Grupo Raia Drogasil dobra o lucro em 2014 e inicia nova fase

Adriana Mattos – Valor Econômico:

Maior grupo varejista de farmácias do país, a Raia Drogasil fechou no ano passado o ciclo de integração de suas duas redes com crescimento em receita, melhora na rentabilidade, queda na relação entre receita e despesas e ganhos na margem de lucro. Custos se mantiveram sobre controle mesmo após acelerada abertura de lojas – 131 inaugurações em 2014 (a meta para 2015 é manter esse patamar). Os números foram publicados ontem, no relatório de resultados.

Concluída boa parte da fase de unificação dos negócios, a empresa inicia um período em que começa a trabalhar aspectos que ficaram em segundo plano desde a fusão das cadeias, em 2011.

Experiência de compra na loja, que ainda está distante do que a empresa quer, e a forma como a companhia faz a gestão das categorias vendidas entram nessa lista de prioridades para os próximos anos. Também terá que ser aprimorado o uso da base de informações que a companhia tem de seus clientes, para tentar ser mais assertivo na venda. “Fazemos isto melhor na Raia do que na Drogasil. É um dos aspectos que vamos ter que trabalhar”, disse ontem Marcílio Pousada, presidente da companhia, após publicação do balanço.

No ano passado, a empresa apurou aumento de 18,6% nas vendas líquidas, para R$ 7,39 bilhões. De outubro a dezembro, o valor foi de pouco mais de R$ 2 bilhões, expansão de 20,2%. O lucro líquido em 2014 somou R$ 221,4 milhões, mais que o dobro dos R$ 100,9 milhões de 2013. De outubro a dezembro, o lucro registrou alta de 123,4%, para R$ 62,15 milhões.

Ao se considerar o número ajustado por despesas não recorrentes, o lucro líquido no trimestre foi de R$ 75,4 milhões, um incremento de 56,8% sobre mesmo período de 2013. No ano, o lucro líquido ajustado atingiu R$ 270,4 milhões, 53,8% quando comparado a 2013.

A participação das despesas com vendas na receita bruta se manteve estável em 18,3%, em relação ao mesmo período de 2013 (18,4%). Portanto, custos ficaram sob controle apesar da expansão nas aberturas no ano. Foram inaugurados, de outubro a dezembro, 51 pontos, maior volume de aberturas entre os quatro trimestres do ano – em parte pela entrada no mercado no Nordeste.

No quarto trimestre, a margem bruta atingiu 27,6%, aumento de 0,9 ponto. As vendas “mesmas lojas” (em operação há mais um ano) subiram 11,4% no ano passado e 13% no quarto trimestre, um dos melhores índices desde a fusão das redes. Vendas mais aceleradas em outubro, mês de temperaturas altas, em parte, explicam o índice, disse Eugênio De Zagottis, vice-presidente de relações com investidores e planejamento.

“O sólido crescimento de vendas ‘mesmas lojas’ da Raia Drogasil valida a nossa tese de resiliência para o mercado de varejo de drogarias, com o crescimento das vendas quando comparados com os resultados de outras empresas de consumo e varejo, como Grupo Pão de Açúcar e Natura “, escreveu em relatório ontem Guilherme Assis, analista da Brasil Plural. “As farmácias continuam a roubar participação de supermercados e do canal de vendas diretas”.

Dados da Nielsen mostram que a participação de mercado (em valor) das grandes redes de drogarias na venda de itens de higiene pessoal e cosméticos passou de 15,4% em 2010 para 16,6% ao fim de 2014. Supermercados e hipermercados caíram de 54,2% para 52,4%. Isso mostra que não apenas o ritmo de envelhecimento da população sustenta o crescimento desse setor. Há migração de clientes entre canais.

Para De Zagottis, após a integração das redes, a companhia teve ganhos de escala e eficiência, e passou a “executar melhor”, ou seja, trabalhar melhor o dia a dia da operação. Ele voltou ontem a descartar planos de aquisição. A Drogaria Pacheco São Paulo decidiu retomar conversas com a CVS, como antecipou o Valor, e a BR Pharma colocou redes à venda. “Nós abrimos 569 lojas em cinco anos. Isso equivale à metade de uma Raia Drogasil. Não precisamos adquirir redes, não valem o custo”.

Ainda dentro desse novo foco de prioridades da companhia para os próximos anos, o grupo esclarece que a Farmasil ainda é vista internamente como “um projeto em estudo”. A rede de farmácias tem foco nas classes C e D. “Não vamos colocar isso para rodar agora. Nosso plano nos próximos anos ainda é crescer com Raia e Drogasil.”

Finep prevê investir R$ 450 milhões para apoiar ” startups” de tecnologia

Murillo Camarotto – Valor Econômico:

Empresas nascentes de base tecnológica. Essa é a definição escolhida pela Financiadora de Estudos e Projetos (Finep), empresa vinculada ao Ministério de Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI), para tratar das chamadas “startups”. Está previsto para o mês que vem o lançamento do programa Inova Startup, pelo qual a Finep planeja injetar R$ 450 milhões até 2018 em projetos promissores de inovação.

Apesar de normalmente associado ao segmento tecnológico, o termo “startup” pode servir para qualquer ideia inovadora ou grupo de pessoas à procura de um modelo de negócio. O programa da Finep, entretanto, é limitado às milhares de pequenas empresas de tecnologia que precisam de um empurrão financeiro para desabrochar. A expectativa é que 2 mil delas recebam apoio do Inova Startup até o fim de 2018.

Incipiente e cercado de entraves burocráticos, o setor poderá ter no programa da Finep o “pulo do gato”, segundo definição de seu presidente, Glauco Arbix. Ele explica que um dos principais entraves aos aportes nas “startups” é o impedimento legal para que fundos de investimentos em participações coloquem dinheiro em empresas de capital limitado. Por essa razão, o programa da Finep vai viabilizar os investimentos via aquisição de opções de compra de participação nas empresas.

A transação vai ser feita por meio de um contrato preliminar de aquisição de participação societária. Pelo modelo proposto, a Finep vai trocar R$ 150 mil pela opção de ficar com 5% do capital da “startup” no futuro. Também está prevista a troca de R$ 300 mil por 10%. “Essa é a grande novidade”, disse Arbix, que apresentou ontem o Inova Startup durante a reunião do Conselho Deliberativo do Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (Sebrae), em Brasília.

A estratégia é realizar em 2015 a versão piloto do programa, pelo qual a Finep pretende desembolsar R$ 15 milhões com investimentos em cem “startups”. “Ninguém conhece esse mercado, por isso vamos avaliar como vai funcionar neste ano”, disse o executivo. Poderão pleitear os aportes – liberados mediante processo de seleção – empresas nascentes de base tecnológica com faturamento anual de até R$ 3,6 milhões.

A escolha das empresas, segundo Arbix, será dividida em duas etapas. Na primeira, serão avaliados a solução inovadora, o produto e o processo, bem como a capacidade tanto da empresa quanto dos empreendedores. Após essa fase, o projeto terá que enfrentar ainda uma banca presencial de examinadores, para a qual serão convidados potenciais investidores privados.

Um dos principais objetivos do programa é facilitar a interação entre startups e outros investidores. No caso da Finep, o aporte nas empresas será reavaliado periodicamente, podendo a empresa estatal se consolidar como sócia minoritária, revender sua participação a outros interessados ou, num cenário em que a “startup” naufragar, simplesmente sair do negócio.

De acordo com Arbix, o programa foi bem recebido na reunião do Sebrae, da qual também participaram o ministro da Secretaria da Micro e Pequena Empresa, Guilherme Afif Domingos, e o presidente da Confederação Nacional da Indústria (CNI), Robson Andrade. O Sebrae vai participar em várias frentes do programa, desde a divulgação até o treinamento dos empreendedores para a preparação das apresentações às bancas.

AEB Comunica

Comunicamos que foi publicado em edição extra do Diário Oficial da União de hoje, o Decreto nº 8.415, que traz a nova regulamentação do Regime Especial de Reintegração de Valores Tributários para as Empresas Exportadoras – REINTEGRA, instituído pela MP 651/2014, convertida na Lei 13.043/2014. O decreto define os novos percentuais de ressarcimento, a saber:

“I – 1% (um por cento), entre 1º de março de 2015 e 31 de dezembro de 2016;

II – 2% (dois por cento), entre 1º de janeiro de 2017 e 31 de dezembro de 2017; e

III – 3% (três por cento), entre 1º de janeiro de 2018 e 31 de dezembro de 2018.

§ 8º Ato do Poder Executivo poderá rever as alíquotas de que trata o § 7º, observada a evolução macroeconômica do país.”

Não está previsto o que ocorrerá com o regime após 2018. A AEB tem defendido a previsibilidade das políticas públicas, razão pela qual se coloca a favor do REINTEGRA com a alíquota de 3% e de caráter permanente.

Importação de defensivos bate novo recorde

Mariana Caetano – Valor Econômico:

Puxadas pelo aumento da demanda doméstica por inseticidas, as importações brasileiras de defensivos agrícolas aumentaram e voltaram a bater recorde em 2014, confirmando uma tendência considerada importante para a manutenção da produtividade das lavouras, mas que preocupa cada vez mais os Ambientalistas.

Levantamento do Sindicato Nacional da Indústria de Produtos para Defesa Vegetal (Sindiveg) indica que o país trouxe do exterior 418 mil toneladas de agroquímicos (entre produtos técnicos e formulados) no ano passado, 2,4% mais que em 2013. O valor dessas compras subiu de US$ 7,1 bilhões para US$ 7,3 bilhões na mesma comparação.

A importação de inseticidas foi responsável por US$ 2,7 bilhões desse total, ou 127,5 mil toneladas, uma elevação de 13,26% em relação ao ano anterior. Esse incremento refletiu o temor dos produtores com os ataques de lagartas como helicoverpa e falsa-medideira em lavouras de grãos e algodão.

O tratamento de sementes, um mercado “jovem” mas que já movimenta US$ 750 milhões em inseticidas no país, também deu sua contribuição. Mas, mesmo assim, os inseticidas continuaram a ocupar a segunda posição dentre os agroquímicos mais adquiridos lá fora, atrás dos herbicidas – que, capitaneados pelo glifosato, voltaram a responder por mais da metade das importações totais.

A dianteira dos herbicidas foi mantida apesar da queda de 5,12% no volume trazido do exterior em 2014, para 225,19 mil toneladas, reflexo da seca que atingiu o país e reduziu o ímpeto das ervas daninhas. “O fato é que seguimos altamente dependentes de importação em defensivos. Em torno de 80% dos produtos vendidos no Brasil são de origem importada”, disse ao Valor Ivan Sampaio, gerente de informação do Sindiveg.

Existem cerca de 300 ingredientes ativos disponíveis atualmente no mercado, mas apenas dez deles são sintetizados no Brasil, conforme Sampaio. “Esse cenário é o oposto das décadas de 1970 e 1980, quando 80% do produto comercializado no país vinha do mercado local”, afirmou.

A explicação para essa inversão, acrescentou o gerente do Sindiveg, está nos entraves regulatórios enfrentados pelo segmento. Atualmente, as indústrias veem mais facilidades em importar defensivos do que em produzi-los localmente.

“Há muita restrição, muita fiscalização. E não tem isonomia com o produto importado”, disse Sampaio. Pesa também para esse desestímulo o demorado processo de autorização de novos registros de agroquímicos no Brasil.

Do volume importado pelo país em 2014, 56,2% corresponderam a produtos técnicos (que é o princípio ativo, matéria-prima para os defensivos), enquanto os produtos formulados (agroquímico final) representaram os 43,8% restantes. É a esta última atividade que as indústrias de defensivos do Brasil mais se dedicam. “O Brasil é hoje um grande formulador de defensivos, utilizando-se do produto técnico trazido do exterior”, disse Sampaio.

A China seguiu como a principal origem dos defensivos importados pelo Brasil, com uma fatia de 26,3% do total. Os chineses, ao lado dos indianos – que, por ora, respondem por apenas 6,27% das compras do país no exterior -, têm avançado em progressão geométrica no mercado brasileiro.

O motivo é a forte atuação no segmento de agroquímicos genéricos, ou “pós-patente” – produtos com patentes já expiradas e cujos registros são autorizados com maior celeridade -, o que catapultou esses dois países fornecedores, com preços mais competitivos.

Para 2015, não há sinais de que as importações de defensivos pelo Brasil vão arrefecer. Ainda que o curso do mercado possa mudar diante das condições climáticas, da volatilidade do dólar e dos preços dos grãos, o Sindiveg prevê uma nova alta de, pelo menos, 2% no volume de agroquímicos trazidos do exterior este ano.

País vai à feira de Milão para ‘vender’ alimentos

Fernando Exman – Valor Econômico:

O governo usará a Expo Milão, ExposiçãoUniversal realizada a cada cinco anos e que em 2015 será organizada pela cidade italiana, para tentar impulsionar as exportações de alimentos e de empresas da cadeia produtiva do setor. A ação tem uma justificativa estratégica, uma vez que o segmento de alimentos tem grande peso na balança comercial brasileira: o tema da Expo deste ano será “Alimentando o mundo; Energia para a vida”.

Os preparativos para a participação brasileira são debatidos em um grupo interministerial presidido pelo Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior, que delegou à Agência Brasileira de Promoção de Exportações e Investimentos (Apex-Brasil) a operacionalização da ação. A Expo Milão ocorrerá entre maio e outubro, com a participação de 145 países, organismos internacionais, organizações da sociedade civil e representantes de empresas. Os organizadores esperam 20 milhões de visitantes.

“É muito importante para a imagem do Brasil, principalmente neste caso específico porque o tema é alimento”, afirmou ao Valor PRO, serviço de informações em tempo real do Valor, o secretário-executivo do Ministério do Desenvolvimento, Ivan Ramalho. “É uma oportunidade extraordinária”, acrescentou, citando produtores de grãos, carnes, vacinas, defensivos agrícolas, máquinas, equipamentos, colheitadeiras, integrantes do segmento de logística, alimentos industrializados, embalagens, fertilizantes e instituições financeiras responsáveis pelo fomento do setor.

O investimento previsto na participação do Brasil na Expo Milão é de R$ 80 milhões, cifra que o governo pretende dividir com parceiros privados. Tais recursos serão usados na construção de um pavilhão de 4 mil metros quadrados, que terá um jardim com plantas, árvores e flores nativas do Brasil. Dentro, equipamentos interativos demonstrarão tecnologias de produção, agroenergia, agricultura familiar e segurança alimentar, agricultura empresarial e a rede do agronegócio brasileiros.

Para conquistar adesões na iniciativa privada, o governo vem realizando um périplo em associações setoriais para divulgar a ação. Estão sendo ofertadas cotas de patrocínio que variam de R$ 500 mil a R$ 2,5 milhões.

No ano passado, as exportações da indústria alimentícia caíram 6,1% em relação a 2013, para US$ 33,706 bilhões. O principal revés foi observado nos embarques de açúcares e produtos de confeitaria, segmento que em 2014 exportou US$ 9,616 bilhões e no ano anterior vendeu US$ 12,014 bilhões. O principal item da pauta da indústria de alimentos – carnes e miudezas COMESTÍVEIS – viu crescer suas exportações em 4,3% no período, para US$ 15,417 bilhões.

abiquiflashes (26/02/2015 – 357)

  • Venezuela (1): US$ 1.691.858,00 foram enviados à Venezuela em 2014de lisina seus sais e ésteres (NCM 2922.41.90). A lisina é um aminoácido essencial usado no crescimento e na manutenção do corpo humano.
  • Venezuela (2): as preparações químicas contraceptivas têm um excelente mercado neste país bolivariano. US$ 16.659.374,00 em produtos deste tipo seguiram para este país em 2014, reforçando, assim, a nossa pauta de exportação de produtos manufaturados.
  • Venezuela (3): o total de medicamentos (NCM 3003 e 3004) exportados para a Venezuela em 2014 atingiu a expressiva soma de US$ 187,2 milhões. O mercado venezuelano é um dos principais destinos das exportações brasileiras de medicamentos.

Fiocruz mira biofármacos e aposta em parcerias

Janes Rocha – Valor Econômico:

Apontado como um dos setores de maior potencial econômico do Rio de Janeiro, os biofármacos estão na mira Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz). A procura por biofármacos é crescente em todo mundo. No Brasil, embora constituam apenas 4% da demanda total de medicamentos do Sistema Único de Saúde (SUS), representam 32% da despesa do governo neste segmento, diz Paulo Gadelha, presidente da Fiocruz. Ele explica que isso se deve aos preços elevados destes produtos. “São caros porque ainda estão em uma fase de desenvolvimento muito competitiva a nível mundial”, explica.

Um estudo do Sebrae, intitulado “Roadmap – Desenvolvimento do Cluster de Biotecnologia para a Saúde Humana”, divulgado em junho de 2014, mostrava que a estrutura já montada na cidade, especialmente os grandes centros tecnológicos como a Biomanguinhos e a Farmanguinhos, o Instituto Vital Brazil (soros), a Fundação Ataulpho de Paiva (vacina BCG) e o Polo Farmacêutico de Jacarepaguá, formam um complexo pronto para acelerar o desenvolvimento em biofármacos.

A Biomanguinhos e a Farmanguinhos são ligadas à Fiocruz, a mais antiga e importante instituição do setor, condutor do desenvolvimento na área. Mas para Gadelha, o potencial também se apoia na própria estrutura médica da cidade. “O Rio de Janeiro tem a vantagem da base hospitalar e ambulatorial, construída ainda no tempo em que era capital. Apesar das deficiências de estrutura, há grandes hospitais que podem servir de base tanto para pesquisas como para a clínica de medicamentos e vacinas”, disse Gadelha.

O documento do Sebrae aponta também para outros recursos de pesquisa e desenvolvimento e recursos humanos que podem atrair novos investimentos para a cidade, dependendo dos estímulos corretos em termos de financiamento e apoio governamental. Alguns importantes exemplos são a Rede Nacional de Pesquisa Clínica em Câncer coordenada pelo Inca, o Into (ortopedia) e o Inmetro, que mantém um laboratório de biotecnologia em Xerém (Baixada Fluminense). O Estado possui seis cursos de nível superior em biotecnologia (bacharelado e tecnológico), com oferta de 476 vagas/ano, quatro cursos de nível técnico e 32 programas de pós-graduação. Apesar da estrutura, o Rio está em terceiro lugar na produção nacional, atrás de São Paulo e Belo Horizonte.

Gadelha lembra que a Fiocruz está afinada com um esforço de retomada da produção de biofármacos, desmantelada há mais de 20 anos pela política de redução a zero das alíquotas de importação promovida pelo ex-presidente Fernando Collor de Mello (1990-1992). O Brasil importa hoje quase 90% dos insumos farmacêuticos (princípios ativos) e a Fiocruz está desenvolvendo uma área de síntese química em uma tentativa de recuperar a competitividade do setor para reduzir a dependência de importados.

A estratégia da Fundação é de parceria com as empresas privadas (PPP), apoiada por uma legislação de 2014 que estabelece estímulos ao desenvolvimento de biofármacos com transferência de tecnologia, associando programas governamentais como os financiamentos do programa Brasil Maior, do BNDES, a uma política de margem de preferência de 25% nas compras públicas para produtos que tiveram transferência de tecnologia.

Por essa regulamentação, a Fiocruz já fez mais de 30 PPPs com cerca de cem empresas. “As parcerias sempre envolvem um laboratório público, uma empresa nacional e a multinacional que detém a patente e transfere a tecnologia”, explica Gadelha. “Se não dominarmos a tecnologia e desenvolver medicamentos no próprio país será uma ameaça imensa, não só ao setor, mas à sustentabilidade do SUS que se pretende ser universal.”

Câmbio ainda não traz alívio a setor externo

José de Castro e Silvia Rosa – Valor Econômico:

A forte valorização do dólar, de 21,13% no acumulado de 12 meses, ainda não trouxe o alívio esperado para o desempenho das contas externas, como mostraram dados divulgados ontem pelo Banco Central. Isso acaba por reforçar o debate sobre a necessidade de uma alta adicional do dólar para que o déficit em transações correntes caminhe para um nível mais sustentável.

O déficit em conta corrente ficou em US$ 10,6 bilhões em janeiro. Em 12 meses, até janeiro, representa 4,17% do PIB. Os números não mostram uma deterioração adicional em comparação ao déficit de 4,19% acumulado em 2014. A questão é que não refletem a melhora que se esperava a partir do movimento de alta do dólar, o que reforça a visão de analistas sobre a necessidade de maior desvalorização cambial, leitura que ganhou força a partir de declarações do ministro da Fazenda, Joaquim Levy, no fim de janeiro, de que não é possível manter o câmbio artificialmente desvalorizado.

Analistas ponderam que o efeito do câmbio sobre o déficit em conta corrente demora. Mas é bom lembrar que a trajetória de perda de valor do real em relação ao dólar vem sendo observada há quatro anos, tendo sido acelerada em 2014.

Outro ponto é a piora na qualidade do financiamento do déficit em transações correntes do Brasil em 2015, diz o economista da Tendências Consultoria especializado em contas externas e finanças públicas, Bruno Lavieri.

O volume de déficit financiado, no entanto, subiria de 103% no ano passado para 121%, considerando a soma de entradas de recursos via Investimento Estrangeiro Direto (IED), ações totais e títulos negociados no país. O cálculo considera a previsão da Tendências para o IED, de US$ 65 bilhões, mesma estimativa do BC, e déficit em transações correntes de US$ 89,2 bilhões, pior que o rombo de US$ 83,5 bilhões projetado pelo BC. “O volume financiado é maior, mas a qualidade desse financiamento piorou, porque é um dinheiro que, da mesma forma que vem rápido, pode ir embora rápido”, diz Lavieri.

O ingresso de recursos para portfólio, especialmente para o mercado de renda fixa em função das altas taxas de juros, tem ajudado a financiar o déficit em conta corrente. Os números divulgados ontem confirmam esse quadro.

Em fevereiro, até o dia 20, os investimentos em ações somavam ingresso líquido de US$ 118 milhões, enquanto a aplicação em renda fixa totalizava US$ 2,423 bilhões no período.

A menor aversão a risco no mercado externo ontem, após as declarações de Janet Yellen, presidente do Federal Reserve (Fed, banco central americano), e a redução das incertezas sobre a aprovação das medidas de ajuste fiscal do governo podem contribuir para a atração desses capitais.

Em sabatina no Senado americano ontem, Yellen sinalizou que a retirada da palavra “paciência” do comunicado do Fed não significará um aumento iminente da taxa de juros de referência, indicando que a taxa deve permanecer estável por mais duas reuniões. O discurso de Yellen e a aprovação da extensão do plano de resgate da Grécia pelo Eurogrupo por mais quatro meses levaram a uma queda global do dólar, com a moeda americana fechando no mercado local em baixa de 1,64%, a R$ 2,8308.

O recuo do dólar por aqui ainda foi acentuado pelas notícias de um esforço do governo de se aproximar da base aliada, promovendo vários encontros com líderes do PMDB. A ação é vista como importante para aprovar as medidas de ajuste fiscal, essenciais para o cumprimento da meta de superávit primário de 1,2% do PIB para este ano e para a retomada de credibilidade da política macroeconômica.

O cenário menos tenso também contribuiu para a queda das taxas de juros futuros na BM&F. A taxa do contrato de Depósito Interfinanceiro (DI) para janeiro de 2016 caiu para 13,1%, ante 13,23% do ajuste do pregão anterior. Já o DI para janeiro de 2021 recuou para 12,54%, de 12,71% do pregão anterior.

“A aprovação das medidas fiscais é importante para fortalecer a expectativa de que a inflação começará a cair já neste ano, abrindo espaço para o Banco Central cortar a taxa básica de juros neste ano”, diz José Francisco de Lima Gonçalves, economista-chefe do Banco Fator. Segundo o economista, essa discussão é um primeiro sinal, mas a redução da incerteza depende da aprovação das medidas que endurecem o acesso a benefícios trabalhistas e também a aprovação do Orçamento para 2015.

Nesse cenário, o banco vê a possibilidade de o BC cortar a taxa Selic em 0,25 ponto percentual já no fim deste ano. No curto prazo, o economista do Fator espera mais uma alta de 0,5 ponto percentual da Selic na próxima reunião do Comitê de Política Monetária (Copom), na quarta-feira que vem, além de mais um aumento de 0,25 ponto na reunião de abril.

Drogaria São Paulo e Pacheco reabrem negociação com CVS

Adriana Mattos – Valor Econômico:

O grupo DPSP, dono das redes de farmácias Pacheco e Drogaria São Paulo (DPSP), procurou semanas atrás a cadeia norte­americana CVS para retomar as conversas para a venda da sua operação, antecipou ontem o Valor PRO, serviço de informação em tempo real do Valor. É a primeira sinalização mais clara de que a DPSP aceita se desfazer do negócio, após a empresa recusar duas ofertas da CVS em 2014. Parte dos sócios da DPSP, liderados pelos controladores da cadeia paulista, tem interesse na venda e teria pressionado a família Barata, dona da Pacheco, para que o negócio avance. Segundo uma fonte a par do assunto, a última proposta da CVS colocada na mesa, em meados do ano passado, envolvia valores de R$ 5 bilhões e, na época, os bancos Espírito Santo e Morgan Stanley, que representam os sócios da DPSP, recusaram a oferta. “Ainda há interesse da CVS, mas não por certos valores que têm sido mencionados pelo mercado”, diz uma fonte. Dias atrás, começaram a circular informações no setor de que a CVS teria oferecido R$ 6,5 bilhões pela DPSP, e que as conversas avançaram após se chegar a esse patamar ­ equivalente a 16 vezes o valor do lucro antes de juros, impostos, depreciação e amortização (Ebitda, da sigla em inglês), que foi de pouco mais de R$ 400 milhões em 2014. Em 2013 foi de R$ 345 milhões. A expansão nos resultados de 2014 foi meta da companhia ao longo do ano, ajudando a “turbinar” o valor de venda do negócio, e criando condições de a DPSP a voltar a negociar com a CVS numa faixa de valores mais alta. Um executivo do setor lembra que a valorização do dólar desde o segundo semestre de 2014 aumenta as chances de que as partes fechem um acordo. A fase de investigação e auditoria nas contas e nos negócios da DPSP devem começar nas próximas semanas. Desde que as conversas entre as redes começaram, um ano atrás, o dólar se valorizou 25%. Em moeda estrangeira, os US$ 2,2 bilhões (R$ 5 bilhões) mencionados nas últimas tratativas entre as partes equivalem hoje a R$ 6,2 bilhões. A CVS avalia que há alguns pontos negativos na operação, em especial no Rio de Janeiro, onde a Pacheco tem lojas antigas e há muita concorrência de redes informais. Já os vendedores entendem que a DPSP é um dos grandes ativos à venda no varejo de farmácias. Logo, na visão da DPSP, se a CVS não fechar um acordo, terá poucas opções entre operações de grande porte. A Pague Menos, a maior rede do Nordeste, não aceita vender o controle. A Panvel, historicamente, descarta uma negociação e tem presença só no Sul do país. Segundo fontes ouvidas, até o momento não houve uma integração dos negócios das duas redes ­ Drogaria São Paulo e Pacheco ­ que se juntaram em 2011. Ainda há divisões de comando dentro da empresa: a operação da Pacheco não é comandada pelo presidente do grupo, Gilberto Ferreira, mas por Samuel Barata, 83 anos, fundador da Pacheco. A família Barata tem fatia de 51% na DPSP, e os 12 sócios da Drogaria São Paulo, 49%. Ronaldo de Carvalho é o acionista na linha de frente da Drogaria São Paulo. E Samuel Barata é presidente do conselho de administração da DPSP. Barata mantinha posição contrária à venda, em parte pelo preço inicialmente proposto pela CVS, abaixo do esperado por ele, e pelo fato de ele ter uma relação muita próxima ao negócio. Agora, cresce no grupo a ideia de que há chance de vender, pelo preço certo. Procurada, a DPSP informa que não irá se pronunciar sobre o assunto. A CVS também não se manifestou.

Brasil Pharma coloca redes à venda

Adriana Mattos – Valor Econômico:

A Brasil Pharma, braço de varejo de farmácias do banco BTG Pactual, estuda formas de gerar caixa e recuperar o negócio e uma das opções é se desfazer de ativos, apurou o Valor. A companhia passou a oferecer para grupos rivais algumas de suas redes de farmácias, como a Mais Econômica, com pouco mais de 180 lojas no Sul do país, e a Big Ben, um dos melhores negócios da empresa, com cerca de 250 pontos no Norte e Nordeste. A falta de interessados, a um preço considerado “justo” pelo BTG, e a existência de poucos ativos considerados atraentes pela mercado pode impedir que uma negociação aconteça, apurou o Valor. A BR Pharma nega que suas redes estejam à venda. Ontem, as ações ordinárias da empresa fecharam o dia com preço abaixo de R$ 1 ­ a R$ 0,92. Neste ano, o papel perdeu 64% do valor. Segundo uma fonte a par do assunto, a companhia sondou, nas últimas semanas, varejistas concorrentes e grupos estrangeiros para verificar quais ativos têm interesse maior do mercado. Como não seria possível se desfazer apenas dos pontos ou de redes com os resultados mais fracos, até porque não renderiam caixa necessário, a rede passou a considerar a possibilidade de colocar na mesa a Big Ben. A BR Pharma ainda teria uma dívida em aberto com os sócios da Big Ben, relacionada à parcela da aquisição anunciada em 2011. A separação dos negócios entre BR Pharma e Big Ben pode não ser algo tão complicado, já que a integração das redes não está completamente finalizada. A Big Ben, até agora, comandada por Raul Aguilera, não está unificada aos sistemas operacionais do grupo. É uma empresa que representa uma parcela significativa das despesas e ainda possui uma estrutura administrativa independente. Em relação à Mais Econômica, a análise é de que o negócio, com sede no Rio Grande do Sul, estaria reagindo mais devagar às ações de integração da empresa e passou a ser uma opção de venda. A Brasil Pharma somava em setembro de 2014, data de publicação do último balanço, cerca de 1,2 mil lojas, sendo 486 franquias da cadeia Farmais (maioria no Sudeste), além da Farmácia Sant’ana, no Nordeste, e Rosário Distrital, no Norte e CentroOeste. Essas operações ficariam dentro da BR Pharma. Nas últimas semanas, começaram a circular informações de redes que poderiam ter avaliado os negócios da Brasil Pharma. Entre essas empresas estariam a americana Walgreens e a Extrafarma, rede do grupo Ultra, dono da rede de postos Ipiranga. Porém, segundo uma fonte a par do assunto, não há proposta formulada para a aquisição dos negócios do grupo hoje. “O problema é que eles [Brasil Pharma] não queriam se desfazer só de um negócio em melhor situação e ficar com outros. E há lojas ali que não interessam. Além disso, quem ficar com Big Ben, precisa dividir o comando com os Aguilera”, diz uma fonte. A Brasil Pharma passou a enfrentar uma série de dificuldades após tomada de decisões estratégicas erradas anos atrás. Ações tem sido tomadas, mas após recente aumento de capital dos controladores e uma série de financiamentos de bancos, a empresa mantém nível alto de alavancagem, o que estaria exigindo novos aportes. Mas o BTG não quer colocar mais dinheiro no negócio, apurou o Valor. Há menos de um mês, a agência de risco Mood’s rebaixou a nota de risco da empresa.