivendo melhor com a helicoverpa. Mas muitos também cuidaram dela e descuidaram um pouco de outras pragas consideradas secundárias, como as lagartas falsa medideira e do cartucho, e a mosca branca”, afirmou Sampaio.

Os números do Sindiveg revelam, ainda, que a receita dos produtos chamados de “especialidades” (patenteados, portanto mais caros) aumentou em relação à dos genéricos: passou a 51,3% no ano passado, ante 45% em 2013. Em volume, porém, os patenteados ficaram apenas com 24% de participação, embora acima dos 18,5% do ano anterior. “Foram lançados mais dois ou três produtos diferenciados no ano passado, principalmente fungicidas, que justificam esse aumento dos especialidades”, contou o gerente do sindicato.

Este ano, o clima mais úmido tem favorecido os plantios de cana, café e citros, o que, a princípio, sugere um cenário melhor de vendas para esses segmentos, na perspectiva do Sindiveg. Com os problemas de seca que afetaram essas três importantes culturas de São Paulo em 2014, o Estado caiu no ranking de vendas do segundo para o quarto lugar, com US$ 1,479 bilhão. Mato Grosso, como já era esperado, seguiu na liderança, com US$ 2,567 bilhões, seguido por Rio Grande do Sul (US$ 1,582 bilhão) e Paraná (US$ 1,574 bilhão).

No momento, chama a atenção a lentidão nas negociações de insumos no país. “Os produtores estão esperando uma melhor definição do dólar para saber se compram defensivos agora ou não”, disse Sampaio. Normalmente, acrescentou o executivo, 65% das vendas se concentram no segundo semestre, mas em 2015 a balança pode pender ainda mais para a última metade do ano. “O primeiro trimestre começou fraco e isso se refletiu nas importações de produtos técnicos e formulados, que caíram ao menos 20% em volume”, afirmou.

Para 2015, a expectativa do Sindiveg é que as vendas de defensivos cresçam modestamente, de 1% a 2%, ou permaneçam estáveis. “Os mercados de milho e cana, por exemplo, têm patinado, mas a soja pode tirar essa diferença, como sempre”, concluiu Sampaio.

Pepsi vai substituir aspartame em refrigerante diet

Valor Econômico:

A PepsiCo vai começar a vender sua Diet Pepsi sem aspartame neste ano, uma das maiores mudanças na bebida em décadas, depois de reações contrárias dos consumidores ao adoçante artificial terem derrubado as vendas do refrigerante. Em agosto, a empresa vai substituir o aspartame por uma mistura de sucralose e acesulfame­K na Diet Pepsi, na Caffeine Free Diet Pepsi e na Wild Cherry Diet Pepsi vendidas nos EUA.

A decisão foi tomada depois da queda de 5,2% nas vendas da Diet Pepsi, em volume, em 2014, segundo números do boletim informático setorial “Beverage­Digest”. As vendas da Diet Coke, da Coca­Cola, que também leva aspartame, caíram 6,6%.

A PepsiCo antecipa­se à Diet Coke, refrigerante sem açúcar mais vendido nos EUA, na remoção do polêmico adoçante. Alguns consumidores vêm se afastando das duas marcas nos últimos anos, receosos de que o adoçante criado em laboratório possa causar câncer. A Agência de Remédios e Alimentos (FDA, na sigla em inglês) dos EUA sustenta que não há provas de que o aspartame traga risco à saúde.

“Décadas de estudo mostraram que o aspartame é seguro, mas a realidade é que a demanda dos consumidores nos EUA vêm mudando”, disse o vice-­presidente sênior da Pepsi, Seth Kaufman. “O consumidor de refrigerante dietético do tipo cola nos EUA vinha pedindo por uma boa cola dietética livre de aspartame.”

Ainda assim, a Coca­Cola não Tem cedido. “Atualmente não há planos de mudar o adoçante da Diet Coke, o refrigerante não calórico favorito dos EUA”, escreveu Scott Williamson, porta­-voz da empresa, em e­mail. “Todas as bebidas que oferecemos e ingredientes que usamos são seguros.”

A decisão da PepsiCo chega depois do aumento das queixas nos últimos dois anos ­ um retorno que chegou por meio de centrais telefônicas de atendimento ao consumidor, mídias de relacionamento social e cartas, segundo Kaufman. “Isso vem acontecendo há algum tempo e a escala nos últimos dois anos foi realmente grande”, disse Kaufman.

A PepsiCo não tem planos de substituir o aspartame na Diet Mountain Dew, apesar da queda de 3% nas vendas. O produto é o refrigerante dietético mais vendido da empresa. Tampouco há planos para substituir o aspartame de outros refrigerantes da PepsiCo, segundo Kaufman. O foco da mudança está nos refrigerantes do tipo cola com vendas em queda. No caso da Pepsi Max, por exemplo, os consumidores não citaram o ingrediente entre os dez maiores motivos que os levaram a beber menos, disse o executivo.

A FDA aprovou o uso de aspartame em algumas bebidas e alimentos em 1981. Em 1996, foi considerado um “adoçante para usos gerais”, o que lhe deu ampla liberdade de uso. “O aspartame é uma das substâncias estudadas mais exaustivamente na cadeia de fornecimento de alimentos para seres humanos, com mais de cem estudos corroborando sua segurança”, de acordo com a agência.

Para manter expansão, fabricante terá de buscar novos segmentos

Stella Fontes – Valor Econômico:

De tempos em tempos, todos os tipos de negócio têm de passar por alguma renovação para manter a trajetória de crescimento ou fazer frente a desafios e crises. No caso da indústria farmacêutica, que experimentou taxas de crescimento de dois dígitos no Brasil na última década, é chegada a hora de se adaptar a um novo ritmo de evolução do mercado doméstico de medicamentos e buscar uma nova orientação para as vendas, mostra um estudo recente da McKinsey & Company.

Conforme o documento, o mercado nacional de fármacos seguirá até o fim da década com taxas positivas, porém inferiores às que foram verificadas nos últimos anos. Depois de crescer 14,9% ao ano entre 2005 e 2013, o mercado farmacêutico nacional deverá avançar a taxas de 7% a 10% ao ano até 2020, quando atingirá R$ 107 bilhões em vendas anuais. Diante dessa desaceleração, os laboratórios deverão mirar regiões e segmentos menos tradicionais, o que modificará os canais utilizados hoje pela indústria.

“Haverá mudanças importantes, mas os fatores ainda são favoráveis: a consolidação da classe média, que vê valor em saúde, a evolução da cobertura por planos e o fato de a saúde seguir como prioridade nacional”, diz Paula Ramos, uma das co-­autoras do estudo da McKinsey. Por outro lado, o atual cenário macroeconômico afeta negativamente todos os mercados, especialmente a liberação de recursos públicos. “As empresas terão maior dificuldade de acessar essas vendas”, afirma.

Conforme a McKinsey, as vendas no varejo devem acompanhar a trajetória do mercado farmacêutico, com expansão de 8% a 10% ao ano nos próximos cinco anos, atingindo R$ 75 bilhões no fim da década. Já os negócios na área institucional pública devem mostrar desaceleração importante, de 16,6% ao ano entre 2005 e 2013 para algo entre 6% e 8% ao ano até 2020. Ao mesmo tempo, segmento institucional privado, formado por hospitais e planos de saúde, deve mostrar taxa de expansão de 7% a 9% ao ano, para R$ 8 bilhões em 2020, frente a crescimento médio anual de 15% desde 2005.

“O principal tema é que a indústria tem de ser mais granular, investir mais em segmentação”, diz Paula. Regiões e segmentos menos tradicionais e a utilização de canais mais remotos para alcançar o consumidor devem entrar no planejamento dos laboratórios, segundo a especialista. “Se antes a indústria olhava para as compras do governo federal, agora terá de olhar mais para as secretarias de saúde”, exemplifica.

Os mercados do Sudeste seguirão como importante praça de negócios para a indústria farmacêutica, em termos de volume, mas, cada vez mais, os laboratórios terão de desenvolver modelos economicamente viáveis para chegar a outros mercados. Municípios com população entre 20 mil e 500 mil habitantes, conforme a consultoria, devem proporcionar as maiores taxas de crescimento nos próximos anos.

De acordo com Tracy Francis, também co­autora do estudo, a nova fase da indústria farmacêutica deve ser marcada por negócios mais enxutos. Segundo ela, o Brasil tende a apresentar produtividade baixa em relação a outros países emergentes e o “novo” modelo de negócios deve contemplar esse gargalo. “Será preciso buscar novos meios de chegar aos médicos, com o reforço, por exemplo, de representantes que tenham formação em medicina”, afirma Tracy.

Trinta anos de empresa é um evento raro, não vergonhoso

Lucy Kellaway – Valor Econômico:

Na semana passada, comemorei minhas bodas de pérola no “Financial Times”. Há 30 anos, dia após dia, me dirijo ao mesmo lugar para trabalhar. Essa rotina foi interrompida apenas por algumas licenças-­maternidade, todas agora num passado distante.

Cinco anos atrás, quando já trabalhava no jornal havia 25 anos, escrevi uma coluna a respeito concluindo que, embora fora de moda, um período tão longo era mais uma coisa boa do que ruim. Para comemorar aquele aniversário, o “FT” me deu um cheque e eu comprei uma pesada pulseira de prata, que já perdi.

Desta vez, planejei deixar de lado tudo isso. Não haveria colunas comemorativas nem pulseiras de prata. Há algo meio que vergonhoso em ser um dos funcionários mais antigos do jornal. Consigo me lembrar de apenas outros três que estão no “FT” há mais tempo que eu ­ e um deles tem a desculpa de ser o editor.

E o pior é que recentemente me deparei com uma “gestora de talentos” que revelou que, na grande companhia em que trabalha, o período ideal para começar a despachar as pessoas é quando completam dez anos de casa, uma vez que a essa altura elas começam a se acomodar.

Mas na quinta­feira passada, enquanto me dirigia ao trabalho de bicicleta sob o sol da manhã, um percurso que já fiz milhares de vezes, senti uma alegria imensa enquanto passava pela Catedral de St. Paul. Warren Buffett, pensei, está há 50 anos na Berkshire Hathaway. Carol Loomis completou 60 na “Fortune”. Eles provam que é possível ficar no mesmo grupo para sempre sem perder a imaginação.

Quando cheguei à redação, disparei por impulso um e­mail para o jornal inteiro convidando todos a comer um bolo comigo naquela tarde ­ e solicitando reflexões sobre o significado de 30 anos de trabalho.

Lealdade misturada com estupidez, respondeu um colega. Errado, pensei. Não tem nada a ver com lealdade. Eu poderia ter sido desleal sem problemas, mas nunca tive esse interesse. E como os órgãos de imprensa onde eu poderia trabalhar acabaram perdendo força ou foram fechados, essa decisão acabou não sendo estúpida.

Limitação, sugeriu outro. Ele havia trabalhado em muitos lugares e como resultado disso sentia­-se mais aberto. Mas será que isso é por si só uma coisa boa? Se a cada dia ou semana você precisa encontrar algo engraçado ou curioso para um novo artigo, podcast ou vídeo, isso não é estímulo mais que suficiente para se passar a vida inteira nesse emprego?

Um terceiro colega, também com bastante tempo de casa, reclamou que permanecer no mesmo lugar significou ser engolido pelas políticas locais e que velhos descontentamentos foram acentuados. É possível, embora eu veja isso de outra maneira. O longo tempo de serviço me deixou alheia à política e não preciso mais perder tempo tentando descobrir quem é confiável e quem não é, uma vez que já sei.

Ao escrever isso, estou começando a me sentir provocadora. Por que estou me desculpando ou explicando coisas?

Quando alguém é casado por 30 anos, não sente necessidade de se justificar. Tal estabilidade é universalmente admirada: é um sinal de que você fez uma boa escolha e depois a fez funcionar. Não aprovamos a promiscuidade nas relações. Então, por que a admiramos quando o assunto é trabalho?

Conheço alguém que trabalhou em cinco bancos de investimentos diferentes em oito anos. Toda vez que ele mudava de emprego ficava mais rico, o que foi bom para ele, mas não consigo enxergar o que há de admirável nisso.

Como bodas de pérola no local de trabalho são raras, elas deveriam ser valorizadas mais do que nunca. Antes, ter muito tempo de casa implicava que a pessoa era estúpida demais para abandonar um emprego tedioso ­ e que o patrão era bondoso demais para demiti­la. Mas agora, a meritocracia impera na maior parte dos lugares. Os incompetentes geralmente são encorajados a ir embora, para serem incompetentes em outro lugar.

Assim, 30 anos de serviço sugere uma decisão mútua de permanecer junto. Conforme disse um de meus colegas, essa minha longevidade prova apenas uma coisa: que eu tive muita sorte. Encontrei um lugar de que gosto e ele também gosta de mim. Enquanto as pessoas se reuniam em torno do bolo, conversei com elas, algumas das quais conheço há 20 anos e outras que mal conheço. Então, me ocorreu que você não precisa procurar um novo emprego para ter novos colegas. Se você ficar onde está, eles virão até você.

Perguntei a um jovem brilhante que recentemente entrou para o jornal como se sentiria se estivesse no “FT” daqui a 30 anos. Ele me olhou de boca aberta, sem ter o que dizer. Isso ocorreu em parte porque ele estava com a boca cheia de bolo, mas também porque ele simplesmente não conseguiu imaginar tanto tempo. O que suponho ser justo o suficiente. Naquele dia primaveril de 1985 quando entrei no “FT” pela primeira vez, ele nem havia nascido.

Lucy Kellaway – Colunista do “Financial Times”

Nova geração de executivos impulsiona fusões

Jonathan D. Rockoff e Joseph Walker – Valor Econômico:

Alguns anos atrás, as companhias farmacêuticas que dominavam as manchetes de fusões e aquisições tinham nomes conhecidos, como Pfizer Inc., Merck & Co. e Novartis AG.

Hoje em dia, uma nova geração de consolidadores domina o noticiário com nomes bem menos familiares: Actavis PLC, Endo International PLC e Valeant Pharmaceuticals International Inc. Nas últimas semanas, duas outras companhias relativamente desconhecidas, a Mylan NV e a Teva Pharmaceutical Industries Ltd., também entraram para o grupo.

Juntas, essas empresas menos conhecidas assinaram ou propuseram nos últimos meses aquisições que valem US$ 180 bilhões no total, despertando a atenção de investidores e banqueiros.

Elas também estão se tornando grandes geradoras de receita, registrando um faturamento conjunto de US$ 52 bilhões no ano passado, 86% maior que em 2010. O crescimento da Actavis e da Valeant, as mais agressivas consolidadoras, é ainda mais impressionante. Até duas semanas atrás, a Actavis tinha um valor de mercado de mais de US$ 119 bilhões, um aumento de 22 vezes desde 2010; o valor da Valeant disparou 32 vezes durante o mesmo período, para US$ 84,73 bilhões. Mas a dívida da Actavis e da Valeant também aumentou substancialmente, quase dobrando como percentagem dos ativos totais desde 2010, segundo a FactSet.

Há vários fatores por trás dessa ascensão. Custos baixos de crédito abriram espaço para novas empresas crescerem através de fusões e aquisições. Países como a Irlanda têm oferecido incentivos tributários para companhias que compram empresas locais e se mudam para o país. Uma vez reincorporadas, essas empresas ganham uma vantagem em fusões e aquisições pelo fato de que as companhias que elas vierem a comprar poderão muitas vezes se beneficiar de suas alíquotas menores de impostos. E investidores têm premiado a consolidação ao elevar os preços das ações das empresas compradoras, o que, por sua vez, tem barateado as aquisições com pagamento em ações.

Diversos dos novos diretores-­presidentes vêm de fora da indústria farmacêutica, o que os torna avessos a algumas das práticas tradicionais do setor, como gastos altos com pesquisa. O corte de custos tem sido um foco importante dos negócios fechados pelos novos barões farmacêuticos.

Milhares de funcionários já perderam seus empregos, incluindo os pesquisadores que antes eram considerados a força vital da indústria. Alguns analistas e autoridades do setor questionam a estratégia, argumentando que ela solapa os programas de desenvolvimento de medicamentos que podem ser responsáveis por vendas expressivas mais tarde.

Os nomes mais tradicionais da indústria farmacêutica não estão de fora da onda de fusões e aquisições. Este ano, a Merck, que é conhecida fora dos Estados Unidos como MSD, comprou a fabricante de antibióticos Cubist por US$ 8,4 bilhões, e a Pfizer fechou acordo para comprar a Hospira Inc. e seus medicamentos injetáveis por US$ 16 bilhões.

No entanto, agora elas têm que dividir o palco com companhias como a Mylan. Em grande parte por causa das aquisições, a Mylan é agora a segunda maior em vendas de medicamentos genéricos nos EUA depois da Teva, segundo a IMS Health, com receita de US$ 7,8 bilhões no ano passado. O presidente do conselho de administração da empresa, Robert Coury, tem sido o arquiteto da expansão da companhia desde que começou a assessorar a Mylan em 1995. Desde que Heather Bresch assumiu como diretora­presidente em 2012, o valor de mercado da Mylan quadruplicou, para mais de US$ 36 milhões.

Em fevereiro a Mylan completou a aquisição, por US$ 5,7 bilhões, da divisão de medicamentos genéricos da Abbott na Europa, o que o permitiu reduzir sua carga de impostos ao reincorporar a empresa, que é americana, na Holanda. Este mês, a Mylan fez uma oferta maior de aquisição, de US$ 28,9 bilhões, pela Perrigo Co. PLC, da Irlanda.

Numa questão de dias, a Teva entrou em cena e fez oferta hostil de US$ 40 bilhões pela própria Mylan, temendo que se a Mylan completasse a aquisição da Perrigo, a empresa ficaria grande demais para a Teva adquirir, segundo uma pessoa a par da situação.

Foi o maior negócio proposto no setor de saúde este ano e um movimento ousado do diretor­presidente da Teva, Erez Vigodman, que procura novas fontes de receita para compensar a esperada queda nas vendas da empresa por causa da concorrência com genéricos do Copaxone, remédio da Teva contra esclerose múltipla.

Vigodman estava no conselho da Teva desde 2009, mas era um estranho na indústria farmacêutica, tendo antes liderado a maior empresa de defensivos agrícolas genéricos do mundo. A Teva, empresa israelense fundada em 1901, começou a copiar medicamentos para os israelenses quando o então novo país restringiu suas importações. As vendas nos EUA deslancharam depois que a Teva reconheceu o potencial de uma lei americana de 1984 que autorizava a venda de medicamentos genéricos.

Nenhuma companhia farmacêutica cresceu tão rapidamente nos últimos anos quanto a Actavis, outrora uma companhia relativamente pequena de genéricos. A empresa deslanchou quando a Watson Pharmaceuticals comprou a companhia suíça Actavis em 2012 e adotou seu nome. Depois, comprou a Warner­Chilcott, da Irlanda, em um negócio também envolvendo inversão fiscal.

Brent Saunders, que já foi especialista em regulamentação da PricewaterhouseCoopers, tornou­se o diretor­ presidente da Actavis depois que a empresa adquiriu por cerca de US$ 25 bilhões a Forest Laboratories em julho passado. Menos de um ano depois, a Actavis completou a aquisição da Allergan Inc., fabricante do botox, por cerca de US$ 66 bilhões.

Ao fazê-­lo, ela desbancou a Valeant e seu diretor­-presidente Michael Pearson, um feroz consolidador. Desde que assumiu o cargo no início de 2008, Pearson liderou fusões e aquisições no valor de cerca de US$ 34,6 bilhões, segundo a Dealogic. No mês passado, a Valeant fechou acordo para comprar a fabricante de remédios para estômago Salix Pharmaceuticals Ltd. por US$ 11,1 bilhões, superando uma oferta rival da Endo.